terça-feira, 6 de outubro de 2026
Fernando Pessoa
CARTA A UM HERÓI ESTÚPIDO
CARTA A UM HERÓI ESTÚPIDO
Li, sem entusiasmo e sem pasmo, as declarações que Vossa Heroicidade fez no Funchal, a propósito de questões políticas, onde se mostrou, mais uma inútil vez, que a coragem física não é, em geral, acompanhada duma grande lucidez intelectual. Permitiu-se Vossa Heroicidade, fresca ainda do cativeiro e mais fresca ainda dos aplausos de quantos pobres diabos a ilha da Madeira pôde reunir, fazer considerações, que só a um sociólogo competia ousar, sobre o modo como o nosso país fora administrado pelo Sr. General Pimenta de Castro.
Foi uma péssima ideia.
Por fácil que lhe houvesse parecido dizer umas quantas coisas estúpidas sobre o modo como a ditadura recente se havia comportado internacionalmente, permanece o facto de que essas coisas foram estúpidas e o facto de as ter dito um herói, longe de esbater o ridículo fundamental das coisas extremamente estúpidas quando ditas sobre assuntos graves, mais o pôs em relevo.
Quem lhe meteu na cabeça, ó desgraçado varredor de feiras africanas, que a habilidade para as arremetidas violentas facilitava com certeza a competência sociológica? Quem lhe insinuou, desgraçado, que o facto de ter feito frente ousada a umas tropas germânicas lhe concedia jus de opinião política? Decerto que, inexperiente no modo como os homens intrincadamente lidam uns com os outros, o cérebro futurista já pela confusão de aplausos que lhe proporcionaram, o sr. julgou ter competência para apreciar os seus superiores políticos e procedeu no caso com o plebeísmo fundamental de todas as criaturas fisicamente valentes.
Se um campeão de pesos — um campeão, por exemplo, do arraché — se pusesse a escrever sonetos, baseado, para si próprio, no facto de que conseguira erguer, em determinada posição de braço, uns tantos excessivos quilos, toda a gente riria da sua precipitada audácia que julgara o êxito no esforço muscular competência bastante para tentar o êxito no esforço poético. E contudo o seu caso, meu desgraçado e estúpido herói, não passou deste ridículo comenos. A circunstância de se ter batido heroicamente em Naulila pareceu-lhe que lhe dava azo psíquico a arcar com ideias abstractas e com noções sociológicas, e, assim, o sr. ousou largar em público, através de um discurso que foi condenado a pronunciar, opiniões que, normalmente admissíveis na lazeirenta competência dos moços de esquina, não têm contudo mais relevo do que as opiniões normalmente características do género de artistas citado.
Pobre parvo heróico, que ousou pronunciar sobre um dos melhores ditadores da nossa história um labéu inútil de traidor quasi, quando o único labéu que daí resta é o de estúpido para si. Vá para casa, ou vá para a guerra. Deixe a sociologia e a política. Que diable alliez-vous faire dans cette galère? Nada, meu pobre muscular, meu pobre sem-nervos, nada. Para casa, para a guerra, para o esforço físico, desgraçado. Deixe aos outros, aos competentes, a análise da situação política. Erga-se, herói, e cale-se, parvo.
De onde lhe veio a ideia, ó simples soldado!, que podia ter opiniões sobre assuntos políticos, e que são, em sua essência última, sociológicos? Quem lhe transtornou o cérebro a tal ponto que lhe pareceu provável que as sombras de ideias que usualmente --habitam as almas confusas dos práticos, podiam ser por si emitidas com o aspecto firme de noções políticas? Que bebedeira de celebridade o levou pela mão, perfidamente, até conseguir que lançasse para a publicidade das gazetas esses pobres e tacanhos conceitos, próprios de qualquer recruta analfabeto, que se permitiu ter a propósito da ditadura do general Pimenta de Castro?
Onde estudou Vossa Heroicidade a sociologia? Em que loba Romana bebeu este Rómulo de Naulila o leite da ciência do governo? Em vez da atitude comedida e modesta que compete a um homem cuja acção é militar e prática, este indivíduo aventurou-se, com uma coisa que já não é ousadia, porque aqui é estupidez, até formular opiniões sobre a situação do país de que não sabe nada, das condições políticas do país, que não conhece, da atitude dos grupos aristocráticos portugueses, cujo representante espontâneo, o ditador recentemente deposto por uma revolução estomacal, foi das figuras que mais vincou o protesto necessário das elites portuguesas contra este domínio de carbonários e de ladrões, de arruaceiros e de gatunos, que lá vai para cinco anos nos conturba. Que sabe o sr. disso, para que venha assim estupidamente insultar os seus superiores não só hierárquicos, mas intelectuais também? Sabe por acaso que o general Pimenta de Castro tinha consigo todo o país, menos a parte revolucionária, menos a Junta dos Interesses Próprios, menos esse prolongamento fadista da monarquia que enxameia aí pelas esquinas e deu azo a um professor espanhol que escrevesse a nosso respeito nacional palavras que ardem, porque são justas, e nos fazem corar, porque nos descreveu? A indignação sobe e cresce quando se vê que este homem, que podia estar alto e digno na modéstia intelectual da sua atitude de combatente, vem galgar por cima dos muros da sua competência para nos fazer discursos que seriam desculpáveis em Costa (chefe de assassinagem) e admissíveis em qualquer dos espanhóis do interior que compõem o partido democrático.
