segunda-feira, 12 de outubro de 2026

domingo, 11 de outubro de 2026

''crítico interno''

Photo Sabine Weiss

 


Gypsy Woman



A tua boca adormeceu
parece um cais muito antigo
à volta da minha boca.

Mas as palavras querem voltar à terra
ao fogo do silêncio que sustém as pontes
perdidas na sua própria sombra.

E há um cão de pedra como um fruto
que nos cobre com o seu uivo
enquanto pássaros de ouro com mãos de marfim
transplantam as árvores transparentes
para o ponto mais fundo do mar.

As lágrimas que não chorei
arrependidas
fazem transbordar a eterna agonia do mar
como um lençol fúnebre
com que tivesse alguém coberto o rosto metafórico
dos cinco continentes que em nós existem.

Assim é ao mesmo tempo
que sou eu e não o sou
aquele relógio das horas de ouro
que além flutua.

Cruzeiro Seixas
quero dizer-te: não morras.

Nem me digas quem és, quem foste, como sabes
a língua que se fala sobre a terra.
Ao lume lanço
toda a vontade de viver, ser vivo,
a cautela do ar, ardendo em torno.
Passarei, terás passado em mim, só quero
dizer-te: não morras nunca, agora, nunca mais.


António Franco Alexandre


ROULOTTES DA NOITE DE LISBOA

 2

 dilui-se o rosto na sulfurosa primavera da noite. uma claridade desprende-se do interior da roulotte, ilumina. atrás de nós a noite é um imenso subterrâneo de treva envenenada. ecoam vozes, passam os últimos autocarros. danço sempre até que a manhã me roube os amantes imaginados, disseste. eis o retrato do noctívago puto: cabelos de sombra húmida pelos ombros, caídos para a testa, escondem o azulíneo do olhar. e a boca estreita como lâminas, a sensual boca donde nasceriam, mais tarde, os cruéis beijos da cidade. tem um risco de luz sobre a pálpebra, e no marfim dos dentes o segredo doutro rapaz. era tarde. envolto na camisa de algodão move-se no meu sonho. ouço um mar do outro lado do seu peito. amanhecia quando enganaste teu pai, fingias esperar o autocarro. vieste comigo e fomos pela sujidade dos néons à procura duma pensão.

Al Berto

Marcel Mariën. La lettre volée (détail), 1968


 

Catherine Ringer & Iggy Pop - I Put A Spell On You

 


A escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada


esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos


espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar


outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo A escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada


esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos


espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar


outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo

 

Al Berto



escrevo-te
pelo corpo sinto um arrepio uma vertigem
que me enche o coração de ausência pavor e saudade
teu rosto é semelhante à noite
a espantosa noite do teu rosto!
corri para o telefone mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer-te por que parto
por que amo
ouvir-te perguntar quem fala?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr para a rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra
só para te dizer boa noite ou talvez tocar-te
e morrer
como quando me tocaste na testa e eu não pude reconhecer-te
apesar de tudo senti a mão sábia que era a tua mão
mas não podia reconhecer-te
sim
correr a cidade procurar-te mesmo que me afastasses
mesmo que nem me olhasses
mesmo que dissesses coisas que me
mesmo que
e ter a certeza de que serias tu depois a procurar-me.


Al Berto

As mãos pressentem...


As mãos pressentem a leveza rubra do lume 
repetem gestos semelhantes a corolas de flores 
voos de pássaro ferido no marulho da alba 
ou ficam assim azuis 
queimadas pela secular idade desta luz 
encalhada como um barco nos confins do olhar 

ergues de novo as cansadas e sábias mãos 
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e 
o amargor húmido das noites e tanta ignorância 
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva 
quase nada 

Al Berto

Vestígios



noutros tempos
quando acreditávamos na existência da lua
foi-nos possível escrever poemas e
envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído
pelas salivas proibidas – noutros tempos
os dias corriam com a água e limpavam
os líquenes das imundas máscaras

hoje
nenhuma palavra pode ser escrita
nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras
ou se expande pelo corpo estendido
no quarto do zinabre e do álcool – pernoita-se
onde se pode – num vocabulário reduzido e
obcessivo – até que o relâmpago fulmine a língua
e nada mais se consiga ouvir
apesar de tudo
continuamos e repetir os gestos e a beber
a serenidade da seiva – vamos pela febre
dos cedros acima – até que tocamos o místico
arbusto estelar
e
o mistério da luz fustiga-nos os olhos
numa euforia torrencial

Al Berto

SÉCULO


Meu século, besta minha, quem
te olhará nas pupilas duras,
quem soldará com o próprio sangue
as vértebras de duas centúrias?
O sangue construtor irradia
da garganta das coisas da terra,
no dealbar de um novo dia
só o parasita é que treme.

Todo o ser no agarrar da vida,
carrega com a espinha do dorso,
e brinca com a coluna, brinca
abrupta e invisível a onda.
Terra nova, século recém-nado,
cartilagem tenra de menino –
como cordeiro, é de novo imolado
o osso do crânio, a testa da vida.

Para ao novo mundo dar princípio,
para arrancar o século dos ferros,
há que atar, com a flauta, os dias
p’los enodoados cotovelos.
O século é que balança a onda
ao ritmo da humana desdita,
entre as ervas, ao compasso de ouro
do século a víbora respira.

Incham ainda os pâmpanos na vinha
e a vide rebentará de verde,
mas será quebrada tua espinha,
meu século misérrimo e belo!
E com um sorriso sem sentido,
olhas, cruel, para trás,
como animal outrora flexível
para as pegadas dos próprios pés.

O sangue construtor ainda jorra
das coisas da terra; em ressacas
de peixe quente vem dar à costa
a tépida cartilagem dos mares.
E da rede alta das aves, da rocha
do céu, húmida e azul,
se verte, se verte a indiferença
sobre a tua ferida mortal.

(1922)
Óssip Mandelstam

(Fogo Errante. Antologia Poética, tradução Nina e Filipe Guerra, Relógio d’Água, Lisboa, 2001)

''Há mais 28's de Maio, do que marcar o triste dia do início da ditadura militar em Portugal - 1926. vejamos, por exemplo; "Na História Mundial há -- "o Dia Internacional de Luta pela Saúde da Mulher, o Dia Internacional de Ação pela Igualdade da Mulher, e o Dia Internacional da Masturbação

