segunda-feira, 20 de junho de 2011

A senhora

«A senhora passou o olhar em volta de todo o círculo de pessoas que ansiavam por atrair a sua atenção, mas logo o desviou, cansada e desatenta, e cruzou os olhos com os de Piskariov. Oh, que céu!, que paraíso!, dá-me forças, Criador, para o suportar!, pois isto não caberá na vida, destruirá, arrebatará a minha alma! Ela fez-lhe sinal, mas não com o gesto de mão ou um aceno de cabeça, não: o sinal relanceou pelos seus olhos demolidores, tão fino e imperceptível que ninguém o pôde ver, tirando Piskariov, que o viu e compreendeu.»




Nikolai Gógol. Contos de São Petersburgo. Avenida Névski. Tradução do russo de Nina Guerra e Filipe Guerra. Biblioteca editores Independentes. Assírio&Alvim, Lisboa, 2007, p. 41
«Aquela miscelânea incrível de rostos deixou-o completamente aturdido; parecia-lhe que um demónio qualquer esmigalhara todo o mundo reduzindo-o a mil fragmentos variados e que, depois, misturara sem critério e sem ordem todos esses fragmentos.»




Nikolai Gógol. Contos de São Petersburgo. Avenida Névski. Tradução do russo de Nina Guerra e Filipe Guerra. Biblioteca editores Independentes. Assírio&Alvim, Lisboa, 2007, p. 38
«Ficou-lhe retida no peito a respiração, tudo nele se converteu num tremor indefinido, todos os seus sentidos ardiam em fogo, tudo diante dele se vestiu de um nevoeiro.»



Nikolai Gógol. Contos de São Petersburgo. Avenida Névski. Tradução do russo de Nina Guerra e Filipe Guerra. Biblioteca editores Independentes. Assírio&Alvim, Lisboa, 2007, p. 32

American Woman in Italy (1951)

«O inimigo externo poderia ser esmagado, mas o interno - é impossível de vencer, disse um antigo filósofo chinês. No seu rosto apareceu um sorriso amargo.»



Miyamoto Masao. Da arte e da morte. Tradução de Manuel Seabra. Editorial Futura, Lisboa, 1ª edição, 1973, p.157
«Aqui é a primeira estação do inferno e nada te pode ajudar (...).»


Miyamoto Masao. Da arte e da morte. Tradução de Manuel Seabra. Editorial Futura, Lisboa, 1ª edição, 1973, p.134

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Novembro

Quando o esbirro se aborrece, torna-se perigoso.
O céu constrói-se, em chamas.
Sinais de pancadas ouvem-se de cela em cela.
E do solo, coberto de neve, o espaço jorra.
Algumas pedras brilham como luas cheias.

Tomas Tranströmer

Histórias de Marinheiros

Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.

Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, más ténues que fumo de cachimbo.

(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.

Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).

(1954)


Tomas Tranströmer

A Culpa é Sentirmo-nos Culpados

« A culpa é sentirmo-nos culpados, e não um resultado dos crimes cometidos; o ser inocente é alegre, feliz, e não deixa, seja em que caso for, que os acontecimentos perturbem a sua calma e a sua paz. É por isso que considero que a justiça erra quando executa os menos em vez dos mais culpados, quer dizer quando executa os criminosos e não aqueles que sentem que têm no coração a culpa do mundo. Isso equivale a executar crianças por acções que cometeram no escuro quando ignoravam tudo acerca do escuro e das reacções que provoca no funcionamento dos corpos. Uma vez que são culpados apenas os que se sentem culpados, seria necessário suprimir a justiça distribuitiva de castigos e substituí-la por uma justiça executora, porque ao fim de algum tempo aquele que a culpa mortifica já só aspira a morrer, a morrer pelas faltas do mundo como pelas suas próprias faltas, e pode sem a mínima hesitação, sim, sem a menor angústia de morte, uma vez que nada tem a esperar agora que tocou finalmente o fundo do mundo, pedir à justiça a sua pena de morte - e nunca outra cabeça se curvará mais graciosamente do que a sua por baixo da guilhotina, nunca colar algum terá acariciado a garganta de uma mulher com tanta delicadeza como a da corda ao aflorar-lhe o pescoço.»


Stig Dagerman, in "A Ilha dos Condenados"

O Medo como Orientador da Nossa Vida

      Uma vez que estamos sós no mundo, ou pelo menos não tão sós como gostaríamos de estar, temos o dever de dominar as nossas explosões, de fazer com que as explosões inevitáveis da nossa maldade ou da nossa bondade paradoxais vão aproximativamente no sentido do fim aproximativo. Quanto ao fim, talvez não seja lá muito importante determiná-lo com a precisão sádica que encontramos no sistema do mundo e no destino quando ambos se associam para determinar a posição do homem no espaço e no tempo.
       Devemos evidentemente batermo-nos contra os dois, e como o mais importante é manter a direcção justa do fim talvez errado, é-nos necessário aguçar a nossa lucidez a fim de a tornarmos cortante como uma lâmina, acerada como uma seta, percuciente como uma punção. É graças a essa lucidez que funciona a nossa consciência, que não passa afinal de uma transcrição idílica do nosso medo, porque o medo lembra-nos infatigavelmente a direcção justa, e se sufocarmos o nosso medo, perderemos a possibilidade de nos orientarmos numa direcção determinada e daremos aqui e ali lugar a uma série de estúpidas explosões privadas, causando os piores estragos para um mínimo de resultados. É por isso que devemos conservar dentro de nós o nosso medo como um porto sempre livre de gelos que nos ajude a passar o Inverno, e também como uma corrente submarina vibrando por baixo da superfície gelada dos rios.



Stig Dagerman, in 'A Ilha dos Condenados'

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Rodin. 1902.

    «Nunca esquecerei, Platero, aquela noite de Setembro. A trovoada palpitava sobre a aldeia havia uma hora, como um coração doente, descarregando água e pedra entre a desesperadora insistência do relâmpago e do trovão.»


Juan Ramón Jiménez. Platero E Eu. Tradução de Luís Lima Barreto. Edições Cotovia, Lisboa, 2007, p. 32

terça-feira, 14 de junho de 2011

ANGELUS!

  Olha, Platero, quantas rosas caem por todo o lado: rosas azuis, cor-de-rosa, brancas, sem cor...Dir-se-ia que o céu se desfaz em rosas. Olha como se enchem de rosas o rosto, os ombros, as mãos...Que farei com tantas rosas?
    Saberás por acaso de onde vem esta branca flora, que eu não sei de onde é. que enternece em cada dia a paisagem e a deixa docemente rosada, branca e azul - mais rosas, mais rosas -, como um quadro de Fra Angelico, o que pintava o céu de joelhos?
    Dir-se-ia que das sete galerias do Paraíso lançam rosas para a terra. Como um nevão ténue e vagamente colorido, ficam as rosas na torre, no telhado, nas árvores. Vê: tudo o que é forte se torna, com seu adorno, delicado. Mais rosas, mais rosas, mais rosas...
    Parece, Platero, enquanto soam as Ave-Marias, que esta nossa vida perde a sua força quotidiana, e que outra força de dentro, mais elevada, mais constante e mais pura, faz com que tudo, como em repuxos de graça, suba às estrelas, que se acendem já entre as rosas...Mais rosas...Os teus olhos, que tu não vês, Platero, e que ergues mansamente para o céu, são duas belas rosas.



Juan Ramón Jiménez. Platero E Eu. Tradução de Luís Lima Barreto. Edições Cotovia, Lisboa, 2007, p. 23

«Há grandes raivas feitas de cansaços.»

Fernando Pessoa. Self-Analysis and Thirty Other Poems. Translations by George Monteiro. Calouste Gulbenkian Foundation, Lisbon, 1988, p. 50
«Arre, estou farto de semi-deuses!
Onde é que há gente no mundo?»


Fernando Pessoa. Self-Analysis and Thirty Other Poems. Translations by George Monteiro. Calouste Gulbenkian Foundation, Lisbon, 1988, p. 44

CLEARY NON-CAMPOS!

Não sei qual é o sentimento, ainda inexpresso,
Que subitamente, como uma sufocação, me aflige
O coração que, de repente,
Entre o que vive, se esquece.
Não sei qual é o sentimento
Que me desvia do caminho,
Que me dá de repente
Um nojo daquilo que seguia,
Uma vontade de nunca chegar a casa,
Um desejo de indefinido,
Um desejo lúcido de indefinido.

Quatro vezes mudou a 'stação falsa
No falso ano, no imutável curso
      Do tempo consequente;
Ao verde segue o seco, e ao seco o verde;
E não sabe ninguém qual é o primeiro,
      Nem o último, e acabam.


Fernando Pessoa. Self-Analysis and Thirty Other Poems. Translations by George Monteiro. Calouste Gulbenkian Foundation, Lisbon, 1988, p. 40
Cruz na porta da tabacaria!
Quem morreu? O próprio Alves? Dou
Ao diabo o bem-estar que trazia.
Desde ontem a cidade mudou.

Quem era? Ora, era quem eu via.
Todos os dias o via. Estou
Agora sem essa monotonia.
Desde ontem a cidade mudou.

Ele era o dono da tabacaria.
Um ponto de referência de quem sou.
Eu passava ali de noite e de dia.
Desde ontem a cidade mudou.