Num livro, que preparo, demonstrarei sociologicamente que esta revolução de 14 de Maio não foi mais do que uma reconstrução republicana dos princípios monárquicos de governo, agravada pela indisciplina que, como revolução, causou, e, como revolução feita por autênticos penitenciários, mais que causou.
Que sabe o sr. da Alemanha, salvo que teve que se defrontar — e heroicamente o fez — com os seus soldados? Que sabe o sr. da sua atitude na guerra da razão fortíssima porque ela faz esta guerra, das causas íntimas deste conflito todo? Não sabe nada, é claro, e ninguém lhe levaria a mal não saber nada, se não se tivesse permitido — estranha coisa num herói, que não costuma rebaixar o inimigo — fazer lamentáveis considerações a respeito deste país. Que longe que o sr., e todos os que estão consigo, andam das aspirações profundas da alma nacional, que não andam aí pelas ruas de Lisboa, nas mãos dos carbonários, mãos cujo polegar, na maioria dos casos, o posto antropométrico não desconhece (...)
Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979.
- 83.
Fernando Pessoa
O sr. não se bateu pela Pátria.
O sr. não se bateu pela Pátria. Não se podia bater pela Pátria, porque não tem Pátria por que se bater. Não me refiro agora, já, à circunstância de o sr., não tendo um conceito português da vida, não poder ser, por isso, considerado português. Refiro a outra, e mais grave, circunstância, com a qual o sr. nada tem. Refiro-me ao facto de que nenhum de nós tem Pátria. O português é hoje um expatriado no seu próprio país. Somos uma nação, não uma pátria; somos um agregado humano sem aquela alma colectiva que constitui uma Pátria. Somos... Sei lá o que nós somos? sabe alguém o que nos somos, salvo o lugar por onde um cataclismo vai passar (...)
Com efeito, porque somos nós uma Pátria; antes, quero dizer, porque o não somos nós? Sabe o que é uma Pátria? Não espere que eu venha fazer lirismos: pergunto, concretamente e en sociologue , o que vem a ser uma Pátria? Uma de duas coisas, e nenhuma terceira: um conjunto humano tornando consciência de si-próprio como diferente de outros conjuntos. De que modo pode esse conjunto humano ter essa especial consciência de si próprio? De uma de duas maneiras, e de nenhuma outra maneira. Ou tem essa consciência pela continuidade de vida nacional, pela consciência das tradições especiais que fazem esse conjunto tal e não tal outro: e esta é a maneira tradicionalista de ser uma Pátria: ou tem essa consciência através de ter criado um novo conceito de vida, da sociedade, do mundo, que lhe é próprio, que se distingue dos outros conceitos de vida, w eltanschaaungen, dos outros países, quer eles os tenham — aos deles — por tradição, quer, também por criação recente. Eu explico melhor. Quando os filósofos e literatos alemães do fim do séc. XVIII e princípios do séc. XIX ergueram aquele monumento artístico e filosófico de onde saiu a geração de criadores que causou a Alemanha actual, essa gente ergueu, no seio da Alemanha, um novo conceito inteiramente novo das coisas — conceito inteiramente novo que, por ter nascido na Alemanha, se mostrou Alemão. Na impossibilidade de reatar as tradições germânicas, criaram uma Alemanha nova. Ali aí está nos seus resultados, e eu quero crer que o sr., apesar de herói e coisas anexas, terá a suficiente lucidez para confessar que é uma coisa razoavelmente forte e grande. Isto é o exemplo do conceito antitradicionalista de Pátria. Pessoalmente, adiro a este conceito; julgo inútil e mesquinha a cura escrupulosa de seguir as tradições. O Portugal das descobertas não seguiu tradição nenhuma: criou-se.
