I
sexta-feira, 17 de julho de 2026
“I want to know how it feels / 'Cause I / I only play act for-real”
I
ANTÓNIO BARAHONA
MEMÓRIA DO POETA QUE DEU AOS OUTROS A SUA POESIA
''A lenda de José Manuel Simões acompanhou a minha adolescência, por via do Manuel de Castro, que lhe votava uma amizade fiel e admirativa, bem expressa na simples dedicatória do seu primeiro livro, 'Paralelo W'.
Não cheguei a conhecê-lo pessoalmente. Quando, em 1957, comecei a frequentar o Café Gelo, ele já se ausentara para Paris.
Mystica de auto-destruição: eis a «doença» que ameaçava tornar-se epidemia de uma geração de príncipes navegadores, sem reino e sem rumo, apenas donos de lugar incerto e à deriva nas águas, em direcção ao Desconhecido.
***
Já morreram quase todos. Eu sou um último dos últimos.
Por iniciativa de Helder Macedo, a abysmo publicou as 'Sobras Completas', de José Manuel Simões.
Este livrinho, de irónico título, transportou-me para muitos anos atrás, ao tempo em que alternava a revolta política com angústia e desejo de suicídio, e o mytho do poeta maldito orientava o meu comportamento amoral e desenfreado.
'Sobras Completas', de uma obra genial a haver, não corresponde à lenda, não é genial, mas tão só (o que já não é pouco) um testemunho de uma época, poderosamente ingénuo, genuíno e generoso.
Testemunho de um grande poeta que deu aos outros poetas a sua poesia, em vez de ser ele próprio a escrevê-la.
Em memória de José Manuel Simões, que me deu, por intermédio do Manuel de Castro, este poemeto datado de 9 de Novembro de 1961, reescrito muitas vezes, mas sempre posto de lado, até que recuperou o centro e o sentido, exactamente 55 anos depois, hoje, 9 de Novembro de 2016.''
***
É noite
espero-te
fumo
como a chaminé dum hospital
Escrevo
palavras que nadam num aquário
Tenho peças de relógio perdidas nas veias
Sou um colar violento ao teu pescoço de planta
Fumo
e teço um manto de algas
para te cobrir ao menor sinal de chuva
O sangue flui
com os destroços e os ossos das horas
O cigarro pega fogo à noite
António Barahona, testemunho incluído no artigo de Diogo Vaz Pinto «José Manuel Simões. O poeta que quis a fuga, descobriu uma saída e tomou-a», 'Jornal i', 16 Nov. 2016.
José Manuel Simões, 'Sobras Completas', prefácios de Helder Macedo e José de Sá Caetano, Lisboa, abysmo, 2016.
'' Ontem fiquei a saber que uma professora de geografia fez sucesso ao dizer que adora classificar intens, resolvi ir ver o exame de geografia. Não ouvi a professora, confesso, estava a caminho de Ponte Sor, numa automotora que acompanha o Tejo, atravessa montados, e onde toda a gente se trata por tu, do maquinista à senhora que trabalha numa fábrica no Carregado, do revisor, que com ternura dá águas quando o ar condicionado pifa, ao agrónomo que ia me falando dos cavalos, dos javalis e , claro, dos jovens maquinistas em formação, em visita de estudo, que me dedicaram o seu sorrido, conversa e um deles até me mostrou a foto das bochechas de porco preto que comeu com a avó. Devolvi contando das grandes greves dos heróis ferroviários no século XIX. Não há calor que me tire de um comboio, o transporte mais belo do mundo. Se é uma automotora a 100 à hora, o dia foi perfeito. Walter Benjamin, filósofo, disse um dia que a revolução não é o comboio da história, é o travão de emergência. Eu, ali, na automotora a caminho de uma formação de professores, levava no colo Vigotsky, o mais importante psicólogo que explica no fundo como aprendemos e desenvolvemos o cérebro.