Meu coração tem pouca alegria,
E isto diz que é morte aquilo onde estou.
Horror fechado da tabacaria!
Desde ontem a cidade mudou.

Mas ao menos a ele alguém o via,
Ele era fixo, eu, o que vou,
Se morrer, não falto, e ninguém diria:
Desde ontem a cidade mudou.


Fernando Pessoa. Self-Analysis and Thirty Other Poems. Translations by George Monteiro. Calouste Gulbenkian Foundation, Lisbon, 1988, p. 36

ISTO

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!



Fernando Pessoa. Self-Analysis and Thirty Other Poems. Translations by George Monteiro. Calouste Gulbenkian Foundation, Lisbon, 1988, p. 26

segunda-feira, 13 de junho de 2011

4.

Não devo atrever-me a defender os meus depravados costumes
    e a terçar falsas armas em defesa dos meus vícios.
Confesso - se alguma utilidade tem confessar os pecados;
   mas logo depois de confessar, caio, de cabeça perdida, nos meus erros.
Odeio e não sou capaz de não desejar o que odeio.
   Pobre de ti! Aquilo que porfias por deixar, quão penoso é carregá-lo!
Faltam-me forças e poder para me governar a mim mesmo;
   sou arrastado, como proa baldeada pela força das ondas.
Não é uma beleza, em especial, que estimula o meu amor;
   cem são as razões para eu estar, sempre, a amar:
se há uma que baixa os olhos com recato,
   deixo-me inflamar, e aquele pudor é para mim cilada;
se há outra que é provocante, sou cativado por não ser simplória
   e por me dar esperança de ser bem viva na doçura do leito;
se me pareceu agreste e a imitar as severas Sabinas,
   ela quer, mas, na sua sobranceria, finge, eis o que eu penso;
se és culta, agradas-me pelos teus dotes - tão raros - para as artes;
   se és rude, agradas-me pela tua própria simplicidade.
 Há uma que afirma que, ao pé dos meus, são toscos os versos
   de Calímaco?Pois se lhe agrado, de pronto ela me agrada;
há, também, a que me condena, como poeta, e condena os meus versos;
   e eu desejaria suportar o peso das coxas daquela que me condena.
Uma caminha com elegância - o seu movimento cativa-me; outra é bronca
- mas poderia tornar-se bem mais elegante no contacto com um homem.
Esta, porque canta com doçura e com ligeireza faz evoluir a sua voz,
    quereria eu dar beijos arrebatados àquela que está a cantar;
estoutra percorre, com a agilidade do polegar, as queixosas cordas,
    tão sabedoras mãos, quem não seria capaz de as amar?
Aquela tem um rosto aprazível e faz mil movimentos com os seus longos
                                                                                                                braços
    e com a elegância e arte bamboleia o peito delicado;
para não falar de mim mesmo, que me deixo tocar por qualquer motivo,
   coloca ali Hipólito: tornar-se-ia um outro Priapo.
Tu, por seres tão alongada, emparceiras com as antigas heroínas
   e és capaz, com o teu corpo, de ocupar o leito inteiro;
esta é elegante na sua pequenez: por uma e outra sou arrebatado;
   ambas, a alta e a pequena, caem bem ao meu desejo.
Não é elegante - e vem-me à ideia que elegância poderia acrescentar-se-lhe;
   está cheia de enfeites - que ela mostre as suas próprias prendas.
A alvura da sua pele há-de seduzir-me, há-de seduzir-me a mulher bem rosada;
   e até com cores baças é prazenteiro o amor;
se tombam, de uma fronte branca como a neve, cabelos negros,
    Leda fazia-se admirar pela sua negra cabeleira;
se são ruivos, a Aurora era aprazível pelos seus cabelos cor de açafrão.
   A todas as histórias o meu amor é capaz de adaptar-se.
Uma idade jovem seduz-me, uma idade mais madura toca-me;
   aquela por ter mais beleza de corpo, esta por possuir sabedoria.
Enfim, as mulheres que podem apreciar-se em toda a cidade de Roma,
   a todas elas pode o meu amor abranger.»




Ovídio. Amores. Tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André. Livros Cotovia, Lisboa, 2006, p. 70/1

« - Só se calam e gostam da solidão, as pessoas muito orgulhosas, continuou Niúta tirando-lhe a mão da testa. Porque me olha assim por baixo das sobrancelhas? Olhe-me de frente, por favor! Vamos, não seja grosseiro!»




Anton Tcheckoff. Romance duma vida. Volódia (conto). Trad. de Cordeiro de Brito. Vasco Rodrigues Editor, Porto, 1938, p. 191

A mulher do farmacêutico

  «Que infeliz eu sou» disse consigo a mulher do farmacêutico, olhando com cólera para o marido que se despia a toda a pressa, para se tornar a meter na cama. «Oh! Como eu sou infeliz!» repetiu ela, começando subitamente a chorar... «E ninguém o sabe...»




Anton Tcheckoff. Romance duma vida. A mulher do Farmacêutico (conto). Trad. de Cordeiro de Brito. Vasco Rodrigues Editor, Porto, 1938, p. 184
«-Não gosto de ouvir tolices...
«-Que tolices?...Pelo contrário, não é nenhuma tolice...até Shakespeare disse: Feliz daquele que foi jovem na mocidade.»


Anton Tcheckoff. Romance duma vida. A mulher do Farmacêutico (conto). Trad. de Cordeiro de Brito. Vasco Rodrigues Editor, Porto, 1938, p. 182
«De repente, por trás dos longínquos caniçados, emerge inesperadamente uma lua de larga cara. Era vermelha (geralmente a lua, quando emerge de trás das sebes parece que vem corada).


Anton Tcheckoff. Romance duma vida. A mulher do Farmacêutico (conto). Trad. de Cordeiro de Brito. Vasco Rodrigues Editor, Porto, 1938, p. 176

sábado, 11 de junho de 2011

«Oh, quantas vezes, diante de alguém que te admira os cabelos, hás-de corar
      e dizer: ''agora, é graças a mercadoria comprada que me elogiam;
não sei que sicambra está este, agora, a gabar, em vez de mim;
      mas lembro-me bem de como era assim a minha falam.''
Pobre de mim! A custo sustém as lágrimas e, com a mão, protege
      o rosto, a face altiva corada de vermelho;
segura no regaço os cabelos de outrora e contempla-os.
     Triste sorte! Não eram eles merecedores de estar naquele lugar!
Repõe, com as forças do rosto, as do coração! É dano que podes reparar;
     em breve, hás-de ser contemplada com os teus cabelos naturais.»




Ovídio. Amores. Tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André. Livros Cotovia, Lisboa, 2006, p. 59
«foram feitos por tua mão e tua culpa os prejuízos que padeces;
     tu mesmo servias à tua cabeça uma mistura de veneno.»



Ovídio. Amores. Tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André. Livros Cotovia, Lisboa, 2006, p. 59
« Agora, todo o medo se desvaneceu, no meu coração está sarada a loucura,
     e essa beleza não cativa já os meus olhos.
Porque assim mudei? - perguntas. Porque reclamas uma paga;
     esse motivo não consente que possas dar-me prazer.»



Ovídio. Amores. Tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André. Livros Cotovia, Lisboa, 2006, p. 52

BORBOLETAS BRANCAS

       A noite cai, brumosa já e arroxeada. Vagas claridades rosadas e verdes demoram-se atrás da igreja. O caminho sobe, cheio de sombras, de campainhas, de fragância de erva, de canções, de cansaço e de ânsia. De súbito, um homem escuro, com um gorro e um aguilhão, avermelha um instante a sua cara feia com a luz de um cigarro, desce até nós de um casebre miserável, perdido entre sacos de carvão. Platero assusta-se.
       - Nada a declarar?
       - Veja o senhor...Borboletas brancas...
      O homem quer cravar o aguilhão de ferro na ceirazita e não o impeço. Abro o alforge e ele não vê nada. E o alimento ideal passa, livre e cândido, sem pagar o seu dízimo...




Juan Ramón Jiménez. Platero E Eu. Tradução de Luís Lima Barreto. Edições Cotovia, Lisboa, 2007, p. 14

PLATERO

      Platero é pequeno, peludo, suave; tão brando por
fora que se diria todo de algodão, que não tem
ossos. Só os espelhos de azeviche dos seus olhos são
duros como dois escravelhos de cristal negro
     Deixo-o solto, e vai para o prado, e acaricia debil-
mente com o seu focinhito, roçando-as apenas, as flor-
zinhas cor-de-rosa, azuis e amarelas...Chamo-o
docemente: ''Platero!'', e vem ter comigo num trote-
zinho alegre que parece rir-se, com não sei que som
de guizos ideal...
      Come tudo o que lhe dou. Gosta das laranjas, das
tangerinas, das uvas moscatel, todas de âmbar, dos
figos arroxeados, com a sua cristalina gotinha de
mel...
     É terno e mimoso como um menino, como uma
menina...; mais forte e seco por dentro, como de
pedra. Quando passo em cima dele, aos domingos,
pelas últimas ruelas da aldeia, os homens do campo,
vestidos de lavado e vagarosos, ficam a olhá-lo: -
Tem aço...
   Tem aço. Aço e prata de lua, ao mesmo tempo.