O Dia Nacional da Masturbação, também conhecido como Dia Internacional da Masturbação, é um evento anual realizado para proteger e celebrar o direito de se masturbar.[1][2][3] O primeiro Dia Nacional da Masturbação aconteceu em 7 de maio de 1995, depois que a varejista sexo-positivo Good Vibrations declarou o dia em homenagem a Cirurgiã General Joycelyn Elders, que foi demitida pelo Presidente Bill Clinton em 1994 por sugerir que a masturbação fizesse parte do currículo de educação sexual dos alunos.[4][5]
Desde então, o Dia Internacional da Masturbação foi expandido para incluir todo o mês de maio como Mês Internacional da Masturbação.
Referências
«X-Toy Group Fights Bans S.F. Activists Join Battle against 14 States' Restrictions». Mercury News. 8 de maio de 1999. Consultado em 27 de agosto de 2014. Cópia arquivada em 10 de março de 2012
«National Masturbation Month Reaches Climax On May 28». Wireless Flash News. 23 de maio de 2005. Consultado em 27 de agosto de 2014. Cópia arquivada em 2 de agosto de 2013
Goldstein, Nikki (28 de maio de 2013). «International Masturbation Day». Yahoo! Lifestyle. Consultado em 27 de agosto de 2014. Cópia arquivada em 4 de setembro de 2014
Clinton Fires Surgeon General Over New Flap
Silver, Matty (14 de abril de 2015). «Make time for yourselves during National Masturbation Month in May». Consultado em 28 de maio de 2016
Zombeck, Richard (20 de maio de 2013). «Get to Know Yourself -- It's Masturbation Month». The Huffington Post. Consultado em 20 de setembro de 2015
«National Masturbation Month». The Huffington Post. 31 de maio de 2013. Consultado em 14 de maio de 2016
Sam Prince (5 de maio de 2015). «National Masturbation Month: All the Memes You Need to See». Heavy.com. Consultado em 14 de maio de 2016. Cópia arquivada em 17 de maio de 2016.
Imagem de arte -- Masturbação (1916) por Gustav Klim



Vértebras despedaçadas

''Como se pode verificar foi o poeta Mandelstam a falar das vértebras despedaçadas da sua era1, duas centúrias (ele nasceu em Varsóvia no ano de 1891 e morreu num campo de prisioneiros políticos na Sibéria, em 1938). Há quem tenha tido dúvidas e elaborado uma engenhosa exegese sobre o carácter problemático da identidade desses séculos, não será o caso aqui.
Vou dizer o que me parece que Mandelstam diz, sabendo que poderá tudo passar ao lado (que eu nunca o li em russo e ele abominava traduções de poesia).

Vértebras despedaçadas tem de imediato a ver com a morte, mas dito assim é pouco, tem a ver com a violência da vida, a sua ferocidade, tem a ver com ferimentos dolorosíssimos e que mutilam para sempre, ferida mortal sobre a qual se verte, se verte a indiferença.

Quem ousará soldar com sangue, que jorra da garganta das coisas, olhando nos olhos a era, a fera, soldar com esse sangue a espinha quebrada?

A coluna vertebral é uma das figuras da necessidade: Todo o ser no agarrar da vida, / carrega com a espinha do dorso e, portanto, nela está prometido todo o perigo de viver. Que onda é esta que balança ao ritmo da humana desdita? Parece uma ameaça, mas não, deve ser antes excesso de amor, de júbilo, de jogo puro: brinca / abrupta e invisível a onda. Só que faz parte do vivo ser ferido, à criança alguém fere o tenro osso do crânio. A vida nascitura é de novo imolada, essa é a Idade da Terra na sua infância, ovelha sacrificial, que há-de olhar para trás, como animal outrora flexível / para as pegadas dos próprios pés.

É que imolado um, logo se agarra um outro, e para celebrar a novidade há que atar, com a flauta, os dias / p’los enodoados cotovelos. Partes nodosas: onde o um e o dois se descobrem no três: dobradiças vivas, cotovelos ou joelhos (na tradução de Haroldo de Campos). «Junta essas dobradiças», ou nas palavras do poeta «ata os dias» injunção que tenta descrever a tarefa do poeta.

Se soar a flauta, instrumento do deus criança, do adolescente sem sexo definido, o deus da vinha e da hera, cujos movimentos se assemelham aos desenhos meândricos da água, o deus dos muitos animais, Dioniso, o mundo será liberto. Ele é para Mandelstam, como para os Gregos, e para Hölderlin e Nietzsche, aquele que liberta. Se soar a flauta, o mundo renasce, Dioniso, Dioniso, mas a flauta tem a sua fonte na dor, extravasa angústia! Aqui, a onda é a do tempo que oscila, batida pelo vento da era. A víbora é o parasita que respira o ouro que não poderá reconhecer nem roubar, parasita que não conhece a libertação da flauta nem o rebentar da vide.

Mandelstam é um dos nomes que aparece inscrito (ao lado de Akhmatova) numa das telas da exposição na Monumental, em 2010 (A leitora incomunicável, 2007-2009, acrílico e pastel sobre tela). O poeta vê as vértebras despedaçadas da era, a ferida mortal no apex da criança, duas centúrias, a víbora respira ao compasso de ouro do / século, mas não é contemporâneo da amálgama de embriaguez e dor, substância poética: Não sou contemporâneo de ninguém, assim começa Mandelstam um outro poema da mesma época.

Esta é a abertura para o que está em causa desde há alguns anos na obra de Manuel Vilarinho, que se mantém e renova nesta nova exposição, e é assinalado na entrevista pelas suas palavras.

Statua

São reunidas em Statua duas séries de desenhos (ou de técnica mista sobre papel) e duas de pintura. Há uma obra isolada, um desenho, Estátua em Exterior, que é, por assim dizer, o cadinho que liga todas as séries em que actuam como personagens, a saber, a alteração de escala, o vento que desarruma o jardim e desencadeia as memórias, as flores tocadas pela imposição de uma forma a que foi retirada a função (mola de metal preto, para prender papéis, quase caída em desuso) e se tornou um misterioso objecto maquínico da família de três outros, um que acompanha, sombrio e fértil, todas as estátuas, outro que faz endoidecer um dos jardins, e o terceiro, o elmo abandonado ao vento em Na Floresta Negra #2 2 . E a cinza que serve de fundo ao torso é ainda uma exalação do mar grego.

Das duas séries de desenhos, uma, No Jardim de Família, vem de 2006 / 2007, a outra, A Memória das Estátuas, foi realizada já em 2014. Com as telas também se destaca uma diferença temporal, as telas de Greek Isle in Autumn (for Byron) têm a data de 2009, ao passo que Na Floresta Negra, bem como Estátua em Exterior pertencem ao ano corrente.

Platão conta, lembra-nos Robert Klein, que os Antigos tinham agrilhoado as estátuas de Dédalo, por medo que elas se fossem embora. O que nada tem a ver com naturalismo – serem tão parecidas com qualquer coisa que se confundissem com ela –, mas com o silêncio e a poder da imobilidade que as fazia erguer, levantar, firmes e intocáveis, elas que, pertencendo a uma vastidão que as chamava, resistiam a todos os olhares de proximidade e posse, e mantinham-se longínquas, preparando-se para partir.

The isles of Greece! the isles of Greece

Em Cephalonia, Byron encontrou um belo grego de 15 anos por quem se apaixonou perdidamente, Loukas Chalandritsanos, e que, beneficiando de todos os favores, o acompanhou até Missolonghi ou Messalonghi. Parece ter sido um «idiota desprezível» que não percebia nada do que se passava à sua volta. A sua indiferença causou grande sofrimento a Byron, que dá conta desse amor não correspondido num poema. Há quem o considere um dos mais importantes factores que concorreram para a depressão que levou Byron à morte.

