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domingo, 25 de janeiro de 2026
O Poema Pouco Original do Medo
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
‘ (assim assim)
escriturários
‘ (muitos)
intelectuais
‘ (o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
*
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Sim
a ratos
quarta-feira, 1 de outubro de 2025
QUANDO O HOMEM ENTRA NA MULHER
entra na mulher,
como as ondas roem a costa,
uma e outra vez,
e a mulher abre a boca de prazer
e os seus dentes cintilam
como o alfabeto,
o Logos aparece a ordenhar uma estrela,
e o homem
dentro da mulher
dá um nó
para que nunca mais
se separem
e a mulher
sobre a uma flor
e engole o caule
e o Logos aparece
e descarrega os seus rios
Vasco Gato
quinta-feira, 11 de setembro de 2025
Pernoitas em Mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer
pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas
é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves
já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes
( in 'Rumor dos Fogos' )
domingo, 17 de agosto de 2025
Questões de Princípio
Não me exijam
não queiram
não ordenem
não esperem
Maria Teresa Horta
segunda-feira, 7 de julho de 2025
4
Brûlure, blessure. Onde
desembocam, como se diz em nome, os canais muitos.
Pura consumpção em voz alta, ou num murmúrio,
entre sangue venoso, ou
traça de lume. Gangrena,
música,
uma bolha.
Arte medonha da paixão.
Um poro monstruoso que respira o mundo.
Nele se coroam
o escuro, o fôlego, o ar ardido.
O ouro, o ouro.
Tubo sonoro por onde se coa o corpo.
Se escoa todo.
Em quartos abalados trabalho na massa tremenda
dos poemas.
Que me olham de tão perto que eu ardo.
Um dia hei-de ficar todo límpido,
ou calcinado nervo a nervo. Ou por me ver
Deus
de um canto das palavras, com sistinos
dedos pintados em torno à voragem
diuturna, tocando na matéria.
Ininterrupto, eléctrico.
Alguém poderia dar um grito.
Quase morro de medo ao sentir o meu nome.
Penso que apenas numa hora o sangue encharcaria
a roupa de alto a baixo, enquanto
brilha o rosto.
Às vezes Deus torna-me rápido.
Às vezes há um candelabro.
Às vezes há os mortos de que se extrai o mármore.
Pelo poder do nome, traz-se a casa,
quarto a quarto,
até ao centro. Fazem-se profundas
casas de mármore. Mas nunca
serei branco nestas câmaras com um candelabro no meio.
Separam-nas membranas,
espelhos vivos, teias
de espelho. E de braços abertos, entre as suas imagens,
dormem as pessoas. Cerradas
com um galho de centelhas. E Deus não me perdoa a carnagem
sonora. Há um candelabro, uma cratera na sala,
ou é como se houvesse.
Nunca durmo.
Só tenho as mãos à frente, entre o rosto
e a fogueira.
Máxima visão, no abismo, de um planeta de quartzo.
sexta-feira, 6 de junho de 2025
90
Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua pa:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecei
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a
paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega
terça-feira, 4 de março de 2025
SANGUE NO ASFALTO
Sangue no asfalto
Envolto em ténues irradiações de pura emoção
terça-feira, 7 de janeiro de 2025
INCANDESCÊNCIA
mais
sexta-feira, 27 de dezembro de 2024
CHAMAMENTO
DESORDEM
Cobres os vidros das janelas
Recolhes os cães para a cozinha
Soltas os lobos que saltam as cancelas
Pões guardas atentos espiando no jardim
Madrastas nas histórias inventadas
Anjos do mal voando sem ter fim
Destróis todas as pistas que nos salvam
Depois secas a água
E deitas fora o pão
Tiras a esperança
Rejeitas a matriz
E quando já só restam os sinais
Convocas devagar os vendavais
Maria Teresa Horta. Eu Sou a Minha Poesia. Antologia Pessoal. Publicações Dom Quixote, 2019., p. 121
POEMA AO DESEJO
no meu ventre
enterra-a devagar até ao cimo
Que eu sinta de ti
a queimadura
e a tua mordedura nos meus rins
Deixa depois que a tua boca
desça
e me contorne as pernas com doçura
Ó meu amor a tua língua
prende
aquilo que desprende de loura
quarta-feira, 25 de dezembro de 2024
domingo, 15 de dezembro de 2024
ALÇAPÃO
o que omites acaba por ressurgir
como intruso escava uma saída
rasteja por vias desconhecidas
na distância do que pensavas perdido
e chega a tua casa antes de ti
TRISTEZA
não há pensamento que possa mudar
a tristeza, essa música minúscula
nem precisamos morrer para nos sentirmos mortos
quando a sua cabeleira varre a terra
e nos recolhe como flores
de uma coroa deposta
rogamos à vida que responda
mas a vida só se expressa na agulha dos fogos
em línguas desconhecidas
no soprar ora longínquo
ora próximo do vento
e quando abrimos a garganta
em busca de um fio de voz
ela tornou-se inaudível
como se jamais nos tivesse pertencido
CRONOMETRIAS
modos mais exactos de medir o tempo
o gotejar da água para a ânfora
o escorrer da areia, grão a grão
a viagem da sombra, como se não fosse
PARTIR SEM CHEGAR
o ramo do tamarindo onde te espera
o assobio do barqueiro
não é o primeiro
deverás tactear a escuridão da folhagem
e enganares-te tantas vezes
que te convenças que não sabes
estreita é a corrente invisível que nos conduz
por corredores, registos, águas em queda
àquele momento talvez involuntário
onde palavra dita e palavra calada
sábado, 23 de novembro de 2024
ADÍLIA LOPES
sou a casa-insecto
a mulher-osga
uma colher transformada em faca
para minúsculos riscos
sou uma constante cosmológica
de acelerar galáxias
um telegrama sinfónico
na ausência de tudo
sou a verdade que prefere não sair
do bairro
domingo, 10 de novembro de 2024
UMA VELA ACESA
sobrevém inesperado o temor:
um coração desce
à morada de outro coração
CALLE PRINCIPE, 25
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar
mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou
