sábado, 18 de julho de 2026

I smell a rat, baby

I smell a rat, baby
I smell a rat, baby
You better watch out

I smell a rat, baby

You won't tell me where you beenWhiskey runnin' on down to gin
I smell a rat, babyI smell a rat, babyYou better watch outI smell a rat, baby
You came stumblin' down the hallYou bumped your head up against the wallKnocked out drunk, that ain't allI know you been havin' yourself a ball
I smell a rat, babyI smell a rat, babyYou better watch outI smell a rat, baby
Oh, you better smell that ratOh, look at them old pillow rats walkin' aroundOh, I know you're knocked out, but that's alrightOh, you big ol' house ratOh, look out there, rat, don't fool with me
You won't tell me you been no placeFingernails scratchin' all over your face
I smell a rat, babyI smell a rat, babyYou better watch outI smell a rat, baby
Well, oh, that old ratI'll get me some rat poison to take care of you, babyNow, I know what you puttin' downOut on the other side of town
Oh, smell a rat, babyOoh, great big ratBetter watch outI smell a ratI smell a ratOh, smelly ratBig rat
Compositores: Jerry Leiber / Mike Stoller

Decorrem 595 anos que Joana d’Arc foi queimada viva por ser considerada bruxa, mentirosa e blasfema. Tinha 19 anos.

Frames do filme “La Passion de Jeanne d’Arc” (1928), realizado por Carl Theodor Dreyer e com a actriz Renée Jeanne Falconetti a assumir o papel de Joana d’Arc








Tenho braços tenho remos
tenho navios no mar
tenho um amor tão bonito
não me deixam namorar

Não me deixam namorar
não mo deixam sequer ver.
Vai-me a lembrança tão alto
qu’ inda me deita a perder

Inda me deita a perder
na cama grande do mar
Tenho um amor tão bonito
não mo deixaram ficar

Não mo deixaram ficar
por mor da satisfação
de quem nega moradio
à casa do coração

À casa do coração
aos seus quartinhos de altar
Tenho um amor tão bonito
não me deixam namorar

— Não chores filha não chores
que o teu pranto leva o mar
Água que sai dos teus olhos
ninguém na pode sarar

Prisão fosse a sua casa
o seu quarto, calabouço.
E cadeias os meus braços
à roda do seu pescoço

À roda do seu pescoço
como prenda tão subida
que não se me dava a mim
de prendá-la toda a vida

De prendá-la toda a vida
como a vela prenda a vante
Ela, de branco vestida,
eu, vestido de almirante

Eu vestido de almirante
sobre esta roupa que tenho
tão farta do meu tamanho
de escuna sem mar diante

— Não chores homem não chores
que te vão envergonhar
Água que sai dos teus olhos
ninguém na pode apagar

Mário Cesariny,
in Poesia, ed. Assírio & Alvim
Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça

Mário Cesariny


 


                                Romualdas Rakauskas | Lithuanian photographer


 

  no país no país no país onde os homens
são só até ao joelho
e o joelho que bom é só até à ilharga
conto os meus dias tangerinas brancas
e vejo a noite Cadillac obsceno
a rondar os meus dias tangerinas brancas
para um passeio na estrada Cadillac obsceno
 
e no país no país e no país país
onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço
e o pescoço que bom é só até ao artelho
ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,
chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,
recordo os meus amores liames indestrutíveis
e vejo uma panóplia cidadã do mundo
a dormir nos meus braços liames indestrutíveis
para que eu escreva com ela, só até à ilharga,
a grande história de amor só até ao pescoço
 
e no pais no pais que engraçado no pais
onde o poeta o poeta é só até à plume
e a plume que bom é só até ao fantasma
ao passo que o fantasma – ora ai está –
não é outro senão a divina criança (prometida)
uso os meus olhos grandes bons e abertos
e vejo a noite (on ne passe pas)
 
diz que grandeza de alma. Honestos porque.
Calafetagem por motivo de obras.
É relativamente queda de água
e já agora há muito não é doutra maneira
no pais onde os homens são só até ao joelho
e o joelho que bom está tão barato
 
Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação


Ao longo da muralha que habitamos

Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas,que esperam por nós
E outras frágeis,que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens,palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras,surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.