Para Greek Isle in Autumn (for Byron) #1, 2 e 3, Manuel Vilarinho concentrou na cromática as outras características gregas do mar, a saber, por um lado, a animalidade indomável, e, por outro, o divino abismo e a estranheza à terra («o mar nunca vindimado» de Ulisses). Na Grécia arcaica não se vê o mar brilhar, o mar de Ulisses não cintila. Estão ausentes as cores marinhas nossas conhecidas: o verde radioso, o azul vibrante (cf. Aurora, onde Nietzsche diz que os Gregos não viam nem o verde nem o azul). O mar da Odisseia tem a cor de vinho escuro, violeta, cor de púrpura, cor de cinza, soberano das sombras. Nas ilhas votadas a Byron observa-se a pertença do poeta a esse mar.

Escrevendo à sua irmã Augusta em 9 de Setembro de 1811, Byron confessa que tinha sido a Grécia a torná-lo poeta.

Inscrições e passeios

No Catálogo da Monumental, partilhando a mesma página uma fotografia de família – parte de um conjunto sobriamente identificado no final –, vemos uma outra em que vários livros e catálogos abertos de exposições do artista se misturam numa desarrumação benévola. Reconhecem-se alguns títulos: O Dom de Nabokov, O Salteador e Passeio e Outras Histórias (este semi-oculto) de Walser. É como se Manuel Vilarinho nos desse a ver desconjuntada e sem legenda, e por isso tão prometida à boa rememoração, a intimidade entre aquilo que faz e os livros que lê. Verdadeiro manancial para a compreensão de Statua. Alguns exemplos. Na tradução portuguesa de O Dom de Nabokov, a editora Assírio & Alvim fez duas capas diferentes de estudos de Nabokov sobre borboletas, e Manuel Vilarinho inspira-se nelas num dos desenhos de No Jardim de Família #4. Incerta é a etimologia da palavra borboleta em português, já de lepidóptero não é o caso, vem de lepis-lépidos (escama) + pteron (asa), o que não pode deixar de agarrar a imaginação. Aquela incerteza, porém, é o grão de sal que tempera a desproporção entre o interesse pictórico de Manuel Vilarinho pelas asas das borboletas e ausência de qualquer propósito de as caçar, estudar e coleccionar.

Também o convite para a presente exposição sofreu os efeitos daquela fotografia, pois foi escolhida como epígrafe, para acompanhar uma das ilhas dedicadas a Byron, uma citação de O Salteador de Robert Walser: «Depois de tomado o chá, visitou-se o parque e, durante o passeio, falou-se de ilhas, de poetas, etc.» Mais Kleist e Hölderlin do que Byron muito seguramente, mas aceitou-se esta oferta do acaso.

Regressemos ao mesmo Catálogo, na página ao lado da fotografia referida, uma reprodução de O Último Passeio de Robert Walser, onde a inscrição Der Spaziergang, sinuosa, como o passeio, e vermelha, como o fio condutor em língua alemã (der rote Faden, o goethiano fio vermelho que corre pelas nossas vidas), nos dá a ver o caminho que um homem está a fazer e que não vai dar a lugar nenhum, o último passeio. No canto esquerdo, uma outra inscrição, esta ilegível, uns garatujos dos escritos últimos de Walser a lápis, Bleistifschriften, decifrados há pouco tempo. Debaixo deles e compondo um todo com eles, uma figura geométrica constante nas pinturas e desenhos de Statua, uma espécie de transferidor de 360º, que às vezes se transforma em alvo, outras se aproxima das asas das borboletas, e que se projecta noutras coisas que vêm parar ao atelier, como seja um convite (para uma exposição) com a mesma forma circular, mas cujo centro é um quadrado, quase uma janela secreta. Figura sombria (e fértil) que nos desenhos A Memória das Estátuas aparece provida de forças xamânicas e demoníacas, ao mesmo tempo, protectora e inquietante.

Mas ainda se prolonga este Catálogo em Statua. Se folhearmos para trás deparamos com uma das tais fotografias de família, e sob ela, seguindo o procedimento gráfico anterior, uma citação bem-humorada e mordaz de Nabokov, em entrevista na Time, sobre viagens, borboletas e condução de automóveis. É uma mulher muito elegante, elevando-se no lado esquerdo de uma paisagem deslumbrante, talvez numa colina, pois em pano de fundo, em baixo, se adivinha um casario distante. Ela sorri. Nos quatro desenhos da série No Jardim de Família, 2006-2007, aparecem colagens de fotocópias desta fotografia. E de repente, pensamos. Mas não, estamos a inverter a cronologia, fomos enganados pela sequência escolhida, quer dizer, a reprodução da fotografia no Catálogo de 2011 é posterior à realização dos desenhos. E no entanto, não é nada disso, a cronologia foi estilhaçada, o que importa é o artista ter transformado sob o nosso olhar o antes no depois, quer dizer, agora lemos a fotografia à luz dos desenhos, ao mesmo tempo que ela se insinuava já ainda antes de os vermos.

As obras de Manuel Vilarinho esperam pelo seu dia.

O pássaro que atravessa o tempo da alma

É de um texto de Paul Valery, «Autres Rhumbs», que vem este pássaro, cuja travessia do tempo da alma é preenchida com tarefas, sem as quais o pensamento seria presa de «muita potência de perdição», forças de atracção que o chamam para os seus abismos (ele enumera a lista: «o absurdo, o simplório, o fantástico, o arbitrário, o vago e o confuso, o demasiado belo e o demasiado triste»). Para se manter, esse pássaro terá de compor e opor umas às outras essas mesmas forças. Num só golpe ele tem de abrir caminho, dispersar, recombinar, desencadear uma guerra, escolher e prender.
Talvez este pássaro seja um outro nome para «o acto de retenção», tema próprio da fenomenologia husserliana, que Nabokov reinscreveu no universo da arte:

O acto de retenção é o acto de arte, selecção artística, de mistura artística, de recombinação artística de acontecimentos reais. O mau memorialista retoca o seu passado e o resultado é uma fotografia em tons de azul ou cor-de-rosa tirada por um estranho para consolação duma perda sentimental. O bom memorialista, por outro lado, faz o melhor que pode para preservar a última verdade do pormenor. Uma das maneiras de realizar o seu propósito é encontrar o lugar exacto na sua tela para colocar a mancha certa de cor recordadas.
Opiniões Fortes, 219.

Não tenho a certeza da justeza da palavra memorialista, e também me parece que os acontecimentos reais começam logo a tingir-se (desde que o artista dê por eles), de modo que nunca mais serão reais, de modo que nunca foram reais. Como quer que seja, as palavras de Nabokov dão muito que pensar e vão directas ao alvo. Na mesma obra e página, vêmo-lo estabelecer a diferença entre o tempo a que chama «aplicado», «as ilusões mensuráveis do tempo», equivalente não só ao inimigo perseguidor de Baudelaire, ao deus que devora os seus filhos, mas também à redução do tempo ao espaço, obra de físicos e historiadores, e o tempo como «medium fluido», duração pura, continuum, imóvel (à maneira de Kant, o tempo não se move, são os homens que se movem no tempo), por isso, sendo o ritmo parente do tempo não é seu igual. Eis a percepção do tempo «como um ténue vazio entre duas batidas rítmicas, o silêncio estreito e sem fundo entre as batidas, não as próprias batidas, que apenas cercam/circundam (encompasse) o Tempo. Neste sentido, a vida humana não é um coração que pulsa, mas a pulsação em falso».

