segunda-feira, 1 de junho de 2026
Les cauchemars naissent la nuit (Nightmares Come at Night, 1970) dir. Jesús Franco
Guy Debord
"(...) As bruxas, naturalmente, soltavam o cabelo para lançar feitiços, desencadear tornados e seduzir homens: talvez algumas destas crenças tenham perdurado entre os comentadores culturais masculinos de meados do século XX, contribuindo para a minha reputação de bruxa. Ou a ligação pode vir da década de 1950 e inícios de 1960, altura em que uma mulher que escrevesse qualquer coisa fora das revistas femininas era considerada não só poderosamente anormal, mas também uma louca descontrolada. Ou talvez venha de inícios da década de 1970, quando a linguagem enérgica das mulheres era equiparada a queimar soutiens, arruinar homens e outras atividades pouco femininas. A romancista Margaret Laurence – de uma geração anterior – queixava-se de que, por ter filhos, não era considerada uma escritora séria, mas uma mãe inofensiva que fazia bolos: “Apenas uma dona de casa.” Eu, pelo contrário, via-me a fazer o protesto oposto: quando não voava pelo ar na forma de morcego, declarava que podia fazer um bom bolo de Natal e, ao mesmo tempo, tricotar umas quantas camisolas. Esta é uma dicotomia muito antiga: por um lado, uma mulher a fazer coisas de mulher; por outro, uma escritora séria com uma faca na manga.
“Ela escreve como um homem”, disse um colega poeta a meu respeito, em inícios da década de 1970, com a intenção de fazer um elogio.
“Esqueceste-te da pontuação”, disse-lhe eu. “O que querias dizer era: ‘Ela escreve. Como um homem.’” Respostas deste género davam jeito naquela altura.
Se me lançasse nesta aventura das memórias, refletia eu, poderia escrutinar essas várias imagens, bem como algumas outras que não costumam ser tidas em conta. Serei, no íntimo, a miúda de caracóis e passos de sapateado de 1945? A roqueira de 1955, de crinolina e sapatos de sela? A aplicada aspirante a poeta e contista de 1965? A perturbadora romancista publicada e gestora ocasional de uma quinta de 1975? Ou a versão talvez mais conhecida: a má dactilógrafa que começou A História de Uma Serva em Berlim, tendo-o concluído em Tuscaloosa, no Alabama, e publicado depois, com críticas mistas, em 1985? (...)"
«O século dos imbecis»
Valter Hugo Mãe, in «O século dos imbecis»
"possibilidade do impossível. "
Fascinante com rigor e humanidade, Edgar Morin deixa para sempre a marca de um homem que teria amado o mundo o suficiente para querer entendê-lo.
Homenagem a este humanista, o documentário "Edgar Morin, diário de uma vida" está na arte.tv.''
Edgar Morin
"O que me assusta e horroriza é a arrogância de alguém que certamente terá um ponto de vista universal e objetivo. " Aquele que afirma que a ciência, a humanidade, o proletariado fala da sua boca.
''Precisaríamos talvez dizer a nós próprios e uns aos outros que esperar não é necessariamente uma perda de tempo. Muitas vezes é o contrário.
A Rua da Vida Feliz
domingo, 31 de maio de 2026
''O psicótico não tem consciência crítica.''
Vítor CotovioPsiquiatra
Excerto do livro “Aquilo que vi no escuro, Histórias sobre psicose”, de Margarida David Cardoso.
"para triunfar, o mal apenas precisa da inação das pessoas de bem"
O abraço é uma longa conversa que acontece sem palavras.
Tudo o que tem de ser dito soletra-se no silêncio
Diz-se que o nosso corpo tem a forma de um abraço. Talvez por isso a tarefa de abraçar seja tão simples, mesmo quando temos de percorrer um longo caminho. O abraço tem uma incrível força expressiva. Comunica a disponibilidade de entrar em relação com os outros, superando o dualismo, fazendo cair armaduras e motivos, cedendo, nem que seja por instantes, na defesa do espaço individual. Há uma tipologia vastíssima de abraços, e cada uma delas ensina alguma coisa sobre aquilo que um abraço pode ser: acolhimento e despedida, congratulação e luto, reconciliação e embalo, afeto ou paixão. Os abraços são a arquitetura íntima da vida, o seu desenho invisível, mas absolutamente presente; são plenitude consentida ao desejo e memória que revitaliza. Todos nos reconhecemos aí: em abraços quotidianos e extraordinários, abraços dramáticos ou transparentes, abraços alagados de lágrimas ou em puro júbilo, abraços de próximos ou de distantes, abraços fraternos ou enamorados, abraços repetidos ou, porventura, naquele único e idealizado abraço que nunca chegou a acontecer mas a que voltamos interiormente vezes sem conta.