Mário Cesariny

Eu sempre, Mário Cesariny



Eu sempre a Platão assisto.
Pessoalmente, porém, e creia que não
Tenho qualquer insuficiência nisto,
Sou um romano da decadência total,
Aquela do século IV depois de Cristo,
Com os bárbaros à porta e Júpiter no quintal.

Mário Cesariny


 

 


“A poet is, before anything else, a person who is passionately in love with language.”

 W. H. Auden

''Viverás para sempre nos meus poemas.''

 Ovídio, in Poemas de amor, Antologia Poética Latina (I a. C. - trad. Inês de Ornellas e Castro e Maria Mafalda de Oliveira Viana, ed. Relógio D'Água.

 – O teu peito sobre o meu peito,
Misturando as nossas vozes,
Lentamente, conquistaríamos a ravina,
Depois os grandes bosques!...

Logo, como uma pequena morta,
De coração desmaiado,
Dir-me-ias que te carregasse,
O olho semicerrado…

E eu levar-te-ia, palpitante,
Pela vereda:
E o pássaro fiaria o seu andante:
Para a avelaneira.

Eu poria palavras na tua boca:
E continuaria, estreitando
O teu corpo, como uma menina que eu deitasse,
Ébria de sangue

Que dorme, azul, sob a tua pele branca
De tons rosados:
Falar-te-ia na língua franca…
Pronto!... – que tu conheces…

O nosso grande bosque cheiraria a seiva
E o sol
Cobriria de areia de fino ouro o amplo sonho
Verde e vermelho!

Excerto de 'As respostas de Nina' (Les reparties de Nina) de Arthur Rimbaud
Tradução de Tomás Sottomayor
"(...) o povo dos adormecidos é uma multidão de sicários."

Giorgio Manganelli,
Centuria.

''Tudo está a mudar . As pessoas levam os seus comediantes a sério e os seus políticos como piada.''

''William Penn Adair Rogers (1879–1935) foi um humorista, ator, colunista e cidadão da Nação Cherokee. Conhecido como o "Filho Favorito de Oklahoma", ele tornou-se uma das maiores celebridades mundiais das décadas de 1920 e 1930. Ficou famoso pela sua sagacidade política, pelo seu carisma humilde de "cowboy filósofo" e pelo uso do laço no palco.''

sexta-feira, 17 de julho de 2026

“I want to know how it feels / 'Cause I / I only play act for-real”




 I

I think I know how I feel'Cause II only play it for-realYou should be picking me upInstead you're dragging me downFlying over my headYou're landing all over town
YouYou know that I tryTry to tell you the truthOh baby don't make me cryYou should be picking me upInstead you're dragging me downNow I'm missing you more (more)'Cause baby you're not aroundNow that you're not around
II want to know how it feels'Cause II only play for-realYou should be picking me upInstead your dragging me downI could be giving you love (love)But you're not aroundGlad that you're not aroundGlad that you're not aroundGlad that you're not aroundGlad that you're not aroundGlad that you're not aroundGlad that you're not aroundGlad that you're not aroundGlad that you're not aroundGlad that you're not aroundGlad that you're not aroundGlad that you're not aroundGlad that you're not aroundGlad that you're not aroundGlad that you're not around

Compositores: Anton A Newcombe

 


Filme: “Cenas da Vida Conjugal” (1974)
Realizado e Escrito por: Ingmar Bergman

 ANTÓNIO BARAHONA


MEMÓRIA DO POETA QUE DEU AOS OUTROS A SUA POESIA

''A lenda de José Manuel Simões acompanhou a minha adolescência, por via do Manuel de Castro, que lhe votava uma amizade fiel e admirativa, bem expressa na simples dedicatória do seu primeiro livro, 'Paralelo W'.
Não cheguei a conhecê-lo pessoalmente. Quando, em 1957, comecei a frequentar o Café Gelo, ele já se ausentara para Paris.

Mystica de auto-destruição: eis a «doença» que ameaçava tornar-se epidemia de uma geração de príncipes navegadores, sem reino e sem rumo, apenas donos de lugar incerto e à deriva nas águas, em direcção ao Desconhecido.