Parece incompreensível de tão assustador! pois o continuum sem articulações, sem joelhos nem cotovelos, sem dias que se possam atar, não é para nós. Não é essa a Eternidade de que fala Nietzsche nos fragmentos dos ditirambos dionisíacos. Que «a vida humana não é um coração que pulsa, mas a pulsação em falso» significa que o nosso coração – seja o do mau seja o do bom memorialista – não afecta nem mede esse continuum sem costuras, insusceptível daquelas divisões que são fruto do ouvido, da batida do pulso, dos movimentos de atender ao que está diante e ao que está atrás de nós, isto é, o passado, o presente e o futuro, articulações resistentes à cronologia e que engendram um continuum sentimental e criativo. Este é o nosso tempo, talvez esse a que Nabokov chama puro, perceptivo, tangível. E continua ele:

O passado faz também parte do tecido, parte do presente, mas parece algo desfocado. O passado é uma constante acumulação de imagens, mas o nosso cérebro não é o órgão ideal para uma retrospecção constante e o melhor que podemos fazer é apanhar e tentar reter as manchas de luz do arco-íris que perpassam pela memória.

Aqui entra o pássaro de Valéry. Por outro lado, há quem considere que desfocado é o presente e que o passado é a fonte de todos os nascidos, e que sem inverter a pegada do tempo nada feito, pois é da profundidade do passado que esguicha a nossa vida presente. Giorgio Colli dixit.

Reencontrar a imagem de uma pessoa há muito desaparecida (o que é muito?) é uma espécie de sonho que as mãos fazem ao abrir um velho álbum de fotografias, semelhante a um cataclismo que abala as entranhas da Terra. Não foi só a morta, já sem nome, que se levantou, ela não vem assombrar aquele que está vivo, vem, antes, marcar aquele lugar em que ele sem dar por isso começou a escavar o que estava enterrado (as imagens são benjaminianas) e caiu em si. A colagem é a sua prova.

(o mistério insondável da cultura etrusca vem dos seus poetas não poderem ser lidos, porque a língua etrusca ainda não foi decifrada. Este passado não está embaciado, estremece de expectativa. Leia-se o poema de Richard Wilbur, To the Etruscan Poets).

O efeito-atelier ou as máquinas de produzir vento (tempo)

Distância: é o nome que se dá ao intervalo que nos separa de uma coisa que não podemos tocar. Coube a Hermann Melville comunicar o segredo da distância aparente de uma coisa que se vê ao longe e se sonha, sem se sair do lugar, no caso dele, uma varanda, chamemos-lhe atelier. Já quanto aos habitantes do atelier, Walser encontrou a melhor fórmula: «Lutadores-consigo-próprios», escreve ele nas tais folhas inéditas, escritas a lápis. Esse corpo-a-corpo não tem manual de instruções, em cada caso há que surpreender quem venceu e quem foi vencido. O exercício catártico de Manuel Vilarinho, o acto de deitar fora, é um dos seus ingredientes, o que não tem a ver com a perdição de «le chef-d’oeuvre inconnu», antes com a Face lavée d’oubli de Sain-John Perse.

Ao atelier, esse lugar de adivinhação e noite, de contenção e excesso, vai parar tudo aquilo que as mãos e os olhos se encarregarão de transportar e transmutar, por exemplo, o guarda-revistas (muito anos sessenta) de fundo preto e bolas brancas num dos desenhos dos jardins, ou ainda os livros de Chirico, pintor muito amado e admirado por Manuel Vilarinho (para muitos, muitos, um desconhecido). Vejam-se o Cavalier con beretto rosso e manto azzuro de 1939, e a Natureza-morta com elmo de 1953, e a seguir olhe-se para Na Floresta Negra #2: o esforço de domar forças insanas quase frenéticas no caso do cavaleiro, (pensamos em Munch) é interrompido e paradoxalmente intensificado pelo elmo abandonado ao vento. Nas suas pinceladas vibrantes ressoa outra obra de Chirico, esta vista há cinco anos em Roma, A Luta dos Centauros (cerca de 1909), que muito o impressionou.

No capítulo dedicado ao tempo nas Confissões Santo Agostinho fala dele como uma vis, energia, força, como a vis centrifuga ou a vis centripeta. Assim o tempo, assim o vento, ambos forças geradoras de antinomias que nenhuma dialéctica pode vencer: o vento como ameaça, «o vento famélico» de Qohélet, o vento inclemente que arrasta e desfigura, e o vento musical, o vento que faz soar a harpa que nenhuma mão dedilha, harpa eólica que conhece na máquina de vento em No Jardim de Família #1 uma simétrica perversa.

Isto tem a ver com esta exposição: fechar círculos que não se fecham (o transferidor de 360º a rondar), a espiral a fazer o seu caminho tão inelutável como imprevisível, a fundura do passado a irromper e a rasgar o tecido friável da vida empalidecida a que se chama presente. A espiral é o que parece fazer o vento: enroscamentos de poeira que esvoaçam e prendem folhas dispersas e sobem pelas estátuas. Há uma espécie de espiral a engendrar-se e a perder--se no fundo destas obras (e podemos ir na sua peugada nas duas exposições anteriores), a sua suprema aparição dá-se uma vez mais na Floresta Negra #2.

O artista está nesta encruzilhada e não tem a intenção de se decidir a abandoná-la. Parecendo contradizer-se, os três destinos são comunicantes: por um lado, procura aproximar-se do seu próprio passado soterrado e para isso tem de escavar ou inventar máquinas de vento; por outro, deixa que as memórias venham ter com ele (de outro modo perde o seu tempo), se elas vierem, serão sementes para desenhos e pinturas; finalmente, esquecer, esquecer, «atira-te ao mar», aprende a perder, perde-te, esquece tudo o que te impedir de te tornares um espírito livre 3.

Nas suas obras age aquilo que é um dos elementos que providenciam à pintura sua obscuridade (conceito de Robert Klein), que alguns julgaram ter expulso para sempre da pintura, a saber, o uso do modelo, mas como um moderno, usando a amálgama, a sobreposição estudada de planos, o despojamento, os elementos geométricos e mecânicos, uma certa forma de construtivismo (o seu singular vorticismo), prestando contas pelo dia contra o dia.

