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sábado, 18 de julho de 2026




Tenho braços tenho remos
tenho navios no mar
tenho um amor tão bonito
não me deixam namorar

Não me deixam namorar
não mo deixam sequer ver.
Vai-me a lembrança tão alto
qu’ inda me deita a perder

Inda me deita a perder
na cama grande do mar
Tenho um amor tão bonito
não mo deixaram ficar

Não mo deixaram ficar
por mor da satisfação
de quem nega moradio
à casa do coração

À casa do coração
aos seus quartinhos de altar
Tenho um amor tão bonito
não me deixam namorar

— Não chores filha não chores
que o teu pranto leva o mar
Água que sai dos teus olhos
ninguém na pode sarar

Prisão fosse a sua casa
o seu quarto, calabouço.
E cadeias os meus braços
à roda do seu pescoço

À roda do seu pescoço
como prenda tão subida
que não se me dava a mim
de prendá-la toda a vida

De prendá-la toda a vida
como a vela prenda a vante
Ela, de branco vestida,
eu, vestido de almirante

Eu vestido de almirante
sobre esta roupa que tenho
tão farta do meu tamanho
de escuna sem mar diante

— Não chores homem não chores
que te vão envergonhar
Água que sai dos teus olhos
ninguém na pode apagar

Mário Cesariny,
in Poesia, ed. Assírio & Alvim
Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça

Mário Cesariny


Eu sempre, Mário Cesariny



Eu sempre a Platão assisto.
Pessoalmente, porém, e creia que não
Tenho qualquer insuficiência nisto,
Sou um romano da decadência total,
Aquela do século IV depois de Cristo,
Com os bárbaros à porta e Júpiter no quintal.

Mário Cesariny

domingo, 5 de fevereiro de 2023



no país no país no país onde os homens
são só até ao joelho
e o joelho que bom é só até à ilharga
conto os meus dias tangerinas brancas
e vejo a noite Cadillac obsceno
a rondar os meus dias tangerinas brancas
para um passeio na estrada Cadillac obsceno

e no país no país e no país país
onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço
e o pescoço que bom é só até ao artelho
ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,
chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,
recordo os meus amores liames indestrutíveis
e vejo uma panóplia cidadã do mundo
a dormir nos meus braços liames indestrutíveis
para que eu escreva com ela, só até à ilharga,
a grande história de amor só até ao pescoço

e no país no país que engraçado no país
onde o poeta o poeta é só até à plume
e a plume que bom é só até ao fantasma
ao passo que o fantasma – ora aí está –
não é outro senão a divina criança (prometida)
uso os meus olhos grandes bons e abertos
e vejo a noite (on ne passe pas)

diz que grandeza de alma. Honestos porque.
Calafetagem por motivo de obras.
relativamente queda de água
e já agora há muito não é doutra maneira
no país onde os homens são só até ao joelho
e o joelho que bom está tão barato

“IX”, do “Discurso sobre a reabilitação do real quotidiano”, Mário Cesariny

domingo, 30 de maio de 2021



Burgueses somos nós todos
ó literatos
burgueses somos nós todos
ratos e gatos

Mário Cesariny

quinta-feira, 13 de maio de 2021

 Era uma vez dez meninas

de uma aldeia muito probe.
Deu um tranglomanglo nelas
não ficaram senão nove.

Era uma vez nove meninas
que só comiam biscoito.
Deu um tranglomanglo nelas
não ficaram senão oito.

Era uma vez oito meninas
em terras de dom Esparguete
Deu um tranglomanglo nelas
não ficaram senão sete.

Era uma vez sete meninas
lindas como outras não veis.
Deu um tranglomanglo nelas
não ficaram senão seis.

Era uma vez seis meninas
em landas de Charles Quinto.
Deu um tranglomanglo nelas
não ficaram senão cinco

Era uma vez cinco meninas
em um triângulo equilatro.
Deu um tranglomanglo nelas
não ficaram senão quatro.

Era uma vez quatro meninas
qu'avondavam só ao mês.
Deu um tranglomanglo nelas
não ficaram senão três.

Era uma vez três meninas
em o paço de dom Fuas.
Deu o tranglomanglo nelas
não ficaram senão duas.

Era uma vez duas meninas
ante um home todo espuma.
Deu um tranglomanglo nelas
transformaram-se em só uma.

Era uma vez uma menina
terrada em terral (coval) mui fundo.
Deu um tranglomanglo nela
voltaram as dez ao mundo.

