sábado, 28 de março de 2026

Les mots bleus

"Quero morrer bonita"

 "Quero morrer bonita",

pediu Noelia Castillo Ramos

''Como se escolhe o vestido certo para morrer?''

“I am not what you think I am.”

 Porcile (1969) dir. Pier Paolo Pasolini

“I am not what you think I am.”
The film unfolds through two parallel narratives: one set in a barren, undefined past where a young man becomes a cannibal and forms a primitive, lawless existence; the other in modern Germany, where Julian, the son of an industrialist, lives in quiet rebellion against his family and society.
Pier Paolo Pasolini juxtaposes these stories to expose the persistence of violence beneath civilization. The archaic world is raw and instinctual, while the contemporary setting appears controlled and rational—yet both conceal forms of brutality and moral decay.
The visual style shifts between stark landscapes and rigid, composed interiors, reinforcing the contrast between instinct and repression. Performances, including Jean-Pierre Léaud as Julian, are deliberately restrained, emphasizing alienation and emotional detachment.
Rather than offering resolution, the film confronts the viewer with disturbing parallels, suggesting that modern structures of power are not far removed from primal violence. It becomes a critique of bourgeois society, authority, and the mechanisms that normalize cruelty.
Premiering in 1969, the film remains one of Pasolini’s most provocative and unsettling works, emblematic of his radical engagement with politics, philosophy, and human nature.
Production Companies
Euro International Film
Arco Film


 “Writing is an integral part of the process of understanding... because certain things are laid down. Let's suppose I had a very good memory and remembered everything I think: knowing my own laziness, I very much doubt I would have ever noted anything down. What counts for me is the process of thinking itself. When I have that, then I am quite content personally. If then I succeed in adequately expressing it in writing, I am content again.”


Hannah Arendt
“What really knocks me out is a book that, when you're all done reading it, you wish the author that wrote it was a terrific friend of yours and you could call him up on the phone whenever you felt like it. That doesn't happen much, though.”

 J.D. Salinger

 [7 anos sem Patrícia Baltazar]

III
Não sei falar. Nunca soube. Fico exausta quando falo. Todos vocês devem ficar a saber disto. Nunca chego a dizer exactamente aquilo que pretendo - fica sempre do outro lado do vidro. Daí a poluição que me envolve. Um pranto.
Derivo das várias posições no mundo. Da ignorância, de todos os poemas que comi, de todos os livros, todos os ídolos (geralmente esquisitos), todos os palcos e cinemas, balcões, da família, de todos os amigos. Raros no mundo. Valiosíssimos. Eu sou eles todos e as viagens que nunca fiz. Sou tudo isso. Não há mais ou menos importância em nada, especificamente - tudo isto é o meu sangue no papel.
Tenho várias salivas. Vário géneros. Acumulei rostos e corpos. E o teu, o teu, o teu, o teu e ainda o teu, continuam guardados, para sempre, em todos os meus lugares. Eu sou tudo o que
vocês fizeram de mim. E tu, meu amor, tu dormes ainda na minha cama. Planetas nos olhos. Tecendo melodias. Trazendo gengibre na boca. Para a minha boca. O teu tear.
Importante é dizer-vos que trago fruta para todos. Flores. Paciência. Coração. Mesa. Uma lareira. Delícias. Espaço. Muito espaço. Jacarandás para ti, Mário! Jacarandás para sempre. Também para ti, todo o Rossio em Junho. Abraços com força e ombro. Manta. A minha intenção é dar-vos uma coisa impossível à partida. Uma invenção.
E estou longe. Estou muito longe para mim.
Passa por aqui, várias vezes por dia, um único pardal. E nem ele, mais solitário que eu, me cumprimenta.
Patrícia Baltazar
1977-2019
FUMAR MATA, ed. Ediresistência

 


SOLARIS, Andrei Tarkovsky



“The traditional statement about language is that it is in itself living, and that writing is the dead part of language.”

Jacques Derrida


[ C’est ma faute
c’est ma faute
c’est ma très grande faute d’orthographe
voilà comme j’écris
giraffe.

J’ai eu tort d’avoir écrit cela autrefois
je n’avais pas à me culpabiliser
je n’avais fait aucune phaute d’orthografe
j’avais simplement écrit giraffe en anglais. ]

Poème '' Sans faute '' de Jacques Prévert

Amor feinho

Amor feinho
Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.