Manuel Vilarinho procura um tesouro que foi dele, ele próprio o enterrou, mas não sabia que o estava a enterrar, agora com a ajuda do vento vai tentar desenterrá-lo, e cai sobre o tesouro como um ladrão implacável e extenuado, o vento arrasta-o, parece que choveu. Voltemos à fotografia da mulher: já ninguém se lembra como ela se chamava, que idade tinha, e lá vem ela ocupar o lugar exacto, desprevenida. Foi arrancada do contexto pelo violador de túmulos, o salteador, mas só ele poderá revelar-se o guardião do seu regresso à terra dos vivos. Fazer parte de um continuum, coisa que nunca se poderá analisar, é um sentimento, tentar deixar ver os pontos nodais, as articulações, e os pontos de energia, de ebulição, de oxidação, de combustão, experiências químicas e anímicas: eis as provisões do atelier.''



Maria Filomena Molder

 



Lot 261: William A. Garnett, Two Trees on Hill with Shadows.





 

 « (...) os dois manuais -

Física de Voo e Manual de Voo

 Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 81

 «(...) sentia que estava mergulhada em ocorrências diárias e sentimentos banais, olhava em volta e dizia veementemente: «Puamahara não passa de uma lixeira.»

 Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 79

«Tinha medo das estações, dos feriados, de uma possível impotência, da conta do mecânico, de ir parar a tribunal e ter tudo escarrapachado no Wester Mail; de envelhecer.»

Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 79

 


Eu Sou Terrível

«Ed era devoto da família, do trabalho e do seu computador pessoal.»

 Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 78

Três Ilusões - Culpa | Madredeus



Culpa que me segues sem eu querer.
Juras que me deixas decidir.
Aceitas ou não que nunca é tarde,
Aceitas ou não voltarei.

Se calhar, se calhar
Amanhã há-de haver mais, mas eu não sei;
Se calhar, devagar.
Vou voltar à mágoa que deixei.

À l'envers, 2024.

 


Diana Burdein (Lituanienne/Allemande, née en 1984)

«Generosamente dou o ponto de vista dos outros.»

 Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 77

 «Mattina sentiu uma pancada de solidão, o tipo de solidão que se ergue de uma contemplação serena do que foi perdido e nunca será recuperado senão através da memória.»

Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 56

 «Estava agora segura de que tinha sido uma flor: uma erva teria sido morta há muito tempo.»


 Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 55

Madredeus - Vem (Além de Toda a Solidão)



Vem
Além de toda a solidão
Perdi a luz do teu viver
Perdi o horizonte
Está bem
Prossegue lá até quereres
Mas vem depois iluminar
Um coração que sofre
Pertenço-te
Até ao fim do mar
Sou como tu
Da mesma luz
Do mesmo amar
Por isso vem
Porque te quero
Consolar
Se não está bem
Deixa-te andar a navegar
Pertenço-te
Até ao fim do mar
Sou como tu
Da mesma luz
Do mesmo amar
Por isso vem
Porque te quero
Consolar
Se não está bem
Deixa-te andar a navegar

''a saúde das plantas de estufa''

 Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 55

 ''um clarão de medo do desconhecido''

 Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 54

''Os seus entusiasmos ocasionais muitas vezes arrefeciam, »

 Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 53

 


O amor que uniu Jorge Luis Borges e María Kodama, amantes de boa literatura.

''neozelandização''

 Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 46

«Ela pertencia a um outro tempo; ainda assim desaparecido; o tempo tinha desaparecido para ela;»

 Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 44

Jasmim-branco-de-inverno

«(...) a «verdadeira» compaixão se combina com a ação para esvaziar o coração de toda a luz e de todo o calor e de todo o conforto,»

 Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 42

«Sabe, temo-nos sentido muito sozinhos sem a nossa língua.»

 Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 39

 


 «(...) e no porta-moedas cheio de moedas brilhantes de Nova Zelândia, decoradas com flores e pássaros, e notas com o rosto preocupado da rainha de Inglaterra,»

 Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 36

''Cinco e meia. Normalmente, hora de um uísque.''

 Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 36

apricot carnations

Fontaines D.C. | Here's The Thing



So here's the thing

I know you're watchingI feel your painIt's mine as wellI know you're rightI know you're right, girl
And if you change your mindI will be waitingI know your thoughtsThey're mine as wellI know you're rightI know you're right, girl
Shockin' pretty is that face you're makin'Is there a sentiment you'd like to tell?But if you tell them what the real story isI'm afraid it wouldn't play that wellOh no
So here's the thingI need commotionI know your thoughtsThey're mine as wellI know you're rightI know you're right, girl
And if you change your mindI will be waitingTo keep your painWith mine as wellI know you're rightI know you're right, girl
Aren't people made to chime?It never makes me happy anymoreAlways singing in my mindAnd talking just provokes it, ahh-ah
So here's the thingI know you're watchingI feel your painIt's mine as wellI know you're rightI know you're right, girl
To be anaesthetizedAnd crave emotionSo beautifulTo hurt so wellI know you're rightI know you're right, girl
So here's the thingI know you're watching

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Antúrio Vermelho

  também é conhecido como Língua do Diabo

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Romualdas Rakauskas | Lithuanian photographer

 



 

A tragédia de Narciso

 Fernando Pessoa

CARTA A UM HERÓI ESTÚPIDO

CARTA A UM HERÓI ESTÚPIDO

Li, sem entusiasmo e sem pasmo, as declarações que Vossa Heroicidade fez no Funchal, a propósito de questões políticas, onde se mostrou, mais uma inútil vez, que a coragem física não é, em geral, acompanhada duma grande lucidez intelectual. Permitiu-se Vossa Heroicidade, fresca ainda do cativeiro e mais fresca ainda dos aplausos de quantos pobres diabos a ilha da Madeira pôde reunir, fazer considerações, que só a um sociólogo competia ousar, sobre o modo como o nosso país fora administrado pelo Sr. General Pimenta de Castro.

Foi uma péssima ideia.

Por fácil que lhe houvesse parecido dizer umas quantas coisas estúpidas sobre o modo como a ditadura recente se havia comportado internacionalmente, permanece o facto de que essas coisas foram estúpidas e o facto de as ter dito um herói, longe de esbater o ridículo fundamental das coisas extremamente estúpidas quando ditas sobre assuntos graves, mais o pôs em relevo.

Quem lhe meteu na cabeça, ó desgraçado varredor de feiras africanas, que a habilidade para as arremetidas violentas facilitava com certeza a competência sociológica? Quem lhe insinuou, desgraçado, que o facto de ter feito frente ousada a umas tropas germânicas lhe concedia jus de opinião política? Decerto que, inexperiente no modo como os homens intrincadamente lidam uns com os outros, o cérebro futurista já pela confusão de aplausos que lhe proporcionaram, o sr. julgou ter competência para apreciar os seus superiores políticos e procedeu no caso com o plebeísmo fundamental de todas as criaturas fisicamente valentes.