Repare agora para o momento português actual. Qual das duas coisas lhe aparece aí a denunciar-lhe que Portugal é uma Pátria? Quebrámos com todas as tradições; até aqui nada há de mau. Resta saber se lhes substituímos qualquer coisa nova que seja de criação portuguesa. É assim? Qual é essa coisa? Os princípios em que assenta esta coisa a que se chama a República Portuguesa. Esses princípios são franceses. São tudo menos nacionais. Que diabo!, não é preciso ver muito pela história fora para perceber isso. Mais nos valera uma experiência fenomenalmente absurda no campo social ou institucional, mas que fosse nossa, que fosse originaria de aqui, que, portanto, tivesse o poder patriótico, ou patriotizante, de nos distinguir dos outros países. Mas não há nada disto. Não há Portugal: há uma mistura ignóbil de "estrangeiros do interior" (como com razão, se bem que de outro ponto de vista, se lhes chamou) a governar-nos e a estropiar-nos o resto do que somos.
Entre outras coisas o sr, deve ter ouvido chamar traidor a Paiva Couceiro. Deve também ter ouvido denunciar e conspurcar uma frase, que se atribui aos nossos monárquicos, de que "antes Afonso XIII que Afonso Costa". Quero fazer — não propriamente a defesa — mas a explicação destas duas coisas — da atitude de Couceiro e a da frase atribuída aos monárquicos. As considerações, que acabo de exarar, devem dar-lhe a intuição de como essa defesa pode ser feita.
Paiva Couceiro é um espírito ferrenhamente tradicionalista. Podemos não concordar — já disse que não concordo — com esse conceito tradicionalista. Mas ele é sem dúvida um conceito de nacionalidade. É preferível a conceito nenhum. Dentro do tradicionalismo pode haver patriotismo; fora dele, e não havendo a criação de novos ideais absolutamente nacionais, não vejo que patriotismo possa haver. Paiva Couceiro viu erguer-se uma instituição, a que alguns maduros e um grande número de gatunos chamaram "a nossa querida República" — e deve ter sentido, senão o pensou lucidamente — que essa instituição vinha arrancar tudo quanto restava — e não era muito — das tradições nacionais, sem lhes substituir absolutamente nada que mostrasse que era uma república portuguesa. Couceiro viu, ou deve ter sentido, que tal República, ou que quer que fosse, representava, nessas condições um atentado contra a Pátria. Era um factor de dissolução nacional. Não agia senão destrutivamente sobre quanto se pudesse considerar como energizador das almas portuguesas, ermo congregador das almas portuguesas numa única lusitana. Por isso o tradicionalista Paiva Couceiro sentiu a necessidade de conspirar. Ele foi sempre um grande soldado e um grande patriota; continuou sendo o mesmo soldado e o mesmo patriota. A sua superioridade moral sobre os estrangeiros da nossa República é incomensurável. No seu tradicionalismo exaltado, ele é, apesar de tudo, um português. Eles não são nada, nada, nada. Estrangeiros, e estrangeiros estúpidos; que nem sequer vieram trazer à administração pública aquela honestidade cuja ausência na monarquia lhes serviu de trampolim para as campanhas oposicionistas. A monarquia portuguesa, é certo, era um regime de ladrões e incompetentes. Mas era um regime que estava cá há oito séculos, que, pelo menos exteriormente. estava identificado se não com a nacionalidade, pelo menos com a existência ostensiva da nacionalidade. Substituí-lo por um regime que, além de não ser nacional de modo nenhum, continuava as mesmas tradições (estas sim!) de gatunagem e de incompetência., agravando, se talvez não a gatunagem, por certo que a incompetência — eis uma coisa para que não valia a pena ter derramado sangue, perturbado a vida portuguesa, criado maior soma de desprezos por nós do que os que já havia no estrangeiro.
Não concordo, talvez, nem com uma única das ideias que formam a base do conceito português da vida que Couceiro tem. Mas reconheço nele um português. Como português, não posso deixar de, por isso, simpatizar com ele. Nem por sombras me ocorre que possa haver comparação entre a sua atitude — se bem que, para mim, errónea — e a estrangeirada atitude a que estes bandalhos da República chamam "patriotismo".
Quanto à frase, ou expressão de desejo, que "antes Afonso XIII do que Afonso Costa", se a acho (seja ela de quem for) absurda e abjecta, confesso que a compreendo, que compreendo que se houvesse emitido. Aqui como no caso de Couceiro — os conceitos, que expus, acerca do que constitui uma Pátria devem auxiliá-lo a compreender também. O domínio espanhol significaria uma grande desgraça, uma grande vergonha, e um grande desastre nacional. Era a perda da nossa independência — não é assim? — o arrazamento da nossa Pátria? Mas que diabo é isto em que vivemos? Vivemos como portugueses? Como vivemos, se não somos governados por homens orientados portuguesmente? como, se são estrangeiras as ideias que nos "orientam"? como? se de independência nacional temos apenas o nome e o espectro da coisa? Para que serve uma independência nacional, se não é para se viver nacionalmente? Que diabo de independência nacional tem um desgraçado país que é internacionalmente um feudo da Inglaterra, que é nacionalmente um feudo do anti-português Afonso Costa? Se a perda declarada da nossa independência seria (e sê-lo-ia) uma desgraça e uma vergonha, em que é (salvo na absoluta evidência exterior) menos vergonha e menos desgraça a triste situação em que estamos? Um Portugal onde internacionalmente só se pode ser inglês; onde nacionalmente só se pode ser francês (pois que francesas sejam as ideias republicanas que nos "governam") — um Portugal onde, portanto, tudo se pode ser ("tudo" é um modo de falar) menos português, que espécie de "Portugal independente" é que é? Que independência há nisto? Triste gente que se contenta com a triste aparência das coisas, e não vê um palmo adiante das sensações quotidianas, para dentro da sua alma súbdita e oprimida!
Há mais ainda. Estas ideias estrangeiras que hoje formam a fórmula pseudogovernativa da nossa sociedade, são, além de estrangeiras, revolucionárias; isto é, trazem consigo um duplo poder de desintegração social. Dificilmente se concebe um mais desgraçado estado nacional.
É este o estado do país a que o sr., coberto de certa glória, regressa. São estes os homens a que o sr. vem dar o apoio da sua voz. Está contente? Sente-se português? Para que lhe pergunto eu isto? Estas perguntas, afinal, têm mais que uma colocação retórica no discurso?
A estes inimigos internos da sua Pátria vem o sr. trazer o auxílio do algum prestígio que alcançou. Nesse caso vá mais longe. O sr. será um herói, mas é também um mau patriota e um mau português. Será um soldado valente, mas é também um parvo.
Afinal para que lhe estou eu dizendo isto? Para que serve dizer isto, explicá-lo, raciociná-lo, quando sem dúvida toda essa chinfrineira de celebridade feita em seu torno não obedece senão a qualquer plano do partido democrático? Porque, no fundo disto tudo, a única realidade é o Costa. Sim, aqui, na realidade real, não há o sr., nem o seu heroísmo, nem Naulila, nem alemães, nem coisa nenhuma. Há o Costa e o seu partido. E se lhe tenho chamado — ao sr. — parvo e estúpido durante o decurso desta carta, compreende bem que é porque, supondo-o um homem de coração e um patriota, o considero apenas como inconscientemente servindo interesses políticos que, no fundo, são da mais escura espécie, e, no melhor, não são mais que interesses eleitorais e governativos. Limito-me ao conceito fácil de que o sr. é estúpido, porque não posso admitir que um homem que se bateu heroicamente, que cumpriu o seu dever nas linhas de fogo, que se viu frente a frente com as realidades fundamentais da vida — a morte, a guerra e a Pátria — venha, de consciência lúcida e caso pensado, servir os interesses baixos e reles dum partido de arruaceiros e de gatunos. Não creio que o sr. tivesse pensado bem que a sua voz ia ser uma espécie de defesa de Ambaca, das bínubas, das minas da Panasqueira., (...) — de todo esse rosário ateu de escândalos e de traições que constitui os serviços que o partido democrático tem prestado... à Espanha.
Espanhóis do interior — é o que são esses homens em cujo proveito se ergueu um momento da sua voz. Traidores por temperamento e quotidiano gesto — eis do que não passam os indivíduos de forma humana que a sua glória vem servir e o seu nome prestigiar. Bem precisados de prestígio — na verdade — estão eles! Mas não há ninguém que lhes possa dar prestígio. Se eles conseguissem erguer do túmulo Nuno Álvares, o Infante D. Henrique e Afonso de Albuquerque, e os conseguissem inscrever no Centro da Rua Ivens, o que resultaria era um grande desprestígio para esses vultos da nossa história. Moralmente já nada salva aquela caranguejola de patifes. Oxalá, moral ou fisicamente, haja alguma coisa que salve isto!
Enfim... Enfim...
Mas não é verdade que é duro chegar-se a este ponto? Não é verdade que dói e envergonha um português ver que a este ponto se chega?
Naulilas, cativeiros, regresso, vivas, heroísmos, promoções... E no fundo disto tudo não haver outra realidade senão uma manobra eleitoral do partido democrático!
Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979.
- 87.«Carta a um herói estúpido»
Fernando Pessoa
Nisto de manifestações populares, o mais difícil é interpretá-las.