Juan Ramón Jiménez. Platero E Eu. Tradução de Luís Lima Barreto. Edições Cotovia, Lisboa, 2007, p. 13

Eu agora já envelheci

   «Eu agora já envelheci, tornei-me silencioso, rude, severo. Raras vezes rio, e dizem que me pareço com Redka. Como ele, aborreço os operários com os meus sermões inúteis.»



Anton Tcheckoff. Romance duma vida. Trad. de Cordeiro de Brito. Vasco Rodrigues Editor, Porto, 1938, p. 169

sexta-feira, 10 de junho de 2011

«Quem, a não ser o soldado ou o amante, suportará o frio da noite
      e nevões misturados com densas chuvadas?»



Ovídio. Amores. Tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André. Livros Cotovia, Lisboa, 2006, p. 50
«Que os deuses te não dêem lar algum, que te dêem uma velhice indigente
    e longas invernias e sede por todo o sempre!»


Ovídio. Amores. Tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André. Livros Cotovia, Lisboa, 2006, p. 49
«a beleza, se fechares as portas, acaba por envelhecer, se não for cultivada.»


Ovídio. Amores. Tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André. Livros Cotovia, Lisboa, 2006, p. 47

Ela corou

«Ela corou. 'Fica bem o pudor à candura do rosto, mas apenas
      se o fingires te será útil; quando autêntico, costuma ser nefasto.
Quando baixares o olhar com recato e contemplares o teu regaço,
     à medida do que te trouxer, assim deves pôr o olhar em cada homem.»



Ovídio. Amores. Tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André. Livros Cotovia, Lisboa, 2006, p. 47

NA MORTE DE CRISTO, CONTRA A NATUREZA DO CORAÇÃO DO HOMEM

      Porque derrama noite o sentimento
por todo o cerco desta chama pura,
e amortecido o sol em sombra escura
dá lágrimas ao fogo e voz ao vento;
       porque da morte o negro encerramento
descobre com tremor a sepultura,
e o monte, que separa da planura
o mar vizinho, divide-se atento,
      de pedra é, homem duro, de diamante
teu coração, pois morte tão severa
não afoga com pranto teu semblante.
      Mas de pedra não é. Sendo-o, qual cera,
de compaixão por ver a Deus amante,
ao rolar entre as pedras se rompera.



Francisco Quevedo. Antologia Poética. Selecção, tradução, prólogo e notas de José Bento, Assírio & Alvim, Lisboa, 1987, p.75
«Bebeu a sede nos regatos puros;»




Francisco Quevedo. Antologia Poética. Selecção, tradução, prólogo e notas de José Bento, Assírio & Alvim, Lisboa, 1987, p.67
     «Não me calo, por mais que com o dedo,
tocando tua boca ou sobre a fronte
silêncio imponhas ou ameaces medo.
       Não há-de haver um espírito valente?
Há-de sempre sentir-se o que se disse?
Nunca se há-de dizer o que se sente?»


Francisco Quevedo. Antologia Poética. Selecção, tradução, prólogo e notas de José Bento, Assírio & Alvim, Lisboa, 1987, p.63

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Figure Studies, 1895

«Dizem que a mulher é uma ajuda para o marido. Mas terei eu necessidade de ajuda? Ajudo-me a mim mesmo. Sinto muito mais a necessidade de alguém com quem falar, e que não dissesse apenas: ó-ó-ó-ó; de alguém que falasse com raciocínio e entendesse o que se lhe diz. Que é a vida sem uma boa conversa?»


Anton Tcheckoff. Romance duma vida. Trad. de Cordeiro de Brito. Vasco Rodrigues Editor, Porto, 1938, p. 122/123

Na vida conjugal não há só alegrias

«Na vida conjugal não há só alegrias; também há sofrimentos. Tem que ser assim.»


Anton Tcheckoff. Romance duma vida. Trad. de Cordeiro de Brito. Vasco Rodrigues Editor, Porto, 1938, p. 100

A arte de escravizar

«A escravatura desapareceu mas o sistema capitalista progride. Nesta época de ideias liberais, como nos tempos de Bety, a maioria alimenta-se, veste-se e defende-se, e a minoria, continua cheia de fome, maltrapilha e sem defesa. Um tal estado de coisas só é bom para favorecer todas as correntes, porque a arte de escravizar é também progressivamente cultivada. Já não chicoteamos os criados nas estrebarias, mas damos formas refinadas à escravatura ou pelo menos sabemos achar uma desculpa para cada caso particular.»



Anton Tcheckoff. Romance duma vida. Trad. de Cordeiro de Brito. Vasco Rodrigues Editor, Porto, 1938, p. 59

Estranha rapariga! pensei. Estranha rapariga!

  «Na sua alegria de agora havia qualquer coisa infantil e ingénua, como se a alegria que desde a nossa infância nos tinha sido reprimida e extinta por uma educação severa, acordasse subitamente na sua alma e achasse meio de se libertar.
    Mas quando a noite veio e mandaram vir a carruagem, minha irmã acalmou, encarquilhou-se de novo, e quando se sentou nas almofadas parecia sentar-se no banco dos réus. Partiram. O ruído afastou-se...
     Aniuta Blagovo não me dissera uma só palavra.
      - Estranha rapariga! pensei. Estranha rapariga!
     Veio a quaresma de São Pedro, durante a qual estivemos sempre em jejum. Ocioso, sem ocupação certa. esmagava-me uma tristeza física. Descontente comigo, desleixado, faminto, vagueava pela propriedade, esperando apenas uma disposição de espírito que me permitisse partir.»



Anton Tcheckoff. Romance duma vida. Trad. de Cordeiro de Brito. Vasco Rodrigues Editor, Porto, 1938, p.43/4
MENIPO

    Que amor é esse da morte que se apoderou de ti, de uma coisa que a maioria não ama?



Luciano. Diálogo dos Mortos. Textos Clássicos -31. Introdução, Versão do Grego e notas de Américo da Costa Ramalho. Instituto Nacional de Investigação Científica. Centro de estudos clássicos e humanísticos da Universidade de Coimbra, 1989, p. 87

Helena

HERMES

   Este crânio aqui é Helena.


MENIPO

    E então, foi por isto que milhares de navios se encheram de homens vindos de toda a Hélade e que tantos caíram, Gregos e Bárbaros, e tantas cidades destruídas!


HERMES

    Mas não viste, ó Ménipo, a mulher viva, porque terias dito, também tu, que era desculpável «por tal mulher sofrer dores por muito tempo», visto como até as flores, quando secas, se alguém as olhar acreditará naturalmente que não têm beleza. Mas quando elas estão em floração e têm as suas cores, são lindíssimas.

MENIPO

   Portanto, aquilo que me surpreende, ó Hermes, é que os Aqueus não tivessem compreendido que sofriam por uma coisa tão efémera e que tão facilmente perde a flor.


HERMES

    Não tenho vagar para filosofar contigo, ó Menipo. E, assim, escolhe o lugar, onde quiseres, deita-te e fica estendido. Eu, por mim, vou imediatamente ao encontro dos outros mortos.




Luciano. Diálogo dos Mortos. Textos Clássicos -31. Introdução, Versão do Grego e notas de Américo da Costa Ramalho. Instituto Nacional de Investigação Científica. Centro de estudos clássicos e humanísticos da Universidade de Coimbra, 1989, p. 68/9

quarta-feira, 8 de junho de 2011

dizia-se que, não podendo resistir àquele divertimento, tinham enlouquecido.

«O combóio» reunia-se ordinariamente junto das tabernas e no mercado. Bebia, comia, praguejava porcamente e, à passagem das mulheres de porte duvidoso, lançava assobios agudos. Os nossos vendeiros, para distraírem aquela canalha, obrigavam os cães e os gatos a beberem vodka, ou amarravam uma lata de petróleo vazia ao rabo dum cão para depois o açularem. O cão desatava a correr pela rua fora, arrastando a lata, e a ganir de medo, julgando-se perseguido por um monstro; corria pela cidade, pelos campos, até parar completamente exausto. Havia na cidade alguns cães que estavam sempre a tremer, com o rabo metido entre as pernas: dizia-se que, não podendo resistir àquele divertimento, tinham enlouquecido.»



Anton Tcheckoff. Romance duma vida. Trad. de Cordeiro de Brito. Vasco Rodrigues Editor, Porto, 1938, p.26

terça-feira, 7 de junho de 2011

«Os ulmeiros, cobertos de orvalho, enchiam o espaço dum perfume suave. Sentia-me triste; não queria abandonar a cidade...Amava a minha terra! Parecia-me tão bela e tão terna! Gostava da sua verdura, das manhãs soalheiras e calmas, do repicar dos sinos; mas as pessoas com quem convivia na cidade eram-me estranhas, aborreciam-me, chegavam a ser-me repelentes. Não gostava delas nem as entendia. Não era capaz de compreender de que e porque viviam aqueles sessenta e cinco mil homens.»



Anton Tcheckoff. Romance duma vida. Trad. de Cordeiro de Brito. Vasco Rodrigues Editor, Porto, 1938, p.26

sábado, 4 de junho de 2011

XVII MENIPO E TÂNTALO

MENIPO

   Porque choras, ó Tântalo? ou porque te lamentas, de pé, à beira do lago?


TÂNTALO

  Porque, ó Menipo, morro de sede.


MENIPO

  És assim tão preguiçoso que te não abaixas para beber, ou então, por Zeus, para recolher a água na concha da mão?

TÂNTALO
 
   Isso de nada me valeria, se eu me abaixasse, porque a água foge, sempre que me sente aproximar. E se alguma vez a recolho e aproximo dos lábios, não humedeço suficientemente depressa a ponta dos lábios que, escapando-se por entre os dedos, não sei como, ela me não deixe de novo a mão seca.

MENIPO

  É extraordinário o que te acontece, ó Tântalo. Todavia, diz-me cá: porque é que ainda tens a necessidade de beber? Na verdade, não tens corpo, mas está sepultado algures na Lídia aquilo que justamente podia ter fome e ter sede, mas tu, que és alma, como é que ainda podes ter sede?

TÂNTALO

  Isso é exactamente o meu castigo, ter a alma sede como se fosse corpo.



Luciano. Diálogo dos Mortos. Textos Clássicos -31. Introdução, Versão do Grego e notas de Américo da Costa Ramalho. Instituto Nacional de Investigação Científica. Centro de estudos clássicos e humanísticos da Universidade de Coimbra, 1989, p. 66
DIÓGENES


  «Mas sabes o que hás-de fazer? Vou dar-te um remédio para a tua tristeza. Visto que o eléboro não cresce aqui, ao menos procura a água do Letes e bebe à boca cheia e volta a beber e faz isso muitas vezes. Assim cessarás de aborrecer-te com os bens de Aristóteles.»




Luciano. Diálogo dos Mortos. Textos Clássicos -31. Introdução, Versão do Grego e notas de Américo da Costa Ramalho. Instituto Nacional de Investigação Científica. Centro de estudos clássicos e humanísticos da Universidade de Coimbra, 1989, p. 57

O heléboro


 
 
 
«Não te fazem sofrer estas coisas, quando te vêm à memória? Porque choras, ó palerma? Não foi isto que o sábio Aristóteles te ensinou, a saber, não acreditar que são estáveis as coisas dependentes da sorte?»



Luciano. Diálogo dos Mortos. Textos Clássicos -31. Introdução, Versão do Grego e notas de Américo da Costa Ramalho. Instituto Nacional de Investigação Científica. Centro de estudos clássicos e humanísticos da Universidade de Coimbra, 1989, p. 57

«Sinto-me envergonhado de meus anos
a que pudera dar um melhor uso,
buscando a paz e não seguindo enganos.»


Francisco Quevedo. Antologia Poética. Selecção, tradução, prólogo e notas de José Bento, Assírio & Alvim, Lisboa, 1987, p.49
 «Como de entre meus dedos tu resvalas!
Minha idade, como és fugidia!»


Francisco Quevedo. Antologia Poética. Selecção, tradução, prólogo e notas de José Bento, Assírio & Alvim, Lisboa, 1987, p.45

Arrependimento e lágrimas devidas ao engano da vida

     Foge sem perceber-se, lento, o dia,
e a hora secreta e recatada
silenciosa chega e, maltratada,
leva consigo a minha louçania.
     A vida nova, que em infância ardia,
a juventude forte e enganada,
no derradeiro inverno sepultada,
jazem em negra sombra e neve fria.
    Não senti resvalar, mudos, os anos;
hoje choro-os passados, bem os vejo
rir-se de minhas lágrimas e danos.
    O meu remorso deva a meu desejo,
pois devem-me a vida os meus enganos,
não creio nem na dor em que latejo.



Francisco Quevedo. Antologia Poética. Selecção, tradução, prólogo e notas de José Bento, Assírio & Alvim, Lisboa, 1987, p.33

sexta-feira, 3 de junho de 2011

domingo, 29 de maio de 2011

MENIPO


    Um filósofo, ó Hermes, ou antes, um impostor, pleno de
charlatanice. Assim, fá-lo despir-se também! Verás muitas
coisas, e bem risíveis, que ele esconde sob o manto.

HERMES

  Põe de parte a postura, em primeiro lugar, de depois tudo
isso mais! Ó Zéus, quanta fanfarronice ele transporta, e quanta
cretinice e chicanice e gloríola e as perguntas insolúveis e os
discursos espinhosos e as conjecturas intrincadas. E ainda a
grande quantidade de esforço vão e a tagarelice não pequena e
as ninharias e a pequenez de espírito,e, por Zeus, todo esse ouro
que está à vista e a vida regalada, o descaro, a preguiça, o gozo
sensual e a moleza. Nada disso me passou despercebido, por muito
bem que o escondas. Deita fora também a mentira, a  presunção
e o acreditar que és melhor do que os outros, porque se embarcares
com tudo isso, qual o navio de cinquenta remadores, capaz de te receber?


Luciano. Diálogo dos Mortos. Textos Clássicos -31. Introdução, Versão do Grego e notas de Américo da Costa Ramalho. Instituto Nacional de Investigação Científica. Centro de estudos clássicos e humanísticos da Universidade de Coimbra, 1989, p. 43/4
HERMES

  E a crueldade e a insensatez e a insolência e a cólera, lança
também tudo isso fora!

LAMPICO

Vê lá, estou despido.




Luciano. Diálogo dos Mortos. Textos Clássicos -31. Introdução, Versão do Grego e notas de Américo da Costa Ramalho. Instituto Nacional de Investigação Científica. Centro de estudos clássicos e humanísticos da Universidade de Coimbra, 1989, p. 42
HERMES


   Deita fora também a vaidade, ó Lampico, e a altivez. Caindo
aqui dentro, elas farão peso no barco.



Luciano. Diálogo dos Mortos. Textos Clássicos -31. Introdução, Versão do Grego e notas de Américo da Costa Ramalho. Instituto Nacional de Investigação Científica. Centro de estudos clássicos e humanísticos da Universidade de Coimbra, 1989, p. 41

''In hoc signo vinces''

 "Sob este símbolo vencerás"
CNÉMON

Isto é o que diz o provérbio: o veado caçou o leão.


Luciano. Diálogo dos Mortos. Textos Clássicos -31. Introdução, Versão do Grego e notas de Américo da Costa Ramalho. Instituto Nacional de Investigação Científica. Centro de estudos clássicos e humanísticos da Universidade de Coimbra, 1989, p. 34

''Io! Foi por um homem valente que uma mulher foi vencida!''

«Caminhe adiante a cativa, triste e de cabelos desgrenhados,
     toda ela resplandecente de brancura, se o consentissem as faces magoadas.
Teria sido bem melhor que estivesse lívida de sinais deixados pelos lábios,
    e que no colo delicado mostrasse marcas dos dentes.
Enfim, se eu estava a deixar-me levar à maneira de uma torrente impetuosa,
    e uma raiva cega me tinha feito presa sua,
não teria bastante praguejar contra uma mulher assustada
    e gritar ameaças bem cruéis
ou mandar-lhe abaixo a túnica, à bruta, do cimo do rosto
   até meio corpo? No meio, a cintura, havia de trazer-lhe ajuda.
Mas não me contive e arrepanhei-lhe os cabelos da testa
   e, com crueldade, marquei-lhe, com as unhas, as faces delicadas.
Ela para ali ficou, desvairada e sem pinga de sangue na palidez do rosto,
   qual pedaço de mármore caído das colinas de Paros;
o corpo inanimado e os membros a tremer, eis o que eu vi,
   tal como a brisa agita a folhagem do choupo,
tal como é sacudido pelo sopro leve do Zéfiro o vime frágil
    ou o cimo da onda é golpeado à passagem morna do Noto.
Largo tempo contidas, começaram as lágrimas a deslizar-lhe pelo rosto,
    como de um manto de neve escorre a água.
Então, comecei eu, primeiro, a sentir-me culpado;
    eram sangue meu as lágrimas que ela derramava.»



Ovídio. Amores. Tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André. Livros Cotovia, Lisboa, 2006, p. 45
«(...); não receio sombras, que esvoaçam pela
                                                                noite,
    não receio mãos estendidas para minha perdição;
é a ti, por seres teimoso demais, que eu receio, só a ti quero amansar;
   és tu quem possui o raio com que podes levar-me à perdição.
Vê bem (e, para veres, dá meia folga ao portal)
   como está encharcada a porta com minhas lágrimas.»


Ovídio. Amores. Tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André. Livros Cotovia, Lisboa, 2006, p. 41

sábado, 28 de maio de 2011

Significa-se a própria brevidade da vida sem pensar e com padecer, assaltada pela morte

    Foi sonho ontem; será amanhã terra;
pouco antes, nada; pouco depois, fumo;
e destino ambições, até presumo
um só momento o cerco que me encerra.
     Breve combate de importuna guerra,
pr'a defender-me, sou perigo sumo;
quando com minhas armas me consumo,
menos me hospeda o corpo, que me enterra.
     Foi-se o ontem; amanhã é esperado;
hoje passa, e é, e foi com movimento
que me conduz à morte despenhado.
     Enxadas são a hora e o momento;
pagas por minha pena e meu cuidado,
cavam em meu viver meu monumento.



Francisco Quevedo. Antologia Poética. Selecção, tradução, prólogo e notas de José Bento, Assírio & Alvim, Lisboa, 1987, p.33
«palavras, hás-de lê-las nos dedos, palavras escritas com vinho puro.»



Ovídio. Amores. Tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André. Livros Cotovia, Lisboa, 2006, p. 37

sexta-feira, 27 de maio de 2011

(...)