Através de um processo lento, muito lento, de passagem dos conceitos espontâneos aos científicos científico-teóricos, o que só pode ser feito na escola com professores que dominam o currículo e com leitura e escrita dos alunos (e claro muita didáctica). Não é possível dar um resultado, fazer um kahoot ou quiz, ou pedir uma escolha múltipla, e pensar que o aluno aprendeu e o seu cérebro de desenvolveu, tal coisa não existe. Felizmente.
Hoje acordei e lá procurei o exame de geografia. Preciso de vos fazer outro intróito. O meu pai conta aos netos todos os natais, mais de 20, que ganhou o prémio nacional de geografia na escola. Cá em casa a geografia é um mundo, sem sair do lugar o meu pai sabe todas as cidades, montanhas, agricultura, desenho de aldeias, rios do mundo; e sua relação com o Homem, que tipo de trabalho surge numa encosta, que arquitectura surge num vale virado a sul, porque as chaminés do Algarve são assim e de onde vêm, sei porque a lã que adoro é uma guerra, de caxemira, porque nas montanhas dos Pirenéus a resistência se escondia no Vale de Aran - gelado e isolado 4 meses por ano - porque a Jugoslávia, das montanhas, derrotou Hitler sem ajuda de tropas aliadas -; porque as camadas das terras negras da Ucrânia são desejadas; porque o latifúndio do Alentejo criou um tipo de sociologia, impossível no Gerês; porque os ventos do Mistral e do Tranmontana no Sul de França, onde vou em breve andar de bicicleta, podem originar fogos e em que direcção.
Quando os meus filhos entraram para a escola, há muito, fiquei estupefacta com o que era de facto fim do currículo de geografia. Tinham de saber índices de desenvolvimento dos países por ordem - IDH, uma classificação neo colonial dos anos 1990 do liberalismo social que desvia o tema da colonização económica dos países atrasados para o assistencialismo, da luta pelo fim da pobreza para o empreendedorismo assistencial -; eram os maiores especialistas em aquecimento global e reciclagem, sabiam onde colocar cada garrafa e não faziam ideia porque as cidades nasciam à beira de um rio, e como a nossa relação com a natureza é humana, uma construção de interdependência; não sabiam ler uma isóbara mas tinham muito "amor às árvores que gastam muito papel".
No exame actual, todo de escolha múltipla, devem opinar sobre a instalação de painéis solares; rede de transporte da União Europeia, enfim, por momentos parecia que a escola era um lugar não de conhecimento clássico mas de aptidão para aplicar o PRR. O que acompanha quase todos os currículos - de ciência e conhecimento da geografia humana para métricas, índices de economia matematizada (já não é economia social) e enfim, uma religião e moral de "cuidem muito da natureza". No caso da história o currículo vai sendo substituído pela moral da cidadania, em vez de se ensinar a colonização e lutas anti coloniais, ensinar a pensar historicamente, ensina-se a "tolerância".
A professora tem razão, carregar em botões rapidamente é muito mais fácil do que ler o desenvolvimento e demonstração de um argumento. Para aquele nível de "perguntas", a professora não será para o ano necessária, se as Deloittes e Microsofts da vida, estas ou outras, bem pagas pelos nossos impostos, fizerem bem o seu trabalho. A IA - depois dos dados que foram digitalizados neste julho e classificados, dando milhões de instruções gratuitas à IA - vai classificar muito melhor. E os professores podem em julho ir fazer seleção de recursos humanos, que é o que as escolas estão a fazer para o Ministro dizer que despachou 50% do Ministério.
É mais ou menos o que mesmo que se passou com o jornalismo, que só um ano depois do fim do Ministério (tirando o nosso querido Maio), descobriu que não havia Ministério. Se uma peça de informação é uma investigação de fundo crítica não pode ser feita com IA, se é um resumo de agência de comunicação, a IA faz melhor.
