domingo, 8 de março de 2026

 


Maria Teresa Horta

 "Deus, estou zangado contigo.

Suponho que já Te habituaste às minhas zangas como Te habituaste às minhas dúvidas, aos meus afastamentos, aos meus regressos a fingir que não venho, aos momentos de harmonia que de vez em quando existem entre nós, à minha incompreensão de tanta coisa que fazes ou não fazes, aos meus ralhetes, aos meus amuos, ao que considero as Tuas injustiças, a Tua crueldade e se calhar não é injustiça, se calhar não é crueldade, sou parvo, não ligues, não consigo entender as Tuas profundezas e os Teus caminhos, o significado dos Teus gestos.
Só que ultimamente tens exagerado: o ano ainda mal começou e já desataste a despovoar o mundo à minha roda...
(...)
E agora um aviso solene, uma ameaça, uma ordem: livra-Te de tornares a meter-Te com a família do Rui. Ouviste bem? Livra-Te de tornares a meter-Te com a família do Rui porque, se o fizeres, vais ter-me à perna a Eternidade inteira e não sou um osso fácil de roer."
António Lobo Antunes

"Cultivo a orgulhosa felicidade de ser mulher"

 Amália Rodrigues

Li Hoje Quase Duas Páginas

 Crónica

“É mesmo muito fodido ser homem” — carta ao meu irmão acidental António Lobo Antunes
Há escritores que se instalam nas nossas vidas, sem que os tivéssemos convidado. António Lobo Antunes foi um gato sentado na nossa mesa de refeições, a fitar-nos com os olhos vadios de quem tudo sabe.
Paulo Faria (texto)
8 de Março de 2026
Os meus pais divorciaram-se em 1975, tinha eu oito anos. O meu pai saiu do nosso apartamento nas Avenidas Novas, em Lisboa, e foi viver com a nova mulher. Às sextas-feiras, ao final do dia, vinha-nos buscar. Ou antes, vinha buscar dois de nós. Éramos quatro irmãos, talvez demasiados. Ao domingo, de novo ao final do dia, tornava a trazer-nos. Estas visitas revestiam-se de um ritual preciso. O meu pai entrava em casa com a maior das naturalidades. Instalava-se na sala ou na cozinha, e a minha mãe servia-lhe acepipes. Água tónica bem fresca, queijo de São Jorge, tostas, azeitonas. Enquanto comia, ele punha-se a ler em voz alta um romance que trazia consigo. Esperava-se que nós, os filhos, nos sentássemos em volta e ouvíssemos em silêncio. Era o que fazíamos, logicamente. Ao fim de uma hora ou duas de leitura, ele e a minha mãe desapareciam como que por magia. Anos mais tarde, todos percebemos o que iam fazer. Em seguida, reapareciam, cada qual de sua vez, nunca juntos. Entre os livros que ele nos leu nessas ocasiões figuraram em destaque os teus três primeiros romances, António Lobo Antunes, que publicaste oportunamente em 1979 e 1980. Foi assim que decorei o teu nome e descobri os teus livros. Foste testemunha, pretexto e caução daquela pequena encenação familiar, um pouco triste, um pouco sórdida. Precisamente o mesmo papel que me foi reservado a mim e aos meus irmãos. A tua escrita passou a fazer parte do meu segredo vergonhoso. Foste, de uma maneira ínvia, sem o sonhares, meu irmão.
A leitura em voz alta dos teus romances, antes da retirada à socapa para o quarto, era como que uma legitimação inconsciente por parte do meu pai: “Estou aqui e tenho o direito de agir assim, porque sou o vosso pai e vos trago a cultura e o saber.” Além disso, ele adorava ler em voz alta perante uma plateia silenciosa e submissa, o prazer que daí extraía era físico, quase palpável. Mas porquê aqueles romances e não outros? Porquê os teus romances, que ele nos leu e releu com um gozo evidente, de quem se sente finalmente realizado, finalmente vingado? O que havia na tua escrita, e em especial naquela trilogia inaugural, Os Cus de Judas, Memória de Elefante e Conhecimento do Inferno, que fez de ti o porta-voz por excelência do meu pai e de toda a sua (e tua) geração?
Escrever romances, publicá-los
O meu pai era médico, conheceu-te na faculdade, embora fosses mais novo do que ele. As afinidades começavam logo aí. Não eras um escritor como outro qualquer. Eras um médico como o meu pai, um colega de curso com quem ele tinha ido à bola, ver o Benfica jogar no Estádio da Luz, e que depois te tornaras escritor. Eras um conhecido do meu pai, que ele em tempos tratara por tu, mas tiveras a arte e o descaramento de fazer o que ele próprio sempre sonhou fazer e nunca foi capaz, por falta de engenho (por falta de génio, não tenhamos medo das palavras) e por falta de coragem: escrever romances, publicá-los.
Mais tarde, quando eu próprio peguei nos teus romances e os li, percebi porque é que o meu pai se via fielmente retratado naquele teu universo. Estava lá tudo, sem tirar nem pôr. Estava lá tudo o que o meu pai era e sabia ser, mas estava também tudo o que o meu pai não era e sabia não ser e sempre desejara ser e daria tudo para ser. E, portanto, também eu estava lá.
Havia na tua escrita o verbo torrencial, a catadupa inesgotável de palavras atiradas ao leitor, ao mundo, uma avalancha de metáforas dotadas de uma precisão terrível e crua, com qualquer coisa de clínico, de hospitalar. Um certo pendor belicoso, uma tensão enorme, uma panela de pressão a jorrar pelo pipo um silvo a ferver de pinceladas, de instantâneos que se atropelavam uns aos outros, que se acotovelavam, que duravam um breve instante e logo eram engolidos pelo que vinha a seguir. As tuas frases, devastadoras como bordoadas, caíam sem parar sobre os nossos olhos, como tijolos a desabar. Isso era o mais impressionante de tudo: a cadência, o ritmo febril, sem aviso nem tréguas. Não apagavas o lume, e, da primeira à última linha, o pipo rodopiava, furioso, sempre à beira da explosão. Fixavas na página um caos que, daquele modo, passava a ser organizado, abordável, talvez compreensível. O meu pai era um homem profundamente torturado, infinitamente verboso, que nunca abandonava o seu baluarte, o seu subterrâneo, de cuja entrada gritava ao mundo impropérios e lições de moral e de ética, e a tua escrita, estranhamente, serenava-o, dava-lhe a paz possível no meio da sua algazarra interior. A tua escrita dizia-lhe que não estava só, os teus romances funcionavam para ele como um lugar de refúgio, um espelho reconfortante.
Havia na tua escrita uma intimidade natural, sem esforço, com o mundo dos livros, da pintura, da música, uma intimidade que o meu pai invejava e talvez temesse um pouco. Cresceste num meio em que as pessoas tratavam por tu Vermeer, Paul Simon, Vittorio de Sica, mas em que os maridos e as mulheres se tratavam por “você”. O meu pai era filho da pequena-pequena-burguesia (assim mesmo: pequena-pequena), cresceu numa casa com poucos livros, pouca “cultura” (como se dizia então), nos Açores, na periferia de um país periférico, e estava dolorosamente ciente desta condição, daquilo que ele via (sem nunca o confessar) como uma subalternidade. Aproximava-se dos “vultos” da cultura pé ante pé, com uma deferência que o impedia de se apossar deles, ao passo que tu os tratavas com um tu-cá-tu-lá desarmante, iconoclasta, como se Degas e Eça fossem visitas lá de casa. O meu pai invejava-te, mas era a inveja carinhosa que temos de um irmão mais vivido e mais sábio do que nós.
Nas suas sete quintas
Havia na tua escrita a matriz católica a espartilhar tudo, as algemas católicas da tacanhez lusa, um cristianismo distorcido, ressequido, aviltado, atravessado na garganta, que muito de vez em quando vinha à tona no meu pai, como coisa repudiada, mas de que ele nunca se conseguira livrar. Tu dissecavas estas catacumbas de modo explícito, frio, com um distanciamento que deliciava o meu pai.
Havia na tua escrita os palavrões libertadores, usados às mãos-cheias, pueris, o “caralho” e o “cabrão” e a “foda” e a “cona da mãe” e os “tomates”, estampados na página em letra de forma, um rito de passagem, uma coisa que é preciso fazer para mostrar que é possível e só depois se pode deixar para trás. Também isto o meu pai adorava. Tu foras até ao fim: escrevias nos teus romances os palavrões que o meu pai não era capaz de dizer em voz alta. Davas-lhe a oportunidade de dizer alto e bom som a palavra “caralho” aos filhos e à ex-mulher convertida em amante, sob o pretexto da leitura de uma obra literária de inquestionável valor.
Havia na tua escrita o Jardim Zoológico de Lisboa, que aparecia e reaparecia constantemente. O nosso pai levava-nos ao Jardim Zoológico com uma regularidade intrigante, como se fosse um ritual de descoberta do mundo, como se não houvesse mais nada para fazer. Talvez não houvesse mesmo mais nada para fazer. A minha infância ficou entranhada com o cheiro a estrume e a catinga do Jardim Zoológico, com o calor húmido e pastoso da Casa dos Répteis, com a imagem do elefante a mendigar moedas com a tromba molhada e a tocar o sino a troco de uma cenoura mirrada, oferecida por um guarda de uniforme coçado que, apercebo-me agora, devia passar ali o dia inteiro, naquela labuta melancólica. Esta recordação mescla-se com a recordação do meu pai a ler o trecho em que, num dos teus romances, tu descrevias este elefante e este guarda, e ambas as recordações se contaminam uma à outra e se tornam indissociáveis. A tua escrita era toda ela, aliás, um imenso jardim zoológico, povoada por uma selva infindável de comparações com animais. As pessoas, os objectos, as cidades, as ruas, os automóveis, tudo tu comparavas a este ou àquele animal, criando uma Arca de Noé caótica em que os bichos tivessem desatado a copular às cegas, furiosamente, sem olhar à espécie do parceiro, gerando monstros e quimeras com formas híbridas que depois invadiam o mundo dos teus romances. O meu pai, que chamava “camelo” e “vaca” a toda a gente, a toda a hora, sentia-se ali nas suas sete quintas.
O medo que os homens têm das mulheres
Havia na tua escrita a Lisboa em que cresceste, a Lisboa que o meu pai veio encontrar quando entrou para a faculdade, vindo dos Açores. Uma Lisboa suja, ainda rural, meio aldeã, com a sua Feira Popular, o seu Parque Mayer, uma Lisboa em que ainda havia mulheres e homens debruçados o dia inteiro à janela, “a ver passar”, e em que os homens jogavam no Totobola e, aos domingos, ouviam os relatos da bola. Aos domingos, o meu pai ouvia religiosamente os relatos do futebol na rádio. Numa folha branca, traçava uma espécie de tabela, em que cada linha correspondia a uma partida, e ia anotando metodicamente os minutos em que se marcavam os golos e os nomes dos respectivos marcadores. No final, actualizava na página d’A Bola a classificação do campeonato nacional, emendando a esferográfica o número de pontos, o número de golos marcados e sofridos de cada clube, como quem conserta um pequeno recanto do mundo. Só não jogava no Totobola.
Havia na tua escrita o ritual da iniciação sexual dos homens com uma prostituta, rito de passagem obrigatório, a que se seguia inevitavelmente a primeira doença venérea. Havia o ambiente das casas de passe, sujo e triste, como uma fatalidade a que era preciso submeter-se. Contavas as experiências de toda uma geração em tom superlativo, trepidante, feroz, sem deixar pedra sobre pedra.
Havia na tua escrita o medo que os homens têm das mulheres independentes, dotadas de sentido prático, com vontade própria, o medo que os homens têm das mulheres tout court, de todas as mulheres. As mulheres enquanto plantas carnívoras, enquanto predadoras. Havia na tua escrita os homens que, como o meu pai, abandonavam as mulheres e os filhos pequenos, e eram sempre eles a abandonarem-nas, nunca o inverso, homens que abandonavam as mulheres sem nunca as abandonarem verdadeiramente, abandonavam-nas sem nunca se decidirem a partir de vez, exactamente como o meu pai. Havia nos homens dos teus romances um medo ainda mais fundo, o medo de amar, de se entregar aos outros, a incapacidade masculina de lidar com as emoções, o pavor de baixar a guarda, a incapacidade dos homens para exprimirem amor pelas mulheres que amam. O meu pai nunca disse a uma mulher a simples palavra: “Amo-te.” Dir-me-ão: “Não tens a certeza, não podes ter a certeza.” Respondo: “Tenho a certeza absoluta.” Tu punhas em cena nos teus romances homens que nos confiavam a nós, leitores, as palavras que não eram capazes de dizer de viva-voz às mulheres que amavam, tomando-nos como confidentes ou confessores, como testemunhas da sua fraqueza. O meu pai não tinha ninguém que lhe servisse de confessor, e via-se ao espelho nesta tua escrita. Tu confessavas-te no lugar dele. Os teus romances eram confissões por procuração.
Uma valente carga de pancada
Havia na tua escrita a volúpia do tabaco, também essa uma funda marca geracional. Todos e todas fumavam em toda a parte, desde crianças (ou quase), nas casas, nas ruas e nos teus romances. Sempre vi o meu pai de cigarro na mão.
Havia na tua escrita o pânico de envelhecer, que o meu pai nunca verbalizou, nunca exprimiu, deixando que esse pavor enquistasse e o lavrasse por dentro, em silêncio.
Havia na tua escrita um certo desenraizamento, um certo exílio que sempre senti no meu pai, os modos esquivos do trânsfuga, do intruso em busca do seu lugar. E que culminou, no caso do meu pai, na escolha do lugar para onde foi morar com a segunda mulher, depois do divórcio: a Portela de Sacavém, um subúrbio construído de raiz, geométrico e medonho, um não-lugar, um vazio a perder de vista. Como se o desenraizamento que sempre o caracterizou, os abandonos sucessivos (da terra natal, do catolicismo, dos valores paternos, das utopias que abraçou, do benfiquismo da juventude) se tivessem traduzido fisicamente, afinal, naquele lugar de uma aridez irremediável, uma espécie de urbanização estalinista para a alta burguesia lisboeta, formada por homens e mulheres vindos de longe (da província, das ilhas, das ex-colónias), para quem Lisboa nunca deixou de ser um mal necessário, um escolho agreste onde os náufragos se refugiam depois do desastre.
Havia na tua escrita uma visão crua do mundo, desesperançada e exangue, que era a do meu pai, embora ele fosse incapaz de um certo lirismo que, no preciso momento em que achamos que não vamos aguentar mais o gume afiado da tua prosa, te resgata sempre do niilismo sem saída. “É mesmo muito fodido ser homem”, escreveste em Memória de Elefante. E é disto que estás sempre a falar. Como continuar a “ser homem” no meio das ruínas?
Havia na tua escrita a Guerra Colonial, claro, a Guerra Colonial descrita sem pruridos, sem saudosismo, sem desculpas, sem rodriguinhos, sem ponta de gabarolice, sem tiques de pertença à casta dos veteranos, a Guerra Colonial como bóia de salvação e peso amarrado ao pescoço, como carta de alforria e prisão perpétua, a Guerra Colonial a servir de farol, de medida-padrão para cotejar a vida, porque foi aí que tudo aconteceu definitivamente e se cristalizou. Ouvi as tuas histórias de guerra pela voz do meu pai, contadas em Os Cus de Judas e semeadas nas páginas dos outros dois romances inaugurais, com uma atenção que não prestei às histórias que o meu próprio pai contava da sua guerra em Moçambique.
E havia na tua escrita, por fim, aquela sensação, quando acabávamos de ler um dos teus romances, de que tínhamos levado uma valente carga de pancada, de que alguém nos confessara todos os seus pecados e nos encarregara de proclamar essa confissão aos quatro ventos. Uma sensação de terra queimada, como no final das cenas de gritos e insultos do meu pai, quando ele, depois de um longo silêncio, assinalava o regresso à normalidade possível, dizendo uma piada. Uma funda exaustão de tudo, que só a leitura de outro dos teus romances conseguia mitigar.
Ao fim de um certo tempo, naqueles finais de tarde de sexta-feira ou de domingo, o pai reaparecia junto de nós, saído do quarto onde a nossa mãe ficava mais uns minutos, para manter as aparências, e naqueles momentos ele era uma personagem saída de um dos teus romances da trilogia inaugural. E então tornava a pegar no livro, no teu romance, e punha-se a ler outra vez em voz alta. E nós reuníamo-nos de novo em volta dele. Aquelas horas de leitura, ao crepúsculo, eram a reconstituição de uma harmonia familiar possível, de uma comunhão clandestina, culpada, a única a que tínhamos direito, e tu, António Lobo Antunes, eras o nosso santo padroeiro, eras o nosso guia, o nosso mestre de cerimónias. O meu pai estava a dizer-nos: “As palavras destes romances limpam tudo, limpam todo o pecado. À volta destas palavras, tornamos a ser uma família. À volta destas palavras, podemos aquecer-nos como ao calor de uma lareira. À volta destas palavras, podemos amar-nos com todas as nossas imperfeições e podemos estraçalhar-nos uns aos outros, de garras aduncas e dentes afiados. Haveremos de renascer no próximo romance.”
E agora, António Lobo Antunes, já te posso chamar irmão? Talvez seja ir longe de mais. Vou tratar-te por “tio”, como fazes com Proust. Ou antes: por “amigo”, como fazes com Cesário Verde. Estavas presente, amigo. Viste tudo antes de acontecer, viste tudo antes de nós. Retrataste-nos sem dó nem piedade, mas, no fim de contas, com a ternura de quem percebeu demasiado bem o nosso sofrimento, de quem conservou uma certa pureza, uma certa inocência no meio do incêndio, do bombardeamento. Ajudaste-nos a chegar até aqui, e o caminho era de pedras, era de fome, era de solidão. Sem ti, amigo, andaríamos bem mais perdidos.
Agosto de 2025
Este texto será incluído em O resto contarei aos que encontrar no Hades. Ensaios sobre António Lobo Antunes, org. Sabrina Sedlmayer e Vincenzo Russo, Edições Afrontamento, a publicar em 2026.