***

Já morreram quase todos. Eu sou um último dos últimos.
Por iniciativa de Helder Macedo, a abysmo publicou as 'Sobras Completas', de José Manuel Simões.

Este livrinho, de irónico título, transportou-me para muitos anos atrás, ao tempo em que alternava a revolta política com angústia e desejo de suicídio, e o mytho do poeta maldito orientava o meu comportamento amoral e desenfreado.
'Sobras Completas', de uma obra genial a haver, não corresponde à lenda, não é genial, mas tão só (o que já não é pouco) um testemunho de uma época, poderosamente ingénuo, genuíno e generoso.

Testemunho de um grande poeta que deu aos outros poetas a sua poesia, em vez de ser ele próprio a escrevê-la.

Em memória de José Manuel Simões, que me deu, por intermédio do Manuel de Castro, este poemeto datado de 9 de Novembro de 1961, reescrito muitas vezes, mas sempre posto de lado, até que recuperou o centro e o sentido, exactamente 55 anos depois, hoje, 9 de Novembro de 2016.''

***

É noite
espero-te
fumo
como a chaminé dum hospital

Escrevo
palavras que nadam num aquário
Tenho peças de relógio perdidas nas veias
Sou um colar violento ao teu pescoço de planta

Fumo
e teço um manto de algas
para te cobrir ao menor sinal de chuva

O sangue flui
com os destroços e os ossos das horas

O cigarro pega fogo à noite

António Barahona, testemunho incluído no artigo de Diogo Vaz Pinto «José Manuel Simões. O poeta que quis a fuga, descobriu uma saída e tomou-a», 'Jornal i', 16 Nov. 2016.

José Manuel Simões, 'Sobras Completas', prefácios de Helder Macedo e José de Sá Caetano, Lisboa, abysmo, 2016.


Texto de Luís Manuel Gaspar





'' Ontem fiquei a saber que uma professora de geografia fez sucesso ao dizer que adora classificar intens, resolvi ir ver o exame de geografia. Não ouvi a professora, confesso, estava a caminho de Ponte Sor, numa automotora que acompanha o Tejo, atravessa montados, e onde toda a gente se trata por tu, do maquinista à senhora que trabalha numa fábrica no Carregado, do revisor, que com ternura dá águas quando o ar condicionado pifa, ao agrónomo que ia me falando dos cavalos, dos javalis e , claro, dos jovens maquinistas em formação, em visita de estudo, que me dedicaram o seu sorrido, conversa e um deles até me mostrou a foto das bochechas de porco preto que comeu com a avó. Devolvi contando das grandes greves dos heróis ferroviários no século XIX. Não há calor que me tire de um comboio, o transporte mais belo do mundo. Se é uma automotora a 100 à hora, o dia foi perfeito. Walter Benjamin, filósofo, disse um dia que a revolução não é o comboio da história, é o travão de emergência. Eu, ali, na automotora a caminho de uma formação de professores, levava no colo Vigotsky, o mais importante psicólogo que explica no fundo como aprendemos e desenvolvemos o cérebro.
 
Através de um processo lento, muito lento, de passagem dos conceitos espontâneos aos científicos científico-teóricos, o que só pode ser feito na escola com professores que dominam o currículo e com leitura e escrita dos alunos (e claro muita didáctica). Não é possível dar um resultado, fazer um kahoot ou quiz, ou pedir uma escolha múltipla, e pensar que o aluno aprendeu e o seu cérebro de desenvolveu, tal coisa não existe. Felizmente.
 