Mário Cesariny de Vasconcelos

domingo, 12 de fevereiro de 2017

“Ernesto Sampaio tinha a grande rebeldia e a grande inteligência. Dentro do grupo surrealista, era dos mais lúcidos, dos que mais sabiam (…). Um sentido de humor formidável, uma agudeza de espírito extraordinária, amabilíssimo. Uma figura muito rara, de saber e dedicação (…) Desde a morte de Fernanda Alves, já não sabia viver. É a única pessoa que conheço que morreu de amor”.

Mário Cesariny

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Ruy Belo, Mário Cesariny, Herberto Helder

'' três grandes rios da poesia portuguesa'', na opinião de João Barrento

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Cesariny “os gatos são os únicos burgueses/ com quem ainda é possível pactuar –/ vêem com tal desprezo esta sociedade capitalista!/ Servem-se dela, mas do alto, desdenhando-a…/ Não, a probabilidade do dinheiro ainda não estragou inteiramente o gato/ mas de gato para cima – nem pensar nisso é bom!”

domingo, 31 de janeiro de 2016

Teixeira de Pascoaes, poeta bem mais importante, quanto a
nós, do que Fernando Pessoa.

MÁRIO CESARINY, 1973

sábado, 9 de janeiro de 2016

"partimos de noite como dois operários. Assim eu venho para a grande fractura frente ao palácio. A princesa repousa da sua casa, trago-lhe o direito ao abandono nela. É encarregado da obra e da palavra, amigo da bondade e da beleza, o meu cão."
"Primavera Autónoma das Estradas"
- Mário Cesariny
"a vida é bela . comecemos
primeiro: o maior descanso
segundo: a maior liberdade
terceiro: o tratar-se dos pés
quarto: queimar"
-"Primavera Autónoma das Estradas"
- Mário Cesariny

domingo, 18 de maio de 2014

terça-feira, 25 de março de 2014

3.ª Voz

Tudo isto tem a ver com o conhecimento
de um pequeno jardim no meio da cidade
quando o sono e o silêncio despovoam a terra
e o último vagabundo entra a porta sem número
e vai desaparecer correndo pelo telhado

(breve pausa)


- MÁRIO CESARINY

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

domingo, 27 de março de 2011

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

É importante foder (ou não foder)?
É evidente que não, não é importante.
Fode quem fode e não fode quem não quer.
Com isso ninguém tem nada
Mas mesmo nada
A ver.

O que tanto me tolhe é não poder confiar
Numa coisa que estica e depois encolhe,
Uma coisa que é mole e se põe a endurar e
A dilatar a dilatar
Até não se poder nem deixar andar
Para depois se sumir
E dar vontade de rir e d'ir urinar.

Isso eu o quis dizer naquele verso louco que tenho ao pé:
«O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é»
Verso que, como sempre, terá ficado por perceber (por mim até)
................................................................................................................
Também aquela do «outrora-agora» e do «ah poder ser tu sendo
eu» foi um bom trabalho
Para continuar tudo co'a cara de caralho
Que todos já tinham e vão continuar a ter
Antes durante e depois de morrer.


Mário Cesariny. Cesariny Uma Grande Razão os poemas maiores. Assíro & Alvim. Lisboa, 2007.,p.141

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

discurso ao príncipe de epaminondas, mancebo de grande futuro

Despe-te de verdades
das grandes primeiro que das pequenas
das tuas antes que de quaisquer outras
abre uma cova e enterra-as
a teu lado
primeiro as que te impuseram eras ainda imbele
e não possuías mácula senão a de um nome estranho
depois as que crescendo penosamente vestiste
a verdade do pão a verdade das lágrimas
pois não és a flor nem luto nem acalanto nem estrêla
depois as que ganhaste com o teu sémen
onde a manhã ergue um espêlho vazio
e uma criança chora entre nuvens e abismos
depois as que hão-de pôr em cima do teu retrato
quando lhes forneceres a grande recordação
que todos esperam tanto porque a esperam de ti
Nada depois, só tu e o teu silêncio
e veias de coral, rasgando-os os pulsos
Então, meu senhor, poderemos passar
pela planície nua
o teu corpo com nuvens pelos ombros
as minhas mãos cheias de barbas brancas
Aí não haverá demora nem abrigo nem chegada
mas um quadrado de fogo sobre as nossas cabeças
e uma estrada de pedra até ao fim das luzes
e um silêncio de morte à nossa passagem




Mário Cesariny. manual de prestidigitação. Assírio & Alvim, 1981. Lisboa., p.147
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