Adélia Prado, em "Bagagem". Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Monstera Variegata

Costela-de-adão


Ó meu amor! ó meu damasco, ó minha seda
Álvaro de Campos

 
Ó meu amor! ó meu damasco, ó minha seda,
Ó meu guizo de prata,
Meu colar de pérolas deixado em cima da cómoda,
Minha aliança de ouro em dedos já velhinhos e fieis,
Minha cantiga de raparigas ao poente,
Ó meu fumo de cigarro, tão inútil e tão necessário,
Minha Bíblia para as crianças brincarem,
Minha amante que eu queria trazer ao colo como uma filha...
Olha, tenho as mãos em febre...
Tenho a testa a escaldar, tenho os olhos muito estranhos...
Todos olham para o brilho dos meus olhos e espetam-se neles...
Eu tenho febre e tenho sede e lembro-me de ti por causa disso
Porque se eu te tivesse como te quereria ter
(Não sei se é de um modo físico, ou de um modo psíquico)
Eu não teria nem febre, nem sede, nem a testa a arder,
Nem os olhos secos, muito secos, sob a fronte...
Tu não sabes o que tem sido a minha vida!...
Tu não sabes que martírio tem sido o meu...
Se tu soubesses o que é amar as coisas simples e calmas
E não ter jeito para procurar senão as outras coisas!
Se tu soubesses porque é que quando eu estou na minha quinta de dia
Tenho saudades dela como se não estivesse lá...
Se tu soubesses o que eu sinto à noite, nos hotéis, pelas ruas,
Se tu soubesses! Mas eu próprio não sei o que é que sinto...
Minha lantejoula, minha casa de bonecas,
Ó meus brinquedos da minha infância atados com cordéis!
Ó meu regimento que passa com a banda à frente,
Minha noite no circo, nos cavalinhos, a rir dos palhaços...
Ó minha (...)
s.d.
Poemas de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. (Edição crítica de Cleonice Berardinelli.) Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990.
- 325.

Society's Child (Baby I've Been Thinking)

Shirin Neshat

 


Falo pouco. Falo pouco e cada vez falo menos. Em primeiro lugar porque me distraio e esqueço o assunto das conversas e em segundo lugar porque as pessoas não esperam que lhes responda mas que as oiça, o que é fácil se acenar que sim de vez em quando e disser
– Pois claro
quando me olham de sobrancelhas levantadas à espera de concordância e aplauso. Tornei-me um especialista do
– Pois claro
(...)

 
António Lobo Antunes, Crónicas, “A Minha Morte” (1993)

desaparecimento

Consultório de Freud

 ''Faço psicanálise há muitos anos e tomo anti-depressivo há seis anos.

Acho grave, ofensivo, além de muito estúpido, dizer (há uma senhora de quem nunca ouvi falar que o diz nas redes sociais) que as pessoas que tomam anti-depressivos são fracas. Desconsiderar a depressão e o problema da saúde mental tem consequências.
Sou outra pessoa por ter conseguido pedir ajuda. E não hesitei em tomar um anti-depressivo quando compreendi que a minha depressão era também química, motivada pelas alterações no meu corpo doente (e que não fosse).
Pus em https://anabelamotaribeiro.pt entrevistas com os psicanalistas Coimbra de Matos e Seabra Diniz, bem como uma leitura de "Análise - Notas do Divã" de Vera Iaconelli.
"Era um rapaz com 12 para 13 anos, que estava com grandes crises de ansiedade, acordava de noite. Tinha um ar maduro para a idade, com alguma reserva. Percebi, à medida que fomos falando, porque é que tinha as suas crises de ansiedade. A mãe tinha um cancro. Ele sabia que o cancro era incurável e que a mãe ia morrer."
A fotografia é no consultório de Freud.

Post no Facebook da Anabela Mota RibeiroSou jornalista, escritora e programadora cultural. 
http://anabelamotaribeiro.pt


 Landgrave Ou Maria Helena Vieira da Silva
de Sophia de Mello Breyner Andresen

Lugar de convocação como um poema muito antigo.
Lugar de aparição. Diálogo do visual e da visão. Onde do visível emerge a aparição. Assim no verso de Pascoaes vemos «O que há de aparição no seio da aparência».
Um rebrilhar de teatro. Multiplicando a luz imaginária da noite.
A luz inventada da noite.
As paredes, o chão, o tecto avançam para o fundo. Mas no fundo outro espaço desponta. E em cada espelho um novo espaço nasce.
É um lugar onde tudo está atento, denso de memória e de veemência. Lugar de revelação, de espanto e cismar e descobrimento.
As cores estão acesas como as luzes de um teatro à hora da representação. O mundo é «re-presentado», tornado mais uma vez presente. O ar está queimado pelas luzes como o ar de um palco.
Todas as cores se reflectem umas nas outras. Há um difuso tremular luminoso como o das escamas de um peixe. Os múltiplos espelhos formam uma rede de escamas: amarelas, cor de barro, cinzentas, rosadas, negras, cor de nácar, cor de pedra. Um pouco atrás as musas da penumbra tocam suas finas flautas. É o rigor da música que estrutura a ordem das formas, as variações, o retomar dos temas, o contraponto da repetição.
Reconhecemos o tão atento olhar. Os olhos muito abertos como os olhos que estão pintados à proa dos barcos. O olhar que busca o aparecer do mundo, o surgir do mundo, o emergir do visível e da visão. Reconhecemos a viagem, a longa navegação, a memória acumulada. A atenção da Sibila, da bússola, do sismógrafo, da antena.
Fevereiro de 1988


Sophia de Mello Breyner Andresen, in ‘Ilhas’

“This love of ours has driven me to madness.”

