Eugénio de Andrade, no livro “Poemas de Eugénio de Andrade”. Seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
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quarta-feira, 3 de junho de 2026
terça-feira, 4 de março de 2025
domingo, 29 de setembro de 2024
POEMA À MÃE
No mais fundo de ti,
eu sei que te traí, mãe.
eu sei que te traí, mãe.
Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.
Eugénio de Andrade, ''Os Amantes sem Dinheiro
domingo, 4 de dezembro de 2022
Adeus
Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade
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terça-feira, 2 de março de 2021
Adeus
Como se houvesse uma tempestadeescurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, minha boca nos teus olhos
carregada de flor e dos teus dedos.
Como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve - e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.
Como se a noite se viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
Digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde teu corpo principia.
Como se houvesse nuvens sobre nuvens
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.
Eugénio de Andrade
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021
'' (…) A moda é o Pessoa, coitado: dá para tudo;
e a culpa é dele, com aquela comovente
incapacidade para ser ele próprio.
De nada lhe serviu ter dito e redito
que a fama era para as actrizes.
Que vocação de carneiro têm as maiorias:
não há fúfia universitária ou machão
fardado que não diga que a pátria
é a língua ou a puta que os pariu.
(…)
Coitado, pensava ter tempo para pôr ordem
na arca, mas a morte veio antes da hora. ''
Eugénio de Andrade, “A Vitorino Nemésio, alguns anos depois”, 1983 (Ostinato Rigore/ Epitáfios, 1984)
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021
O SILÊNCIO
Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,
e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,
quando azuis irrompem
os teus olhos
e procuram
nos meus navegação segura,
é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,
pelo silêncio fascinadas
Eugénio de Andrade
Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,
e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,
quando azuis irrompem
os teus olhos
e procuram
nos meus navegação segura,
é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,
pelo silêncio fascinadas
Eugénio de Andrade
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poema,
poesia
sábado, 13 de junho de 2020
As Mães
Elas são as Mães, essas mulheres que Goethe pensa estarem fora do tempo e do
espaço, anteriores ao Céu e ao Inferno, assim velhas, assim terrosas, os olhos
perdidos e vazios ou vivos como brasas assopradas. Solitárias ou inumeráveis, aí as
tens na tua frente, graves, caladas, quase solenes na sua imobilidade, esquecidas de
que foram o primeiro orvalho do homem, a primeira luz. (p. 95)
Eugénio de Andrade
Eugénio de Andrade
“o pastor, a criança e a mulher de negro”
O artista plástico Jorge Pinheiro, numa conversa informal com
Eugénio de Andrade, perguntou-lhe quais eram os seus “fantasmas”.
Desassombradamente, o poeta respondeu: “o pastor, a criança e a mulher
de negro”.
segunda-feira, 9 de março de 2020
domingo, 17 de novembro de 2019
Do poema Canção do Passeio Alegre do livro Os Lugares do Lume:
«No inverno o vento está como deus/ em toda a parte: na cabeleira/ verde dos cometas, no extenso/ e turbulento sono dos rapazes,/ nos cegos fundamentos da alegria./ Peço-lhe que tenha piedade,/ que seja amável com os que não dormem/ debaixo de telha, que sorria a quem/ regressa a casa a desoras – a boca/ amarga do fermento da tristeza./ À semelhança de deus, o vento/ dança indiferente nas areias»
Eugénio de Andrade
«No inverno o vento está como deus/ em toda a parte: na cabeleira/ verde dos cometas, no extenso/ e turbulento sono dos rapazes,/ nos cegos fundamentos da alegria./ Peço-lhe que tenha piedade,/ que seja amável com os que não dormem/ debaixo de telha, que sorria a quem/ regressa a casa a desoras – a boca/ amarga do fermento da tristeza./ À semelhança de deus, o vento/ dança indiferente nas areias»
Eugénio de Andrade
domingo, 3 de novembro de 2019
«O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo de conhecimento,
que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, é a sua moral. E não há
outra. Nesse mergulho do homem nas suas águas mais silenciadas, o que vem à tona é tanto
uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o espírito humano atenta
mais facilmente nas diferenças que nas semelhanças, esquecendo-se, e é Goethe quem o
lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, tão fiel ao homem, acaba por ser palavra de escândalo no seio do próprio homem. Na verdade ele
nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que outros nem
sequer são capazes de imaginar. Palavra de aflição mesmo quando luminosa, de desejo
apesar de serena, rumorosa até quando nos diz o silêncio, pois esse ser sedento de ser, que é
o poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que procura é uma reconciliação, uma suprema
harmonia entre a luz e a sombra, presença e ausência, plenitude e carência.
Essa revelação do poeta, e dos outros com ele, essa descida ao coração da alma, de que
Heraclito encontrou a fórmula, essa coragem de mostrar o que achou no caminho – e nunca
é fácil, nem alegre, nem irresponsável revelar o que se encontrou ou sonhou nas galerias da
alma – é o que chamarei agora dignidade do poeta, e com ele a do homem. Porque é
sempre de dignidade que se trata quando alguém dá a ver o que viu, por mais fascinante ou
intolerável que seja o achado.
“O futuro do homem é o homem”, estamos de acordo. Mas o homem do nosso futuro não
nos interessa desfigurado. Este animal triste que nos habita há milhares de anos, cujas
possibilidades estamos longe de conhecer, é o fruto de uma desconfiguração – acção de
uma cultura mais interessada em ocultar ao homem o seu rosto do que em trazê-lo, belo e
tenebroso, à luz limpa do dia. É contra a ausência do homem no homem que a palavra do
poeta se insurge, é contra esta amputação no corpo vivo da vida que o poeta se rebela. E se
ousa “cantar no suplício” é porque não quer morrer sem se olhar nos seus próprios olhos, e
reconhecer-se, e detestar-se, ou amar-se, se for caso disso, no que não creio. De Homero a
São João da Cruz, de Virgílio a Alexandre Blok, de Li Po a William Blake, de Bashô a
Cavafy, a ambição maior do fazer poético foi sempre a mesma: Ecce Homo, parece dizer
cada poema. Eis o homem, eis o seu efémero rosto feito de milhares e milhares de rostos,
todos eles esplendidamente respirando na terra, nenhum superior ao outro, separados por
mil e uma diferenças, unidos por mil e uma coisas comuns, semelhantes e distintos,
parecidos todos e contudo cada um deles único, solitário, desamparado. É a tal rosto que
cada poeta está religado. A sua rebeldia é em nome dessa fidelidade. Fidelidade ao homem
e à sua lúcida esperança de sê-lo inteiramente; fidelidade à terra onde mergulha as raízes
mais fundas; fidelidade à palavra que no homem é capaz da verdade última do sangue, que
é também verdade da alma»
ANDRADE – Poesia e Prosa, p. 109-110.
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