domingo, 12 de abril de 2026

 


Kimya Dawson - The Sick In Bed Show


“Vivian Maier tinha uma enorme cultura visual e foi completamente autodidata, nunca estudou fotografia numa escola. O que a tornou muito forte foi ter inventado as suas próprias regras, a sua própria linguagem. A rua, a imprensa, o cinema, essas foram as suas principais influências.”



Entrevista. Anne Morin: “Vivian Maier tinha tudo contra ela. Era mulher, pobre, mas tinha uma paixão, a fotografia, e foi até ao fim” in Comunidade Cultura e Arte

⁠⁠''Tão periclitante quanto não pensar, é autorizar o outro a fazê-lo por nós.''

 Alessandro Teodoro

 


Fotograma de Intimidad, de Patrice Chéreau.



''estigma, pobreza e abandono''

O silêncio das profissões do cuidado e a desumanização dos corpos periféricos


A violência alegadamente cometida numa esquadra, contra pessoas em situação de sem-abrigo, revela um traço profundo da nossa organização social: o silêncio das profissões do cuidado. Profissionais cuja vocação ética é proteger, reparar e escutar — assistentes sociais, psicólogos, sociólogos, advogados, entre outros — quase não se pronunciaram. Nem sequer os comentadores. E este silêncio não é neutro. Ele expõe a forma como determinados corpos são desumanizados e, por isso mesmo, excluídos da esfera de atenção moral.

Estes são os corpos periféricos de que falam Fernandes e Barbosa (2015): “aqueles dos quais emanam signos desvalorizados pelos padrões constituintes da centralidade corpórea”. Não são corpos abstratos; são corpos concretos, vulneráveis, socialmente marcados por estigma, pobreza e abandono.

Ao lermos Eribon, compreendemos que este silêncio é também produto de um regime de mudez política imposto aos marginalizados. Para Eribon (2018), os grupos socialmente desvalorizados falam, mas não são escutados. A ausência de porta-voz transforma a violência sofrida numa experiência sem eco público. No caso das pessoas em situação de sem-abrigo, a violência não convoca indignação imediata porque a sua dor não é reconhecida como politicamente relevante. E quando os profissionais do cuidado não se posicionam, reforçam involuntariamente esta invisibilidade: não se cala apenas o acontecimento, cala-se também o sujeito.

Depois desta notícia, outras violências institucionais se seguiram — contra imigrantes e contra caloiros num quartel — todas marcadas pelos mesmos corpos desautorizados sob o jugo da violência. E nem todos merecem igual reflexão ou comentário: há uma hierarquia silenciosa de corpos periféricos.

A análise de Édouard Louis (2016) ajuda-nos a compreender o que se segue ao ato violento: o trauma institucional. Louis mostra como a violência continua nos procedimentos, nos silêncios, nas omissões e nas interpretações que diminuem o relato da vítima. A dor torna-se um objeto burocrático. Quando a vítima é uma pessoa em situação de sem-abrigo, esta segunda violência é quase inevitável: chega já marcada pelo descrédito, já chega como corpo periférico. A ausência de reação das profissões do cuidado contribui para manter este trauma, porque falha o reconhecimento mais elementar da dignidade ferida.

A perspetiva de Mbembe (2003) amplia esta reflexão. A vulnerabilidade não é distribuída de forma igual: há corpos cuja exposição ao sofrimento é tolerada e naturalizada. Este enquadramento explica, em parte, por que a violência contra pessoas sem-abrigo não provoca uma resposta proporcional das instituições responsáveis pelo cuidado. Estes corpos, já afastados da centralidade, tornam-se facilmente desumanizáveis. Quando a violência incide sobre eles, não se produz escândalo; produz-se silêncio.

É gritante a desproporcionalidade de poder: de um lado, pessoas em extrema vulnerabilidade, marcadas pela carência, exclusão e sobrevivência; do outro, uma autoridade investida de força física, legitimidade institucional e domínio simbólico. Esta assimetria gera condições para que a violência se torne possível: quando um corpo deixa de ser reconhecido como portador de dignidade, o maltrato instala-se como se fosse aceitável.