quarta-feira, 4 de março de 2026

 




"Romancista Rebelde"

 Camilo Castelo Branco, o ''Romancista Rebelde''

´´São sombrios os rios
Do recordar!''


Amália Rodrigues, trecho na canção Cais de Outrora


“Nos nossos momentos mais sombrios, não precisamos de soluções, nem de conselhos. O que realmente desejamos é a conexão humana: uma presença silenciosa, um toque que fala mais do que palavras. São esses pequenos gestos que nos mantêm à tona quando a vida parece nos esmagar.”
Então, por favor, não tente me consertar. Não carregue minha dor por mim, nem afaste as sombras que me envolvem. Apenas sente-se ao meu lado enquanto enfrento as tempestades que rugem dentro de mim. Seja a mão firme que posso segurar quando sentir que estou me perdendo.
Minhas batalhas são minhas, meu fardo é meu. Mas sua presença me lembra que, mesmo em pedaços, ainda sou digna de amor. Você não precisa ser meu salvador; basta ser meu companheiro. Quando a noite parecer infinita, segure minha mão até que o amanhecer chegue, ajudando-me a lembrar da força que ainda existe em mim.
Seu apoio silencioso é o maior presente que poderia me dar. Não é o amor que me salva, mas o amor que me fortalece. É o que me ajuda a lembrar de quem eu sou, mesmo quando tudo em mim parece esquecido.
Quando eu me perder, você estará aqui? Não para me salvar, mas para caminhar ao meu lado até que eu encontre o caminho de volta.''

 Ernest Hemingway

terça-feira, 3 de março de 2026



             Anatomie d’un rapport (Anatomy of a Relationship) (1976)
Dir. Luc Moullet, Antonietta Pizzorno

Por mis muertos

Pilar Albarracín

letissimulação

 nome feminino

ZOOLOGIA simulação de morte que alguns animais levam a cabo, mantendo-se temporariamente imóveis, a fim de iludirem presas ou predadores
Etimologia: Do latim letu-, «morte» +simulatiōne-, «simulação»

domingo, 22 de fevereiro de 2026

lesões afectivas

 


“O que é de mais perto de nós é sempre com as mães.”

Imagem retirada da nova biografia sobre Maria Teresa Horta, “A Desobediente” (ed. Contraponto), da autoria de Patrícia Reis

desmatamento

cérebros, distantes (distant—brains)



Still do filme cérebros, distantes (2023-2025), de Nuno Cera. 36’30’’ (Um canal vídeo 4K, stereo ). 




