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terça-feira, 29 de setembro de 2026

A Encomenda do Silêncio | Alberto Pimenta

Já reparaste que tens o mundo inteiro
dentro da tua cabeça
e esse mundo em brutal compressão dentro da tua cabeça
é o teu mundo
e já reparaste que eu tenho o mundo inteiro
dentro da minha cabeça
e esse mundo em brutal compressão dentro da minha cabeça
é o meu mundo
o qual neste momento não te está a entrar pelos olhos
mas através dos nomes
pois o que tu tens dentro da tua cabeça
e o que eu tenho dentro da minha cabeça
são os nomes do mundo em brutal compressão
como um filtro ou coador
de forma que nem és tu que conheces o mundo
nem sou eu que conheço o mundo
mas os nomes que tu conheces é que conhecem o mundo
e os nomes que eu conheço é que conhecem o mundo
o qual entra em ti e o qual entra em mim
através dos nomes que já tem
de forma que o que entra pelos meus olhos não pode
entrar pelos teus olhos
mas só pela tua cabeça através
dos nomes dados pela minha cabeça
àquilo que entrou pelos meus olhos já com nomes
e do mesmo modo
o que entra pelos teus olhos não pode
entrar pelos meus olhos
mas só pela minha cabeça através
dos nomes dados pela tua cabeça
àquilo que entrou pelos teus olhos já com nomes
e assim o que tu vês
já está normalmente dentro de ti antes de tu o veres
e assim o que eu vejo
já está normalmente dentro de mim antes de eu o ver
e tudo quanto tu possas ver para aquém ou para além dos nomes
é indizível e fica dentro de ti
e tudo quanto eu possa ver para aquém ou para além dos nomes
é indizível e fica dentro de mim
e é assim que vamos construindo a nós mesmos pela segunda vez
tu a ti e eu a mim...
construindo uma consciência irrepetível e intransmissível
cada vez mais intensa e em si
tu em ti eu em mim
no entanto continuando a falar um com o outro
tu comigo e eu contigo
cada um
tentando dizer ao outro
como é o mundo inteiro que tem dentro da cabeça
e porque é e para que é
tu o teu mundo que tens dentro da tua cabeça
eu o meu mundo que tenho dentro da minha cabeça
até que morra um de nós
e depois o outro...

Alberto Pimenta

domingo, 5 de julho de 2026


homens alienados
algemados por deuses de escorbuto e trigo
suspeitos de atearem fogo a uma nuvem de salsugem
nuvem-salto-em-altura
mais baixa que um sonho a preto e branco de Freud
que uma doce e dançante formiga nova-iorquina.

fui hoje até ao mar:
o mesmo que um dia engolirá a fome das luas
das criaturas prematuras
Manhattan
o azar ao jogo do czar

a raiva de não haver maré vazia até ao infinito.

agora
matilhas de dunas famintas cobrem os céus de carne
e os camaleões inventarão
a conta olhos
(encadeando os corsários)
o novo daltonismo das ondas.

Augusto António Cabrita
Algarve, Julho de 2026

segunda-feira, 1 de junho de 2026

 Gosto das
mulheres que envelhecem,
com a pressa das suas rugas, os cabelos
caídos pelos ombros negros do vestido,
o olhar que se perde na tristeza
dos reposteiros. Essas mulheres sentam-se
nos cantos das salas, olham para fora,
para o átrio que não vejo, de onde estou,
embora adivinhe aí a presença de
outras mulheres, sentadas em bancos
de madeira, folheando revistas
baratas. As mulheres que envelhecem
sentem que as olho, que admiro os seus gestos
lentos, que amo o trabalho subterrâneo
do tempo nos seus seios. Por isso esperam
que o dia corra nesta sala sem luz,
evitam sair para a rua, e dizem baixo,
por vezes, essa elegia que só os seus lábios
podem cantar.

Nuno Júdice

domingo, 22 de março de 2026

 ...