«Mesmo então, não poucos, se bem te conheço, vais inflamar,
      mesmo então, ao passar, muitas serão as feridas que vais fazer;
não são capazes de descansar, ainda que tu mesmo o queiras, as tuas setas;
o ardor da chama é nefasto a quem lhe está próximo, com o seu bafo.
Assim era Baco, quando dominou as terras do Ganges;
    tu és penoso com os teus pássaros, ele foi-o com seus tigres.
Já que eu posso, portanto, ser parte do teu sagrado triunfo,
    poupa-te e não gastes em mim as tuas forças de vencedor;
contempla os exércitos venturosos do César, teu parente;
    por onde alcançou vitórias, os vencidos ele os protege com sua mão.



Ovídio. Amores. Tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André. Livros Cotovia, Lisboa, 2006, p. 35
"Nós somos o que fazemos. O que não se faz não existe. Portanto, só existimos nos dias em que fazemos. Nos dias em que não fazemos, apenas duramos."

(Padre António Vieira)
« Eu mesmo, a tua presa mais recente, hei-de padecer da ferida sofrida há
                                                                                                           pouco
e suportar no coração cativo novos grilhões.



Ovídio. Amores. Tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André. Livros Cotovia, Lisboa, 2006, p. 34
Não me falem mais sobre a justiça, porque ela já não se encontra nos homens.

É a minha convicção, de quem tudo fez e, colheu os amargos frutos.

Na antecâmara dos Amores

 «Mas o que é, afinal, o amor para este homem, versejador fácil e amante confesso e compulsivo? Uma espécie de divertimento? A busca do prazer? O culto reiterado do sexo? Um estranho caldear de emoções e afectos?
   E o que significará, para ele, a mulher? O outro parceiro de uma relação a dois? O segundo elemento de uma partilha? O simples objecto do prazer? Um alvo ou uma vítima da perversão masculina? Um mero instrumento da satisfação dos desejos do homem?
    E de que se tece a relação a dois, pois que de relação a dois se trata? Da espontaneidade de sentimentos? Da explosão do desejo e dos sentidos? Do engano? Da lealdade? Da traição? De sementes de um projecto? De jogos de sedução? De arranjos tácticos e ocasionais?
   E qual o ideal de parceiro na relação amorosa? A mulher? O homem? Com um padrão de beleza? Com um perfil de carácter?»


Introdução Carlos Ascenso André



Ovídio. Amores. Tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André. Livros Cotovia, Lisboa, 2006, p. 9

quarta-feira, 25 de maio de 2011

«Meu caro! Que seria a vida sem esperança? Uma Faísca que salta do carvão e se apaga; e não seríamos nós como uma rajada de vento, que se ouve em estação inóspita, e que por um momento assobia para depois deixar de se ouvir?»


Friedrich Hölderlin. HIPÉRION ou o Eremita da Grécia. Tradução e prefácio de Maria Teresa Dias Furtado. Assírio & Alvim, Lisboa, 1997, p. 39

André Ivanoff

«Sofria duma espécie de apatia e, pelo outono e pela primavera, dizia-se sempre que estava às portas da morte. Mas depois de permanecer deitado algum tempo, levantava-se e dizia espantado, logo a seguir: «Ora esta, ainda não morri!»


Anton Tcheckoff. Romance duma vida. Trad. de Cordeiro de Brito. Vasco Rodrigues Editor, Porto, 1938, p.19/20

terça-feira, 24 de maio de 2011

    O director disse-me:
    -Só continua a ser meu funcionário por causa da estima que tenho pelo seu excelente pai. Se não fosse isso já o tinha feito voar há muito pelos ares fora.
    Respondi-lhe:
     -Vossa Excelência lisonjeia-me, senhor director, supondo que eu possa voar pelos ares fora.
    Ouvi-o acrescentar:
     - Ponham lá fora este senhor; mexe-me com os nervos-
    Dois dias mais tarde fui despedido.



Anton Tcheckoff. Romance duma vida. Trad. de Cordeiro de Brito. Vasco Rodrigues Editor, Porto, 1938

quinta-feira, 19 de maio de 2011

The Song of the Lily, 1897

XVII

O dolce sonno
Ingannala ancora tu,
un poco.
Consuma queste ultime ore,
e, inavvertito,
falle valicare la soglia.



Pier Paolo Pasolini
Bisogna bruciare per arrivare
consumati all’ ultimo fuoco.


Pier Paolo Pasolini
Una furiosa luna sulle zolle

Non arate, le secche impalcature,
spande fuoco. Tanto più folle
quanto più calmo il passo mi conduce
verso angoscie che furono pure.


Pier Paolo Pasolini

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Taça de belos venenos onde sacio a sede

Heráclito e Filosofia: a vida humana, o destino e a morte

Heráclito também quer apreender o drama concreto da vida humana. São numerosos os testemunhos doxográficos que nos fornecem preciosos esclarecimentos sobre este movimento que conduz do nascimento à morte, e, para além da morte, a novos nascimentos. Ainda que todos estes testemunhos sejam, e devam permanecer sendo, relativamente suspeitos, não deixam de nos esclarecer, ainda que indiretamente. O incansável doxógrafo Aetius escreve: “Heráclito e os Estóicos dizem que os homens começam a atingir sua perfeição por volta dos quatorze anos, época na qual o líquido seminal se põe em movimento”. O gramático romano Censorinus precisa: “Um século é a maior duração da vida humana, que é limitada pelo nascimento e pela morte. Aqueles, por consequência, que reduziram o século a um espaço de trinta anos, cometeram manifestamente um grande erro. É Heráclito que chama este lapso de tempo de ‘geração’, já que ele envolve uma revolução da idade do homem; e ele chama de revolução da idade do homem todo o período durante o qual a natureza humana faz o retorno do semeado à semeadura”. E Plutarco de Querônia: “A duração de uma geração é de trinta anos, segundo Heráclito, espaço de tempo no qual o pai vê seu filho capaz de engendrar”.
A criança é um ser incompleto; ela se torna (devém) homem. A verdade do ser humano está em seu desenvolvimento. Quando tem quatorze anos, a criança entra na fase de puberdade e começa desse modo a atingir a perfeição humana; seu líquido seminal está formado. O úmido é sempre o que está ligado ao nascimento, e, como “a alma exala dos úmidos”, o úmido do líquido seminal é o que faz nascer o homem enquanto homem adulto. A partir da puberdade o ser humano pode participar direta e ativamente do movimento do devenir, pois ele é capaz de engendrar. Aquele que foi engendrado pode novamente engendrar no espaço dos trinta anos, que constituem assim os limites extremos de uma “geração”. Duas vezes quinze anos formam uma geração, justamente porque durante este período o ser humano tem o tempo para ser avô; o líquido seminal descreve com seu movimento um círculo e retorna, por assim dizer, a seu ponto de partida, mas em um nível superior: a fivela está afivelada, o caminho para cima “e” o caminho para baixo se unem no círculo.
A duração temporal da vida humana ultrapassa portanto os trinta anos que são apenas uma “geração”. A duração da vida é o período que se estende do nascimento até a morte. Os momentos principais de uma vida humana são então os seguintes: nascimento (começo de uma vida humana), puberdade e capacidade de engendrar e de ter engendrado (quatorze ou quinze anos), revolução da idade do homem, onde aquele que foi engendrado vê por sua vez seu filho capaz de engendrar ( a idade de trinta anos, “geração”, morte (fim da duração da vida humana). As linhas e as cores desse afresco são sóbrias e se restringem ao absolutamente necessário, àquilo que torna possível o correr do rio da vida humana no tempo. No curso desse devenir os contrários se unem; a colocação de uma criança no mundo por um homem já significa o começo da morte desse homem que realizou o estritamente necessário de sua tarefa na tragédia humana. A dialética harmoniosa da vida torna o homem capaz de engendrar um ser que, por sua vez, vai ultrapassá-lo. O tempo total é uma brincadeira de criança. O tempo da vida humana faz o ser humano (dado à luz) passar da infância e da adolescência à idade madura, à velhice (onde o homem retorna à infância) e à morte. Enquanto isso, o homem começa a “morrer” a partir do momento em que seu filho é dado à luz. Este é o jogo do tempo, que brinca com as crianças que são os homens.
O movimento do líquido seminal não é de natureza erótica? Sem qualquer dúvida, o Eros no Cosmos é o que mantem unidas entre si as “partes” do mundo, fazendo com que se religuem a despeito de suas lutas antagônicas. “Também a natureza ama os contrários, e é com eles e não com os semelhantes que ela produz o acordo; é assim, por exemplo, que ela une o macho à fêmea, mas não cada ser a seu igual, e que ela efetua a concordância primeira pela união dos contrários e não dos iguais... As uniões são inteiras e não-inteiras, concórdia e discórdia, acordo e desacordo”, lemos no fragmento 10. O movimento do devenir provém, com efeito, da união dos contrários. A união de dois seres opostos assegura a permanência do devenir humano. Com o eros unificador se compõe a guerra inevitável.
O ser humano, enquanto ser cósmico, nasce portanto de um encontro entre dois seres opostos e perpetua, por sua vez, a espécie; o que o impele são as forças cósmicas “e” o movimento de seu próprio líquido seminal, que, sendo uma das manifestações da água e do úmido, torna-se igualmente fogo ao correr do processo das metamorfoses. Toda a dialética é apenas um encadeamento das engendrações; o movimento do nascimento articula o movimento do devenir. O úmido e o fogo do Universo estão estreitamente ligados e alimentam o úmido e o fogo do organismo humano (indissociavelmente psicossomático). Nesta coesão biocósmica se manifestam as potências eróticas. O úmido é o elemento que caracteriza o nascimento, e o fogo está ligado ao desenvolvimento. Os Estóicos, com sua teoria do logos espermático universal, explicitam, extrapolam e racionalizam o que está implicitamente contido no pensamento heraclitiano; eles estabelecem o movimento de potências transformadoras. “Apesar de seu heraclitianismo, o mundo estóico dá mais a impressão de estabilidade que de fluxo contínuo”, conclui com justeza Émile Brehier em seu livro Chrysippe et l'Ancien Stoïcisme. Qual é o significado da vida humana, deste ponto que conduz do nascimento até a morte, passando pela reprodução? Da vida humana dada pela natureza, passamos à vida que os homens se dão. Quando nascem, querem viver e receber seus mortos, ou então repousar; e abandonam as crianças para que nasçam os mortos (Frag. 20). Entramos e não entramos nos mesmos rios, somos e não somos (49 A). Lutar contra seu coração é difícil; tudo o que ele quer, ele compra ao preço da alma (85). O ethos do homem é seu demônio (110).
O ciclo da vida humana - nascimento, infância, morte - se realiza inelutavelmente; os tons são sombrios. Exprime Heráclito um pessimismo fundamental? É o nascimento considerado como infelicidade e a morte como liberação? Parte de vida (moira) e parte de morte (moros) serão idênticas? Os temas das infelicidades da vida humana aparecem na poesia e no pensamento helênicos muito antes de Heráclito, e não apenas na sabedoria helênica. O homem é fraco e impotente, diz a Odisséia, passa como as folhas, nos ensina a Ilíada. Hesíodo, em O Trabalho e os Dias, não faz outra coisa que por em relevo as infelicidades humanas. O poeta iâmbico Semônides de Amorgos queixa-se que os homens não têm sabedoria, que vivem como animais, sustentados apenas pela ilusão e pela esperança, ameaçados pelas doenças, pela velhice e pela morte. Solon também se queixa do destino, que não pode ser suplantado pelo conhecimento que possamos ter dele, e declara: “nenhum homem é feliz”. E este ditado da sabedoria arcaica: “não considere nenhum homem feliz até que ele chegue à morte” exprime o mesmo ponto de vista sobre a vida. Os Pitagóricos se esforçam apaixonadamente para purificar a vida da infelicidade do nascimento, e os grandes poetas trágicos exprimem no mais alto grau as terríveis (e grandiosas) contramarchas da existência dos mortais. Heráclito retoma, condensa e pensa todas essas meditações com uma intensidade singular, e ele as exprime sob formas lacônicas e radicais. É isso melancolia e pessimismo? Partindo de idéias esquemáticas preconcebidas e imaginando os poetas e pensadores gregos como “belas almas” que vivem sob os encantos da beleza da vida, não chegaremos a compreender do que se trata. O mito feliz da Hélade feliz ignora quase deliberadamente a Grécia de verdade, a Grécia trágica. É um erro de perspectiva que nos faz embelezar o antigo, sob o jugo da infelicidade atual. Os gregos também cometem o mesmo erro, situando a idade de ouro no passado. Toda a obra de Platão não exprime a nostalgia profunda de um horizonte perdido, nostalgia que alimenta o mito da reminiscência da alma?
Os pensamentos pré-heraclitianos e heraclitianos que enfrentam a ferida enunciam verdades evidentes, reconhecidas como tais pela época. Eles não querem levar o homem a se lamentar, mas a suportar com coragem e a viver sua vida. É uma visão dramática e trágica do mundo e da vida; dramática, porque ela exprime os fundamentos das realizações e ações dos homens, trágica porque visualiza o que é fragmentário sob um prisma universal e aprofunda a fenda e as ruturas inerentes à totalidade. E como a arte trágica e arcaica dos séculos 7 e 6 (a. C.) se “individualiza” a seguir, aprofundando a forma e o fundo do destino individual (que ainda assim permanece fortemente ligado ao universal), da mesma maneira este pensamento pré-sofista só tem olhos para o que se situa na dimensão do universal. Isto é particularmente verdade em Heráclito. Seu pensamento abrange a totalidade da vida humana e aponta seu caminho comum. Ele não chora o curso inevitável da existência humana, não deplora a perda do absoluto, pois a necessidade se realiza inelutavelmente, ainda que com maior ou menor perfeição. Ao invés de se fixar nas misérias da subjetividade sofredora, e sem mesmo levar isso em conta, Heráclito observa, a um só tempo com alegria e tristeza, o grande espetáculo da sucessão de gerações sobre a Terra. Se ele considera a morte como repouso, isto não deve levar a uma interpretação cristã. A morte é apenas uma mudança de situação, e nós já sabemos que “tudo repousa na mudança”. (84a).
Serão as escolas socráticas, e sobretudo os filósofos menores, como Hegésias, conselheiro da morte, que nos trarão uma atitude psicologicamente pessimista e melancólica. A filosofia que aconselha a morte é que partirá do princípio do prazer, desenvolverá sua própria negação e se colocará sob o signo da morte, aconselhando o suicídio como meio de chegar a ela. Hoje em dia damos voluntariamente um caráter nostálgico e romântico ao pessimismo; mas todo romantismo está ausente na época que viu nascer o pensamento de Heráclito. Ele repensa os temas da intuição popular no próprio nível dos grandes problemas que concernem a vida e a morte. A sabedoria das nações (filosofia popular) e a filosofia pretensamente eterna (philosophia perennis) são mais interdependentes do que pensam. Heráclito se coloca a igual distância tanto de uma como de outra. Em consonância discordante com a sabedoria de seu tempo e de seu povo, ele questiona os três grandes temas da vida humana e os traz ao nível de questões. O juízo heraclitiano não pode ser designado como melancólico, romântico ou pessimista; o ritmo de seu pensamento é inteiramente dramático e trágico, de acordo com o Mundo.
A vida conduz irresistivelmente à morte. O arco (biós) leva o nome da vida (bíos), mas causa a morte; o rio da vida conduz o homem à morte. Os contrários se unem. A unidade inata da vida e da morte manifesta esta unidade harmoniosa e discordante dos contrários que lutam entre si no decurso do devenir que é rio e guerra. O arco é uma arma de guerra e mortal, e o jogo de palavras (biós-bíos) também traz a marca da morte. A perspectiva da morte ilumina as sombras da vida. O arco, símbolo da harmonia dos contrários e instrumento guerreiro, não é ele também um símbolo de Apolo, o deus da luz? Entre os 130 fragmentos de Heráclito, quinze se referem diretamente à morte. Ensinando-nos o logos do cosmos, nos reconciliando com a justiça da guerra e nos persuadindo da unidade dos contrários, Heráclito nos mostra como filosofar é aprender a viver e a morrer. O homem deve ficar sereno diante do inevitável e reconhecer o inevitável caminho que, enquanto caminho cíclico, leva constantemente da vida à morte e da morte à vida. O homem deve fixar seus olhos no termo fatal de sua viagem, e o pensador não se ocupa em consolar os homens, mas em desmascarar sua situação, destruir suas ilusões. O rio corre como a vida, e a vida é inesgotável como o rio. Ela é sempre cambiante e nós não podemos reviver (NT - revivre. Acho que Axelos queria dizer vivre, viver) duas vezes o mesmo momento, pois nós também mudamos: ao móvel corresponde o móvel. Nós corremos como um rio e nos dissipamos como uma chama, ao decorrer do tempo que é a unidade do passado, do presente e do futuro. Nós somos e não somos, porque a negatividade, que anima o processo de transformações de tudo aquilo que é, nos leva a nos transformarmos em amanhãs diferentes. O segredo de nosso ser é o futuro.
No decorrer deste futuro que é o tempo, o homem se dá cruelmente conta de que é difícil lutar contra as paixões que, levando-nos na direção da satisfação dos desejos, fazem com que esqueçamos que não somos seres particulares, mas fragmentos da totalidade. Tudo aquilo que queremos é comprado ao preço de uma parcela de nossa alma. A luta, o antagonismo, domina também a existência do homem. A satisfação do desejo, o prazer, leva as almas a se tornarem úmidas, e este prazer úmido é a morte da alma (fr. 77). Por que é então doloroso lutar contra a morte da alma? É tão difícil lutar contra seus desejos porque a violência do desejo (thymos) e a pureza da alma (psyché) estão em relação inversamente proporcional. Se damos livre curso aos nossos desejos o fogo sábio e vivificante da alma se volta contra o animal da umidade mortal. Dar livre curso às paixões do desejo é coisa fácil. A tarefa dolorosa e difícil consiste na luta contra as paixões, porque uma paixão, mesmo vencida, tem repercussões dolorosas sobre nossa alma. Além disso, é penoso lutar contra os prazeres que conduzem a alma na direção da umidade, quer dizer, em direção à morte, porque no fundo é penoso para a alma lutar contra suas próprias tendências mortuais. Nós devemos lutar, talvez, com a morte na alma contra a morte da alma. A proporção thymos e psyché não é algébrica, mas dramática. O homem é este ser situado entre o animal e o deus que tem todas as dores do mundo para edificar um ethos para si, porque as forças que o movem se compensam uma à outra, necessariamente e justamente. A negatividade (origem da negação) está sempre ativa e impede a estagnação do ser vivo. A realização total dos desejos, no limite, é impossível, portanto nefasta; a maior realização possível daquilo que nos ordenam as paixões e os desejos avilta a alma. Portanto é difícil lutar contra seu coração, pois tudo o que ele deseja é comprado ao preço da alma (fr. 85), e ao mesmo tempo é melhor que todos os nossos desejos não se realizem (fr. 110). Tanto a satisfação do desejo como a vitória sobre o desejo afetam profundamente a alma. A integridade da alma é talvez mais bem preservada no infortúnio. A luta contra os desejos particularizadores, quer dizer, o combate claro e não a retirada, se impõe como necessária e dolorosa. O homem, ser que não é unicamente movido por suas próprias forças psicofísicas, pode empreender e manter esta luta, sabendo que é o negativo que nos conduz ao positivo. Repitamos mais uma vez: Heráclito não quer de maneira nenhuma trazer violência à natureza humana em nome da moral ou da espiritualidade; ele apenas se esforça em revelar aos humanos o que é em realidade, em verdade, a natureza humana, em seu devenir.