Se um campeão de pesos — um campeão, por exemplo, do arraché — se pusesse a escrever sonetos, baseado, para si próprio, no facto de que conseguira erguer, em determinada posição de braço, uns tantos excessivos quilos, toda a gente riria da sua precipitada audácia que julgara o êxito no esforço muscular competência bastante para tentar o êxito no esforço poético. E contudo o seu caso, meu desgraçado e estúpido herói, não passou deste ridículo comenos. A circunstância de se ter batido heroicamente em Naulila pareceu-lhe que lhe dava azo psíquico a arcar com ideias abstractas e com noções sociológicas, e, assim, o sr. ousou largar em público, através de um discurso que foi condenado a pronunciar, opiniões que, normalmente admissíveis na lazeirenta competência dos moços de esquina, não têm contudo mais relevo do que as opiniões normalmente características do género de artistas citado.

Pobre parvo heróico, que ousou pronunciar sobre um dos melhores ditadores da nossa história um labéu inútil de traidor quasi, quando o único labéu que daí resta é o de estúpido para si. Vá para casa, ou vá para a guerra. Deixe a sociologia e a política. Que diable alliez-vous faire dans cette galère? Nada, meu pobre muscular, meu pobre sem-nervos, nada. Para casa, para a guerra, para o esforço físico, desgraçado. Deixe aos outros, aos competentes, a análise da situação política. Erga-se, herói, e cale-se, parvo.

De onde lhe veio a ideia, ó simples soldado!, que podia ter opiniões sobre assuntos políticos, e que são, em sua essência última, sociológicos? Quem lhe transtornou o cérebro a tal ponto que lhe pareceu provável que as sombras de ideias que usualmente --habitam as almas confusas dos práticos, podiam ser por si emitidas com o aspecto firme de noções políticas? Que bebedeira de celebridade o levou pela mão, perfidamente, até conseguir que lançasse para a publicidade das gazetas esses pobres e tacanhos conceitos, próprios de qualquer recruta analfabeto, que se permitiu ter a propósito da ditadura do general Pimenta de Castro?

Onde estudou Vossa Heroicidade a sociologia? Em que loba Romana bebeu este Rómulo de Naulila o leite da ciência do governo? Em vez da atitude comedida e modesta que compete a um homem cuja acção é militar e prática, este indivíduo aventurou-se, com uma coisa que já não é ousadia, porque aqui é estupidez, até formular opiniões sobre a situação do país de que não sabe nada, das condições políticas do país, que não conhece, da atitude dos grupos aristocráticos portugueses, cujo representante espontâneo, o ditador recentemente deposto por uma revolução estomacal, foi das figuras que mais vincou o protesto necessário das elites portuguesas contra este domínio de carbonários e de ladrões, de arruaceiros e de gatunos, que lá vai para cinco anos nos conturba. Que sabe o sr. disso, para que venha assim estupidamente insultar os seus superiores não só hierárquicos, mas intelectuais também? Sabe por acaso que o general Pimenta de Castro tinha consigo todo o país, menos a parte revolucionária, menos a Junta dos Interesses Próprios, menos esse prolongamento fadista da monarquia que enxameia aí pelas esquinas e deu azo a um professor espanhol que escrevesse a nosso respeito nacional palavras que ardem, porque são justas, e nos fazem corar, porque nos descreveu? A indignação sobe e cresce quando se vê que este homem, que podia estar alto e digno na modéstia intelectual da sua atitude de combatente, vem galgar por cima dos muros da sua competência para nos fazer discursos que seriam desculpáveis em Costa (chefe de assassinagem) e admissíveis em qualquer dos espanhóis do interior que compõem o partido democrático.

Num livro, que preparo, demonstrarei sociologicamente que esta revolução de 14 de Maio não foi mais do que uma reconstrução republicana dos princípios monárquicos de governo, agravada pela indisciplina que, como revolução, causou, e, como revolução feita por autênticos penitenciários, mais que causou.

Que sabe o sr. da Alemanha, salvo que teve que se defrontar — e heroicamente o fez — com os seus soldados? Que sabe o sr. da sua atitude na guerra da razão fortíssima porque ela faz esta guerra, das causas íntimas deste conflito todo? Não sabe nada, é claro, e ninguém lhe levaria a mal não saber nada, se não se tivesse permitido — estranha coisa num herói, que não costuma rebaixar o inimigo — fazer lamentáveis considerações a respeito deste país. Que longe que o sr., e todos os que estão consigo, andam das aspirações profundas da alma nacional, que não andam aí pelas ruas de Lisboa, nas mãos dos carbonários, mãos cujo polegar, na maioria dos casos, o posto antropométrico não desconhece (...)

s.d.

Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979.

 - 83.

 

 Fernando Pessoa

O sr. não se bateu pela Pátria.

O sr. não se bateu pela Pátria. Não se podia bater pela Pátria, porque não tem Pátria por que se bater. Não me refiro agora, já, à circunstância de o sr., não tendo um conceito português da vida, não poder ser, por isso, considerado português. Refiro a outra, e mais grave, circunstância, com a qual o sr. nada tem. Refiro-me ao facto de que nenhum de nós tem Pátria. O português é hoje um expatriado no seu próprio país. Somos uma nação, não uma pátria; somos um agregado humano sem aquela alma colectiva que constitui uma Pátria. Somos... Sei lá o que nós somos? sabe alguém o que nos somos, salvo o lugar por onde um cataclismo vai passar (...)

Com efeito, porque somos nós uma Pátria; antes, quero dizer, porque o não somos nós? Sabe o que é uma Pátria? Não espere que eu venha fazer lirismos: pergunto, concretamente e en sociologue , o que vem a ser uma Pátria? Uma de duas coisas, e nenhuma terceira: um conjunto humano tornando consciência de si-próprio como diferente de outros conjuntos. De que modo pode esse conjunto humano ter essa especial consciência de si próprio? De uma de duas maneiras, e de nenhuma outra maneira. Ou tem essa consciência pela continuidade de vida nacional, pela consciência das tradições especiais que fazem esse conjunto tal e não tal outro: e esta é a maneira tradicionalista de ser uma Pátria: ou tem essa consciência através de ter criado um novo conceito de vida, da sociedade, do mundo, que lhe é próprio, que se distingue dos outros conceitos de vida, w eltanschaaungen, dos outros países, quer eles os tenham — aos deles — por tradição, quer, também por criação recente. Eu explico melhor. Quando os filósofos e literatos alemães do fim do séc. XVIII e princípios do séc. XIX ergueram aquele monumento artístico e filosófico de onde saiu a geração de criadores que causou a Alemanha actual, essa gente ergueu, no seio da Alemanha, um novo conceito inteiramente novo das coisas — conceito inteiramente novo que, por ter nascido na Alemanha, se mostrou Alemão. Na impossibilidade de reatar as tradições germânicas, criaram uma Alemanha nova. Ali aí está nos seus resultados, e eu quero crer que o sr., apesar de herói e coisas anexas, terá a suficiente lucidez para confessar que é uma coisa razoavelmente forte e grande. Isto é o exemplo do conceito antitradicionalista de Pátria. Pessoalmente, adiro a este conceito; julgo inútil e mesquinha a cura escrupulosa de seguir as tradições. O Portugal das descobertas não seguiu tradição nenhuma: criou-se.