Hoje acordei e lá procurei o exame de geografia. Preciso de vos fazer outro intróito. O meu pai conta aos netos todos os natais, mais de 20, que ganhou o prémio nacional de geografia na escola. Cá em casa a geografia é um mundo, sem sair do lugar o meu pai sabe todas as cidades, montanhas, agricultura, desenho de aldeias, rios do mundo; e sua relação com o Homem, que tipo de trabalho surge numa encosta, que arquitectura surge num vale virado a sul, porque as chaminés do Algarve são assim e de onde vêm, sei porque a lã que adoro é uma guerra, de caxemira, porque nas montanhas dos Pirenéus a resistência se escondia no Vale de Aran - gelado e isolado 4 meses por ano - porque a Jugoslávia, das montanhas, derrotou Hitler sem ajuda de tropas aliadas -; porque as camadas das terras negras da Ucrânia são desejadas; porque o latifúndio do Alentejo criou um tipo de sociologia, impossível no Gerês; porque os ventos do Mistral e do Tranmontana no Sul de França, onde vou em breve andar de bicicleta, podem originar fogos e em que direcção.
Quando os meus filhos entraram para a escola, há muito, fiquei estupefacta com o que era de facto fim do currículo de geografia. Tinham de saber índices de desenvolvimento dos países por ordem - IDH, uma classificação neo colonial dos anos 1990 do liberalismo social que desvia o tema da colonização económica dos países atrasados para o assistencialismo, da luta pelo fim da pobreza para o empreendedorismo assistencial -; eram os maiores especialistas em aquecimento global e reciclagem, sabiam onde colocar cada garrafa e não faziam ideia porque as cidades nasciam à beira de um rio, e como a nossa relação com a natureza é humana, uma construção de interdependência; não sabiam ler uma isóbara mas tinham muito "amor às árvores que gastam muito papel".
 
No exame actual, todo de escolha múltipla, devem opinar sobre a instalação de painéis solares; rede de transporte da União Europeia, enfim, por momentos parecia que a escola era um lugar não de conhecimento clássico mas de aptidão para aplicar o PRR. O que acompanha quase todos os currículos - de ciência e conhecimento da geografia humana para métricas, índices de economia matematizada (já não é economia social) e enfim, uma religião e moral de "cuidem muito da natureza". No caso da história o currículo vai sendo substituído pela moral da cidadania, em vez de se ensinar a colonização e lutas anti coloniais, ensinar a pensar historicamente, ensina-se a "tolerância".

A professora tem razão, carregar em botões rapidamente é muito mais fácil do que ler o desenvolvimento e demonstração de um argumento. Para aquele nível de "perguntas", a professora não será para o ano necessária, se as Deloittes e Microsofts da vida, estas ou outras, bem pagas pelos nossos impostos, fizerem bem o seu trabalho. A IA - depois dos dados que foram digitalizados neste julho e classificados, dando milhões de instruções gratuitas à IA - vai classificar muito melhor. E os professores podem em julho ir fazer seleção de recursos humanos, que é o que as escolas estão a fazer para o Ministro dizer que despachou 50% do Ministério.
 
É mais ou menos o que mesmo que se passou com o jornalismo, que só um ano depois do fim do Ministério (tirando o nosso querido Maio), descobriu que não havia Ministério. Se uma peça de informação é uma investigação de fundo crítica não pode ser feita com IA, se é um resumo de agência de comunicação, a IA faz melhor.
A professora que "adora classificar itens" não se preocupe, depois dos dados que os professores entregaram na "inovação" da digitalização, estas questões que não exigem conhecimento abstracto e crítico, vão ser classificadas pela IA. A professora defender um comboio de inovação a 400km hora a espetar-se numa bolha financeira, guerra e retrocesso cerebral, porque isto mexe nos circuitos neurais dos alunos. Eu como Benjamin, e alguns países, digo que numa sala de aula o aparelho tecnológico mais desenvolvido é a linguagem, a voz, a escrita e a leitura. Somos o travão do comboio desgovernado, como uma automotora (vá lá, com ar condicionado).

Salvam-nos os professores, tantos, que resistiram, os que o PM despreza, porque se recusaram a receber trabalho ao fim de semana e noite que não visava salvar a educação dos alunos mas o enterro da própria ideia de educação; os que meteram baixa, preferiram ficar sem salário uns dias do que embarcar nisto, numa insanidade digital que destrói o cérebro dos alunos; os que disseram em público sem medo que um exame não se classifica, muito menos por itens; que avaliar conhecimentos não é dar escolha múltipla. Que bolinhas e cruzinhas é abandonar os jovens das classes médias e trabalhadoras à ignorância que permite a manipulação de políticos que fazem e dizem sem vergonha as maiores ignomínias. Salvam-nos os professores que quando o PM pediu resiliência responderam com resistência.
 