No princípio era o abraço, se pensarmos no colo que nos nutriu na primeira infância. Essa foi, para a maioria de nós, a primeira e reconfortante forma de comunicação. Mas a necessidade de um abraço acompanha a nossa existência até ao fim. O abraço é uma longa conversa que acontece sem palavras. Tudo o que tem de ser dito soletra-se no silêncio, e ocorre isto que é tão precioso e afinal tão raro: sem defesas, um coração coloca-se à escuta de outro coração.
“Em teu abraço eu abraço o que existe,
a areia, o tempo, a árvore da chuva.
E tudo vive para que eu viva”, garantem os versos de Neruda.
Calcula-se que um ser humano precise de 1500 abraços por ano para sobreviver. Dá uns quatro abraços por dia. Mas os números podem subir, pois encontram-se instruídos nessa humaníssima ciência chamada abraçoterapia a defender 12. Está também calculado – para quem ache graça à semântica dos números – que a duração média de um abraço entre duas pessoas é de três segundos. Mas há abraços mais demorados. O dos chamados “amantes de Valdaro”, por exemplo, tem pelo menos 6000 anos. Trata-se de dois esqueletos que remontam ao Neolítico, descobertos, há não muito tempo, numa necrópole perto de Mântua. Crê-se que pertenceram a uma mulher e um homem, entre os 18 e os 20 anos. Representam algo de único no mundo, quer pela antiguidade, quer pela posição em que foram encontrados: os corpos vizinhos e cruzados, o braço dele em torno do pescoço dela, numa espécie de abandono que talvez tenha sido o de um amor. Não há sinais de violência e, por isso, exclui-se a hipótese de terem sido mortos. O mais provável é que tenham perecido a uma doença, de fome ou de frio. Há 6000 anos, porém, o seu abraço permanece inalterado.
Um dos momentos mais extraordinários da arte contemporânea portuguesa é a sequência fotográfica, de Helena Almeida, intitulada “O Abraço”. São sete imagens de grandes dimensões (180 x 100 cm) em que a fotógrafa e o marido se abraçam. Apenas isso. Estão ambos sentados num banco que só dá para uma pessoa e apertam-se, agarram-se, suplicam-se, buscando no outro amarra, como se navegassem numa jangada destinada a um naufrágio irremediável. Por vezes o abraço deles parece uma luta, por vezes um reencontro para sempre. Os corpos dão-se a ver numa fragilidade que dói, num equilíbrio mais do que precário, instáveis e tensos como não se julgaria. Mas são, em todo o tempo, o radical abrigo um do outro, a passagem mais do que a fronteira, o interminável espanto de reconhecer no corpo do outro o nosso, no nosso o do outro.
[José Tolentino Mendonça | A Revista Expresso | Edição 2256 | 22/01/16]
sábado, 30 de maio de 2026
quarta-feira, 20 de maio de 2026
terça-feira, 12 de maio de 2026
«Não sei nada. Duvido de tudo. Desci ao fundo dos fundos, lá onde se confunde a lama com o sangue, as fezes, o pus, o vómito; fui até às entranhas da Besta e não me arrependo. Nada sei do futuro, e o passado quase esqueci. Li muito e foi pior. Conheci gente variada nesta Viagem. Pobre gente: estúpidos de medo, doidos espertalhões, toscos patarecos, foliões e parasitas da Vida, parasitas (os mais criminosos, estes) chulos do próprio talento desperdiçando tudo: as horas do relógio deles e dos outros, e os defeitos de todos, que tudo tem seu calor e seu exemplo; ou frustrados falhados tentando arrastar os mais para o poço onde se deixaram cair por impotência de criar, lazeira ou cobardia (mas o coveiro nada perdoa). Cadáveres adiados fedorentos viciosos de manhas e muito mal mascarados. Uma caca a respirar.»