Honey Man
Canção de Tim Buckley ‧ 1973


Well I wish I was your sweet little honey man,Just a hanging 'round the rising sun,You know you can't hold out against a boy who'sA whiskey fast and a honey slow;I wish I was, I wish I was your,I wish I was your honey man,I wish I was your, sweet little honey man;And when the bee's inside the hive,You gonna holler in the thick of love,I'll buy you all the jag I can,This honey man's gonna' sting you again;
A when I come a home to you honey,Oh, your little eyes never flicker,I wished I was that cool,And then your love just a wouldn't matter at all


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

 “Mindhunter” (2017–2019), série da autoria de Joe Penhall e baseada no livro “Mindhunter: Inside the FBI’s Elite Serial Crime Unit”, da autoria de John E. Douglas e Mark Olshaker




sainete

 nome masculino

1.
isca que se dá aos falcões e aves congéneres, para os domesticar
2.
coisa que suaviza uma má impressão
3.
qualidade agradável
4.
piadagraça
5.
remoquemotejo
6.
TEATRO peça breve, de um só ato, musicada ou não, de assunto mundano e caráter cómico ou satírico
dar/fazer sainete
distinguir-se, dar bom resultado, causar sensação

Vitupério

''o fatalismo do povo português''

domingo, 25 de janeiro de 2026

Se Quiserem Que Eu Tenha um Misticismo, Está Bem

 



A Mais Rara Conjunção
Luísa Cardoso



Araucária, 2025

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Partindo de inesperadas ligações, Luísa Cardoso tece uma reflexão sobre os grandes temas da humanidade – o amor, a morte, a passagem do tempo. E é com o passar das páginas que a vida da autora se vai entrelaçando com as histórias de vida de artistas, funâmbulos, fotógrafas e outras personalidades, que levam o leitor por insólitos cruzamentos, onde imagem e palavra se juntam numa obra de íntima beleza.


´´Enquanto escrevo, vou analisando o que se passa na minha cabeça. Como disse no princípio, trata-se de um grande ruído, que me torna quase impossível escrever isto que me mandaram. Tenho a impressão de ter na cabeça rios caudalosos, cujas águas se despenham. Ouço bando de passarinhos e também silvos. Não com os ouvidos corporais, senão no alto da cabeça, onde, segundo dizem, reside a parte superior da alma.''

Santa Teresa de Ávila. “El Castillo Interior”

 ''Quereria já esta alma ver-se livre. Comer mata-a. Dormir a angustia. Vê que se passa o tempo de sua ida em passá-la em regalos e que nada pode regalá-la fora de vós. Parece que vive contra sua natureza, uma vez que já não quereria viver em si, mas em vós.''

Livro de la Vida
Santa Teresa de Ávila. Autobiografia, “La Vida de la Santa Madre Teresa de Jesús” (ou “Livro de la Vida”), publicada em inúmeras edições mas composta entre os anos de 1562 e 1565. 

autocontemplação

polímata

Mater Spiritualium (Mãe da Espiritualidade)

 


Fonte: Comunidade Cultura e Arte

“O Fascismo Eterno” | Umberto Eco

 

''Em 1942, com a idade de dez anos, ganhei o prêmio nos Ludi Juveniles (um concurso com livre participação obrigatória para jovens fascistas italianos – o que vale dizer, para todos os jovens italianos). Tinha trabalhado com virtuosismo retórico sobre o tema: “Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália?” Minha resposta foi afirmativa. Eu era um garoto esperto.Depois, em 1943, descobri o significado da palavra “liberdade”. Contarei esta história no fim do meu discurso. Naquele momento, “liberdade” ainda não significava “liberação”.

Passei dois dos meus primeiros anos entre SS, fascistas e resistentes, que disparavam uns nos outros, e aprendi a esquivar-me das balas. Não foi mal exercício.

Em abril de 1945, a Resistência tomou Milão. Dois dias depois os resistentes chegaram à pequena cidade em que eu vivia. Foi um momento de alegria. A praça principal estava cheia de gente que cantava e desfraldava bandeirolas, invocando Mimo, o líder a resistência na área, em alto brado. Mimo, ex-suboficial dos carabinieri, envolveu-se com os partidários do marechal Badoglio e perdeu uma perna nos primeiros confrontos. Apareceu no balcão da Prefeitura, apoiado em muletas, pálido; tentou acalmar a multidão com uma mão. Eu estava ali esperando seu discurso, já que toda a minha infância tinha sido marcada pelos grandes discursos históricos de Mussolini, cujos passos mais significativos aprendíamos de cor na escola. Silêncio. Mimo falo com voz rouca, quase não se ouvia. Disse: “Cidadãos, amigos. Depois de tantos sacrifícios dolorosos…aqui estamos. Glória aos que caíram pela liberdade…”. E foi tudo. Ele voltou para dentro. A multidão gritava, os membros da resistência levantaram as armas e atiraram para o alto, festivamente. Nós, rapazes, nos precipitamos para recolher os cartuchos, preciosos objetos de coleção, mas eu tinha aprendido então que liberdade de palavra significa também liberdade da retórica.

Alguns dias depois vi os primeiros soldados americanos. Eram afro-americanos. O primeiro ianque que encontrei era um negro, Joseph, que me apresentou às maravilhas de Dick Tracy e Ferdinando Buscapé. Seus gibis eram coloridos e tinham um cheiro bom.

Um dos oficiais (o major ou capitão Muddy) era hóspede na casa da família de dois dos meus companheiros de escola. Sentia-me em casa naquele jardim em que alguns senhores amontoavam-se em torno ao capitão Muddy, falando um francês aproximativo. O capitão Muddy tinha uma boa educação superior e conhecia um pouco de francês. Assim, minha primeira imagem dos libertadores americanos, depois de tantos caras-pálidas de camisa negra, era a de um negro culto em uniforme cáqui que dizia: “Oui, merci beaucoup Madame, moi aussi j’aime le champagne…” Infelizmente, faltava o champagne, mas ganhei do capitão Muddy o meu primeiro chiclete e comecei mastigando o dia inteiro. De noite colocava o chiclete em um copo d’água para que ficasse fresco para o dia seguinte.

Em maio, ouvimos dizer que a guerra tinha acabado. A paz deu-me uma sensação curiosa. Haviam me dito que a guerra permanente era a condição normal de um jovem italiano. Nos meses seguintes descobri que a Resistência não era apenas um fenômeno local, mas Europeu. Aprendi novas e excitantes palavras como “reseau”, “maquis”, “armée secrète”, “Rote Kapelle”, “gueto de Varsóvia”. Vi as primeiras fotografias do Holocausto e assim compreendi seu significado antes mesmo de conhecer a palavra. Percebi que havíamos sido liberados.

Hoje na Itália existem algumas pessoas que se perguntam se a Resistência teve algum impacto militar real no curso da guerra. Para a minha geração a questão é irrelevante: compreendo imediatamente o significado moral e psicológico da Resistência. Era motivo de orgulho saber que nós, europeus, não tínhamos esperado passivamente pela liberação. Penso que, também para os jovens americanos que derramaram seu sangue pela nossa liberdade, não era irrelevante saber que atrás das linhas havia europeus que já estavam pagando seu débito.