Nisto de manifestações populares, o mais difícil é interpretá-las. Em geral, quem a elas assiste ou sabe delas ingenuamente as interpreta pelos factos como se deram. Ora, nada se pode interpretar pelos factos como se deram. Nada é como se dá. Temos que alterar os factos, tais como se deram, para poder perceber o que realmente se deu. É costume dizer-se que contra factos não há argumentos. Ora só contra factos é que há argumentos. Os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos. A lógica é o nosso critério de verdade, e é nos argumentos, e não nos factos, que pode haver lógica.
Nisto de manifestações — ia eu dizendo — o difícil é interpretá-las. Porque, por exemplo, uma manifestação conservadora é sempre feita por mais gente do que toma parte nela. Com as manifestações liberais sucede o contrário. A razão é simples. O temperamento conservador é naturalmente avesso a manifestar-se, a associar-se com grande facilidade; por isso, a uma manifestação conservadora vai só um reduzido número da gente que poderia, ou mesmo quereria, ir. O feitio psíquico dos liberais é, ao contrário, expansivo e associador; as manifestações dos “avançados” englobam, por isso, os próprios indiferentes de saúde, a quem toda a vitalidade acena.
Isto, porém, é o menos. O melhor é que, para quem pensa, o único sentido duma manifestação importante é demonstrar que a corrente da opinião contrária é muito forte. Ninguém arranja manifestações em favor de princípios indiscutíveis. Tão-pouco se aglomeram vivas em torno a um homem a quem é feita uma oposição sem relevo ou importância. Não há manifestações a favor de alguém; todas elas são contra os que estão contra esse alguém. É por isso este, e não o “homenageado”, quem fica posto em relevo. Quanto maior a manifestação, mais fraco está o visado; maior se sente a força que se lhe opõe. Toda a manifestação é um corro-a-salvar-te de quem não pensa contribuir para a salvação,senão com palmas e vivas.
É este o ensinamento que toda a criatura lúcida tira das manifestações populares.
Quando a uma criatura, que está em evidência ou regência, se faz uma manifestação que resulta pequeníssima, conte tal criatura com o apoio dum país inteiro. Se a manifestação fosse grande, tremesse então. É que os seus partidários teriam sentido, por uma intuição irritada, a grandeza da oposição a ele, e isso os chamaria em peso para a rua, para, com suas muitas palmas e vivas, aumentar a ele e a si próprios a ilusão duma confiança que enfraquece.
Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980.
- 54.1ª publ.: “Crónica da vida que passa”. in O Jornal, nos. 15 e 18. Lisboa: 18 e 21-4-1915.
Fernando Pessoa
Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas políticas,
Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas políticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro hábito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opiniões continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. Talvez não seja tarde para estabelecer, sobre tão delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude científica.
Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentada sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo própria. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural.
A coerência, a convicção, a certeza, são além disso demonstrações evidentes — quantas vezes escusadas — de falta de educação. E uma falta de cortesia com os outros ser sempre o mesmo à vista deles; é maçá-los, apoquentá-los com a nossa falta de variedade.
Uma criatura de nervos modernos, de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia. Deve ter, não crenças religiosas, opiniões políticas, predilecções literárias, mas sensações religiosas, impressões políticas, impulsos de admiração literária.
Certos estados de alma da luz, certas atitudes da paisagem têm, sobretudo quando excessivos, o direito de exigir a quem está diante deles determinadas opiniões políticas, religiosas e artísticas, aqueles que eles insinuem, e que variarão, como é de entender, consoante esse exterior varie. O homem disciplinado e culto faz da sua sensibilidade e da sua inteligência espelhos do ambiente transitório: é republicano de manhã, e monárquico ao crepúsculo; ateu sob um sol descoberto, e católico ultramontano a certas horas de sombra e de silêncio; e não podendo admitir senão Mallarmé àqueles momentos do anoitecer citadino em que desabrocham as luzes, ele deve sentir todo o simbolismo uma invenção de louco quando, ante uma solidão de mar, ele não souber de mais do que da Odisseia.
Convicções profundas, só as têm as criaturas superficiais. Os que não reparam para as coisas quase que as vêem apenas para não esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política e a religião gastam dessa lenha, e é por isso que ardem tão mal ante a Verdade e a Vida.
Quando é que despertaremos para a justa noção de que a política, religião e vida social são apenas graus inferiores e plebeus da estética — a estética dos que ainda a não podem ter? Só quando uma humanidade livre dos preconceitos da sinceridade e coerência tiver acostumado as suas sensações a viverem independentemente, se poderá conseguir qualquer coisa de beleza, elegância e serenidade na vida.
Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980.
- 5.1ª publ.:”Crónica da vida que passa”. in O Jornal, nº 2. Lisboa: 5-4-1915.