Repare agora para o momento português actual. Qual das duas coisas lhe aparece aí a denunciar-lhe que Portugal é uma Pátria? Quebrámos com todas as tradições; até aqui nada há de mau. Resta saber se lhes substituímos qualquer coisa nova que seja de criação portuguesa. É assim? Qual é essa coisa? Os princípios em que assenta esta coisa a que se chama a República Portuguesa. Esses princípios são franceses. São tudo menos nacionais. Que diabo!, não é preciso ver muito pela história fora para perceber isso. Mais nos valera uma experiência fenomenalmente absurda no campo social ou institucional, mas que fosse nossa, que fosse originaria de aqui, que, portanto, tivesse o poder patriótico, ou patriotizante, de nos distinguir dos outros países. Mas não há nada disto. Não há Portugal: há uma mistura ignóbil de "estrangeiros do interior" (como com razão, se bem que de outro ponto de vista, se lhes chamou) a governar-nos e a estropiar-nos o resto do que somos.

Entre outras coisas o sr, deve ter ouvido chamar traidor a Paiva Couceiro. Deve também ter ouvido denunciar e conspurcar uma frase, que se atribui aos nossos monárquicos, de que "antes Afonso XIII que Afonso Costa". Quero fazer — não propriamente a defesa — mas a explicação destas duas coisas — da atitude de Couceiro e a da frase atribuída aos monárquicos. As considerações, que acabo de exarar, devem dar-lhe a intuição de como essa defesa pode ser feita.

Paiva Couceiro é um espírito ferrenhamente tradicionalista. Podemos não concordar — já disse que não concordo — com esse conceito tradicionalista. Mas ele é sem dúvida um conceito de nacionalidade. É preferível a conceito nenhum. Dentro do tradicionalismo pode haver patriotismo; fora dele, e não havendo a criação de novos ideais absolutamente nacionais, não vejo que patriotismo possa haver. Paiva Couceiro viu erguer-se uma instituição, a que alguns maduros e um grande número de gatunos chamaram "a nossa querida República" — e deve ter sentido, senão o pensou lucidamente — que essa instituição vinha arrancar tudo quanto restava — e não era muito — das tradições nacionais, sem lhes substituir absolutamente nada que mostrasse que era uma república portuguesa. Couceiro viu, ou deve ter sentido, que tal República, ou que quer que fosse, representava, nessas condições um atentado contra a Pátria. Era um factor de dissolução nacional. Não agia senão destrutivamente sobre quanto se pudesse considerar como energizador das almas portuguesas, ermo congregador das almas portuguesas numa única lusitana. Por isso o tradicionalista Paiva Couceiro sentiu a necessidade de conspirar. Ele foi sempre um grande soldado e um grande patriota; continuou sendo o mesmo soldado e o mesmo patriota. A sua superioridade moral sobre os estrangeiros da nossa República é incomensurável. No seu tradicionalismo exaltado, ele é, apesar de tudo, um português. Eles não são nada, nada, nada. Estrangeiros, e estrangeiros estúpidos; que nem sequer vieram trazer à administração pública aquela honestidade cuja ausência na monarquia lhes serviu de trampolim para as campanhas oposicionistas. A monarquia portuguesa, é certo, era um regime de ladrões e incompetentes. Mas era um regime que estava cá há oito séculos, que, pelo menos exteriormente. estava identificado se não com a nacionalidade, pelo menos com a existência ostensiva da nacionalidade. Substituí-lo por um regime que, além de não ser nacional de modo nenhum, continuava as mesmas tradições (estas sim!) de gatunagem e de incompetência., agravando, se talvez não a gatunagem, por certo que a incompetência — eis uma coisa para que não valia a pena ter derramado sangue, perturbado a vida portuguesa, criado maior soma de desprezos por nós do que os que já havia no estrangeiro.

Não concordo, talvez, nem com uma única das ideias que formam a base do conceito português da vida que Couceiro tem. Mas reconheço nele um português. Como português, não posso deixar de, por isso, simpatizar com ele. Nem por sombras me ocorre que possa haver comparação entre a sua atitude — se bem que, para mim, errónea — e a estrangeirada atitude a que estes bandalhos da República chamam "patriotismo".

Quanto à frase, ou expressão de desejo, que "antes Afonso XIII do que Afonso Costa", se a acho (seja ela de quem for) absurda e abjecta, confesso que a compreendo, que compreendo que se houvesse emitido. Aqui como no caso de Couceiro — os conceitos, que expus, acerca do que constitui uma Pátria devem auxiliá-lo a compreender também. O domínio espanhol significaria uma grande desgraça, uma grande vergonha, e um grande desastre nacional. Era a perda da nossa independência — não é assim? — o arrazamento da nossa Pátria? Mas que diabo é isto em que vivemos? Vivemos como portugueses? Como vivemos, se não somos governados por homens orientados portuguesmente? como, se são estrangeiras as ideias que nos "orientam"? como? se de independência nacional temos apenas o nome e o espectro da coisa? Para que serve uma independência nacional, se não é para se viver nacionalmente? Que diabo de independência nacional tem um desgraçado país que é internacionalmente um feudo da Inglaterra, que é nacionalmente um feudo do anti-português Afonso Costa? Se a perda declarada da nossa independência seria (e sê-lo-ia) uma desgraça e uma vergonha, em que é (salvo na absoluta evidência exterior) menos vergonha e menos desgraça a triste situação em que estamos? Um Portugal onde internacionalmente só se pode ser inglês; onde nacionalmente só se pode ser francês (pois que francesas sejam as ideias republicanas que nos "governam") — um Portugal onde, portanto, tudo se pode ser ("tudo" é um modo de falar) menos português, que espécie de "Portugal independente" é que é? Que independência há nisto? Triste gente que se contenta com a triste aparência das coisas, e não vê um palmo adiante das sensações quotidianas, para dentro da sua alma súbdita e oprimida!

Há mais ainda. Estas ideias estrangeiras que hoje formam a fórmula pseudogovernativa da nossa sociedade, são, além de estrangeiras, revolucionárias; isto é, trazem consigo um duplo poder de desintegração social. Dificilmente se concebe um mais desgraçado estado nacional.

É este o estado do país a que o sr., coberto de certa glória, regressa. São estes os homens a que o sr. vem dar o apoio da sua voz. Está contente? Sente-se português? Para que lhe pergunto eu isto? Estas perguntas, afinal, têm mais que uma colocação retórica no discurso?

A estes inimigos internos da sua Pátria vem o sr. trazer o auxílio do algum prestígio que alcançou. Nesse caso vá mais longe. O sr. será um herói, mas é também um mau patriota e um mau português. Será um soldado valente, mas é também um parvo.