Hoje na Itália tem gente que diz que a Resistência é um mito comunista. É verdade que os comunistas exploraram a Resistência como uma propriedade pessoal, pois realmente tiveram um papel primordial no movimento; mas lembro-me dos resistentes com bandeiras de diversas cores.

Grudado ao rádio, passava as noites – as janelas fechadas e a escuridão geral faziam do pequeno espaço em torno ao aparelho o único halo luminoso – escutando as mensagens que a Rádio Londres transmitia para a Resistência. Eram, ao mesmo tempo, obscuras e poéticas (“Ainda brilha o sol”, “As rosas hão de florir”), mas a maior parte eram “mensagens para Franchi”. Alguém soprou no meu ouvido que Franchi era o líder de um dos grupos clandestinos mais poderosos da Itália do Norte, um homem de coragem legendária. Franchi tornou-se o meu herói. Franchi (cujo verdadeiro nome era Edgardo Sogno) era um monarquista tão anticomunista que, depois da guerra, se uniu a um grupo de extrema direita e foi até acusado de ter participado de um golpe de Estado reacionário. Mas que importa? Sogno ainda é o sonho da minha infância. A liberação foi um empreendimento comum de gente das mais diversas cores.

Hoje na Itália tem gente que diz que a guerra de liberação foi um trágico período de divisão, e que precisamos agora de uma reconciliação nacional. A recordação daqueles anos terríveis deveria ser reprimida. Mas a repressão provoca neuroses. Se a reconciliação significa compaixão e respeito por todos aqueles que lutaram sua guerra de boa-fé, perdoar não significa esquecer. Posso até admitir que Eichmann acreditava sinceramente em sua missão, mas não posso dizer: “Ok, volte e faça tudo de novo”. Estamos aqui para recordar o que aconteceu e para declarar solenemente que “eles” não podem repetir o que fizeram.

Mas quem são “eles”?

Se pensamos ainda nos governos totalitários que dominaram a Europa antes da Segunda Guerra Mundial, podemos dizer com tranquilidade que seria muito difícil que eles retornassem sob a mesma forma, em circunstâncias históricas diversas. Se o fascismo de Mussolini baseava-se na idéia de um líder carismático, no corporativismo, na utopia do “destino fatal de Roma”, em uma vontade imperialista de conquistar novas terras, em um nacionalismo exacerbado, no ideal de uma nação inteira arregimentada sob a camisa negra, na recusa da democracia parlamentar, no anti-semitismo, então não tenho dificuldade para admitir que a Aliança Nacional, nascida do Movimento Social e Italiano (MSI), é certamente um partido de direita, mas tem muito pouco a ver com o velho fascismo. Pelas mesmas razões, mesmo preocupado com os vários movimentos neonazistas ativos aqui e ali na Europa, inclusive na Rússia, não penso que o nazismo, e sua forma original, esteja ressurgindo como movimento capaz de mobilizar uma nação inteira.

Todavia, embora os regimes políticos possam ser derrubados e as ideologias criticadas e destituídas de sua legitimidade, por trás de um regime e de sua ideologia há sempre um modo de pensar e de sentir, uma série de hábitos culturais, uma nebulosa de instintos obscuros e de pulsões insondáveis. Há, então, um outro fantasma que ronda a Europa (para não falar de outras partes do mundo)?

Ionesco disse certa vez que “somente as palavras contam, o resto é falatório”. Os hábitos linguísticos são muitas vezes sintomas importantes de sentimentos não expressos.

Portanto, permitam-me perguntar por que não somente a Resistência mas toda a Segunda Guerra Mundial foram definidas em todo o mundo com uma luta contra o fascismo. Se relerem “Por quem os sinos dobram”, de Hemingway, vão descobrir que Robert Jordan identifica seus inimigos com os fascistas, mesmo quando está pensando nos falangistas espanhóis.

Permitam-me passar a palavra a Franklin Delano Roosevelt: “A vitória do povo americano e de seus aliados será uma vitória contra o fascismo e o beco sem saída que ele representa” (23 de setembro de 1944).

Durante os anos de McCarthy, os americanos que tinham participado da guerra civil espanhola eram chamados de “fascistas prematuros” – entendendo com isso que combater Hitler nos anos 40 era um dever moral de todo bom americano, mas combater Franco cedo demais, nos anos 30, era suspeito. Por que uma expressão como “fascist pig” era usada pelos radicais americanos até para indicar um policial que não aprovava os que fumavam? Por que não diziam: “Porco Caugolard”, “Porco Falangista”, “Porco Quisling”, “Porco croata”, “Porco Ante Pavelic”, “Porco nazista”?

Mein Kampf é o manifesto completo de um programa político. O nazismo tinha uma teoria do racismo e do arianismo, uma noção precisa de entartete Kunst, a “arte degenerada”, uma filosofia da vontade de potência e da Übermensch. O nazismo era decididamente anticristão e neopagão, da mesma maneira que o Diamat (versão oficial do marxismo soviético) de Stalin era claramente materialista e ateu. Se como totalitarismo entende-se um regime que subordina qualquer ato individual ao Estado e sua ideologia, então nazismo e estalinismo eram regimes totalitários.

O fascismo foi certamente uma ditadura, mas não era completamente totalitário, nem tanto por sua brandura quanto pela debilidade filosófica de sua ideologia. Ao contrário do que se pensa comumente, o fascismo italiano não tinha uma filosofia própria. O artigo sobre o fascismo assinado por Mussolini para a Enciclopédia Treccani foi escrito ou inspirou-se fundamentalmente em Giovanni Gentile, mas refletia uma noção hegeliana tardia do “Estado ético absoluto”, que Mussolini nunca realizou completamente. Mussolini não tinha qualquer filosofia: tinha apenas uma retórica.

Começou como ateu militante, para depois firmar a concordata com a Igreja e confraternizar com os bispos que benziam os galhardetes fascistas. Em seus primeiros anos anticlericais, segundo uma lenda plausível, pediu certa vez a Deus que o fulminasse ali mesmo para provar sua existência. Deus estava, evidentemente, distraído. Nos anos seguintes, em seus discursos, Mussolini citava sempre o nome de Deus e não desdenhava o epíteto: “homem da Providência”. Pode-se dizer que o fascismo italiano foi a primeira ditadura de direita que dominou um país europeu e que, em seguida, todos os movimentos análogos encontraram uma espécie de arquétipo comum no regime de Mussolini.

O fascismo italiano foi o primeiro a criar uma liturgia militar, um folclore e até mesmo um modo de vestir-se – conseguindo mais sucesso no exterior que Armani, Benetton ou Versace. Foi somente nos anos 30 que surgiram movimentos fascistas na Inglaterra, com Mosley, e na Letônia, Estônia, Lituânia, Polônia, Hungria, Romênia, Bulgária, Grécia, Iugoslávia, Espanha, Portugal, Noruega e até na América do Sul, para não falar da Alemanha. Foi o fascismo italiano que convenceu muitos líderes liberais europeus de que o novo regime estava realizando interessantes reformas sociais, capazes de fornecer uma alternativa moderadamente revolucionária à ameaça comunista.