Assim o homem não deve jamais perder de vista a totalidade de seu problema, e o problema é bastante concretamente o de seu destino. O ethos do homem é seu demônio, nos declara o famoso fragmento 119. O ethos é a natureza profunda do homem e constitui seu ser em devenir, e o demônio é uma potência divina. À representação que vê o destino humano como uma potência exterior, regulando o decurso da vida humana em seus menores detalhes, à concepção da potência total dos deuses e dos demônios e da impotência total do homem e seu demônio, Heráclito opõe sua atitude dramática e responsável diante do futuro. Ele marca o surgimento do homem ocidental que quer agir e reagir em face de seu destino, enquanto o homem oriental parece suportá-lo resignando-se. O pensamento helênico acreditava em princípio que uma Moira, fatal por definição, governa a vida dos homens e a dirige de maneira meio cega; por outro lado, acreditava na onipotência divina, ficando os deuses, alternativamente, dominadores desta Moira e submissos a ela. No pensamento homérico em particular se manifesta uma profunda antinomia: os humanos são como marionetes nas mãos dos deuses, mas cada herói é quase responsável pelo que é; na hora do veredito, à solução imposta pelos deuses, responde, independente, mas sempre correspondente, a resolução assumida pelos heróis. Heráclito dá um passo decisivo ao proclamar: O ser do homem (seu ethos) é um ser divino (seu demônio) (fr. 119). Ao fazer isto ele não considera o homem individual como fundador de seu destino; não torna o destino psicológico, nem mesmo antropológico. O ser do homem (seu ethos) é simplesmente declarado como sendo um ser divino (um demônio). Como o fogo do mundo é seu próprio destino, é o ser divino do homem que constitui o motor interno do devenir humano. Heráclito não diviniza o homem nem humaniza o divino; naturalmente o demônio deixa de ser uma potência exterior, estranha enquanto estrangeira, e se transforma em forma e fundo da vida humana. Assim como a necessidade cósmica e divina do destino forma a estrutura do Universo, o ser divino do homem constitui sua harmonia discordante. Necessidade e liberdade se unem graças à harmonia dos contrários, e a liberdade do homem consiste na aceitação plena de sua natureza demoníaca.
A tragédia exprimirá também esta relação entre o ethos e o démon (NT - acho que Axelos gostaria de ter escrito daimon), entre o ser do homem e o ser divino. No Prometeu de Ésquilo não podemos discriminar onde acaba seu ethos e onde começa seu demônio, porque destinação (humana) e destino (divino) se sobrepõe. Para a Antígona de Sófocles é justamente seu ethos que é seu demônio; aqui está precisamente o verdadeiro drama. Draw (NT - lê-se dráo) significa agir, e agir, em sentido profundo, significa realizar um destino e uma destinação. Só o ethos realizador é dramático, no sentido a um só tempo ativo e trágico do termo. Toda a atitude de Sócrates não consistia no esforço desenvolvido para fazer coincidir o ethos do homem e as prescrições de seu demônio? Heráclito teria visto em uma tragédia o princípio de elaboração de seu pensamento, desta apreensão simultânea de ethos e de demônio, que nos faz ver como o ser do homem concorda com seu destino. Ainda mais, os grandes traços da grande tragédia já se revelam em Heráclito: pensamento heraclitiano e tragédia são "inacabados" e fragmentários, porque querem envolver e compreender a totalidade do destino cósmico e humano; estão à procura da unidade e por toda parte encontram ruptura; seu ritmo é dramático, e toda a atividade humana lhe parece livre e alienada, realizando desse modo o acordo discordante entre a liberdade e a necessidade. Os dois lutam apaixonadamente para introduzir luz nas trevas, ainda que a obscuridade esteja instalada no coração do luminoso.
Hoje tendemos a pensar em função das diversas disciplinas do pensamento e das ciências, e é verdadeiramente difícil para nós agir de outra maneira. Ethos nos faz pensar em ética, até em moral, caráter em caracterologia, psyché em psicologia. Em Heráclito, ao contrário, estas "disciplinas" só existem enquanto disciplinas; o ser não se separa do pensamento, e o que é plenamente não se separa daquilo que deve ser. O pensamento heraclitiano permanece sempre "holístico". O ethos é a totalidade do ser do homem, e o démon indica sua parte divina no devenir do grande Todo. Martin Heidegger apreendeu da seguinte maneira o fragmento 119, transpondo-o para a linguagem que lhe é própria e ligando-o ao testemunho de Aristóteles (De part. anim., A 5, 645 a, 17 - D. A. 9), segundo o qual Heráclito queria declarar aos estrangeiros visitantes que pararam quando o viram se aquecendo diante da lareira: "aqui também estão presentes os deuses". Segundo Heidegger, Ethos significa morada, lugar de habitação. Esta palavra nomeia a região aberta onde habita o homem. A abertura (das Offene) de sua morada deixa aparecer o que avança em direção à essência do homem, e nesta chegada se interrompe nas proximidades. A morada do homem contém e guarda a chegada daquilo ao qual o homem pertence em sua essência. É, segundo a palavra daimon de Heráclito, o deus. Diz a sentença: o homem habita, enquanto homem, nas proximidades de deus." (Carta Sobre o Humanismo).
Todavia, o homem se encaminha para a morte. Antes, enfrenta ainda as doenças. A doença (Heráclito não distingue entre doenças somáticas e psíquicas) é uma ruptura da harmonia que mantém ligados os opostos. A doença é causada pela predominância excessiva de um dos elementos da totalidade que é o organismo psicossomático do homem. ela aparenta-se assim estreitamente ao prazer. Ela rompe a unidade dialética do bem e do mal, fazendo predominar o mal. Mesmo a presunção, que indica uma rutura dos laços que ligam o homem individual ao universal, é chamada de doença por Heráclito; mais ainda, é chamada de doença sagrada (fr. 46), porque afeta diretamente o pensamento do homem, cujo corpo pode continuar sendo saudável. E a medicina não pode impedir a si mesma de praticar simultaneamente o bem e o mal, em sua tentativa de restabelecer o equilíbrio perturbado da saúde (fr. 58). O mal e a doença, o prazer e a presunção, são partes da totalidade que se tornaram autônomas, rompendo deste modo o equilíbrio unitário. Nos tratados hipocráticos, e em particular no De Victu, encontramos claramente os traços desta concepção dialética da saúde e da doença.
Com efeito, é prazer para as almas tornarem-se úmidas, pois a umidade, em oposição à secura da alma sábia, significa embriaguez e predominância da sensualidade; a umidade da alma conduz assim à morte final, o que já sabemos pelo fragmento 36. O úmido é a um só tempo a origem e o fim da vida da alma. A alma nasce do úmido (neste estágio o úmido se encontra estreitamente ligado ao prazer) e finalmente volta ao úmido após sua morte. O começo volta à partida - pois a implica desde o início - o fim. Parece-nos ouvir ainda o eco da voz de Anaximandro: "O ilimitado é a origem do que existe (dos seres); ali onde os seres nascem, ali mesmo se faz sua destruição, como deve ser; pois se fazem justiça e expiam uns pelos outros por suas injustiças, segundo a ordem do tempo"(D. 12 B 1). Como a alma nasce do úmido, seu nascimento está ligado ao prazer. Entretanto, a umidade também engendra a perda da alma. A potência do fogo, ao contrário, procura liberar a alma da empresa corruptora e mortal da umidade, conduzindo-a à posse da verdadeira vida que é, não prazer, mas vida conforme o universal. O impulso do prazer que nos faz nascer do úmido procura a todo custo realizar os desejos de nosso coração, conduzindo-nos assim em direção à morte; este impulso é difícil de ser dominado e nos impede de saber para onde vamos, nos transformando neste homem embriagado que é conduzido por uma criança e não sabe para onde vai porque sua alma está úmida. A verdadeira vida, obedecendo ao fogo, exige a sabedoria: o homem que não se afasta dela vive verdadeiramente sua vida, tendo os olhos fixos no termo fatal de sua viagem.
Como podemos viver portanto a morte de nossa alma, e como vive ela sua própria morte? E como os imortais são mortais e os mortais imortais? O movimento da dialética heraclitiana é constantemente cíclico; o caminho para o alto e para baixo é um só e o mesmo. Nascimento e morte, juventude e velhice, morte e imortalidade são contrários dialeticamente unidos; um conduz eternamente ao outro, e o movimento não cessa jamais. Estudando o pensamento teológico e religioso de Heráclito pudemos ver o elo que une os homens ao divino, porque o ethos do homem não reside em sua idiossincrasia, mas naquilo que o liga à universal divindade. Desta maneira, a morte (como falecimento) se encontra superada; o ser e o não-ser se unem no devenir. Nós vivemos efetivamente a morte de nossa alma, e ela vive nossa própria morte, porque no decurso de nossa existência nós podemos apreender o processo da morte de nossa alma, dando-nos conta de nosa marcha em direção à morte que, em verdade, nos habita por toda nossa vida. A alma, por sua vez, vive nossa própria morte, porque ela possui o dom da superação que a liga ao Todo.
O homem, como todo ser cósmico que se move no interior do Universo, segue os dois caminhos: aquele em direção ao alto, conduzindo da terra à água, da água ao ar e do ar ao fogo, e aquele para baixo, conduzindo do fogo ao ar, do ar à água e da água à terra. O caminho para o alto é o do nascimento da alma, e o caminho para baixo é o da morte. Mas, como o caminho para o alto e para baixo é um e o mesmo (fr. 60), e como na circunferência do círculo o começo e o fim coincidem (fr. 103), o caminho para o alto também é o da morte da alma, e o para baixo o de seu nascimento. O nascimento é a um só tempo ascenção e queda, assim como a morte. A terra, começo e fim do processo cíclico, é o verdadeiro lugar do drama humano. A alma humana participa do fogo; assim, após ter sido água e terra, quer dizer, corpo humano, ela volta a ser fogo. Ela era em princípio o fogo que anima o corpo, e quanto mais seca ficava, mais sábia era.
Os mortais são então imortais, porque ligados ao fogo imortal. Os imortais se "encarnam" nos mortais. Vida e morte, morte e imortalidade, intercambiam-se mutuamente e, sendo contrários, se unem no decurso do movimento incessante. O pano de fundo de todos estes pensamentos heraclitianos é constituído pela mitologia homérica, pelas crenças hesiodianas, pelo simbolismo órfico e pitagórico. O pensador de Éfeso despe estes grandes temas de suas vestes multicoloridas e põe a nu seu sentido último. Naturalmente, o problema de saber em que espaço e em que tempo estes processos dialéticos ocorrem fica sem resposta. Nós apreendemos a direção da especulação heraclitiana num clarão, mas o papel concreto dos protagonistas do grande drama quase sempre nos escapa. Será que Heráclito não deixa as trevas, ou nós é que nos perdemos neste jogo de sombra e luz?
Perseveremos então em nosso esforço para ver claro. A morte possui uma potência suprema. Não podemos chegar a ver a significação da morte senão no estado de vigília. Quando dormimos, em troca, não nos damos conta de nada, só fazemos dormir. A originalidade do fragmento 21 consiste na inversão dos termos da comparação; o que se encontra ligado não é a vida e o estado de vigília, por um lado, a morte e o sono por outro. O sono nada mais é que uma situação intermediária entre a vida e a morte. A vida, se ela se desenrola em estado de vigília, nos coloca em face da morte; ela só é até que venha o grande sono, a morte definitiva. Heráclito quer constantemente clarear as trevas, ao ensinar que a vida não é a morte, e até ela nos mergulha na obscuridade. A vida só faz nos encaminhar em direção à morte; os contrários são unidos, sem estarem identificados por causa disso.
Quando o homem dorme, ele está "morto", ainda que continue vivo. O sono realiza provisoriamente a unidade dos dois contrários. "À noite o homem acende uma luz quando sua visão está apagada", nos é dito no fragmento 26. A luminosidade do fogo se manifesta igualmente na obscuridade da noite. Constitui-se ela então na luminosidade indispensável à visão dos sonhos? Não o sabemos. O que podemos compreender é que o ser adormecido é o ser vivo mais próximo da morte, pois ele dorme e sai provisoriamente da vida. O ser acordado também toca o ser adormecido, porque ele próprio não pode escapar ao sono; nem ao sonambulismo, nem ao sono provisório, nem ao sono definitivo. O homem participa duplamente de sua morte: tanto no sono como na vigília. Vida e morte são "estados" muito próximos um do outro; o sono é o signo de sua analogia e torna-se então uma metáfora que, como toda metáfora, transfere as propriedades de um domínio para outro. Além do mais, o homem toca o ser adormecido quando vive, porque os homens não possuem a visão necessária de seu destino mortal e agem frequentemente como pessoas sonolentas e adormecidas. O sono torna-se desta maneira a situação mais aparentada à morte, afastando-nos dela em aparência, pela via do esquecimento em que nos envolve. Os humanos em seu sono fecham os olhos à vida (e à morte); quando se agitam, fecham os olhos à morte (e à vida). A vida torna-se assim um sonho inconsistente para os homens que não sabem olhá-la no rosto para descobrir nela as linhas de força que conduzem à morte.
O que é jovem, vigilante e vivo, envelhece, adormece e morre (fr. 88). A unidade combativa dos contrários e o processo de suas (deles) transformações ocorrem no tempo, e pelo tempo, que constitui o ritmo necessário do devenir. Para que todas estas etapas do devenir possam se transformar em seu contrário, é preciso que já estejam unidas de antemão; com efeito, elas o estão no seio da totalidade cósmica e elas constituem a via antitética do homem. O tempo nos leva de uma estação a outra; nos faz envelhecer e nos faz morrer. O tempo é a alma da harmonia combativa dos contrários, porque a unidade dos contrários é harmonia, já que a passagem de um estado a outro é ao mesmo tempo movimento e repouso. O sono é apenas um pequeno repouso, o repouso é a morte. Toda mudança é um repouso; "transformando-se ele repousa", havíamos aprendido no fragmento 84. Os homens, não podendo interromper o curso inevitável do devenir, tentam ainda assim escapar à fadiga, recusando a luta e o combate; isto é impossível e ultrapassa a medida de suas possibilidades. Durante toda sua vida eles apenas se transformam, indo de uma posição à outra, pela luta inevitável; eles repousarão quando pararem de viver. O ritmo do destino humano é inelutável, e o tempo é todo-poderoso. O pensamento verdadeiro pode ajudar os homens a viver sua vida sem esquecer sua morte. Ao procurar a estagnação e o repouso imóvel eles se esquivam do curso do Mundo e são mal sucedidos na vida. Estar aterrorizado com a morte não significa coabitar com a morte; continuando a viver pela metade, os homens apenas fecham os olhos antes da hora. Enquanto que aquilo que o pensador ensina deve levar todos que o querem escutar a viver sua vida como homens acordados, ligados ao universal e enfrentando com sabedoria sua morte.
Heráclito não deixa de avisar  que devem sempre saber esperar o inesperado e esperar reencontrar o inesperado (fr. 18). A incredulidade pura e simples denota um espírito obtuso e fechado ao enigma do Mundo. Assim como os homens não pensam em sua vida e em seu termo fatal, também não pensam no que os espera depois de sua morte.

