segunda-feira, 6 de julho de 2026

''Dance Me A Song''

Lilac Wine

 I lost myself on a cool damp night

Gave myself in that misty lightWas hypnotized by a strange delightUnder a lilac tree
I made wine from the lilac treePut my heart in its recipeIt makes me see what I want to seeAnd be what I want to be
When I think more than I want to thinkDo things I never should doI drink much more than I ought to drinkBecause it brings me back to you
Lilac wine is sweet and heady, like my loveLilac wine, I feel unsteady, like my loveListen to me, I cannot see clearlyIsn't that she coming to me nearly here?
Lilac wine is sweet and heady where's my love?Lilac wine, I feel I'm steady, where's my love?
Listen to me, why is everything so hazy?Isn't that he, or am I just going crazy, dear?
Lilac Wine, I feel I'm ready for my loveFeel I'm ready for my love

Compositores: James H. Shelton

 


Marit Beer is a self-taught analogue photographer living and working in Berlin/Germany. Her work is mixing surrealism and feminism with a poetic touch.

 ''Você nunca será feliz se continuar a procurar aquilo que consiste a felicidade. Você nunca viverá se estiver procurando o sentido da vida. Da mesma forma, as emoções mais férteis serão perdidas para você se insistir em analisá-las. Ouça a minha loucura. ”

Albert Camus, Escritos Juvenis (do ensaio “Intuições”, 1932)

Apelidada de "Sailor" , "Sassy" , ''The Divine One''

Sarah Vaughan

''All in vain...''


 You ain't nothin' but a hound dog
You ain't nothin' but a hound dog
Cryin' all the time

Just cryin' all the time

Well, you ain't never caught no rabbitAnd you ain't no friend of mineWell, they said you was high-classedWell, that was just a lie
Yeah they said you was high-classedWell, that was just a lieYeah, you ain't never caught no rabbitAnd you ain't no friend of mine
You ain't nothin' but a hound dogCryin' all the timeYou ain't nothin' but a hound dogCryin' all the time
Well, you ain't never caught no rabbitAnd you ain't no friend of mine
Well they said you was high-classedWell, that was just a lieYeah, they said you was high-classedWell, that was just a lieWell, you ain't never caught no rabbitAnd you ain't no friend of mine
Well they said you was high-classedWell, that was just a lieYou know they said you was high-classedWell, that was just a lieYeah, you ain't never caught no rabbitAnd you ain't no friend of mine
You ain't nothin' but a hound dogCryin' all the timeYou ain't nothin' but a hound dogCryin' all the timeWell, you ain't never caught no rabbitYou ain't no friend of mine

''The original singer of "Hound Dog" is American blues and R&B artist Big Mama Thornton (Willie Mae Thornton). She recorded the track on August 13, 1952, and it was released in early 1953.


While Elvis Presley made the song a global rock-and-roll phenomenon when he released his version in 1956, Thornton’s original recording—produced by Johnny Otis and written by Jerry Leiber and Mike Stoller—was a massive R&B hit''

domingo, 5 de julho de 2026

Artur Pastor (Portugais, 1922 - 1999). Transport de filets de pêche à Sesimbra, Portugal, 1943-1945.



 «ANGÉLICA: Pode dispor dos bens como entender, desde que não disponha do meu coração. (...)»

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 56

acomodadiça

doçurinha

 « ARGÃO: Como vos disse, meu coração, e como reconhecimento pelo amor que me dedicais, quero fazer o meu testamento.

BELINA: Ah! Minha doçura, não falemos disso, peço-vos; não poderia suportar tal ideia, estremeço de dor só de ouvir a palavra ''testamento''.

ARGÃO: Tinha-vos dito que falásseis neste assunto ao nosso notário.

BELINA: Está lá dentro, veio comigo de propósito

ARGÃO: Fazei-o entrar, amorzinho.

BELINA: Infelizmente, minha doçura, quando é muito o amor que sentimos por um marido não nos é possível pensar nestas coisas.»

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 53

«TONIETA: Quando o seu Senhor não pensa naquilo que faz, uma criada ajuizada deve, por direito, endireitá-lo.»

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 49

Pentelhices

 «ARGÃO: Não se deve dizer pentelhices.

TONIETA: Meu Deus, eu conheço-vos, vós sois naturalmente bom.

ARGÃO: (Exaltando-se.) Não sou nada bom, e sou mau quando quero.» 

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 49


 

''Uma boa alma tem sempre boas razões.''

 Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 44

 «As momices do amor são muito parecidas com a verdade, e já vi grandes atores nessa matéria.»

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 43

 «TONIETA: Se vós sentis prazer em ralhar, é preciso que eu sinta prazer em chorar.»

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 40

«, de acordo com a receita, para varrer, lavar e limpar o baixo-ventre de Sua Senhoria, trinta soldos.»