Fernando Pessoa
Às vezes, quando penso nos homens célebres,
Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade.
A celebridade é um plebeísmo. Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeísmo porque estar em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida doméstica; é sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas mínimas acções — ridiculamente humanas às vezes — que ele quereria invisíveis, coa-as a lente da celebridade para espectaculosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma se estraga ou se enfastia. É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade.
Depois, além dum plebeísmo, a celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e as enfraquece. Um homem de génio desconhecido pode gozar a volúpia suave do contraste entre a sua obscuridade e o seu génio; e pode, pensando que seria célebre se quisesse, medir o seu valor com a sua melhor medida, que é ele — próprio. Mas, uma vez conhecido, não está mais na sua mão reverter à obscuridade. A celebridade é irreparável. Dela como do tempo, ninguém torna atrás ou se desdiz.
E é por isto que a celebridade é uma fraqueza também. Todo o homem que merece ser célebre sabe que não vale a pena sê-lo. Deixar-se ser célebre é uma fraqueza, uma concessão ao baixo-instinto, feminino ou selvagem, de querer dar nas vistas e nos ouvidos.
Penso às vezes nisto coloridamente. E aquela frase de que «homem de génio desconhecido» é o mais belo de todos os destinos, torna-se-me inegável; parece-me que esse é não só o mais belo, mas o maior dos destinos.
Diz-se que os herméticos da Rosa-Cruz, seita esotérica e magista, descobriram, desde o início dos tempos, o segredo da vida eterna, o elixir da vida; que, nunca morrendo, passam de época em época, através dos ciclos e das civilizações, despercebidos, nenhuns e, contudo, pela grandeza da coisa transcendental que criaram, maiores do que os génios todos da evidência humana. Da sua seita é o preceito, que cumprem, de se não darem nunca a conhecer. A sua presença eterna, que vive à margem da nossa transiência, vive também fora da nossa pequenez.
Vão-se-me os olhos da alma nessas figuras supostas — e quem sabe a que ponto reais? — que, verdadeiramente, realizam o supremo destino do homem: o máximo do poder no mínimo da exibição; o mínimo da exibição, por certo, por terem o máximo do poder. O sentido das suas vidas é divino e longínquo. Apraz-me crer que eles existam para que possa pensar nobremente da humanidade.
Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966.
- 66.«Crónicas da Vida que Passa». Escrita para O Jornal, em 1915, não chegou a ser publicada.
«Porque me importa. Pouco me importa o quê? Não sei. Pouco me importa.»
Pouco me importa.
Pouco me importa.
Pouco me importa o quê? Não sei: pouco me importa.
“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).
- 96.
Dos desiludidos que se mataram
Que grande coração eles possuiam
Viscéras imensas, tripas sentimentais
E um estômago cheio de poesia.''
Carlos Drummond de Andrade
ANDRADE, C. D. Brejo das Almas, 1934
Nota: trecho do poema "Necrológio dos Desiludidos do Amor" livro "Brejo das Almas"
Ana Lúcia - Carinho Inquieto (1959)
Este carinho inquieto
Que sinto pelas coisas,
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
Photographer Ernő Vadas
Ernó Vadas (December 17, 1899 - May 30, 1962) was born on December 17, 1899 in Nagykanizsa. After graduation, he worked as a bank clerk, taking up photography only as a hobby. In 1918, he took his first photographs with a small camera given to him by his parents. In 1925, he sent his pictures to Szinházi Elet for review, and received encouraging feedback from the paper. From 1927, he mastered the mysteries of the profession with the help of Rudolf Balogh, already known as one of the innovators of Hungarian photography.
Whoa, the living is easy
Fish are jumping
And the cotton is high, oh yeah
Oh, and your father is good looking, yes, he is
I said you hush little baby
Oh no please, please don't cry no more, no more
I know, you are gonna rise up singing
Spread your little wings
And will, will up in the sky
I know, I know there's nothing gonna harm you
Because your mamma and your daddy
Oh, they are standing somewhere by
I know they are standing somewhere by
Oh, yeah
I know, you are gonna rise up singing
Spread your little wings
Fly away away up in the sky
I know, there's nothing gonna harm you
Because your mamma and daddy
They are standing somewhere by
Only time, only time, only time
Summertime
Only time
“Because the “traumatic” view of early years so controls psychological theory of personality and its development, the focus of our rememberings and the language of our personal story telling have already been infiltrated by the toxins of these theories. Our lives may be determined less by our childhood than by the way we have learned to imagine our childhoods. We are, this book shall maintain, less damaged by the traumas of childhood than by the traumatic way we remember childhood as a time of unnecessary and externally caused calamities that wrongly shaped us.”