A professora que "adora classificar itens" não se preocupe, depois dos dados que os professores entregaram na "inovação" da digitalização, estas questões que não exigem conhecimento abstracto e crítico, vão ser classificadas pela IA. A professora defender um comboio de inovação a 400km hora a espetar-se numa bolha financeira, guerra e retrocesso cerebral, porque isto mexe nos circuitos neurais dos alunos. Eu como Benjamin, e alguns países, digo que numa sala de aula o aparelho tecnológico mais desenvolvido é a linguagem, a voz, a escrita e a leitura. Somos o travão do comboio desgovernado, como uma automotora (vá lá, com ar condicionado).
Salvam-nos os professores, tantos, que resistiram, os que o PM despreza, porque se recusaram a receber trabalho ao fim de semana e noite que não visava salvar a educação dos alunos mas o enterro da própria ideia de educação; os que meteram baixa, preferiram ficar sem salário uns dias do que embarcar nisto, numa insanidade digital que destrói o cérebro dos alunos; os que disseram em público sem medo que um exame não se classifica, muito menos por itens; que avaliar conhecimentos não é dar escolha múltipla. Que bolinhas e cruzinhas é abandonar os jovens das classes médias e trabalhadoras à ignorância que permite a manipulação de políticos que fazem e dizem sem vergonha as maiores ignomínias. Salvam-nos os professores que quando o PM pediu resiliência responderam com resistência.
Hoje encontramo-nos professores, pais, alunos, nas vigílias, há em Lisboa, Porto, Coimbra, Covilhã, não deixaremos que façam da escola uma aplicação da uber eats. Quem quiser vir na automotora connosco e apoiar a luta contra a digitalização da educação pode escrever para este email
manifestoeducacao@proton.me
Vigilias Hoje "Educar não é Digitalizar", 20 horas
Lisboa- Assembleia da República
Porto - Câmara Municipal
Coimbra- Praça 8 de maio
Covilhã - Praça do Município
Leiria - Fonte Luminosa''
quinta-feira, 16 de julho de 2026
''O que é o luto, senão o amor que permanece?''
"Nunca experimentei a perda porque eu nunca tive uma pessoa amada para perder. Mas o que é o luto, senão o amor que permanece."
Série da Marvel, WandaVision.quarta-feira, 15 de julho de 2026
No aniversário da diva
apressados, e caem muitas penas
Passam por nós os anos: são cavalos
nervosos frente aos toiros nas arenas
Mas não envelhecemos sempre esperançados
na juventude eterna que não deixa marcas
Estamos marcados desde que nascemos,
transviados por onde não há estradas:
somente caminhadas sem sair de becos,
miragens de desertos nos confins das ilhas
Passam por nós os anos e só fica
um sulco que se fecha na memória em ferida
António Barahona
senti os teus lábios no corpo todo;
trazias um saco plástico com cerejas.
Passamos o começo da tarde a conversar
com a boca cheia de sangue.
Antes de ires embora,
tivesse vontade de fazer xixi.
A minha tristeza foi tremenda
na previsão da tua ausência:
escutei atentamente a urina
a cair na água da sanita,
enquanto enfiava pérolas
em fios de lágrimas.
António Barahona, in Raspar o Fundo da Gaveta
POÉTICA DA TRANSCRIAÇÃO
Transcriar: decalcar até ao osso
o corpo do poema bem-amado,
até ao mais profundo do seu espírito
oculto em cada eco que soletro
Transportar o poema com seu pêso,
suas plumas de jaspe bem esculpido,
dormir com ele ao lado em qualquer sítio
até tornar o sono em som desperto
Reescrever mil vezes o mesmo verso
De rima pobre, rico d’universo
em nobre melopeia ritual
Recuperar mil vezes o espontâneo
verso, dado por Deus e rasurado
até fazer buracos no papel
António Barahona
(Lisboa, n. 1939)
in “Pássaro-Lyra”, Editora Averno, Lisboa, 2015
Neste silêncio
Neste silêncio oculto onde as tuas mãos se deslumbram a cada movimento, subsistimos com o peso do crepúsculo e a miséria da guerra.