Daqui emerge um paradoxo difícil de aceitar. Exigimos aos jovens que não filmem agressões, que não reproduzam crimes sexuais, que não transformem a dor alheia em entretenimento. Ensinamos que isso é imoral, que desumaniza, que perpetua a violência. No entanto, o que vemos aqui é precisamente a mesma lógica — exposição, humilhação e controlo sobre o corpo do outro — exercida por quem detém poder e legitimidade institucional. O que é pedido como lição ética aos mais novos deveria ser exigido, com maior rigor, às instituições que têm a responsabilidade de proteger. Quando estas falham, a pedagogia moral da sociedade fragiliza-se: perde-se a coerência entre o que se prega e o que se pratica, e a confiança na justiça fica profundamente abalada.

Assim, o problema não é apenas a violência inicial — é aquilo que ela revela sobre quem merece cuidado. O silêncio das profissões do cuidado não é uma falha individual; é um sintoma estrutural. Significa que estes corpos, já na margem, não são plenamente reconhecidos como parte do “nós”. Enquanto o sofrimento destas pessoas não convocar uma resposta ética imediata, continuaremos a assistir à reprodução da desumanização: a violência cometida e a violência calada.


Marta Borges — Assistente Social

Richard Hambleton era el "Hombre de las Sombras"





''Na década de 1980, Richard Hambleton era o "Homem das Sombras", um espetro na noite que pintava centenas de silhuetas surpreendentes nas paredes da baixa Manhattan e que, juntamente com Keith Haring e Jean-Michel Basquiat, desencadeou o movimento da arte de rua.

No apogeu do seu primeiro êxito comercial e crítico, Hambleton apareceu na revista 'Life' e foi aclamado na Bienal de Veneza. Os críticos veneravam-no como artista expressionista pop norte-americano definitivo. Mas, desconfortável com o seu próprio êxito, distanciou-se dos que o rodeavam, desde comerciantes de arte até amigos íntimos. E, tão repentinamente como tinha aparecido, desapareceu. Depois de a toxicodependência e o facto de não ter casa o terem afastado da cena artística durante 20 anos, o “Homem das Sombras” tem uma segunda oportunidade... Mas irá aproveitá-la?

Este filme faz com que o espetador mergulhe na caótica vida de um artista esquecido, desde a sua fama precoce como pintor e habitante do Lower East Side, passando pelas suas lutas com a heroína e o seu regresso surpreendente. Com imagens pouco comuns da cena musical e artística dos anos '80 e uma banda sonora com músicas de grupos que fizeram parte da Nova Iorque dos anos '70 (Talking Heads, The Ramones, Blondie e Suicide), também é um retrato indelével de uma época perdida e transformadora. Antes de Banksy, existiu Hambleton.''



Direção: Oren Jacoby


Estados Unidos, 2017

"Para mim, o desafio mais importante é a reconexão da cultura com o interesse social. Atualmente, muitos setores da população estão desligados da cultura, quer porque esta é vista como um domínio exclusivo de especialistas ou como um mero produto de consumo. Assumiu-se que a cultura só diz respeito àqueles que se dedicam profissionalmente a ela, quando, na verdade, é uma prática social que pertence a todos nós."


Jazmín Beirak
(Diretora Geral dos Direitos Culturais, Espanha)

 




Penteia-me com o pente da mãe. Penteia-me devagarinho. Penteia-me como ela penteava. A mãe penteava e nós nem sentíamos o pente. As mãos dela passeavam pelo nosso cabelo por muitos minutos e era bom.Era bom.

E o bolo subia no forno, com cores como as da mármore. E os queques inchavam, cheios de nozes. E as panquecas faziam-se sem ovos. E o pudim boca doce. E tudo por onde as mãos dela passavam ficava bem feito.

ÁLBUM DE FAMÍLIA
criação de Lúcia Pires


xô criança tonta

vim só dar um alô e volto já
a porta fecha-se num minuto
e lá fora fazem-se contas a um tempo

onde tu não tens lugar

queria levar-te novamente para o meio das papoilas
queria que houvesse ainda um verão interminável

um avental da tua altura
mas isso foi ontem
já foi ontem
e hoje vê

tenho os braços cheios de manteiga
e não é dos bolos da nossa mãe

Um trabalho sobre a memória e a tentativa de recuperação da infância através da fotografia, dialogando com as notas sobre a fotografia d’A Câmara Clara, de Roland Barthes.