 Kenji Mizoguchi's Ugetsu Monogatari (1953)

Sobre a história de resistência da Noelia Castillo Ramos

«Há dias que aquela imagem não me sai da cabeça. Tem-me assaltado amiúde. Foram segundos, mas bastaram; o sorriso simbólico, verdadeiro, marcado pelo orgulho, foi partilhado de maneira tão genuína. Durante aquela troca de olhares, pareceu-me que, à volta, o mundo entrou numa ligeira pausa, entre mim, aqueles dois cigarros, o poder de uma imagem e as recordações de uma infância que se fez muito por ali.»

Crónica do jornalista Pedro Lemos, no jornal Sul Informação

terça-feira, 24 de março de 2026

 


                                                                    Władysław Pawelec

''sexualidade proscrita''

 Louise Bourgeois

''seios fálicos''

 Louise Bourgeois

prometeica

 


Louise Bourgeois (1911–2010) was a French-American artist

''relação fantasiosa''

indefectível

abécula

I Had a Flashback of Something that Never Existed,

 



Louise Bourgeois. I Had a Flashback of Something that Never Existed, no. 28 of 34, from the fabric illustrated book, Ode à l’oubli. 2002. Lithograph, page: 11 3/4 x 13” (29.8 x 33 cm). © 2013 Louise Bourgeois Trust


 

Como ser artista, segundo Louise Bourgeois

 “Arte não é sobre arte. É sobre a vida, e isso resume tudo “

Sua arte era um exorcismo diário de suas experiências, traumas e agitações internas.


“Eu vejo a aranha como a salvadora”

Louise Bourgeois

DO NOT LEAVE ME ALONE, PLEASE

 Louise Bourgeois

 KEEP ME TOGETHER 

DO NOT ABANDON ME

HOLD MY BONES TOGETHER

Louise Bourgeois 

 I had a flashback
of something
that never existed

Tive uma reminiscência
de algo que nunca existiu

Louise Bourgeois



sideração

domingo, 22 de março de 2026

 


                                                                         Édouard Boubat

fumigações

 CECÍLIA

O Além está sempre a dar-nos sinais.


Mário de Carvalho. Se Perguntarem por Mim, Não Estou. Editorial Caminho., p. 67

agastadamente

 «Eu aproprio-me do problema, friamente, e vou seccionando o problema até o problema desaparecer.»

Mário de Carvalho. Se Perguntarem por Mim, Não Estou. Editorial Caminho., p.55

 


João Baptista


 

 EMÍLIA (para Alberto)

Hoje em dia para uma pessoa se deslocar é preciso pen-
sar duas vezes. Nada de precipitações, nada de precipi-
tações...


Mário de Carvalho. Se Perguntarem por Mim, Não Estou. Editorial Caminho., p.53

decesso

 «ALBERTO

Que é que foi? É proibido ter cartazes? Isto é um país livre. Isto é a minha casa!»

Mário de Carvalho. Se Perguntarem por Mim, Não Estou. Editorial Caminho., p.44




 ''Para dizer alguma coisa é preciso dizer muito pouco.''

António Lobo Antunes

''Como é que a noite se transforma na manhã?''

 Repulsion (1965)

Directed by: Roman Polanski






Jan Steele/John Cage - Voices and Instruments (1976)

 ...
O teu vulto não te precede.
Perdura.
Fica a tomar conta do lume quando vais 
à rua.


Rui Lage

Não te preocupes com o rio; diz a tua sede.

 Manuel de Freitas

 « Antes de ser mulher,
sou inteira poeta.»

Hilda Hilst

 ...

As mães dormem 
de olhos abertos 
caçam à dentada
os medos dos filhos

Cláudia Lucas Chéu


 O QUE É A POESIA?


Amor, deita-te comigo
         E eu falarei.


Lawrence Ferlinghetti

Fotografia

 ''A sua solidão exprime-se nas noites azul-escuras, ''



''emoções carnais''

eletrocussão

 





 ''Depois, o tabaco, os charutos mais fortes, e muitos. A nicotina serpenteia pelos canais das minhas veias , fervilhando nos labirintos do cérebro, o mais frágil atelier do pensamento, e nos corredores do coração. Os nervos mais delicados são tocados, sinto-o, e o mais delicado deles, eu sei, é o nervo da vida. Já não aguento mais. Levem-me à clínica psiquiátrica.''

Edvard Munch

fauvismo

 nome masculino

PINTURA vanguarda artística surgida no início do século XX, em Paris, que, procurando exaltar a intensidade das sensações visuais e traduzir genuinamente as emoções do artista, se caracterizou pela simplificação do desenho, despreocupação face à representação objetiva da realidade, uso de formas planas, justaposição de cores violentamente contrastantes e ausência de claro-escuro

 ''Ninguém pode entender que as minhas pinturas foram criadas a partir da dor, que são fruto de noites em claro, que me custaram sangue, e enfraqueceram os meus nervos.''