Todavia, a prioridade histórica não me parece ser uma razão suficiente para explicar por que a palavra “fascismo” tornou-se uma sinédoque, uma denominação pars pro toto para movimentos totalitários diversos. Não adianta dizer que o fascismo continha em si todos os elementos dos totalitarismos sucessivos, por assim dizer, em “estado quintessencial”. Ao contrário, o fascismo não possuía nenhuma quintessência e sequer uma só essência. O fascismo era um totalitarismo fuzzy(1). O fascismo não era uma ideologia monolítica, mas antes uma colagem de diversas idéias políticas e filosóficas, uma colméia de contradições. É possível conceber um movimento totalitário que consiga juntar monarquia e revolução, exército real e milícia pessoal de Mussolini, os privilégios concedidos à Igreja e uma educação estatal que exaltava a violência e o livre mercado?

O partido fascista nasceu proclamando sua nova ordem revolucionária, mas era financiado pelos proprietários de terras mais conservadores, que esperavam uma contra-revolução. O fascismo do começo era republicano e sobreviveu durante vinte anos proclamando sua lealdade à família real, permitindo que um “duce” puxasse as cordinhas de um “rei”, a quem ofereceu até o título de “imperador”. Mas quando, em 1943, o rei despediu Mussolini, o partido reapareceu dois meses depois, com a ajuda dos alemães, sob a bandeira de uma república “social”, reciclando sua velha partitura revolucionária, enriquecida de acentuações quase jacobinas.

Existiu apenas uma arquitetura nazista, apenas uma arte nazista. Se o arquiteto nazista era Albert Speer, não havia lugar para Mies van der Rohe. Da mesma maneira, sob Stalin, se Lamarck tinha razão, não havia lugar para Darwin. Ao contrário, existiram certamente arquitetos fascistas, mas ao lado de seus pseudocoliseus surgiram também os novos edifícios inspirados no moderno racionalismo de Gropius.

Não houve um Zdanov fascista. Na Itália existiam dois importantes prêmios artísticos: o Prêmio Cremona era controlado por um fascista inculto e fanático como Farinacci, que encorajava uma arte propagandista (recordo-me de quadros intitulados Ascoltando all radio un discorso del Duce ou Stati mentali creati dal Fascismo); e o Prêmio Bergamo, patrocinado por um fascista culto e razoavelmente tolerante como Bottai, que protegia a arte pela arte e as novas experiências da arte de vanguarda que, na Alemanha, haviam sido banidas como corruptas, criptocomunistas, contrárias ao Kitsch nibelúngico, o único aceito.

O poeta nacional era D’Annunzio, um dândi que na Alemanha ou na Rússia teria sido colocado diante de um pelotão de fuzilamento. Foi alçado à categoria de vate do regime pro seu nacionalismo e seu culto do heroísmo –com o acréscimo de grandes doses de decadentismo francês.

Tomemos o futurismo. Deveria ter sido considerado um exemplo de entartete Kunst, assim como o expressionismo, o cubismo, o surrealismo. Mas os primeiros futuristas italianos eram nacionalistas, favoreciam por motivos estéticos a participação da Itália na Primeira Guerra Mundial, celebravam a velocidade, a violência, o risco e, de certa maneira, estes aspectos pareciam próximos ao culto fascista da juventude. Quando o fascismo identificou-se com o império romano e redescobriu as tradições rurais, Marinetti (que proclamava que um automóvel era mais belo que a Vitória de Samotrácia e queria inclusive matar o luar) foi nomeado membro da Accademia d’Italia, que tratava o luar com grande respeito.

Muitos dos futuros membros da Resistência, e dos futuros intelectuais do futuro Partido Comunista, foram educados no GUF, a associação fascista dos estudantes universitários, que deveria ser o berço da nova cultura fascista. Esses clubes tornaram-se uma espécie de caldeirão intelectual em que circulavam novas idéias sem nenhum controle ideológico real, não tanto porque os homens de partido fossem tolerantes, mas porque poucos entre eles possuíam os instrumentos intelectuais para controlá-los.

No curso daqueles vinte anos, a poesia dos herméticos representou uma reação ao estilo pomposo do regime: a estes poetas era permitido elaborar seus protestos literários dentro da torre de marfim. O sentimento dos herméticos era exatamente o contrário do culto fascista do otimismo e do heroísmo. O regime tolerava esta distensão evidente, embora socialmente imperceptível, porque não prestava atenção suficiente ao um jargão tão obscuro.

O que não significa que o fascismo italiano fosse tolerante. Gramsci foi mantido na prisão até a morte, Matteotti e os irmãos Rosselli foram assassinados, a liberdade de imprensa suspensa, os sindicatos desmantelados, os dissidentes políticos confinados em ilhas remotas, o poder legislativo tornou-se pura ficção e o executivo (que controlava o judiciário, assim como a mídia) emanava diretamente as novas leis, entre as quais a da defesa da raça (apoio formal italiano ao Holocausto).

A imagem incoerente que descrevi não era devida à tolerância: era um exemplo de desconjuntamento político e ideológico. Mas era um “desconjuntamento ordenado”, uma confusão estruturada. O fascismo não tinha bases filosóficas, mas do ponto de vista emocional era firmemente articulado a alguns arquétipos.

Chegamos agora ao segundo ponto de minha tese. Existiu apenas um nazismo, e não podemos chamar de “nazismo” o falangismo hipercatólico de Franco, pois o nazismo é fundamentalmente pagão, politeísta e anticristão, ou não é nazismo. Ao contrário, pode-se jogar com o fascismo de muitas maneiras, e o nome do jogo não muda. Acontece com a noção de “fascismo” aquilo que, segundo Wittgenstein, acontece com a noção de “jogo”. Um jogo pode ser ou não competitivo, pode envolver uma ou mais pessoas, pode exigir alguma habilidade particular ou nenhuma, pode envolver dinheiro ou não. Os jogos são uma série de atividades diversas que apresentam apenas alguma “semelhança de família”:

1 – 2 – 3 – 4
abc bcd cde def

Suponhamos que exista uam série de grupos políticos. O grupo 1 é caracterizado pelos aspectos abc, o grupo 2, pelos aspectos bcd e assim por diante. 2 é semelhante a 1 na medida em que têm dois aspectos em comum. 3 é semelhante a 2 e 4 é semelhante a 1 (têm em comum o aspecto c). O caso mais curioso é dado pelo 4, obviamente semelhante a 3 e a 2, mas sem nenhuma característica em comum com 1. Contudo, em virtude da ininterrupta série de decrescentes similaridades entre 1 e 4, permanece, por uma espécie de transitoriedade ilusória, um ar de família entre 4 e 1.