Álbum de Família
Lúcia Pires

Vapor Barato (Ao Vivo)

Édouard Boubat
French, 1923–1999
Père avec son enfant, 1956
Nazaré, Portugal


"We use wonderful words in photography: 'aperture', for example. The diaphragm is a mechanical thing, but is also our 'aperture', something that opens us to the world. This picture of a man by the sea was taken on my first trip to Portugal, I think it was in 1956. It was wonderful to travel in those days; there were very few tourists. After two or three days on the road, we arrived at the hotel by the sea. Sophie was rather tired and I said to her, 'I'm going to see the beach'. I took the little Leica I had at the time, and this man was there. I had only been there for half an hour: he was waiting for me with his kid, and I took my first picture of Portugal; a photo that would last. I'd come a long way: I'd dreamed of this Portugal, so I was waiting too; there was waiting on both sides. A photograph is rather like a stolen kiss. A kiss is always stolen, even if the woman is consenting. The photo is stolen, but generally with consent"

Èdouard Boubat, 1986

''pescador de pérolas''

O Beijo no Asfalto

Peça de Teatro
Nelson Rodrigues, jornalista e dramaturgo brasileiro

''sátira à diferença de gentes''

“O banal e o prosaico no fotojornalismo contra-hegemónico”

Artigo de autoria de Rafael Giovani Venuto e Flávia Garcia Guidotti

 "Até hoje fui sempre futuro."

José de Almada Negreiros 

espigueiros

domingo, 5 de abril de 2026

 «Não foi feita para os corpos tementes
a volúpia que há neste calor.»

Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 99
 « e em cada uma das chamas e se acende
uma lúbrica paixão, um lúbrico ardor.»

Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 99

 Joaquim Manuel Magalhães / Ana Marchand, 'Ave de Partida', orientação gráfica de Paulo da Costa Domingos, Lisboa, Frenesi, fora do mercado, 1981




Nada me prendeu. Abandonei-me todo e fui.

 Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 97

 «Volta muitas vezes e toma-me na noite,
quando os lábios e a pele se recordam...»

Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 91
 « Vou deter-me aqui. Na ilusão de que é isso que vejo
(e, na verdade, vi, um instante, ao chegar)
e não também aqui as minhas fantasias,
minhas recordações, imagens do prazer.»

Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 83

O dia pesa em mim.

 « O dia pesa em mim. A sua forma
não cessa de ensombrecer.»

Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 81

Tentativa de Esgotamento (depois do adeus)

Livro de fotografia, Daniel Blaufuks
2025


Green-House - Six Songs for Invisible Gardens (full album 2020)


 


                                              Planalto do Barroso, Montalegre, década de 50.


Artur Pastor
Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa.

 «É um velho. Exausto e derrotado,
arruinado pela idade e os excessos,
a passo lento segue pelo beco.
Mas ao entrar em casa pra esconder
a miséria e a velhice, põe-se a meditar
no quinhão que inda tem por entre a gente nova.»

Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 79

''não temerei, como um cobarde, as minhas paixões''

 Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 75

 (...)
«tanta tensão de frases em língua grega,
deixaram tão exausto o poeta, que agora já
qualquer coisa o fatiga.»

Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 73
 «Como tereis ouvido não sou um principiante.
Muita pedra passou pelas minhas mãos.»

Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 67

'' na flor da robustez da carne''

Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 63

Francesca Woodman by Douglas D. Prince_1976

 


''língua helénica''

E não me venhas com as tuas lérias

 

Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 61

''púrpuras vestes''

clâmide


nome feminino
manto rico usado pelos antigos e preso no ombro por um broche

 

                                                                   Salih Basheer / Magnum Photos

''ferida moral''

 « Não como um rei, mas como um actor, trocou por vestes
escuras os trajes da tragédia e desapercebido se retirou.»

PLUTARCO, Vida de Demétrio


 «Disso não verás nunca no caminho,
Se o teu pensar guardares alto,»

Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 35

« Um mês sem oração.»


 

 Diálogo final do filme ‘Hiroshima mon amour’ de Alain Resnais
Roteiro e Diálogos de Marguerite Duras.