Hoje encontramo-nos professores, pais, alunos, nas vigílias, há em Lisboa, Porto, Coimbra, Covilhã, não deixaremos que façam da escola uma aplicação da uber eats. Quem quiser vir na automotora connosco e apoiar a luta contra a digitalização da educação pode escrever para este email
manifestoeducacao@proton.me

Vigilias Hoje "Educar não é Digitalizar", 20 horas
Lisboa- Assembleia da República
Porto - Câmara Municipal
Coimbra- Praça 8 de maio
Covilhã - Praça do Município
Leiria - Fonte Luminosa''

Raquel Varela

quinta-feira, 16 de julho de 2026

“Um livro deve ser um machado para o mar congelado que há dentro de nós.”

Franz Kafka

''O que é o luto, senão o amor que permanece?''

 "Nunca experimentei a perda porque eu nunca tive uma pessoa amada para perder. Mas o que é o luto, senão o amor que permanece."

Série da Marvel, WandaVision.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

 


Romualdas Rakauskas 
 Lithuanian photographer born in 1941

“O poeta não ama propriamente a Poesia, mas sim o que a Poesia lhe proporciona: a vitória sobre o mêdo do silêncio de Deus”.



“O som saiu / do tempo e penetrou, sucinto, na eternidade”

 ''Depois de morto para o mundo, já se vive / livre, e em lugar nenhum: / apenas se reside só no som do Livro”



“o Arcanjo da Linguagem”

“O homem antes de falar cantou / sílabas reveladas sem semântica / e só depois falou”

Campânula


 

Marit Beer Photography

 


“Multiplicam-se as línguas a partir / do mesmo som central: o som do sôpro / primordial: a voz da água, donde / o fogo escorre pura essência dentro / de tudo a que se dá, por fora, num nome”



  “Quanto às ministras: vão todas lavar escadas! / E as deputadas podem reciclar-se em putas!”

Deus te pague o silêncio que me deste.

 António Barahona, A VOZ AO ESPELHO, edição Averno

 «Os Poetas escrevem da esquerda para a direita. Quando os Outros leem da direita para a esquerda, não entendem o que o Poeta lhes diz».

No aniversário da diva


Passam por nós os anos, ígneos pássaros
apressados, e caem muitas penas
Passam por nós os anos: são cavalos
nervosos frente aos toiros nas arenas

Mas não envelhecemos sempre esperançados
na juventude eterna que não deixa marcas
Estamos marcados desde que nascemos,
transviados por onde não há estradas:

somente caminhadas sem sair de becos,
miragens de desertos nos confins das ilhas
Passam por nós os anos e só fica
um sulco que se fecha na memória em ferida

António Barahona

 


António Barahona, NOITE DO MEU INVERNO, edição Averno

SOM DE VISITAÇÃO

Demos um beijo na face um do outro,
senti os teus lábios no corpo todo;
trazias um saco plástico com cerejas.
Passamos o começo da tarde a conversar
com a boca cheia de sangue.

Antes de ires embora,
tivesse vontade de fazer xixi.
A minha tristeza foi tremenda
na previsão da tua ausência:
escutei atentamente a urina
a cair na água da sanita,
enquanto enfiava pérolas
em fios de lágrimas.


António Barahona, in Raspar o Fundo da Gaveta
 e Enfunar uma Gávea. de António Barahona. 
Editora Averno, 2011

 


POÉTICA DA TRANSCRIAÇÃO



Transcriar: decalcar até ao osso
o corpo do poema bem-amado,
até ao mais profundo do seu espírito
oculto em cada eco que soletro

Transportar o poema com seu pêso,
suas plumas de jaspe bem esculpido,
dormir com ele ao lado em qualquer sítio
até tornar o sono em som desperto

Reescrever mil vezes o mesmo verso
De rima pobre, rico d’universo
em nobre melopeia ritual

Recuperar mil vezes o espontâneo
verso, dado por Deus e rasurado
até fazer buracos no papel

António Barahona

(Lisboa, n. 1939)
in “Pássaro-Lyra”, Editora Averno, Lisboa, 2015

Neste silêncio


Neste silêncio oculto onde as tuas mãos se deslumbram a cada movimento, subsistimos com o peso do crepúsculo e a miséria da guerra.