Edvard Munch


''On ne choisit pas la dépression.''



                                                                        Édouard Boubat

 A poesia não cabe no nosso quintal.

Olhemos para a poesia como uma arte que não tem fronteiras, caracterizada pela hospitalidade do diverso. É uma palavra que não desiste de ninguém, que espera por todos e educa para uma visão universal e para a valorização da harmonia.
Penso em poetas como Rilke, penso em poetas como Fernando Pessoa, que nos ajudaram a olhar a partir do limiar, a escutar aquilo que, nas palavras, à primeira vista não está presente, mas que depois se torna decisivo: a experiência do mistério.
A poesia e a arte são essenciais para o diálogo com o mundo contemporâneo. O algoritmo tem um pacto com o passado. O poema tem um pacto com o futuro, porque trabalha continuamente a possibilidade. Dizer ao ser humano “é possível, é possível, é possível”: nesse sentido, a poesia tem uma aliança com a esperança, tem uma aliança com a elaboração da paz. A poesia vai além da declaração fatalista de que é impossível. O algoritmo é um mapa dos passos percorridos. O poema é um mapa dos caminhos a percorrer.
Card. José Tolentino de Mendonça©, trecho, entrevista ao Vatican News “Dia Mundial da Poesia”.

 PASMO

Alegria das flores antes dos frutos...
Gratuita confiança...
Quem te fez tão criança
Na Primavera,
Vida enrugada e triste?
A morte existe,
A razão desespera,
E tu, feliz, aberta num sorriso,
Como se o mundo fosse o paraíso!
Diário IX,
Miguel Torga

Pastor T.L. Barrett & the Youth For Christ Choir - Nobody Knows

 

Stanley Kubrick,

Self-portrait with Rosemary Williams, Show Girl, 1949

putéfia

sábado, 21 de março de 2026

 ''Quando penso que um dos meus doentes está estabilizado...ele suicida-se!!!''

Mário de Carvalho. Se Perguntarem por Mim, Não Estou. Editorial Caminho., p.14

''A Vida da Alma Moderna''

 Edvard Munch

''cabelo vermelho-sangue''

 Man Ray (Emanuel Radnitzky)

Mary Gill,
França, 1930



''as lágrimas que escorrem pelas faces como pequenos rios''

''as coisas belas são difíceis''

Contra os corvos que bicam os olhos do mundo

Elisa Costa Pinto , Livro Contra Corvos

“Leaking Bodies”



''Do corpo entende-se, à luz da hodiernidade, que a sua armadura biopsicossocial se expande a campos digitais e virtuais e, por consequência, se desdobra em outras “(des)corporalidades” e ramificações a partir do seu núcleo identitário. Nos alicerces discursivos que ajudaram a formatar a exposição “Leaking Bodies”, a artista Susana Rocha reflete sobre o princípio desse corpo expandido legitimado, pela aceleração tecnocientífica, como corpo-máquina asséptico e otimizado, e que é exposto a uma “anestesia” afetiva e ausência de “excreção emocional”. Nessa fenda que se abre, o prazer desloca-se do toque para o clique, e do vivido para o imaginado. E tanto no sofrimento, como no deleite, o corpo apresenta uma diplopia, entre o físico e a projeção, e elaboram-se novas formas de lazer e solidão. E mesmo quando o corpo se fina, persiste a sua pegada digital (perfis, imagens, mensagens...) e surgem tecnologias de “ressurreição digital” (Inteligência Artificial, hologramas, avatares, vozes sintetizadas...) que não só podem prolongar e reconfigurar a experiência do luto, como distorcer temporalidades e alterar relações entre o “Eu” e o “Outro”.

O prazer, argumenta a artista, resiste à fantasia do corpo tecnológico altamente funcional e otimizado, pois não existe sem excessos, desperdícios e fricção com a dor. Assim, a interligação neurocognitiva entre dor física e prazer emocional pode repercutir-se numa “estética melancólica”. Sendo que a arte tem essa capacidade de nos permitir experimentar emoções profundas por identificação, a comoção sem consequências diretas, e a expansão do território afetivo. Neste sentido, “Leaking Bodies” explora a ambiguidade do prazer (ou hedonismo) e como a tecnologia, sendo arquivo e gatilho de memórias, despoleta experiências que tanto nos confortam, como nos ferem.''

(...)

Texto de Sandra Silva

Nota sobre as imagens

A exposição Leaking Bodies, de Susana Rocha, esteve primeiramente patente de 18 de Outubro a 21 de Novembro de 2025 no espaço da galeria Plato em Évora. As imagens da exposição aqui presentes foram realizadas nesse espaço, à excepção da primeira imagem inserida no corpo do texto.
 