- Personagens - Emmanuelle Riva / Ela & Eiji Okada / Ele
Diálogo na cena final
[...]
Quem és tu?
Tu matas-me
Eu tinha fome
Fome de infidelidade, de adultério, de mentiras, e de morrer…
Sempre tive.
Não tinha dúvidas que te atravessarias no meu caminho um dia…
Esperei calmamente por ti com uma paciência infinita…
Devora-me.
Deforma-me à tua imagem de modo a que ninguém possa depois entender a razão de tanto desejo…
Vamos ficar sós, meu amor.
A noite nunca acabará. O dia não voltará a romper para ninguém nunca mais. Por fim.
Ainda me matas. Dás-me prazer
Choraremos o dia defunto com consciência e boa vontade.
Não teremos mais que fazer do que chorar o dia defunto.
O tempo passará.
Só o tempo.
E, chegará o tempo em que não poderemos mais nomear o que nos une.
O nome apagar-se-á pouco a pouco das nossas memórias até se desvanecer por completo.


Lembrar Marguerite Duras, pseudónimo de Marguerite Donnadieu (Saigon, atual Cidade de Ho Chi Minh, 4 de abril de 1914 — Paris, 3 de março de 1996)

Katia Berestova

 


 8 
MONOTONIA
(1908)

A um dia monótono outro dia
monótono também se segue. Dá-se
o mesmo, sempre, e uma e outra vez -
os instantes, os mesmos, vêm e vão.

Um mês passa e traz outro mês.
O que vem, qualquer um facilmente adivinha:
é esse aborrecido ontem,
e o amanhã já nem parece um amanhã.

Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 33
  (...) 
«numa bandeja ensanguentada,
a cabeça do mísero Pompeu.»

Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 31
 « Se és um dos verdadeiramente eleitos,
o teu império, cuidado com o que alcanças »

Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 31
 (...)   «Lê já isto,
é coisa capital que a ti te diz respeito»,
não deixes de parar; não deixes de adiar
conversas e negócios. Não deixes de te afastar
de quantos se prosternam para te saudar
(mais tarde os hás-de ver); que guarde até 
o próprio Senado; e trata logo de ler
o grave escrito que te traz Artemidoro.»

Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 25

 




Sinais de Fumo

 Programa de Rádio.

Pedro Costa, Antena 3

«Dê-me também, se quiser, a oportunidade de falar; mas, caso contrário, envie alguém para tomar meu corpo, porque minha alma não pode ser tomada. Não, você não pode sequer tomar meu corpo, porque não me matará, já que afirmo que não sou mortal.»

Tratado Contra a Vida de Apolônio de Tiana
"um raio caiu sobre a mesa e partiu em dois o copo que ele tinha nas mãos perto dos lábios".

''Alguém que não é ninguém.''

''Filósofos nus''

''sábio errante''

Túnica de linho

Shirin Neshat

 


aziago

 (...)

«Mas do que há-de ser, os sábios apercebem
o que se avizinha. O ouvido deles

em horas de grave estudo,
se sobressalta.»

Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 23
 «Pois sabem os deuses o que há-de ser; os homens,
o que está a ser, e os sábios, o que está para ser.»

FILÓSTRATO, Vida de Apolónio de Tiana, 8.7.


Busca tua alma outras coisas, por outras chora

Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 21

E que horrível é o dia em que cedes

Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 21

pessoa magnânima

 1
A CIDADE
(1910)

Disseste « Vou pra outra terra, vou pra outro mar.
Haverá por aí melhor cidade certamente.
Será malogro, está escrito, tudo o que aqui tente
e o meu coração - como morto - enterrado aqui jaz.
Por quanto tempo há-de minh'alma em podre paz?
Pra todo o lado olhei, em todo o lado vi
ruínas negras dessa vida que vivi,
que tanto tempo aqui desperdicei a dissipar.»

Novo lugar não vais acabar, nem achar novos mares.
A cidade vai-te seguir. Ruas vais percorrer,
serão as mesmas, e nos mesmos bairros hás-de viver,
nas mesmas casas ficará de neve o teu cabelo.
Hás-de ir ter sempre ao mesmo sítio, sem qualquer apelo.
Para outro lugar não há navio ou caminho
e estragares a vida tu neste cantinho
é pois igual a nesse largo mundo a dissipares.


Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 19

insone

terça-feira, 31 de março de 2026

Crocodile Song

 

Manuel de Castro, «Notas para Poesia», 'Pirâmide — Antologia', n.º 3, Dezembro de 1960.