A sorte do corpo morto é rapidamente regrada: é para ser rejeitado. O cadáver não exprime mais o homem; formado de terra e água, só lhe resta reganhar a terra, sobre a qual o homem vivo dá seus passos. A alma também morre? Entendamos, não se trata da alma pessoal e de sua sobrevivência individual. Não há traços de uma doutrina da imortalidade (pessoal) da alma (individual) no pensamento autêntico de Heráclito.A alma que vive, não sendo de modo nenhum subjetiva, como poderia ela, após a morte do homem que ela animava, sobreviver individualmente? A alma é um fragmento do Universo. Aetius escreveu (IV, 7, 2 - D.A. 17): "Heráclito diz que a alma é indestrutível, pois ao deixar o corpo ela retorna à alma do Universo, com a qual é homogênea".

As almas farejam talvez no Hades os aromas do fogo divino e eterno, e, como Hades é o mesmo que Dionisyus (fr. 15), elas continuam a viver para além de sua morte, mas não num além evangélico. Pode ser ainda que as (almas) daqueles mortais que morreram pelo fogo, heroicamente, e sabiamente se tornem imortais; os heróis e os sábios seriam assim os "guardiães" dos vivos e dos mortos. As estrelas mortas também animam o Universo. A vida e a morte, a parte e o Todo, os mortais e os imortais, sendo e não sendo idênticos, continuam assim a constituir as etapas e as esferas do devenir que, se modificando eternamente e se transformando em seu oposto, dão desta maneira um sentido ao movimento.

O fragmento 63, tirado dos escritos de Santo Hipólito, deforma o pensamento heraclitiano cristianizando-o; não há ressurreição da carne nem Julgamento final para o Efesiano, ainda que assim o pense o bispo de Roma. Heráclito permanece pagão e pensa que a alma humana - depois de haver animado o corpo de um homem que vive, tem um destino e morre - junta-se de novo à Totalidade cósmica que nunca deixou de a englobar.


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