Num Meio-Dia de Fim de Primavera

 


                                                                    Władysław Pawelec

“As mortes do criador”

Figueira do inferno (2021)

Thales Luz

“Un minute pour une image”


Programa realizado pela cineasta e fotógrafa Agnés Varda, emitido pelo canal francês FR3, em 1983.

domingo, 15 de março de 2026

indulgência

''vê o lírio entre os espinhos''

Kate Bush - Nocturn + Aerial

 


Cees Nooteboom, DESPEDIDA (Poemas em Tempos de Vírus), tradução de Ana Maria Carvalho, edição Alambique


“Minha filha, você é uma menina inteligente, mas fala mal. Você tem de fazer ver aos demais aquilo que você pensa.”

 Nélida Piñon

“El retrato más difícil es el del dolor ajeno”

Isabel Muñoz, Fotógrafa espanhola

“La vida vibra más donde es más dura.”

Laura Restrepo

 “Nunca se debe subestimar la fidelidad que cada quien le guarda a sus viejos dolores” 

Laura Restrepo



''religious ecstasy''

 



                                                Pierre Dubreuil, French photographer

escaganifobética

Aroeira-vermelha

ensandecer

aguadilha

Cannock Chase

 ''Ninguém pode acusar Donald Trump do pecado da consistência.''

Clara Ferreira Alves

devastadoramente

domingo, 8 de março de 2026

 


Maria Teresa Horta

 "Deus, estou zangado contigo.

Suponho que já Te habituaste às minhas zangas como Te habituaste às minhas dúvidas, aos meus afastamentos, aos meus regressos a fingir que não venho, aos momentos de harmonia que de vez em quando existem entre nós, à minha incompreensão de tanta coisa que fazes ou não fazes, aos meus ralhetes, aos meus amuos, ao que considero as Tuas injustiças, a Tua crueldade e se calhar não é injustiça, se calhar não é crueldade, sou parvo, não ligues, não consigo entender as Tuas profundezas e os Teus caminhos, o significado dos Teus gestos.
Só que ultimamente tens exagerado: o ano ainda mal começou e já desataste a despovoar o mundo à minha roda...
(...)
E agora um aviso solene, uma ameaça, uma ordem: livra-Te de tornares a meter-Te com a família do Rui. Ouviste bem? Livra-Te de tornares a meter-Te com a família do Rui porque, se o fizeres, vais ter-me à perna a Eternidade inteira e não sou um osso fácil de roer."
António Lobo Antunes

"Cultivo a orgulhosa felicidade de ser mulher"