Inútil a nossa vida, inútil a vida dos outros, quando o amor é um pássaro dentro duma gaiola no deserto. Inútil toda a simbologia funcional das imagens, porque ao homem é dado o sonho com o sentido das coisas.
De bruços sobre a areia, descanso as pálpebras no mar. A minha ociosidade é um peixe de prata adormecido nas ondas, um barco sem dono ancorado na doca. E hei-de morrer assim contigo, companheira ou ilusão do meu cansaço, porque a verdade que trouxemos é um trapézio vazio num circo em ruínas, uma flor no trapézio e muitos gatos a assistir até ao dia nunca mais do horizonte livre.
António Barahona, in “Poemas e Pedras”, Ed. Autor, Lisboa, 1962
porque são eles os demolidores do meu pensamento
Não participo desta razão comum de existir
porque luto dia a dia com sons e signos ocultos
para a invenção doutra linguagem
que não descobrirei
— sei-o perfeitamente —
mas a necessidade de estar só
dentro de um universo opiado e infinito
obriga-me a estender os cabelos no exílio
António Barahona in “Pássaro-Lyra”, Averno, Lisboa, 2015
Na pastelaria do costume
Agora já não eram marido e mulher.
Encontravam-se, às vezes, na pastelaria
até que não houvesse nada para dizer.
Depois, ficavam em silêncio alguns minutos,
a contemplar o movimento e o som da rua,
ele também a contemplava, toda nua,
por dentro dos seus olhos castos muito abertos.
Mas, ela já se ergue alta da cadeira,
na elegância do seu corpo, musa magra,
cuja beleza, encanto e alma são de cabra
de montanha, com maquilhagem muito sábia.
Ele também se ergue e oferece o seu braço
e sente um peso que é leveza e lhe dá asas,
e, enquanto caminha, plana sobre as casas,
com a alegria da morte ao rubro, passo a passo.
ORIENTAÇÃO
para esquecer. Amei algumas mulheres
para lembrar. Agora já posso dizer
o som em carne viva.
A cidade assemelha-se a um acampamento
abandonado no deserto. Os nómadas
partiram nos seus camelos, com provisão
de tâmaras e água.
Há restos de detritos, sinais de trânsito,
folhas arrancadas a revistas pornográficas,
ao sabor do vento, por entre pétalas sêcas.
Há resíduos de sítios onde estive contigo,
fragmentos de versos de vidro, tudo
muito nítido, anotado, vincado a oiro.
António Barahona, 'O Som do Sôpro', Lisboa, Poesia Incompleta, 2011.
quinta-feira, 9 de julho de 2026
Marit Beer analogue photographer living and working in Berlin/Germany.
I can't seem to make you mine | The Seeds
I can't seem to make you mine
Flyin' around like a bee
Hurtin' everything you see
I tried everything I know
To make you wanna love me so
The only thing you do
Is try to put the hurt on me
You fill my heart with misery
With every breath and step I take
I'm more in love with you
A little bit of love, not one kiss
I gotta have your love everyday
A love that's real that'll stay
I can't seem to make you mine
I can't seem to make you mine
End my misery
I give you love night and day
Don't ever ever go away
I can't seem to make you mine
Come back darlin', 'cause I need your love
Come back, 'cause I wanna love ya
Girl, I wanna love ya tonight
I can't seem to make you mine
I can't seem to make you mine
I can't seem to make you mine
as sirigaitas e as flausinas
« Que diacho, tia Madge. (Que diacho!) Até eu uso palavras fora de prazo. E para onde é que foram todas as sirigaitas e as flausinas?
Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 46
destinatária de cravos rejeitados
«Do que é que estavas à espera, na cidade da Flor Memória?, disse de si para si. E agora oferecem-me a quantidade de cravos rejeitados que eu quiser e talvez nunca saiba por que os rejeitaram. Quem sabe, pensou, sentindo o cansaço a dominá-la e a rebelar-se contra uma confusão estúpida que lhe apanhava a cabeça, se não somos todos uns rejeitados num mundo de rejeição e não sabemos nem sonhamos que ao mesmo tempo há flores escolhidas que brotam num mundo perfeito. Num mundo em que os critérios da perfeição ou se perderam ou são secretos, sentia-se satisfeita, agora, por estar por dois meses na Nova Zelândia, por ser destinatária de cravos rejeitados.»
Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 35quarta-feira, 8 de julho de 2026
«BERALDO: Santo Deus, meu irmão, isso são puras ideias com que gostamos de nos alimentar; não é de agora que as ilusões se instalam na vida dos homens, e porque nos afagam, porque gostaríamos que fossem verdade, acabamos por acreditar nelas.»
Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 110«, e a maioria dos homens morre mais depressa da cura do que da doença.»
Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 110
''pomposo galimatias''
Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 109
segunda-feira, 6 de julho de 2026
Lilac Wine
I lost myself on a cool damp night
Was hypnotized by a strange delight
Under a lilac tree
Put my heart in its recipe
It makes me see what I want to see
And be what I want to be
Do things I never should do
I drink much more than I ought to drink
Because it brings me back to you
Lilac wine, I feel unsteady, like my love
Listen to me, I cannot see clearly
Isn't that she coming to me nearly here?
Lilac wine, I feel I'm steady, where's my love?
Isn't that he, or am I just going crazy, dear?
Feel I'm ready for my love
''Você nunca será feliz se continuar a procurar aquilo que consiste a felicidade. Você nunca viverá se estiver procurando o sentido da vida. Da mesma forma, as emoções mais férteis serão perdidas para você se insistir em analisá-las. Ouça a minha loucura. ”
Cryin' all the time
Just cryin' all the time
And you ain't no friend of mine
Well, they said you was high-classed
Well, that was just a lie
Well, that was just a lie
Yeah, you ain't never caught no rabbit
And you ain't no friend of mine
Cryin' all the time
You ain't nothin' but a hound dog
Cryin' all the time
And you ain't no friend of mine
Well, that was just a lie
Yeah, they said you was high-classed
Well, that was just a lie
Well, you ain't never caught no rabbit
And you ain't no friend of mine
Well, that was just a lie
You know they said you was high-classed
Well, that was just a lie
Yeah, you ain't never caught no rabbit
And you ain't no friend of mine
Cryin' all the time
You ain't nothin' but a hound dog
Cryin' all the time
Well, you ain't never caught no rabbit
You ain't no friend of mine
While Elvis Presley made the song a global rock-and-roll phenomenon when he released his version in 1956, Thornton’s original recording—produced by Johnny Otis and written by Jerry Leiber and Mike Stoller—was a massive R&B hit''
domingo, 5 de julho de 2026
« ARGÃO: Como vos disse, meu coração, e como reconhecimento pelo amor que me dedicais, quero fazer o meu testamento.
BELINA: Ah! Minha doçura, não falemos disso, peço-vos; não poderia suportar tal ideia, estremeço de dor só de ouvir a palavra ''testamento''.
ARGÃO: Tinha-vos dito que falásseis neste assunto ao nosso notário.
BELINA: Está lá dentro, veio comigo de propósito
ARGÃO: Fazei-o entrar, amorzinho.
BELINA: Infelizmente, minha doçura, quando é muito o amor que sentimos por um marido não nos é possível pensar nestas coisas.»
Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 53Pentelhices
«ARGÃO: Não se deve dizer pentelhices.
TONIETA: Meu Deus, eu conheço-vos, vós sois naturalmente bom.
ARGÃO: (Exaltando-se.) Não sou nada bom, e sou mau quando quero.»
Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 49''Uma boa alma tem sempre boas razões.''
Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 44
«Ao vosso espírito falta presença,»
Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 30
Quando da neve derretida nasce uma poderosa torrente,
Contra a força repentina das suas águas de escuma
Nada é firme e resistente:
Diques, castelos, cidades e bosques,
Homens e rebanhos,
Tudo cede à vantagem da corrente.