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 37

 «Sim, mas a cortesia não é tudo, Senhor Flatêncio, é preciso também ser razoável e não esfolar os doentes»

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 37

amolentar

Romualdas Rakauskas

 


Penderecki: Threnody for the Victims of Hiroshima




 

 «As coisas grandes e belas
Basta o desejo de fazê-las.»

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 19

«Ao vosso espírito falta presença,»

 Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 30

 «TIRCIS:
Quando da neve derretida nasce uma poderosa torrente,
Contra a força repentina das suas águas de escuma 
Nada é firme e resistente:
Diques, castelos, cidades e bosques,
Homens e rebanhos,
Tudo cede à vantagem da corrente.
Mais orgulhoso ainda e com mil destrezas,
Avança Luís nas suas proezas.»


Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 28

'' o poder destrutivo do luto não resolvido''

lamegueiros

 


«Encarcerado na sua própria casa, Argão governa-se a si próprio para governar os outros. Esta será talvez a mais profunda razão da sua aparente resignação. Na verdade, sentir-se superior ao comum dos mortais permite-lhe iludir a morte que tanto teme.»

 in Prefácio, Alexandra Moreira da Silva

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 19

 ''Há duas espécies de homens: uns, justos, que se consideram pecadores, e os pecadores que se consideram justos.'' 

Blaise Pascal 


 ''Afirma com energia o disparate que  quiseres, e acabarás por encontrar quem acredite em ti.''

Vergílio Ferreira


 I Never Asked to Be Your Mountain
 Tim Buckley ‧ 1967

I never asked to be a mountain, I never asked to fly
Remember when you came to me and told me of his lie?
You didn't understand my love, you don't know why I try
And rain was falling on that day, and I'm the reason why
The flying placey sails the tide and tells me of my childWrapped in bitter tales and heartache, he begs me just to smileOh, he never asked to be a mountain, he never asked to flyAnd through his eye he combs his love and tells him not to cry
She says, "Your scoundrel father flies with a dancer called the queenAnd with her stolen cards he plays and laughs but never wins"Oh, the child dreams to be his hands in the counting of his painBut only barren breasts he feels for her milk will never drain
As I fly I can't rememberWhere I saw the rainCould it be that a laughter drove me down again?
Charming dancer, will you stop, stop and talk to me?Is it me that you feel in your dreams, or will you see?In midnight gazes I found you far from meIf you lead me on, please lead me down
Oh, flying, flying fish, please flutter by my doorYes, you can drink my lines, but first you read my eyesEach one is titled "I'm Drowning Back to You"I can't swim your waters and you can't walk my landsI'm sailing all your sins and I'm climbing all my fearsAnd soon I will die
I never asked to be a mountain, I never asked to flyRemember when you came to me and told me of his lie?You didn't understand my love, you don't know why I try

micropoderes


homens alienados
algemados por deuses de escorbuto e trigo
suspeitos de atearem fogo a uma nuvem de salsugem
nuvem-salto-em-altura
mais baixa que um sonho a preto e branco de Freud
que uma doce e dançante formiga nova-iorquina.

fui hoje até ao mar:
o mesmo que um dia engolirá a fome das luas
das criaturas prematuras
Manhattan
o azar ao jogo do czar

a raiva de não haver maré vazia até ao infinito.

agora
matilhas de dunas famintas cobrem os céus de carne
e os camaleões inventarão
a conta olhos
(encadeando os corsários)
o novo daltonismo das ondas.

Augusto António Cabrita
Algarve, Julho de 2026

 

Throne of Blood (1957)
Director: Akira Kurosawa

Lonely Fire


 

encarceramento

 «A dependência que criam nos pacientes pode ser analisada como uma verdadeira estratégia de encarceramento e, tal, como acontece com os pobres e marginais da sociedade encerrados no Hospital Geral parisiense, estas estratégias de poder são exercidas sobre os mais fracos e vulneráveis, ou seja, sobre aqueles que rapidamente se tornam vítimas do medo e se sentem paralisados  perante a ideia de morte.»

in Prefácio, Alexandra Moreira da Silva

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014., p. 16

galimatias

''melancolia hipocondríaca''

 Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014.

« Um médico muitíssimo honesto, de quem tenho a honra de ser doente, promete, e quer comprometer-se perante os notários, fazer-me viver mais trinta anos, se eu conseguir obter-lhe uma graça de Vossa Majestade. Sobre esta promessa, disse-lhe que não lhe pedia tanto, e que ficaria satisfeito se se comprometesse a não me matar.»

Molière. O Doente Imaginário. Tradução e Prefácio de Alexandra Moreira da Silva. Edições Húmus, 2014.

La femme du métro. 1989. Paris. Manuel Wenaud

 



Nucleus - Alleycat - Full album - (1975)


 

o amor exige confiança

 Cada um faz amor como sabe,
a minha avó fazia canja,
escolhia uma galinha da capoeira,
todas as galinhas tinham nome,
a avó chamava a galinha e a galinha vinha,
o amor exige confiança.