 Amália Rodrigues

Li Hoje Quase Duas Páginas

 Crónica

“É mesmo muito fodido ser homem” — carta ao meu irmão acidental António Lobo Antunes
Há escritores que se instalam nas nossas vidas, sem que os tivéssemos convidado. António Lobo Antunes foi um gato sentado na nossa mesa de refeições, a fitar-nos com os olhos vadios de quem tudo sabe.
Paulo Faria (texto)
8 de Março de 2026
Os meus pais divorciaram-se em 1975, tinha eu oito anos. O meu pai saiu do nosso apartamento nas Avenidas Novas, em Lisboa, e foi viver com a nova mulher. Às sextas-feiras, ao final do dia, vinha-nos buscar. Ou antes, vinha buscar dois de nós. Éramos quatro irmãos, talvez demasiados. Ao domingo, de novo ao final do dia, tornava a trazer-nos. Estas visitas revestiam-se de um ritual preciso. O meu pai entrava em casa com a maior das naturalidades. Instalava-se na sala ou na cozinha, e a minha mãe servia-lhe acepipes. Água tónica bem fresca, queijo de São Jorge, tostas, azeitonas. Enquanto comia, ele punha-se a ler em voz alta um romance que trazia consigo. Esperava-se que nós, os filhos, nos sentássemos em volta e ouvíssemos em silêncio. Era o que fazíamos, logicamente. Ao fim de uma hora ou duas de leitura, ele e a minha mãe desapareciam como que por magia. Anos mais tarde, todos percebemos o que iam fazer. Em seguida, reapareciam, cada qual de sua vez, nunca juntos. Entre os livros que ele nos leu nessas ocasiões figuraram em destaque os teus três primeiros romances, António Lobo Antunes, que publicaste oportunamente em 1979 e 1980. Foi assim que decorei o teu nome e descobri os teus livros. Foste testemunha, pretexto e caução daquela pequena encenação familiar, um pouco triste, um pouco sórdida. Precisamente o mesmo papel que me foi reservado a mim e aos meus irmãos. A tua escrita passou a fazer parte do meu segredo vergonhoso. Foste, de uma maneira ínvia, sem o sonhares, meu irmão.
A leitura em voz alta dos teus romances, antes da retirada à socapa para o quarto, era como que uma legitimação inconsciente por parte do meu pai: “Estou aqui e tenho o direito de agir assim, porque sou o vosso pai e vos trago a cultura e o saber.” Além disso, ele adorava ler em voz alta perante uma plateia silenciosa e submissa, o prazer que daí extraía era físico, quase palpável. Mas porquê aqueles romances e não outros? Porquê os teus romances, que ele nos leu e releu com um gozo evidente, de quem se sente finalmente realizado, finalmente vingado? O que havia na tua escrita, e em especial naquela trilogia inaugural, Os Cus de Judas, Memória de Elefante e Conhecimento do Inferno, que fez de ti o porta-voz por excelência do meu pai e de toda a sua (e tua) geração?
Escrever romances, publicá-los
O meu pai era médico, conheceu-te na faculdade, embora fosses mais novo do que ele. As afinidades começavam logo aí. Não eras um escritor como outro qualquer. Eras um médico como o meu pai, um colega de curso com quem ele tinha ido à bola, ver o Benfica jogar no Estádio da Luz, e que depois te tornaras escritor. Eras um conhecido do meu pai, que ele em tempos tratara por tu, mas tiveras a arte e o descaramento de fazer o que ele próprio sempre sonhou fazer e nunca foi capaz, por falta de engenho (por falta de génio, não tenhamos medo das palavras) e por falta de coragem: escrever romances, publicá-los.
Mais tarde, quando eu próprio peguei nos teus romances e os li, percebi porque é que o meu pai se via fielmente retratado naquele teu universo. Estava lá tudo, sem tirar nem pôr. Estava lá tudo o que o meu pai era e sabia ser, mas estava também tudo o que o meu pai não era e sabia não ser e sempre desejara ser e daria tudo para ser. E, portanto, também eu estava lá.
Havia na tua escrita o verbo torrencial, a catadupa inesgotável de palavras atiradas ao leitor, ao mundo, uma avalancha de metáforas dotadas de uma precisão terrível e crua, com qualquer coisa de clínico, de hospitalar. Um certo pendor belicoso, uma tensão enorme, uma panela de pressão a jorrar pelo pipo um silvo a ferver de pinceladas, de instantâneos que se atropelavam uns aos outros, que se acotovelavam, que duravam um breve instante e logo eram engolidos pelo que vinha a seguir. As tuas frases, devastadoras como bordoadas, caíam sem parar sobre os nossos olhos, como tijolos a desabar. Isso era o mais impressionante de tudo: a cadência, o ritmo febril, sem aviso nem tréguas. Não apagavas o lume, e, da primeira à última linha, o pipo rodopiava, furioso, sempre à beira da explosão. Fixavas na página um caos que, daquele modo, passava a ser organizado, abordável, talvez compreensível. O meu pai era um homem profundamente torturado, infinitamente verboso, que nunca abandonava o seu baluarte, o seu subterrâneo, de cuja entrada gritava ao mundo impropérios e lições de moral e de ética, e a tua escrita, estranhamente, serenava-o, dava-lhe a paz possível no meio da sua algazarra interior. A tua escrita dizia-lhe que não estava só, os teus romances funcionavam para ele como um lugar de refúgio, um espelho reconfortante.