James Hillman on Soul
"By soul I mean, first of all, a perspective rather than a substance, a viewpoint toward things rather than a thing itself. This perspective is reflective; it mediates events and makes differences between ourselves and everything that happens. Between us and events, between the doer and the deed, there is a reflective moment -- and soul-making means differentiating this middle ground.
It is as if consciousness rests upon a self-sustaining and imagining substrate -- an inner place or deeper person or ongoing presence -- that is simply there even when all our subjectivity, ego, and consciousness go into eclipse. Soul appears as a factor independent of the events in which we are immersed. Though I cannot identify soul with anything else, I also can never grasp it apart from other things, perhaps because it is like a reflection in a flowing mirror, or like the moon which mediates only borrowed light. But just this peculiar and paradoxical intervening variable gives on the sense of having or being soul. However intangible and indefinable it is, soul carries highest importance in hierarchies of human values, frequently being identified with the principle of life and even of divinity.
In another attempt upon the idea of soul I suggest that the word refers to that unknown component which makes meaning possible, turns events into experiences, is communicated in love, and has a religious concern. These four qualifications I had already put forth some years ago. I had begun to use the term freely, usually interchangeably with psyche (from Greek) and anima (from Latin). Now I am adding three necessary modifications. First, soul refers to the deepening of events into experiences; second, the significance of soul makes possible, whether in love or in religious concern, derives from its special relation with death. And third, by soul I mean the imaginative possibility in our natures, the experiencing through reflective speculation, dream, image, fantasy -- that mode which recognizes all realities as primarily symbolic or metaphorical." (p. X)
James Hillman (1975). Revisioning Psychology. New York: Harper & Row.
James Hillman on Soul
Other relevant parallels with ourselves today need not be spelled out.
One day in Burghölzli, the famous institute in Zurich where the words schizophrenia and complex were born, I watched a woman being interviewed. She sat in a wheelchair because she was elderly and feeble. She said that she was dead for she had lost her heart. The psychiatrist asked her to place her hand over her breast to feel her heart beating: it must still be there if she could feel its beat. “That,” she said, “is not my real heart.” She and the psychiatrist looked at each other. There was nothing more to say. Like the primitive who has lost his soul, she had lost the loving courageous connection to life—and that is the real heart, not the ticker which can as well pulsate isolated in a glass bottle.
This is a different view of reality from the usual one. It is so radically different that it forms part of the syndrome of insanity. But one can have as much understanding for the woman in her psychotic depersonalization as for the view of reality of the man attempting to convince her that her heart was indeed still there. Despite the elaborate and moneyed systems of medical research and the advertisements of the health and recreation industries to prove that the real is the physical and that loss of heart and loss of soul are only in the mind, I believe the “primitive” and the woman in the hospital: we can and do lose our souls. I believe with Jung that each of us is “modern man in search of a soul.”
Because symptoms lead to soul, the cure of symptoms may also cure away soul, get rid of just what is beginning to show, at first tortured and crying for help, comfort, and love, but which is the soul in the neurosis trying to make itself heard, trying to impress the stupid and stubborn mind—that impotent mule which insists on going its unchanging obstinate way. The right reaction to a symptom may as well be a welcoming rather than laments and demands for remedies, for the symptom is the first herald of an awakening psyche which will not tolerate any more abuse.
Through the symptom the psyche demands attention. Attention means attending to, tending, a certain tender care of, as well as waiting, pausing, listening. It takes a span of time and a tension of patience. Precisely what each symptom needs is time and tender care and attention. Just this same attitude is what the soul needs in order to be felt and heard. So it is often little wonder that it takes a breakdown, an actual illness, for someone to report the most extraordinary experiences of, for instance, a new sense of time, of patience and waiting, and in the language of religious experience, of coming to the center, coming to oneself, letting go and coming home.
The alchemists had an excellent image for the transformation of suffering and symptom into a value of the soul.
A goal of the alchemical process was the pearl of great price. The pearl starts off as a bit of grit, a neurotic symptom or complaint, a bothersome irritant in one's secret inside flesh, which no defensive shell can protect oneself from. This is coated over, worked at day in day out, until the grit one day is a pearl; yet it still must be fished up from the depths and pried loose. Then when the grit is redeemed, it is worn. It must be worn on the warm skin to keep its luster: the redeemed complex which once caused suffering is exposed to public view as a virtue. The esoteric treasure gained through occult work becomes an exoteric splendor. To get rid of the symptom means to get rid of the chance to gain what may one day be of greatest value, even if at first an unbearable irritant, lowly, and disguised.
(Insearch, 43–44, 55–56)
To understand soul we cannot turn to science for a description. Its meaning is best given by its context.