Mais orgulhoso ainda e com mil destrezas,
Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 28
«Encarcerado na sua própria casa, Argão governa-se a si próprio para governar os outros. Esta será talvez a mais profunda razão da sua aparente resignação. Na verdade, sentir-se superior ao comum dos mortais permite-lhe iludir a morte que tanto teme.»
in Prefácio, Alexandra Moreira da Silva
Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 19
Remember when you came to me and told me of his lie?
You didn't understand my love, you don't know why I try
Wrapped in bitter tales and heartache, he begs me just to smile
Oh, he never asked to be a mountain, he never asked to fly
And through his eye he combs his love and tells him not to cry
And with her stolen cards he plays and laughs but never wins"
Oh, the child dreams to be his hands in the counting of his pain
But only barren breasts he feels for her milk will never drain
Where I saw the rain
Could it be that a laughter drove me down again?
Is it me that you feel in your dreams, or will you see?
In midnight gazes I found you far from me
If you lead me on, please lead me down
Yes, you can drink my lines, but first you read my eyes
Each one is titled "I'm Drowning Back to You"
I can't swim your waters and you can't walk my lands
I'm sailing all your sins and I'm climbing all my fears
And soon I will die
Remember when you came to me and told me of his lie?
You didn't understand my love, you don't know why I try
homens alienados
algemados por deuses de escorbuto e trigo
suspeitos de atearem fogo a uma nuvem de salsugem
nuvem-salto-em-altura
mais baixa que um sonho a preto e branco de Freud
que uma doce e dançante formiga nova-iorquina.
fui hoje até ao mar:
o mesmo que um dia engolirá a fome das luas
das criaturas prematuras
Manhattan
o azar ao jogo do czar
a raiva de não haver maré vazia até ao infinito.
agora
matilhas de dunas famintas cobrem os céus de carne
e os camaleões inventarão
a conta olhos
(encadeando os corsários)
o novo daltonismo das ondas.
encarceramento
«A dependência que criam nos pacientes pode ser analisada como uma verdadeira estratégia de encarceramento e, tal, como acontece com os pobres e marginais da sociedade encerrados no Hospital Geral parisiense, estas estratégias de poder são exercidas sobre os mais fracos e vulneráveis, ou seja, sobre aqueles que rapidamente se tornam vítimas do medo e se sentem paralisados perante a ideia de morte.»
in Prefácio, Alexandra Moreira da Silva
Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 16
''melancolia hipocondríaca''
Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014.
Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014.
o amor exige confiança
a minha avó fazia canja,
escolhia uma galinha da capoeira,
todas as galinhas tinham nome,
a avó chamava a galinha e a galinha vinha,
o amor exige confiança.
Raquel Serejo Martins
Arca de Noé mental
Gonçalo M. Tavares
mito de Sísifo
adaptado ao contemporâneo
Alÿs’ poetic performances have much in common with Debord’s notion of psychogeography; described as ‘a compulsive wanderer’, he himself states,
…I spend a lot of time walking around the city… The initial concept for a project often emerges during a walk. As an artist, my position is akin to that of a passer-by constantly trying to situate myself in a moving environment. My work is a succession of notes and guides. The invention of a language goes together with the invention of a city. Each of my interventions is another fragment of the story that I am inventing, of the city that I am mapping.
Francis Alÿs''sou contra a ideia da escrita como distração, da escrita para pessoas cansadas.''
Gonçalo M. Tavares
sábado, 4 de julho de 2026
conhecia o luxo filosófico de ter tempo para pensar
«(...), Mattina conhecia o luxo filosófico de ter tempo para pensar, para observar, para raciocinar e para sonhar, luxo bem mais frequente numa vida inteira sem preocupações de dinheiro do que após uma súbita libertação dessas preocupações: os ricos sem experiência de serem ricos podem injectar tormento no luxo.»
Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 27.jpg)