Havia na tua escrita uma intimidade natural, sem esforço, com o mundo dos livros, da pintura, da música, uma intimidade que o meu pai invejava e talvez temesse um pouco. Cresceste num meio em que as pessoas tratavam por tu Vermeer, Paul Simon, Vittorio de Sica, mas em que os maridos e as mulheres se tratavam por “você”. O meu pai era filho da pequena-pequena-burguesia (assim mesmo: pequena-pequena), cresceu numa casa com poucos livros, pouca “cultura” (como se dizia então), nos Açores, na periferia de um país periférico, e estava dolorosamente ciente desta condição, daquilo que ele via (sem nunca o confessar) como uma subalternidade. Aproximava-se dos “vultos” da cultura pé ante pé, com uma deferência que o impedia de se apossar deles, ao passo que tu os tratavas com um tu-cá-tu-lá desarmante, iconoclasta, como se Degas e Eça fossem visitas lá de casa. O meu pai invejava-te, mas era a inveja carinhosa que temos de um irmão mais vivido e mais sábio do que nós.
Nas suas sete quintas
Havia na tua escrita a matriz católica a espartilhar tudo, as algemas católicas da tacanhez lusa, um cristianismo distorcido, ressequido, aviltado, atravessado na garganta, que muito de vez em quando vinha à tona no meu pai, como coisa repudiada, mas de que ele nunca se conseguira livrar. Tu dissecavas estas catacumbas de modo explícito, frio, com um distanciamento que deliciava o meu pai.
Havia na tua escrita os palavrões libertadores, usados às mãos-cheias, pueris, o “caralho” e o “cabrão” e a “foda” e a “cona da mãe” e os “tomates”, estampados na página em letra de forma, um rito de passagem, uma coisa que é preciso fazer para mostrar que é possível e só depois se pode deixar para trás. Também isto o meu pai adorava. Tu foras até ao fim: escrevias nos teus romances os palavrões que o meu pai não era capaz de dizer em voz alta. Davas-lhe a oportunidade de dizer alto e bom som a palavra “caralho” aos filhos e à ex-mulher convertida em amante, sob o pretexto da leitura de uma obra literária de inquestionável valor.
Havia na tua escrita o Jardim Zoológico de Lisboa, que aparecia e reaparecia constantemente. O nosso pai levava-nos ao Jardim Zoológico com uma regularidade intrigante, como se fosse um ritual de descoberta do mundo, como se não houvesse mais nada para fazer. Talvez não houvesse mesmo mais nada para fazer. A minha infância ficou entranhada com o cheiro a estrume e a catinga do Jardim Zoológico, com o calor húmido e pastoso da Casa dos Répteis, com a imagem do elefante a mendigar moedas com a tromba molhada e a tocar o sino a troco de uma cenoura mirrada, oferecida por um guarda de uniforme coçado que, apercebo-me agora, devia passar ali o dia inteiro, naquela labuta melancólica. Esta recordação mescla-se com a recordação do meu pai a ler o trecho em que, num dos teus romances, tu descrevias este elefante e este guarda, e ambas as recordações se contaminam uma à outra e se tornam indissociáveis. A tua escrita era toda ela, aliás, um imenso jardim zoológico, povoada por uma selva infindável de comparações com animais. As pessoas, os objectos, as cidades, as ruas, os automóveis, tudo tu comparavas a este ou àquele animal, criando uma Arca de Noé caótica em que os bichos tivessem desatado a copular às cegas, furiosamente, sem olhar à espécie do parceiro, gerando monstros e quimeras com formas híbridas que depois invadiam o mundo dos teus romances. O meu pai, que chamava “camelo” e “vaca” a toda a gente, a toda a hora, sentia-se ali nas suas sete quintas.
O medo que os homens têm das mulheres
Havia na tua escrita a Lisboa em que cresceste, a Lisboa que o meu pai veio encontrar quando entrou para a faculdade, vindo dos Açores. Uma Lisboa suja, ainda rural, meio aldeã, com a sua Feira Popular, o seu Parque Mayer, uma Lisboa em que ainda havia mulheres e homens debruçados o dia inteiro à janela, “a ver passar”, e em que os homens jogavam no Totobola e, aos domingos, ouviam os relatos da bola. Aos domingos, o meu pai ouvia religiosamente os relatos do futebol na rádio. Numa folha branca, traçava uma espécie de tabela, em que cada linha correspondia a uma partida, e ia anotando metodicamente os minutos em que se marcavam os golos e os nomes dos respectivos marcadores. No final, actualizava na página d’A Bola a classificação do campeonato nacional, emendando a esferográfica o número de pontos, o número de golos marcados e sofridos de cada clube, como quem conserta um pequeno recanto do mundo. Só não jogava no Totobola.
Havia na tua escrita o ritual da iniciação sexual dos homens com uma prostituta, rito de passagem obrigatório, a que se seguia inevitavelmente a primeira doença venérea. Havia o ambiente das casas de passe, sujo e triste, como uma fatalidade a que era preciso submeter-se. Contavas as experiências de toda uma geração em tom superlativo, trepidante, feroz, sem deixar pedra sobre pedra.
Havia na tua escrita o medo que os homens têm das mulheres independentes, dotadas de sentido prático, com vontade própria, o medo que os homens têm das mulheres tout court, de todas as mulheres. As mulheres enquanto plantas carnívoras, enquanto predadoras. Havia na tua escrita os homens que, como o meu pai, abandonavam as mulheres e os filhos pequenos, e eram sempre eles a abandonarem-nas, nunca o inverso, homens que abandonavam as mulheres sem nunca as abandonarem verdadeiramente, abandonavam-nas sem nunca se decidirem a partir de vez, exactamente como o meu pai. Havia nos homens dos teus romances um medo ainda mais fundo, o medo de amar, de se entregar aos outros, a incapacidade masculina de lidar com as emoções, o pavor de baixar a guarda, a incapacidade dos homens para exprimirem amor pelas mulheres que amam. O meu pai nunca disse a uma mulher a simples palavra: “Amo-te.” Dir-me-ão: “Não tens a certeza, não podes ter a certeza.” Respondo: “Tenho a certeza absoluta.” Tu punhas em cena nos teus romances homens que nos confiavam a nós, leitores, as palavras que não eram capazes de dizer de viva-voz às mulheres que amavam, tomando-nos como confidentes ou confessores, como testemunhas da sua fraqueza. O meu pai não tinha ninguém que lhe servisse de confessor, e via-se ao espelho nesta tua escrita. Tu confessavas-te no lugar dele. Os teus romances eram confissões por procuração.