As mães dormem 
de olhos abertos 
caçam à dentada
os medos dos filhos

Cláudia Lucas Chéu


quinta-feira, 11 de setembro de 2025

 

Pernoitas em Mim

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes


( in 'Rumor dos Fogos' )
 11580














terça-feira, 8 de julho de 2025

 « de marinheiros que apodrecem como fantasmas
comidos pelas marés mais vorazes
podiam lembrar-se de muitas. Que eles sejam vossos hóspedes

e vos levem até onde jazem os barcos esquecidos
com os peixes nadando entre os altos mastros -
tudo isto se vê dentro de um olho agredido pelo sol.»


Keith Douglas
 « e deixa-me como herança
a milagrosa toalha de prata»

Vasco Popa

domingo, 11 de maio de 2025

 DA LÍNGUA DA MINHA PÁTRIA


Da língua da minha
pátria
vê-se o feminino

das palavras da escrita
tinta e pena
onde navegam os versos

e a saudade

as lágrimas salgadas
de um poema

Maria Teresa Horta

domingo, 26 de janeiro de 2025


 Cláudia R. Sampaio, VER NO ESCURO. Edição Tinta da China

domingo, 5 de janeiro de 2025

 - Nós somos a queda
   entre o excesso
                           e o nada


Maria Teresa Horta. Eu Sou a Minha Poesia. Antologia Pessoal. Publicações Dom Quixote, 2019., p. 206
Sabe curar poetas
esvaídos

Escuta as paixões
as dores seculares

Os ódios mortais
e os amores malditos


Maria Teresa Horta. Eu Sou a Minha Poesia. Antologia Pessoal. Publicações Dom Quixote, 2019., p. 200
 Tinha paixões
que sempre rasurava

Maria Teresa Horta. Eu Sou a Minha Poesia. Antologia Pessoal. Publicações Dom Quixote, 2019., p. 194

O lince da tua boca

 O lince da tua boca
deitado no meu poema
bebe o corpo dos meus versos
devora-lhe a alma acesa

Maria Teresa Horta. Eu Sou a Minha Poesia. Antologia Pessoal. Publicações Dom Quixote, 2019., p. 190

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

 Que não querendo um coração desfeito
trocou por desapego
o desamor desperto?


Maria Teresa Horta. Eu Sou a Minha Poesia. Antologia Pessoal. Publicações Dom Quixote, 2019., p. 130

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

PEQUENOS DIZERES SOBRE A MULHER

 I

Não come da
fome
nem come do medo

Nem guarda na 
arca
com a roupa o segredo

Maria Teresa Horta. Eu Sou a Minha Poesia. Antologia Pessoal. Publicações Dom Quixote, 2019., p. 59
 e toda a dor nos olhos
só em água


Não        não é apenas
aquilo que pensamos 
que nos devora enquanto 
demoramos


Maria Teresa Horta. Eu Sou a Minha Poesia. Antologia Pessoal. Publicações Dom Quixote, 2019., p. 56
 Direi dos olhos verdes
os teus olhos
e do verde dos teus olhos direi vício

Maria Teresa Horta. Eu Sou a Minha Poesia. Antologia Pessoal. Publicações Dom Quixote, 2019., p. 44
 É o tempo grande
de estar cansada
fria
de estar convosco e ter concessões
nos olhos

É o tempo dia
de inventar paisagens
quentes
e ter um carnaval vestido 
pelos seios


Maria Teresa Horta. Eu Sou a Minha Poesia. Antologia Pessoal. Publicações Dom Quixote, 2019., p. 23
 « e nas minhas mãos incompletas
trouxe-te
um naufrágio
de flores cansadas
e o único jardim de amor 
que cultivei »

Maria Teresa Horta. Eu Sou a Minha Poesia. Antologia Pessoal. Publicações Dom Quixote, 2019

domingo, 15 de dezembro de 2024

 as mãos vazias são selvagens na sua beleza
duras mesmo se vulneráveis
são o esconderijo ideal para guardares relâmpagos
e verdades ferozmente concisas


José Tolentino Mendonça. A Noite Abre Meus Olhos. 4ª Edição, Assírio&Alvim, Porto, 2021. p. 483
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