Afinal para que lhe estou eu dizendo isto? Para que serve dizer isto, explicá-lo, raciociná-lo, quando sem dúvida toda essa chinfrineira de celebridade feita em seu torno não obedece senão a qualquer plano do partido democrático? Porque, no fundo disto tudo, a única realidade é o Costa. Sim, aqui, na realidade real, não há o sr., nem o seu heroísmo, nem Naulila, nem alemães, nem coisa nenhuma. Há o Costa e o seu partido. E se lhe tenho chamado — ao sr. — parvo e estúpido durante o decurso desta carta, compreende bem que é porque, supondo-o um homem de coração e um patriota, o considero apenas como inconscientemente servindo interesses políticos que, no fundo, são da mais escura espécie, e, no melhor, não são mais que interesses eleitorais e governativos. Limito-me ao conceito fácil de que o sr. é estúpido, porque não posso admitir que um homem que se bateu heroicamente, que cumpriu o seu dever nas linhas de fogo, que se viu frente a frente com as realidades fundamentais da vida — a morte, a guerra e a Pátria — venha, de consciência lúcida e caso pensado, servir os interesses baixos e reles dum partido de arruaceiros e de gatunos. Não creio que o sr. tivesse pensado bem que a sua voz ia ser uma espécie de defesa de Ambaca, das bínubas, das minas da Panasqueira., (...) — de todo esse rosário ateu de escândalos e de traições que constitui os serviços que o partido democrático tem prestado... à Espanha.

Espanhóis do interior — é o que são esses homens em cujo proveito se ergueu um momento da sua voz. Traidores por temperamento e quotidiano gesto — eis do que não passam os indivíduos de forma humana que a sua glória vem servir e o seu nome prestigiar. Bem precisados de prestígio — na verdade — estão eles! Mas não há ninguém que lhes possa dar prestígio. Se eles conseguissem erguer do túmulo Nuno Álvares, o Infante D. Henrique e Afonso de Albuquerque, e os conseguissem inscrever no Centro da Rua Ivens, o que resultaria era um grande desprestígio para esses vultos da nossa história. Moralmente já nada salva aquela caranguejola de patifes. Oxalá, moral ou fisicamente, haja alguma coisa que salve isto!

Enfim... Enfim...

Mas não é verdade que é duro chegar-se a este ponto? Não é verdade que dói e envergonha um português ver que a este ponto se chega?

Naulilas, cativeiros, regresso, vivas, heroísmos, promoções... E no fundo disto tudo não haver outra realidade senão uma manobra eleitoral do partido democrático!

s.d.

Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979.

 - 87.

«Carta a um herói estúpido»

Soneto De Separação






 “Il Grido” (1957). Dir. Michelangelo Antonioni.

 Fernando Pessoa

Nisto de manifestações populares, o mais difícil é interpretá-las.

Nisto de manifestações populares, o mais difícil é interpretá-las. Em geral, quem a elas assiste ou sabe delas ingenuamente as interpreta pelos factos como se deram. Ora, nada se pode interpretar pelos factos como se deram. Nada é como se dá. Temos que alterar os factos, tais como se deram, para poder perceber o que realmente se deu. É costume dizer-se que contra factos não há argumentos. Ora só contra factos é que há argumentos. Os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos. A lógica é o nosso critério de verdade, e é nos argumentos, e não nos factos, que pode haver lógica.

Nisto de manifestações — ia eu dizendo — o difícil é interpretá-las. Porque, por exemplo, uma manifestação conservadora é sempre feita por mais gente do que toma parte nela. Com as manifestações liberais sucede o contrário. A razão é simples. O temperamento conservador é naturalmente avesso a manifestar-se, a associar-se com grande facilidade; por isso, a uma manifestação conservadora vai só um reduzido número da gente que poderia, ou mesmo quereria, ir. O feitio psíquico dos liberais é, ao contrário, expansivo e associador; as manifestações dos “avançados” englobam, por isso, os próprios indiferentes de saúde, a quem toda a vitalidade acena.

Isto, porém, é o menos. O melhor é que, para quem pensa, o único sentido duma manifestação importante é demonstrar que a corrente da opinião contrária é muito forte. Ninguém arranja manifestações em favor de princípios indiscutíveis. Tão-pouco se aglomeram vivas em torno a um homem a quem é feita uma oposição sem relevo ou importância. Não há manifestações a favor de alguém; todas elas são contra os que estão contra esse alguém. É por isso este, e não o “homenageado”, quem fica posto em relevo. Quanto maior a manifestação, mais fraco está o visado; maior se sente a força que se lhe opõe. Toda a manifestação é um corro-a-salvar-te de quem não pensa contribuir para a salvação,senão com palmas e vivas.

É este o ensinamento que toda a criatura lúcida tira das manifestações populares.

Quando a uma criatura, que está em evidência ou regência, se faz uma manifestação que resulta pequeníssima, conte tal criatura com o apoio dum país inteiro. Se a manifestação fosse grande, tremesse então. É que os seus partidários teriam sentido, por uma intuição irritada, a grandeza da oposição a ele, e isso os chamaria em peso para a rua, para, com suas muitas palmas e vivas, aumentar a ele e a si próprios a ilusão duma confiança que enfraquece.

1915

Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980.

 - 54.

1ª publ.: “Crónica da vida que passa”. in O Jornal, nos. 15 e 18. Lisboa: 18 e 21-4-1915.

 Fernando Pessoa

Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas políticas,

Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas políticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro hábito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opiniões continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. Talvez não seja tarde para estabelecer, sobre tão delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude científica.

Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentada sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo própria. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural.

A coerência, a convicção, a certeza, são além disso demonstrações evidentes — quantas vezes escusadas — de falta de educação. E uma falta de cortesia com os outros ser sempre o mesmo à vista deles; é maçá-los, apoquentá-los com a nossa falta de variedade.

Uma criatura de nervos modernos, de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia. Deve ter, não crenças religiosas, opiniões políticas, predilecções literárias, mas sensações religiosas, impressões políticas, impulsos de admiração literária.

Certos estados de alma da luz, certas atitudes da paisagem têm, sobretudo quando excessivos, o direito de exigir a quem está diante deles determinadas opiniões políticas, religiosas e artísticas, aqueles que eles insinuem, e que variarão, como é de entender, consoante esse exterior varie. O homem disciplinado e culto faz da sua sensibilidade e da sua inteligência espelhos do ambiente transitório: é republicano de manhã, e monárquico ao crepúsculo; ateu sob um sol descoberto, e católico ultramontano a certas horas de sombra e de silêncio; e não podendo admitir senão Mallarmé àqueles momentos do anoitecer citadino em que desabrocham as luzes, ele deve sentir todo o simbolismo uma invenção de louco quando, ante uma solidão de mar, ele não souber de mais do que da Odisseia.

Convicções profundas, só as têm as criaturas superficiais. Os que não reparam para as coisas quase que as vêem apenas para não esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política e a religião gastam dessa lenha, e é por isso que ardem tão mal ante a Verdade e a Vida.

Quando é que despertaremos para a justa noção de que a política, religião e vida social são apenas graus inferiores e plebeus da estética — a estética dos que ainda a não podem ter? Só quando uma humanidade livre dos preconceitos da sinceridade e coerência tiver acostumado as suas sensações a viverem independentemente, se poderá conseguir qualquer coisa de beleza, elegância e serenidade na vida.

1915

Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980.

 - 5.

1ª publ.:”Crónica da vida que passa”. in O Jornal, nº 2. Lisboa: 5-4-1915.

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