Uma valente carga de pancada
Havia na tua escrita a volúpia do tabaco, também essa uma funda marca geracional. Todos e todas fumavam em toda a parte, desde crianças (ou quase), nas casas, nas ruas e nos teus romances. Sempre vi o meu pai de cigarro na mão.
Havia na tua escrita o pânico de envelhecer, que o meu pai nunca verbalizou, nunca exprimiu, deixando que esse pavor enquistasse e o lavrasse por dentro, em silêncio.
Havia na tua escrita um certo desenraizamento, um certo exílio que sempre senti no meu pai, os modos esquivos do trânsfuga, do intruso em busca do seu lugar. E que culminou, no caso do meu pai, na escolha do lugar para onde foi morar com a segunda mulher, depois do divórcio: a Portela de Sacavém, um subúrbio construído de raiz, geométrico e medonho, um não-lugar, um vazio a perder de vista. Como se o desenraizamento que sempre o caracterizou, os abandonos sucessivos (da terra natal, do catolicismo, dos valores paternos, das utopias que abraçou, do benfiquismo da juventude) se tivessem traduzido fisicamente, afinal, naquele lugar de uma aridez irremediável, uma espécie de urbanização estalinista para a alta burguesia lisboeta, formada por homens e mulheres vindos de longe (da província, das ilhas, das ex-colónias), para quem Lisboa nunca deixou de ser um mal necessário, um escolho agreste onde os náufragos se refugiam depois do desastre.
Havia na tua escrita uma visão crua do mundo, desesperançada e exangue, que era a do meu pai, embora ele fosse incapaz de um certo lirismo que, no preciso momento em que achamos que não vamos aguentar mais o gume afiado da tua prosa, te resgata sempre do niilismo sem saída. “É mesmo muito fodido ser homem”, escreveste em Memória de Elefante. E é disto que estás sempre a falar. Como continuar a “ser homem” no meio das ruínas?
Havia na tua escrita a Guerra Colonial, claro, a Guerra Colonial descrita sem pruridos, sem saudosismo, sem desculpas, sem rodriguinhos, sem ponta de gabarolice, sem tiques de pertença à casta dos veteranos, a Guerra Colonial como bóia de salvação e peso amarrado ao pescoço, como carta de alforria e prisão perpétua, a Guerra Colonial a servir de farol, de medida-padrão para cotejar a vida, porque foi aí que tudo aconteceu definitivamente e se cristalizou. Ouvi as tuas histórias de guerra pela voz do meu pai, contadas em Os Cus de Judas e semeadas nas páginas dos outros dois romances inaugurais, com uma atenção que não prestei às histórias que o meu próprio pai contava da sua guerra em Moçambique.
E havia na tua escrita, por fim, aquela sensação, quando acabávamos de ler um dos teus romances, de que tínhamos levado uma valente carga de pancada, de que alguém nos confessara todos os seus pecados e nos encarregara de proclamar essa confissão aos quatro ventos. Uma sensação de terra queimada, como no final das cenas de gritos e insultos do meu pai, quando ele, depois de um longo silêncio, assinalava o regresso à normalidade possível, dizendo uma piada. Uma funda exaustão de tudo, que só a leitura de outro dos teus romances conseguia mitigar.
Ao fim de um certo tempo, naqueles finais de tarde de sexta-feira ou de domingo, o pai reaparecia junto de nós, saído do quarto onde a nossa mãe ficava mais uns minutos, para manter as aparências, e naqueles momentos ele era uma personagem saída de um dos teus romances da trilogia inaugural. E então tornava a pegar no livro, no teu romance, e punha-se a ler outra vez em voz alta. E nós reuníamo-nos de novo em volta dele. Aquelas horas de leitura, ao crepúsculo, eram a reconstituição de uma harmonia familiar possível, de uma comunhão clandestina, culpada, a única a que tínhamos direito, e tu, António Lobo Antunes, eras o nosso santo padroeiro, eras o nosso guia, o nosso mestre de cerimónias. O meu pai estava a dizer-nos: “As palavras destes romances limpam tudo, limpam todo o pecado. À volta destas palavras, tornamos a ser uma família. À volta destas palavras, podemos aquecer-nos como ao calor de uma lareira. À volta destas palavras, podemos amar-nos com todas as nossas imperfeições e podemos estraçalhar-nos uns aos outros, de garras aduncas e dentes afiados. Haveremos de renascer no próximo romance.”
E agora, António Lobo Antunes, já te posso chamar irmão? Talvez seja ir longe de mais. Vou tratar-te por “tio”, como fazes com Proust. Ou antes: por “amigo”, como fazes com Cesário Verde. Estavas presente, amigo. Viste tudo antes de acontecer, viste tudo antes de nós. Retrataste-nos sem dó nem piedade, mas, no fim de contas, com a ternura de quem percebeu demasiado bem o nosso sofrimento, de quem conservou uma certa pureza, uma certa inocência no meio do incêndio, do bombardeamento. Ajudaste-nos a chegar até aqui, e o caminho era de pedras, era de fome, era de solidão. Sem ti, amigo, andaríamos bem mais perdidos.
Agosto de 2025
Este texto será incluído em O resto contarei aos que encontrar no Hades. Ensaios sobre António Lobo Antunes, org. Sabrina Sedlmayer e Vincenzo Russo, Edições Afrontamento, a publicar em 2026.
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