O termo “fascismo” adapta-se a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou mais aspectos, e ele continuará sempre a ser reconhecido como fascista. Tirem do fascismo o imperialismo e teremos Franco ou Salazar; tirem o colonialismo e teremos o fascismo balcânico. Acrescentem ao fascismo italiano um anticapitalismo radical (que nunca fascinou Mussolini) e teremos Ezra Pound. Acrescentem o culto da mitologia céltica e o misticismo do Graal (completamente estranho ao fascismo oficial) e teremos um dos mais respeitados gurus fascistas, Julios Evola.

A despeito dessa confusão, considero possível indicar uma lista de características típicas daquilo que eu gostaria de chamar de “Ur-Fascismo”, ou “fascismo eterno”. Tais características não podem ser reunidas em um sistema; muitas se contradizem entre si e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas é suficiente que uma delas se apresente para fazer com que se forme uma nebulosa fascista.

1. A primeira característica de um Ur-Fascismo é o culto da tradição. O tradicionalismo é mais velho que o fascismo. Não somente foi típico do pensamento contra-reformista católico depois da Revolução Francesa, mas nasceu no final da idade helenística como uma reação ao racionalismo grego clássico.

Na bacia do Mediterrâneo, povos de religiões diversas (todas aceitas com indulgência pelo Panteon romano) começaram a sonhar com uma revelação recebida na aurora da história humana. Essa revelação permaneceu longo tempo escondida sob o véu de línguas então esquecidas. Havia sido confiada aos hieróglifos egípcios, às runas dos celtas, aos textos sacros, ainda desconhecidos, das religiões asiáticas.

Essa nova cultura tinha que ser sincretista. “Sincretismo” não é somente, como indicam os dicionários, a combinação de formas diversas de crenças ou práticas. Uma combinação assim deve tolerar contradições. Todas as mensagens originais contêm um germe de sabedoria e, quando parecem dizer coisas diferentes ou incompatíveis, é apenas porque todas aludem, alegoricamente, a alguma verdade primitiva.

Como consequência, não pode existir avanço do saber. A verdade já foi anunciada de uma vez por todas, e só podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem. É suficiente observar o ideário de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas. A gnose nazista nutria-se de elementos tradicionalistas, sincretistas ocultos. A mais importante fonte teórica da nova direita italiana Julius Evola, misturava o Graal com os Protocolos dos Sábios de Sião, a alquimia com o Sacro Império Romano. O próprio fato de que, para demonstrar sua abertura mental, a direita italiana tenha recentemente ampliado seu ideário juntando De Maistre, Guenon e Gramsci é uma prova evidente de sincretismo.

Se remexerem nas prateleiras que nas livrarias americanas trazem a indicação “New Age”, irão encontrar até mesmo Santo Agostinho e, que eu saiba, ele não era fascista. Mas o próprio fato de juntar Santo Agostinho e Stonehenge, isto é um sintoma de Ur-Fascismo.

2. O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. Tanto os fascistas como os nazistas adoravam a tecnologia, enquanto os tradicionalistas em geral recusam a tecnologia como negação dos valores espirituais tradicionais. Contudo, embora o nazismo tivesse orgulho de seus sucessos industriais, seu elogio da modernidade era apenas o aspecto superficial de uma ideologia baseada no “sangue” e na “terra” (Blut und Boden). A recusa do mundo moderno era camuflada como condenação do modo de vida capitalista, mas referia-se principalmente à rejeição do espírito de 1789 (ou 1776, obviamente). O iluminismo, a idade da Razão eram vistos como o início da depravação moderna. Nesse sentido, o Ur-Fascismo pode ser definido como “irracionalismo”.

3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. A ação é bela em si, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão. Pensar é uma forma de castração. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas. Da declaração atribuída a Goebbels (“Quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola”) ao uso frequente de expressões como “Porcos intelectuais”, “Cabeças ocas”, “Esnobes radicais”, “As universidades são um ninho de comunistas”, a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo. Os intelectuais fascistas oficiais estavam empenhados principalmente em acusar a cultura moderna e a inteligência liberal de abandono dos valores tradicionais.

4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas. O espírito crítico opera distinções, e distinguir é um sinal de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica percebe o desacordo como instrumento de avanço dos conhecimentos. Para o Ur-Fascismo, o desacordo é traição.

5. O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade. O Ur-Fascismo cresce e busca o consenso desfrutando e exacerbando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou que está se tornando fascista é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, portanto, racista por definição.

6. O Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica por que uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos “proletários” estão se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato se auto exclui da cena política), o fascismo encontrará nessa nova maioria seu auditório.

7. Para os que se vêem privados de qualquer identidade social, o Ur-Fascismo diz que seu único privilégio é o mais comum de todos: ter nascido em um mesmo país. Esta é a origem do “nacionalismo”. Além disso, os únicos que podem fornecer uma identidade às nações são os inimigos. Assim, na raiz da psicologia Ur-Fascista está a obsessão do complô, possivelmente internacional. Os seguidores têm que se sentir sitiados. O modo mais fácil de fazer emergir um complô é fazer apelo à xenofobia. Mas o complô tem que vir também do interior: os judeus são, em geral, o melhor objetivo porque oferecem a vantagem de estar, ao mesmo tempo, dentro e fora. Na América, o último exemplo de obsessão pelo complô foi o livro The New World Order, de Pat Robertson.

8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo. Quando eu era criança ensinavam-me que os ingleses eram o “povo das cinco refeições”: comiam mais frequentemente que os italianos, pobres mas sóbrios. Os judeus são ricos e ajudam-se uns aos outros graças a uma rede secreta de mútua assistência. Os adeptos devem, contudo, estar convencidos de que podem derrotar o inimigo. Assim, graças a um contínuo deslocamento de registro retórico, os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais. Os fascismos estão condenados a perder suas guerras, pois são constitutivamente incapazes de avaliar com objetividade a força do inimigo.

9. Para o Ur-Fascismo não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente. Contudo, isso traz consigo um complexo de Armagedon: a partir do momento em que os inimigos podem e devem ser derrotados, tem que haver uma batalha final e, em seguida, o movimento assumirá o controle do mundo. Uma solução final semelhante implica uma sucessiva era de paz, uma idade de Ouro que contestaria o princípio da guerra permanente. Nenhum líder fascista conseguiu resolver essa contradição.

10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. No curso da história, todos os elitismos aristocráticos e militaristas implicaram o desprezo pelos fracos. O Ur-Fascismo não pode deixar de pregar um “elitismo popular”. Todos os cidadãos pertencem ao melhor povo do mundo, os membros do partido são os melhores cidadãos, todo cidadão pode (ou deve) tornar-se membro do partido. Mas patrícios não podem existir sem plebeus. O líder, que sabem muito em que seu poder não foi obtido por delegação, mas conquistado pela força, sabe também que sua força baseia-se na debilidade das massas, tão fracas que têm necessidade e merecem um “dominador”. No momento em que o grupo é organizado hierarquicamente (segundo um modelo militar), qualquer líder subordinado despreza seus subalternos e cada um deles despreza, por sua vez, os seus subordinados. Tudo isso reforça o sentido de elitismo de massa.