“Não existe governo nenhum. Existe um bando de meninos, a quem os pais vestiram casaco como para um batizado ou um casamento.”

António Lobo Antunes
Fonte: Visão, 31-10-2013

“Numa altura tão difícil e injusta, que os portugueses têm aguentado com uma paciência que eu considero inexcedível, em que vivemos num neofascismo capitalista, que afasta ainda mais as pessoas da cultura e dos livros, estar aqui hoje é, também, um ato de protesto [ao estado da cultura em Portugal].”

António Lobo Antunes

Na livraria Pátio das Letras, em Faro, Outubro de 2011
“Escrever é muito difícil, exige humildade. As palavras vêm muito devagar, tenho de estar à espera. Um pouco como atitude do caçador que espera a presa surja junto ao ribeiro.”


António Lobo Antunes,
Fonte: Lusa, 08-11-2004

sábado, 28 de março de 2026

Les mots bleus

"Quero morrer bonita"

 "Quero morrer bonita",

pediu Noelia Castillo Ramos

''Como se escolhe o vestido certo para morrer?''

“I am not what you think I am.”

 Porcile (1969) dir. Pier Paolo Pasolini

“I am not what you think I am.”
The film unfolds through two parallel narratives: one set in a barren, undefined past where a young man becomes a cannibal and forms a primitive, lawless existence; the other in modern Germany, where Julian, the son of an industrialist, lives in quiet rebellion against his family and society.
Pier Paolo Pasolini juxtaposes these stories to expose the persistence of violence beneath civilization. The archaic world is raw and instinctual, while the contemporary setting appears controlled and rational—yet both conceal forms of brutality and moral decay.
The visual style shifts between stark landscapes and rigid, composed interiors, reinforcing the contrast between instinct and repression. Performances, including Jean-Pierre Léaud as Julian, are deliberately restrained, emphasizing alienation and emotional detachment.
Rather than offering resolution, the film confronts the viewer with disturbing parallels, suggesting that modern structures of power are not far removed from primal violence. It becomes a critique of bourgeois society, authority, and the mechanisms that normalize cruelty.
Premiering in 1969, the film remains one of Pasolini’s most provocative and unsettling works, emblematic of his radical engagement with politics, philosophy, and human nature.
Production Companies
Euro International Film
Arco Film


 “Writing is an integral part of the process of understanding... because certain things are laid down. Let's suppose I had a very good memory and remembered everything I think: knowing my own laziness, I very much doubt I would have ever noted anything down. What counts for me is the process of thinking itself. When I have that, then I am quite content personally. If then I succeed in adequately expressing it in writing, I am content again.”


Hannah Arendt
“What really knocks me out is a book that, when you're all done reading it, you wish the author that wrote it was a terrific friend of yours and you could call him up on the phone whenever you felt like it. That doesn't happen much, though.”

 J.D. Salinger

 [7 anos sem Patrícia Baltazar]

III
Não sei falar. Nunca soube. Fico exausta quando falo. Todos vocês devem ficar a saber disto. Nunca chego a dizer exactamente aquilo que pretendo - fica sempre do outro lado do vidro. Daí a poluição que me envolve. Um pranto.
Derivo das várias posições no mundo. Da ignorância, de todos os poemas que comi, de todos os livros, todos os ídolos (geralmente esquisitos), todos os palcos e cinemas, balcões, da família, de todos os amigos. Raros no mundo. Valiosíssimos. Eu sou eles todos e as viagens que nunca fiz. Sou tudo isso. Não há mais ou menos importância em nada, especificamente - tudo isto é o meu sangue no papel.
Tenho várias salivas. Vário géneros. Acumulei rostos e corpos. E o teu, o teu, o teu, o teu e ainda o teu, continuam guardados, para sempre, em todos os meus lugares. Eu sou tudo o que
vocês fizeram de mim. E tu, meu amor, tu dormes ainda na minha cama. Planetas nos olhos. Tecendo melodias. Trazendo gengibre na boca. Para a minha boca. O teu tear.
Importante é dizer-vos que trago fruta para todos. Flores. Paciência. Coração. Mesa. Uma lareira. Delícias. Espaço. Muito espaço. Jacarandás para ti, Mário! Jacarandás para sempre. Também para ti, todo o Rossio em Junho. Abraços com força e ombro. Manta. A minha intenção é dar-vos uma coisa impossível à partida. Uma invenção.
E estou longe. Estou muito longe para mim.
Passa por aqui, várias vezes por dia, um único pardal. E nem ele, mais solitário que eu, me cumprimenta.
Patrícia Baltazar
1977-2019
FUMAR MATA, ed. Ediresistência

 


SOLARIS, Andrei Tarkovsky



“The traditional statement about language is that it is in itself living, and that writing is the dead part of language.”