Inútil a nossa vida, inútil a vida dos outros, quando o amor é um pássaro dentro duma gaiola no deserto. Inútil toda a simbologia funcional das imagens, porque ao homem é dado o sonho com o sentido das coisas.

De bruços sobre a areia, descanso as pálpebras no mar. A minha ociosidade é um peixe de prata adormecido nas ondas, um barco sem dono ancorado na doca. E hei-de morrer assim contigo, companheira ou ilusão do meu cansaço, porque a verdade que trouxemos é um trapézio vazio num circo em ruínas, uma flor no trapézio e muitos gatos a assistir até ao dia nunca mais do horizonte livre.

António Barahona, in “Poemas e Pedras”, Ed. Autor, Lisboa, 1962
Não me reconheço entre os homens
porque são eles os demolidores do meu pensamento

Não participo desta razão comum de existir
porque luto dia a dia com sons e signos ocultos
para a invenção doutra linguagem
que não descobrirei
— sei-o perfeitamente —
mas a necessidade de estar só
dentro de um universo opiado e infinito
obriga-me a estender os cabelos no exílio

António Barahona in “Pássaro-Lyra”, Averno, Lisboa, 2015

Na pastelaria do costume


Agora já não eram marido e mulher.
Encontravam-se, às vezes, na pastelaria
até que não houvesse nada para dizer. 
do costume, e falavam só de poesia

Depois, ficavam em silêncio alguns minutos,
a contemplar o movimento e o som da rua,
ele também a contemplava, toda nua,
por dentro dos seus olhos castos muito abertos.

Mas, ela já se ergue alta da cadeira,
na elegância do seu corpo, musa magra,
cuja beleza, encanto e alma são de cabra
de montanha, com maquilhagem muito sábia.

Ele também se ergue e oferece o seu braço
e sente um peso que é leveza e lhe dá asas,
e, enquanto caminha, plana sobre as casas,
com a alegria da morte ao rubro, passo a passo.

ORIENTAÇÃO


Escrevi milhares de versos
para esquecer. Amei algumas mulheres
para lembrar. Agora já posso dizer
o som em carne viva.

A cidade assemelha-se a um acampamento
abandonado no deserto. Os nómadas
partiram nos seus camelos, com provisão
de tâmaras e água.
Há restos de detritos, sinais de trânsito,
folhas arrancadas a revistas pornográficas,
ao sabor do vento, por entre pétalas sêcas.

Há resíduos de sítios onde estive contigo,
fragmentos de versos de vidro, tudo
muito nítido, anotado, vincado a oiro.

António Barahona, 'O Som do Sôpro', Lisboa, Poesia Incompleta, 2011.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

 

Marit Beer analogue photographer living and working in Berlin/Germany. 

“When I was a child I wished for a hat to make me invisible. I wanted to wander through crowds and listen to their conversations, discover secrets. Later on I wanted to be like the angel Damiel in “Wings of Desire”. There is a scene in which he is sitting next to people in the U- Bahn and listening to their thoughts. I am looking for transitions – from what we believe we are, what others see in us and what we dream or fear. This feeling is what I try to capture. Sequences that reveal nothing but evoke something which lures deep inside of us.“

I can't seem to make you mine | The Seeds


I can't seem to make you mine

Kiss and run all the timeFlyin' around like a beeHurtin' everything you seeI tried everything I knowTo make you wanna love me soThe only thing you doIs try to put the hurt on me
Can't you see what you're doin' to meYou fill my heart with miseryWith every breath and step I takeI'm more in love with you
I can't go on like thisA little bit of love, not one kissI gotta have your love everydayA love that's real that'll stay
I can't seem to make you mineI can't seem to make you mine
I can't seem to make you mineI can't seem to make you mine
Come back, baby, to meEnd my miseryI give you love night and dayDon't ever ever go away
I can't seem to make you mineI can't seem to make you mine
Come back baby, 'cause I'm all aloneCome back darlin', 'cause I need your loveCome back, 'cause I wanna love yaGirl, I wanna love ya tonight
I can't seem to make you mineI can't seem to make you mineI can't seem to make you mineI can't seem to make you mine

bicho-da-prata

A maldição da classe faminta (Curse of the Starving Class)

Peça por Sam Shepard

as sirigaitas e as flausinas

 « Que diacho, tia Madge. (Que diacho!) Até eu uso palavras fora de prazo. E para onde é que foram todas as sirigaitas e as flausinas?

Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 46


 

destinatária de cravos rejeitados

 «Do que é que estavas à espera, na cidade da Flor Memória?, disse de si para si. E agora oferecem-me a quantidade de cravos rejeitados que eu quiser e talvez nunca saiba por que os rejeitaram. Quem sabe, pensou, sentindo o cansaço a dominá-la e a rebelar-se contra uma confusão estúpida que lhe apanhava a cabeça, se não somos todos uns rejeitados num mundo de rejeição e não sabemos nem sonhamos que ao mesmo tempo há flores escolhidas que brotam num mundo perfeito. Num mundo em que os critérios da perfeição ou se perderam ou são secretos, sentia-se satisfeita, agora, por estar por dois meses na Nova Zelândia, por ser destinatária de cravos rejeitados.»

  Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 35

 « o melro macho é um fornecedor insatisfatório»

  Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 32

quarta-feira, 8 de julho de 2026

 «BERALDO: Santo Deus, meu irmão, isso são puras ideias com que gostamos de nos alimentar; não é de agora que as ilusões se instalam na vida dos homens, e porque nos afagam, porque gostaríamos que fossem verdade, acabamos por acreditar nelas.»

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 110


Henri Cartier Bresson 

 

«, e a maioria dos homens morre mais depressa da cura do que da doença.»

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 110

 «(...) receita a torto e a direito purgantes e sangrias, e não analisa coisa nenhuma.»

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 109

''pomposo galimatias''

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 109

acerbidade

''manhosinha''

 «ANGÉLICA: Violentar alguém que gostaríamos que nos amasse não é a melhor forma de nos fazermos amar.»

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 91

segunda-feira, 6 de julho de 2026


 

''Dance Me A Song''

Lilac Wine

 I lost myself on a cool damp night

Gave myself in that misty lightWas hypnotized by a strange delightUnder a lilac tree
I made wine from the lilac treePut my heart in its recipeIt makes me see what I want to seeAnd be what I want to be
When I think more than I want to thinkDo things I never should doI drink much more than I ought to drinkBecause it brings me back to you
Lilac wine is sweet and heady, like my loveLilac wine, I feel unsteady, like my loveListen to me, I cannot see clearlyIsn't that she coming to me nearly here?
Lilac wine is sweet and heady where's my love?Lilac wine, I feel I'm steady, where's my love?
Listen to me, why is everything so hazy?Isn't that he, or am I just going crazy, dear?
Lilac Wine, I feel I'm ready for my loveFeel I'm ready for my love

Compositores: James H. Shelton

 


Marit Beer is a self-taught analogue photographer living and working in Berlin/Germany. Her work is mixing surrealism and feminism with a poetic touch.

 ''Você nunca será feliz se continuar a procurar aquilo que consiste a felicidade. Você nunca viverá se estiver procurando o sentido da vida. Da mesma forma, as emoções mais férteis serão perdidas para você se insistir em analisá-las. Ouça a minha loucura. ”

Albert Camus, Escritos Juvenis (do ensaio “Intuições”, 1932)

Apelidada de "Sailor" , "Sassy" , ''The Divine One''

Sarah Vaughan

''All in vain...''


 You ain't nothin' but a hound dog
You ain't nothin' but a hound dog
Cryin' all the time

Just cryin' all the time

Well, you ain't never caught no rabbitAnd you ain't no friend of mineWell, they said you was high-classedWell, that was just a lie
Yeah they said you was high-classedWell, that was just a lieYeah, you ain't never caught no rabbitAnd you ain't no friend of mine
You ain't nothin' but a hound dogCryin' all the timeYou ain't nothin' but a hound dogCryin' all the time
Well, you ain't never caught no rabbitAnd you ain't no friend of mine
Well they said you was high-classedWell, that was just a lieYeah, they said you was high-classedWell, that was just a lieWell, you ain't never caught no rabbitAnd you ain't no friend of mine
Well they said you was high-classedWell, that was just a lieYou know they said you was high-classedWell, that was just a lieYeah, you ain't never caught no rabbitAnd you ain't no friend of mine
You ain't nothin' but a hound dogCryin' all the timeYou ain't nothin' but a hound dogCryin' all the timeWell, you ain't never caught no rabbitYou ain't no friend of mine