11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói. Em qualquer mitologia, o “herói” é um ser excepcional, mas na ideologia Ur-Fascista o heroísmo é a norma. Este culto do heroísmo é estreitamente ligado ao culto da morte: não é por acaso que o mote dos falangistas era: “Viva la muerte!” À gente normal diz-se que a morte é desagradável, mas é preciso enfrentá-la com dignidade; aos crentes, diz-se que é um modo doloroso de atingir a felicidade sobrenatural. O herói Ur-Fascista, ao contrário, aspira à morte, anunciada como a melhor recompensa para uma vida heróica. O herói Ur-Fascista espera impacientemente pela morte. E sua impaciência, é preciso ressaltar, consegue na maior parte das vezes levar os outros à morte.

12. Como tanto a guerra permanente como o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o Ur-Fascista transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Esta é a origem do machismo (que implica desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante de hábitos sexuais não-conformistas, da castidade à homossexualidade). Como o sexo também é um jogo difícil de jogar, o herói Ur-Fascista joga com as armas, que são seu Ersatz fálico: seus jogos de guerra são devidos a uma invidia penis permanente.

13. O Ur-Fascismo baseia-se em um “populismo qualitativo”. Em uma democracia, os cidadãos gozam de direitos individuais, mas o conjunto de cidadãos só é dotado de impacto político do ponto de vista quantitativo (as decisões da maioria são acatadas). Para o Ur-Fascismo os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos e “o povo” é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime “a vontade comum”. Como nenhuma quantidade de seres humanos pode ter uma vontade comum, o líder apresenta-se como seu intérprete. Tendo perdido seu poder de delegar, os cidadãos não agem, são chamados apenas pars pro toto, para assumir o papel de povo. O povo é, assim, apenas uma ficção teatral. Para ter um bom exemplo de populismo qualitativo, não precisamos mais da Piazza Venezia ou do estádio de Nuremberg.

Em nosso futuro desenha-se um populismo qualitativo TV ou Internet, no qual a resposta emocional de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentada e aceita como a “voz do povo”. Em virtude de seu populismo qualitativo, o Ur-Fascismo deve opor-se aos “pútridos” governos parlamentares. Uma das primeiras frases pronunciadas por Mussolini no parlamento italiano foi: “Eu poderia ter transformado esta assembléia surda e cinza em um acampamento para meus regimentos”. De fato, ele logo encontrou alojamento melhor para seus regimentos e pouco depois liquidou o parlamento. Cada vez que um político põe em dúvida a legitimidade do parlamento por não representar mais a “voz do povo”, pode-se sentir o cheiro de Ur-Fascismo.

14. O Ur-Fascismo fala a “novilíngua”. A “novilíngua” foi inventada por Orwell em 1984, como língua oficial do Ingsoc, o Socialismo Inglês, mas certos elementos de Ur-Fascismo são comuns a diversas formas de ditadura. Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico. Devemos, porém estar prontos a identificar outras formas de novilíngua, mesmo quando tomam a forma inocente de um talk-show popular.

Depois de indicar os arquétipos possíveis do Ur-Fascismo, permitam-me concluir. Na manhã de 27 de julho de 1943 foi-me dito que, segundo informações lidas na rádio, o fascismo havia caído e Mussolini tinha sido feito prisioneiro. Minha mãe mandou-me comprar o jornal. Fui ao jornaleiro mais próximo e vi que os jornais estavam lá, mas os nomes eram diferentes. Além disso, depois de uma breve olhada nos títulos, percebi que cada jornal dizia coisas diferentes. Comprei um, ao acaso, e li uma mensagem impressa na primeira página, assinada por cinco ou seis partidos políticos como Democracia Cristã, Partido Comunista, Partido Socialista, Partido de Ação, Partido Liberal. Até aquele momento pensei que só existisse um partido em todas as cidades e que na Itália só existisse, portanto, o Partido Nacional Fascista. Eu estava descobrindo que, no meu país, podiam existir diversos partidos ao mesmo tempo. E não só isso: como eu era um garoto esperto, logo me dei conta de que era impossível que tantos partidos tivessem aparecido de um dia para o outro. Entendi assim que eles já existiam como organizações clandestinas.

A mensagem celebrava o fim da ditadura e o retorno à liberdade: liberdade de palavra, de imprensa, de associação política. Estas palavras, “liberdade”, “ditadura” – Deus meu -, era a primeira vez em toda a minha vida que eu as lia. Em virtude dessas novas palavras renasci como homem livre ocidental.

Devemos ficar atentos para que o sentido dessas palavras não seja esquecido de novo. O Ur-Fascismo ainda está a nosso redor, às vezes em trajes civis. Seria muito confortável para nós se alguém surgisse na boca de cena do mundo para dizer: “Quero reabrir Auschwitz, quero que os camisas-negras desfilem outra vez pelas praças italianas!”. Ai de mim, a vida não é fácil assim! O Ur-Fascismo pode voltar sob as vestes mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o indicador para cada uma de suas novas formas – a cada dia, em cada lugar do mundo. Cito ainda as palavras de Roosevelt: “Ouso dizer que, se a democracia americana parasse de progredir como uma força viva, buscando dia e noite melhorar, por meios pacíficos, as condições de nossos cidadãos, a força do fascismo cresceria em nosso país” (4 de novembro de 1938). Liberdade, liberação são uma tarefa que não acaba nunca. Que seja este o nosso mote: “Não esqueçam”.

E permitam-me acabar com uma poesia de Franco Fortini:

Sulla spalletta del ponte
Le teste degli impiccati
Nell’acqua della fonte
La bava degli impiccati
Sul lastrico del mercato
Le unghie dei fucilati
Sull’erba secca del prato
I denti dei fucilati

Mordere l’aria mordere i sassi
La nostra carne non à più d’uomini
Mordere l’aria mordere i sassi
Il nostro cuore non à più d’uomini.

Ma noi s’è letto negli occhi dei morti
E sulla terra faremo libertà
Ma l’hanno stretta i pugni dei morti
La giustizia che si farà.

(Na amurada da ponte/ A cabeça dos enforcados/Na água da fonte/ A baba dos enforcados/No calçamento do mercado/As unhas dos fuzilados/Sobre a grama seca do prado/Os dentes dos fuzilados/Morder o ar morder as pedras/ Nossa carne não é mais de homens/Morder o ar morder as pedras/Nosso coração não é mais de homens/ Mas lemos nos olhos dos mortos/ E sobre a terra a liberdade havemos de fazer/ Mas estreitaram-na nos punhos os mortos/A justiça que se há de fazer.)”

Umberto Eco, O Fascismo Eterno, in: Cinco Escritos Morais, Tradução: Eliana Aguiar, Editora Record, Rio de Janeiro, 2002.

(1) Usado atualmente em lógica para designar conjuntos “esfumados”, de contornos imprecisos, o termo fuzzy poderia ser traduzido como “esfumado”, “confuso”, “impreciso”, “desfocado”. 

Fonte da publicação: ver aqui

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