- “Comunidade”, 1970
Luiz Pacheco
sábado, 9 de maio de 2026
domingo, 19 de abril de 2026
Sou composta por urgências
minhas alegrias são intensas;
minhas tristezas, absolutas.
Entupo-me de ausências,
Esvazio-me de excessos.
Eu não caibo no estreito,
eu só vivo nos extremos
Pouco não me serve,
médio não me satisfaz,
metades nunca foram meu forte!
Todos os grandes e pequenos momentos,
feitos com amor e com carinho,
são pra mim recordações eternas.
Palavras até me conquistam temporariamente…
Mas atitudes me perdem ou me ganham para sempre.
Suponho que me entender
não é uma questão de inteligência
e sim de sentir,de entrar em contato…
Ou toca, ou não toca.
Clarice Lispector
Pórtico
Não é o serem atingidas, mas que,
Uma vez atingidas,
O caçador não repare na sua queda
Daniel Faria
in “A casa dos Ceifeiros”
Conserto a palavra
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
Ilumino-a
Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em exame
Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vómito
Volto devagar a colocá-la na fome
Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela
E ilumino-a.
Daniel Faria, in “Homens que São como Lugares Mal Situados”
E a escada que desço para me sentar no chão
Mas basta-me um quadrado de sossego
Para a distância absoluta
debruço definitivo
Não é uma aparição
Nem se pode alcançar sem se ir em frente
caindo
para-quedista que desce
Suspenso como os santos num arroubo místico
Erguido como um anjo em suas asas
E sinto-me ser alto como um astro. Nuvem
Como se fosse um homem
Que levita
© 1998, Daniel Faria
From: Poesia
Publisher: Quasi, Vila Nova de Famalicão
Men who are like places in the wrong place
Homens que são como lugares mal situados
Daniel Faria
que nelas sobrevivesse
E era tarde.
Sozinho em tempos não fora a falta de ninguém
E o que doía não tinha o quisto da doença
Só o espaço sereno das coisas que se deixam.
Acontecera que nada se fizera fora
Do coração.
Acontecera que passara a noite a abrir os olhos
Para não se interromper
A estender a mão para estar vivo
E certo de que nem ele próprio se abeiraria de si
mesmo
Pois ocupara-se rigorosamente de ausentar-se.
Mesmo se caminhara muito devagar
Sem outro meio para esperar que o visitassem.
Ele que é agora o que nunca repousou
O que nunca encontrará o sítio do sossego
Amo-te no intenso tráfego
Com toda a poluição no sangue.
Exponho-te a vontade
O lugar que só respira na tua boca
Ó verbo que amo como a pronúncia
Da mãe, do amigo, do poema
Em pensamento.
Com todas as ideias da minha cabeça ponho-me
no silêncio
Dos teus lábios.
Molda-me a partir do céu da tua boca
Porque pressinto que posso ouvir-te
No firmamento.
© 1998, Daniel Faria
From: Poesia
Publisher: Quasi, Vila Nova de Famalicão
fossem longos
Porque tinha uma mulher no pensamento
Sei que os enxugava com a luz da mulher
Com os seus olhos muito claros voltados para o
centro
Do amor, na operação poderosa
Do amor
Sei que a mulher ia perdendo os vestidos
cortados
mulher que lavava
O cabelo no seu sangue
margens para ouvir
E a mulher cantava para o homem respirar
From: Poesia
Publisher: Quasi, Vila Nova de Famalicão
Quando é proporcional à pedra
Que tomba do muro nunca
Alcança a mesma coloração do musgo
– Já nem sequer falo do tempo
Em que mudam a pena
Para fazeres ideia pensa
Como perde um homem a idade
De encontrar os ninhos
Retém na memória: o homem cai. Desloca-se
O pássaro para que as estações não mudem
Pode cercar-se sem ninguém o construir. O
cerco
Do voo é a pedra da idade
Em engoli-la
Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer — fosse abertura —
E a saudade é tudo ser igual.
terça-feira, 14 de abril de 2026
"Frustra fit per plura quod potest fieri per pauciora"
"É inútil fazer com mais o que se pode fazer com menos"
Síndrome do Duplo Subjetivo
''No folclore alemão, encontramos um figura muito interessante chamada Doppelgänger, da junção de doppel (que significa duplo, réplica ou duplicata) e gänger (andante,ambulante ou aquele que vaga). O Doppelgänger possui uma ação inusitada: ele tem a capacidade de reproduzir, de imitar, de agir de forma idêntica a uma pessoa, ou seja, o Doppelgänger é um duplo exato, perfeito.