The root metaphor of the analyst's point of view is that human behavior is understandable because it has an inside meaning. The inside meaning is suffered and experienced. It is understood by the analyst through sympathy and insight. All these terms are the everyday empirical language of the analyst and provide the context for and are expressions of the analyst's root metaphor.
Other words long associated with the word soul amplify it further: mind, spirit, heart, life, warmth, humanness, personality, individuality, intentionality, essence, innermost, purpose, emotion, quality, virtue, morality, sin, wisdom, death, God. A soul is said to be “troubled,” “old,” “disembodied,” “immortal,” “lost,” “innocent,” “inspired.” Eyes are said to be “soulful,” for the eyes are “the mirror of the soul”; but one can be “soulless” by showing no mercy.
Most “primitive” languages have elaborate concepts about animated principles which ethnologists have translated by soul. For these peoples, from ancient Egyptian to modern Eskimo, soul is a highly differentiated idea referring to a reality of great impact. The soul has been imaged as the inner man, and as the inner sister or spouse, the place or voice of God within, as a cosmic force in which all humans, even all things living, participate, as having been given by God and thus divine, as conscience, as a multiplicity and as a unity in diversity, as a harmony, as a fluid, as fire, as dynamic energy, and so on. One can “search one's soul” and one's soul can be “on trial.”
There are parables describing possession of the soul by and sale of the soul to the devil, of temptations of the soul, of the damnation and redemption of the soul, of development of the soul through spiritual disciplines, of journeys of the soul. Attempts have been made to localize the soul in specific body organs and regions, to trace its origin to sperm or egg, to divide it into animal, vegetable, and mineral components, while the search for the soul leads always into the “depths.”
By soul I mean, first of all, a perspective rather than a substance, a viewpoint toward things rather than a thing itself.
This perspective is reflective; it mediates events and makes differences between ourselves and everything that happens. Between us and events, between the doer and the deed, there is a reflective moment—and soul-making means differentiating this middle ground.
It is as if consciousness rests upon a self-sustaining and imagining substrate—an inner place or deeper person or ongoing presence—that is simply there even when all our subjectivity, ego, and consciousness go into eclipse. Soul appears as a factor independent of the events in which we are immersed. Though I cannot identify soul with anything else, I also can never grasp it by itself apart from other things, perhaps because it is like a reflection in a flowing mirror, or like the moon which mediates only borrowed light. But just this peculiar and paradoxical intervening variable gives one the sense of having or being a soul. However intangible and indefinable it is, soul carries highest importance in hierarchies of human values, frequently being identified with the principle of life and even of divinity.
In another attempt upon the idea of soul I suggested that the word refers to that unknown component which makes meaning possible, turns events into experiences, is communicated in love, and has a religious concern.
These four qualifications I had already put forth some years ago. I had begun to use the term freely, usually interchangeably with psyche (from Greek) and anima (from Latin). Now I am adding three necessary modifications. First, soul refers to the deepening of events into experiences; second, the significance soul makes possible, whether in love or in religious concern, derives from its special relation with death. And third, by soul I mean the imaginative possibility in our natures, the experiencing through reflective speculation, dream, image, and fantasy—that mode which recognizes all realities as primarily symbolic or metaphorical.
(Re-Visioning Psychology, x)
Depth psychology, the modern field whose interest is in the unconscious levels of the psyche—that is, the deeper meanings of the soul—is itself no modern term. Depth reverberates with a significance, echoing one of the first philosophers of antiquity. All depth psychology has already been summed up by this fragment of Heraclitus: “You could not discover the limits of the soul (psyche), even if you traveled every road to do so; such is the depth (bathun) of its meaning (logos).” Ever since Heraclitus brought soul and depth together in one formulation, the dimension of soul is depth (not breadth or height) and the dimension of our soul travel is downward.''
Excerpts from A Blue Fire: The Essential James Hillman (1989)
Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores | Geraldo Vandré ‧ 1979
Somos todos iguais, braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais, braços dados ou não
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
domingo, 4 de outubro de 2026
Sonha que a vida é só sonhar
Toma depressa enquanto é bom
Sim, depois o amor é só chorar
Sonha que tudo é só sonhar (sonha que tudo é só sonhar)
Toma do amor tudo que é bom
Toma depressa enquanto é bom
Sim, depois o amor é só chorar (sim, depois o amor é só chorar)
Depois o amor é só chorar (e depois o amor é só chorar)
Minha Cabeça estremece, de Herberto Helder
Minha Cabeça estremece, de Herberto Helder
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.
– Era uma casa – como direi? – absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
– Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
– Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.
Era uma casabsoluta – como
direi? – um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.
– Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
– Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.