Jacques Derrida


[ C’est ma faute
c’est ma faute
c’est ma très grande faute d’orthographe
voilà comme j’écris
giraffe.

J’ai eu tort d’avoir écrit cela autrefois
je n’avais pas à me culpabiliser
je n’avais fait aucune phaute d’orthografe
j’avais simplement écrit giraffe en anglais. ]

Poème '' Sans faute '' de Jacques Prévert

Amor feinho

Amor feinho
Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.


Adélia Prado, em "Bagagem". Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Monstera Variegata

Costela-de-adão


Ó meu amor! ó meu damasco, ó minha seda
Álvaro de Campos

 
Ó meu amor! ó meu damasco, ó minha seda,
Ó meu guizo de prata,
Meu colar de pérolas deixado em cima da cómoda,
Minha aliança de ouro em dedos já velhinhos e fieis,
Minha cantiga de raparigas ao poente,
Ó meu fumo de cigarro, tão inútil e tão necessário,
Minha Bíblia para as crianças brincarem,
Minha amante que eu queria trazer ao colo como uma filha...
Olha, tenho as mãos em febre...
Tenho a testa a escaldar, tenho os olhos muito estranhos...
Todos olham para o brilho dos meus olhos e espetam-se neles...
Eu tenho febre e tenho sede e lembro-me de ti por causa disso
Porque se eu te tivesse como te quereria ter
(Não sei se é de um modo físico, ou de um modo psíquico)
Eu não teria nem febre, nem sede, nem a testa a arder,
Nem os olhos secos, muito secos, sob a fronte...
Tu não sabes o que tem sido a minha vida!...
Tu não sabes que martírio tem sido o meu...
Se tu soubesses o que é amar as coisas simples e calmas
E não ter jeito para procurar senão as outras coisas!
Se tu soubesses porque é que quando eu estou na minha quinta de dia
Tenho saudades dela como se não estivesse lá...
Se tu soubesses o que eu sinto à noite, nos hotéis, pelas ruas,
Se tu soubesses! Mas eu próprio não sei o que é que sinto...
Minha lantejoula, minha casa de bonecas,
Ó meus brinquedos da minha infância atados com cordéis!
Ó meu regimento que passa com a banda à frente,
Minha noite no circo, nos cavalinhos, a rir dos palhaços...
Ó minha (...)
s.d.
Poemas de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. (Edição crítica de Cleonice Berardinelli.) Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990.
- 325.

Society's Child (Baby I've Been Thinking)


Shirin Neshat

 


Falo pouco. Falo pouco e cada vez falo menos. Em primeiro lugar porque me distraio e esqueço o assunto das conversas e em segundo lugar porque as pessoas não esperam que lhes responda mas que as oiça, o que é fácil se acenar que sim de vez em quando e disser
– Pois claro
quando me olham de sobrancelhas levantadas à espera de concordância e aplauso. Tornei-me um especialista do
– Pois claro
(...)

 
António Lobo Antunes, Crónicas, “A Minha Morte” (1993)

desaparecimento

Consultório de Freud

 ''Faço psicanálise há muitos anos e tomo anti-depressivo há seis anos.

Acho grave, ofensivo, além de muito estúpido, dizer (há uma senhora de quem nunca ouvi falar que o diz nas redes sociais) que as pessoas que tomam anti-depressivos são fracas. Desconsiderar a depressão e o problema da saúde mental tem consequências.
Sou outra pessoa por ter conseguido pedir ajuda. E não hesitei em tomar um anti-depressivo quando compreendi que a minha depressão era também química, motivada pelas alterações no meu corpo doente (e que não fosse).
Pus em https://anabelamotaribeiro.pt entrevistas com os psicanalistas Coimbra de Matos e Seabra Diniz, bem como uma leitura de "Análise - Notas do Divã" de Vera Iaconelli.
"Era um rapaz com 12 para 13 anos, que estava com grandes crises de ansiedade, acordava de noite. Tinha um ar maduro para a idade, com alguma reserva. Percebi, à medida que fomos falando, porque é que tinha as suas crises de ansiedade. A mãe tinha um cancro. Ele sabia que o cancro era incurável e que a mãe ia morrer."
A fotografia é no consultório de Freud.