Na Síndrome do Duplo Subjetivo aparece uma ideia semelhante, de que a pessoa possui um duplo idêntico, porém com a personalidade um pouco diferente ou até uma vida inteira diversa, muitas vezes o duplo pode ser totalmente desconhecido e viver em um país estranho e muitas vezes pode ser ligada a uma pessoa próxima.''
Delírio de Cotard (Síndrome do Morto-Vivo)
''O nome do delírio vem do neurologista Jules Cotard (1840–1989) que descreveu os sintomas desta doença mental extremamente rara, na qual a pessoa pensa que está morta, não existe ou não possui os órgãos internos de seu corpo. Cotard também nomeou como delírio de negação, le délire des négations.''
Referências
Síndrome de Otelo
''A Síndrome de Otelo vem, evidentemente, do famoso personagem de Shakespeare. Na peça Otelo, o Mouro de Veneza, o personagem principal tem o pensamento obsessivo de que a sua mulher o está traindo.
Assim, na Síndrome de Otelo a pessoa pensa que o seu parceiro ou parceira está tendo um caso, a despeito de todas as provas e evidências em contrário.
Segundo os especialistas, não se trata de um simples caso de ciúme, embora o ciúme seja o principal sentimento da Síndrome. Como o ciúme se torna um pensamento obsessivo que não cessa, a pessoa portadora passa a realizar todo tipo de comportamento para encontrar a suposta prova da traição: verifica o telemóvel, invade emails, persegue na rua e, em casos extremos, chega à violência física.''
Para ler depois :
delirium
''A definição do delírio como o que aparta a pessoa da realidade é também utilizada com um critério especial: a pessoa em delírio não consegue diferenciar o real do delírio, ou seja, não se trata de uma fantasia, de uma criação artística, de uma fuga de ideias. A pessoa realmente acredita que o delírio é real.''
Entrevista no catálogo “A minha obra é o meu corpo, o meu corpo é a minha obra”, 2015
Helena Almeida
domingo, 12 de abril de 2026
“Vivian Maier tinha uma enorme cultura visual e foi completamente autodidata, nunca estudou fotografia numa escola. O que a tornou muito forte foi ter inventado as suas próprias regras, a sua própria linguagem. A rua, a imprensa, o cinema, essas foram as suas principais influências.”
Entrevista. Anne Morin: “Vivian Maier tinha tudo contra ela. Era mulher, pobre, mas tinha uma paixão, a fotografia, e foi até ao fim” in Comunidade Cultura e Arte
''estigma, pobreza e abandono''
A violência alegadamente cometida numa esquadra, contra pessoas em situação de sem-abrigo, revela um traço profundo da nossa organização social: o silêncio das profissões do cuidado. Profissionais cuja vocação ética é proteger, reparar e escutar — assistentes sociais, psicólogos, sociólogos, advogados, entre outros — quase não se pronunciaram. Nem sequer os comentadores. E este silêncio não é neutro. Ele expõe a forma como determinados corpos são desumanizados e, por isso mesmo, excluídos da esfera de atenção moral.
Estes são os corpos periféricos de que falam Fernandes e Barbosa (2015): “aqueles dos quais emanam signos desvalorizados pelos padrões constituintes da centralidade corpórea”. Não são corpos abstratos; são corpos concretos, vulneráveis, socialmente marcados por estigma, pobreza e abandono.
Ao lermos Eribon, compreendemos que este silêncio é também produto de um regime de mudez política imposto aos marginalizados. Para Eribon (2018), os grupos socialmente desvalorizados falam, mas não são escutados. A ausência de porta-voz transforma a violência sofrida numa experiência sem eco público. No caso das pessoas em situação de sem-abrigo, a violência não convoca indignação imediata porque a sua dor não é reconhecida como politicamente relevante. E quando os profissionais do cuidado não se posicionam, reforçam involuntariamente esta invisibilidade: não se cala apenas o acontecimento, cala-se também o sujeito.
Depois desta notícia, outras violências institucionais se seguiram — contra imigrantes e contra caloiros num quartel — todas marcadas pelos mesmos corpos desautorizados sob o jugo da violência. E nem todos merecem igual reflexão ou comentário: há uma hierarquia silenciosa de corpos periféricos.