''The original singer of "Hound Dog" is American blues and R&B artist Big Mama Thornton (Willie Mae Thornton). She recorded the track on August 13, 1952, and it was released in early 1953.


While Elvis Presley made the song a global rock-and-roll phenomenon when he released his version in 1956, Thornton’s original recording—produced by Johnny Otis and written by Jerry Leiber and Mike Stoller—was a massive R&B hit''

domingo, 5 de julho de 2026

Artur Pastor (Portugais, 1922 - 1999). Transport de filets de pêche à Sesimbra, Portugal, 1943-1945.



 «ANGÉLICA: Pode dispor dos bens como entender, desde que não disponha do meu coração. (...)»

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 56

acomodadiça

doçurinha

 « ARGÃO: Como vos disse, meu coração, e como reconhecimento pelo amor que me dedicais, quero fazer o meu testamento.

BELINA: Ah! Minha doçura, não falemos disso, peço-vos; não poderia suportar tal ideia, estremeço de dor só de ouvir a palavra ''testamento''.

ARGÃO: Tinha-vos dito que falásseis neste assunto ao nosso notário.

BELINA: Está lá dentro, veio comigo de propósito

ARGÃO: Fazei-o entrar, amorzinho.

BELINA: Infelizmente, minha doçura, quando é muito o amor que sentimos por um marido não nos é possível pensar nestas coisas.»

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 53

«TONIETA: Quando o seu Senhor não pensa naquilo que faz, uma criada ajuizada deve, por direito, endireitá-lo.»

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 49

Pentelhices

 «ARGÃO: Não se deve dizer pentelhices.

TONIETA: Meu Deus, eu conheço-vos, vós sois naturalmente bom.

ARGÃO: (Exaltando-se.) Não sou nada bom, e sou mau quando quero.» 

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 49


 

''Uma boa alma tem sempre boas razões.''

 Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 44

 «As momices do amor são muito parecidas com a verdade, e já vi grandes atores nessa matéria.»

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 43

 «TONIETA: Se vós sentis prazer em ralhar, é preciso que eu sinta prazer em chorar.»

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 40

«, de acordo com a receita, para varrer, lavar e limpar o baixo-ventre de Sua Senhoria, trinta soldos.»

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 37

 «Sim, mas a cortesia não é tudo, Senhor Flatêncio, é preciso também ser razoável e não esfolar os doentes»

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 37

amolentar

Romualdas Rakauskas

 


Penderecki: Threnody for the Victims of Hiroshima




 

 «As coisas grandes e belas
Basta o desejo de fazê-las.»

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 19

«Ao vosso espírito falta presença,»

 Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 30

 «TIRCIS:
Quando da neve derretida nasce uma poderosa torrente,
Contra a força repentina das suas águas de escuma 
Nada é firme e resistente:
Diques, castelos, cidades e bosques,
Homens e rebanhos,
Tudo cede à vantagem da corrente.
Mais orgulhoso ainda e com mil destrezas,
Avança Luís nas suas proezas.»


Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 28

'' o poder destrutivo do luto não resolvido''

lamegueiros

 


«Encarcerado na sua própria casa, Argão governa-se a si próprio para governar os outros. Esta será talvez a mais profunda razão da sua aparente resignação. Na verdade, sentir-se superior ao comum dos mortais permite-lhe iludir a morte que tanto teme.»

 in Prefácio, Alexandra Moreira da Silva

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 19

 ''Há duas espécies de homens: uns, justos, que se consideram pecadores, e os pecadores que se consideram justos.'' 

Blaise Pascal 


 ''Afirma com energia o disparate que  quiseres, e acabarás por encontrar quem acredite em ti.''

Vergílio Ferreira

Powered By Blogger