Post no Facebook da Anabela Mota RibeiroSou jornalista, escritora e programadora cultural. 
http://anabelamotaribeiro.pt


 Landgrave Ou Maria Helena Vieira da Silva
de Sophia de Mello Breyner Andresen

Lugar de convocação como um poema muito antigo.
Lugar de aparição. Diálogo do visual e da visão. Onde do visível emerge a aparição. Assim no verso de Pascoaes vemos «O que há de aparição no seio da aparência».
Um rebrilhar de teatro. Multiplicando a luz imaginária da noite.
A luz inventada da noite.
As paredes, o chão, o tecto avançam para o fundo. Mas no fundo outro espaço desponta. E em cada espelho um novo espaço nasce.
É um lugar onde tudo está atento, denso de memória e de veemência. Lugar de revelação, de espanto e cismar e descobrimento.
As cores estão acesas como as luzes de um teatro à hora da representação. O mundo é «re-presentado», tornado mais uma vez presente. O ar está queimado pelas luzes como o ar de um palco.
Todas as cores se reflectem umas nas outras. Há um difuso tremular luminoso como o das escamas de um peixe. Os múltiplos espelhos formam uma rede de escamas: amarelas, cor de barro, cinzentas, rosadas, negras, cor de nácar, cor de pedra. Um pouco atrás as musas da penumbra tocam suas finas flautas. É o rigor da música que estrutura a ordem das formas, as variações, o retomar dos temas, o contraponto da repetição.
Reconhecemos o tão atento olhar. Os olhos muito abertos como os olhos que estão pintados à proa dos barcos. O olhar que busca o aparecer do mundo, o surgir do mundo, o emergir do visível e da visão. Reconhecemos a viagem, a longa navegação, a memória acumulada. A atenção da Sibila, da bússola, do sismógrafo, da antena.
Fevereiro de 1988


Sophia de Mello Breyner Andresen, in ‘Ilhas’

“This love of ours has driven me to madness.”

 Kenji Mizoguchi's Ugetsu Monogatari (1953)

Sobre a história de resistência da Noelia Castillo Ramos

«Há dias que aquela imagem não me sai da cabeça. Tem-me assaltado amiúde. Foram segundos, mas bastaram; o sorriso simbólico, verdadeiro, marcado pelo orgulho, foi partilhado de maneira tão genuína. Durante aquela troca de olhares, pareceu-me que, à volta, o mundo entrou numa ligeira pausa, entre mim, aqueles dois cigarros, o poder de uma imagem e as recordações de uma infância que se fez muito por ali.»

Crónica do jornalista Pedro Lemos, no jornal Sul Informação

terça-feira, 24 de março de 2026

 


                                                                    Władysław Pawelec

''sexualidade proscrita''

 Louise Bourgeois

''seios fálicos''

 Louise Bourgeois

prometeica

 


Louise Bourgeois (1911–2010) was a French-American artist

''relação fantasiosa''

indefectível

abécula

I Had a Flashback of Something that Never Existed,

 



Louise Bourgeois. I Had a Flashback of Something that Never Existed, no. 28 of 34, from the fabric illustrated book, Ode à l’oubli. 2002. Lithograph, page: 11 3/4 x 13” (29.8 x 33 cm). © 2013 Louise Bourgeois Trust


 

Como ser artista, segundo Louise Bourgeois

 “Arte não é sobre arte. É sobre a vida, e isso resume tudo “

Sua arte era um exorcismo diário de suas experiências, traumas e agitações internas.


“Eu vejo a aranha como a salvadora”

Louise Bourgeois

DO NOT LEAVE ME ALONE, PLEASE

 Louise Bourgeois

 KEEP ME TOGETHER 

DO NOT ABANDON ME

HOLD MY BONES TOGETHER

Louise Bourgeois 

 I had a flashback
of something
that never existed

Tive uma reminiscência
de algo que nunca existiu

Louise Bourgeois



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