A análise de Édouard Louis (2016) ajuda-nos a compreender o que se segue ao ato violento: o trauma institucional. Louis mostra como a violência continua nos procedimentos, nos silêncios, nas omissões e nas interpretações que diminuem o relato da vítima. A dor torna-se um objeto burocrático. Quando a vítima é uma pessoa em situação de sem-abrigo, esta segunda violência é quase inevitável: chega já marcada pelo descrédito, já chega como corpo periférico. A ausência de reação das profissões do cuidado contribui para manter este trauma, porque falha o reconhecimento mais elementar da dignidade ferida.
A perspetiva de Mbembe (2003) amplia esta reflexão. A vulnerabilidade não é distribuída de forma igual: há corpos cuja exposição ao sofrimento é tolerada e naturalizada. Este enquadramento explica, em parte, por que a violência contra pessoas sem-abrigo não provoca uma resposta proporcional das instituições responsáveis pelo cuidado. Estes corpos, já afastados da centralidade, tornam-se facilmente desumanizáveis. Quando a violência incide sobre eles, não se produz escândalo; produz-se silêncio.
É gritante a desproporcionalidade de poder: de um lado, pessoas em extrema vulnerabilidade, marcadas pela carência, exclusão e sobrevivência; do outro, uma autoridade investida de força física, legitimidade institucional e domínio simbólico. Esta assimetria gera condições para que a violência se torne possível: quando um corpo deixa de ser reconhecido como portador de dignidade, o maltrato instala-se como se fosse aceitável.
Daqui emerge um paradoxo difícil de aceitar. Exigimos aos jovens que não filmem agressões, que não reproduzam crimes sexuais, que não transformem a dor alheia em entretenimento. Ensinamos que isso é imoral, que desumaniza, que perpetua a violência. No entanto, o que vemos aqui é precisamente a mesma lógica — exposição, humilhação e controlo sobre o corpo do outro — exercida por quem detém poder e legitimidade institucional. O que é pedido como lição ética aos mais novos deveria ser exigido, com maior rigor, às instituições que têm a responsabilidade de proteger. Quando estas falham, a pedagogia moral da sociedade fragiliza-se: perde-se a coerência entre o que se prega e o que se pratica, e a confiança na justiça fica profundamente abalada.
Assim, o problema não é apenas a violência inicial — é aquilo que ela revela sobre quem merece cuidado. O silêncio das profissões do cuidado não é uma falha individual; é um sintoma estrutural. Significa que estes corpos, já na margem, não são plenamente reconhecidos como parte do “nós”. Enquanto o sofrimento destas pessoas não convocar uma resposta ética imediata, continuaremos a assistir à reprodução da desumanização: a violência cometida e a violência calada.
Marta Borges — Assistente Social
Richard Hambleton era el "Hombre de las Sombras"
''Na década de 1980, Richard Hambleton era o "Homem das Sombras", um espetro na noite que pintava centenas de silhuetas surpreendentes nas paredes da baixa Manhattan e que, juntamente com Keith Haring e Jean-Michel Basquiat, desencadeou o movimento da arte de rua.
No apogeu do seu primeiro êxito comercial e crítico, Hambleton apareceu na revista 'Life' e foi aclamado na Bienal de Veneza. Os críticos veneravam-no como artista expressionista pop norte-americano definitivo. Mas, desconfortável com o seu próprio êxito, distanciou-se dos que o rodeavam, desde comerciantes de arte até amigos íntimos. E, tão repentinamente como tinha aparecido, desapareceu. Depois de a toxicodependência e o facto de não ter casa o terem afastado da cena artística durante 20 anos, o “Homem das Sombras” tem uma segunda oportunidade... Mas irá aproveitá-la?
Este filme faz com que o espetador mergulhe na caótica vida de um artista esquecido, desde a sua fama precoce como pintor e habitante do Lower East Side, passando pelas suas lutas com a heroína e o seu regresso surpreendente. Com imagens pouco comuns da cena musical e artística dos anos '80 e uma banda sonora com músicas de grupos que fizeram parte da Nova Iorque dos anos '70 (Talking Heads, The Ramones, Blondie e Suicide), também é um retrato indelével de uma época perdida e transformadora. Antes de Banksy, existiu Hambleton.''
Direção: Oren Jacoby
Estados Unidos, 2017