Raquel Serejo Martins
 Existe um deus qualquer
nas minhas entranhas.

Hilda Hilst
 O que lhe acontecerá, não sei.
Sei que você continuará doce
e doida para o resto da vida,
com intervalos de lucidez.

Clarice Lispector
 As coisas perduram
porque se deturpam.

Se falhei,
foi para continuar
a ser.

Vasco Gato, in Uma faca adormecida no coração, ed. Corsário-Satã, 2024


 “O corpo é nómada, mas a alma é sedentária, isto é, as pessoas mantêm-se agarradas a princípios religiosos e culturais, portanto, a pessoa apanha um avião e vai para longe, mas leva o seu mundo atrás.”

Lídia Jorge


 


El artista y la modelo: Dirigido por Fernando Trueba. Com Jean Rochefort, Aida Folch, Claudia Cardinale, Chus Lampreave.

2012
Deixa passar as horas
Sem as contar.

Alheio a cada instante
Vive,
a viver a vida, a eternidade.

Feliz é quem não sabe
A própria idade
E em nenhum ano pode envelhecer.

Dura encantada na realidade.
Negar o tempo é o modo de o vencer.


Miguel Torga
1983/Coimbra
Diário XIV

 ''Afirma com energia o disparate que quiseres, e acabarás por encontrar quem acredite em ti.''

Vergílio Ferreira


“Não inventaram ainda uma pólvora suave, maneirosa, capaz de explodir os homens sem lhes matar. Uma pólvora que, em avessos serviços, gerasse mais vida. E do homem explodido nascessem os infinitos homens que lhes estão por dentro.”

Mia Couto
 "Terra Sonâmbula"

'' ler também é pensar''

''A racionalidade pura é perigosa. A estatística é um bom exemplo. Temos que perceber o que é que aqueles números significam em termos humanos.''

 


Bert Hardy (Anglais, 1913-1995), Betty Burden, coiffeuse de 16 ans, joue avec des enfants sur un tas de gravats près de son domicile, Chapel Court, à Birmingham, en Angleterre, vers 1951.

Francis Alÿs, Cuentos Patrioticos (Patriotic Tales), 1997


 

‘Uma morte é uma tragédia, um milhão de mortes é uma estatística’

Estaline

Arca de Noé mental

''O que é que vou ler neste dilúvio? Neste dilúvio de grandes obras, como vou construir a minha Arca de Noé mental? O que vou salvar na minha cabeça?''

Gonçalo M. Tavares

'' dilúvio de imagens''

charlatanice

mito de Sísifo

[condenado para sempre a carregar um pedregulho até ao cume de uma montanha, pedregulho esse que depois acaba por rolar pela encosta abaixo, obrigando a um novo esforço…]

adaptado ao contemporâneo

 Alÿs’ poetic performances have much in common with Debord’s notion of psychogeography; described as ‘a compulsive wanderer’, he himself states,

…I spend a lot of time walking around the city… The initial concept for a project often emerges during a walk. As an artist, my position is akin to that of a passer-by constantly trying to situate myself in a moving environment. My work is a succession of notes and guides. The invention of a language goes together with the invention of a city. Each of my interventions is another fragment of the story that I am inventing, of the city that I am mapping.

Francis Alÿs

''My paintings, my images, are only attempting to illustrate situations I confront, provoke or “perform” on a more public, usually urban – and ephemeral level. I’m trying to make a very clear distinction in between what will be addressing the street and what will be directed to the gallery wall. The photo residue of an act acquires a very different status (other than the act itself) once hanged on a gallery wall. It can become the finality of the piece. I tried to create painted images that could become equivalents to the action, souvenirs without literally representing the act itself.''

Francis Alÿs, artista belga

A Poética do Espaço

Gaston Bachelard


 

“Voando Sobre um Ninho de Cucos”, de Milos Forman

 


''a boa literatura não é mais cara. Ao contrário do vinho.''

Os cães e os lobos

Irène Némirovsky
escritora ucraniana
''Essa ideia de que é tudo igual, de que Tarkovski é igual a uma coisa qualquer, ou de que um grande livro é igual a outra coisa qualquer, é completamente falaciosa. Parte da minha vida é a ler e a descobrir autores, e estou sempre a descobrir autores incríveis.''
''Sinto que em vários países as pessoas estão a ser trituradas, e em parte porque começam, desde o início, a receber textos cada vez mais simples. E pronto, estão com 30 anos a ler textos para quatro anos, cinco anos.''

Gonçalo M. Tavares
‘Não dês importância aos aplausos de pessoas a quem não aplaudirias’

''sou contra a ideia da escrita como distração, da escrita para pessoas cansadas.''

 Gonçalo M. Tavares

deserção

sábado, 4 de julho de 2026


 

 

                                                       Yva ( Else Ernestine Neuländer-Simon)

''Nem a todos sobra talento para poderem dispensar salamaleques ...''

alcagoitas

o manda-chuva

''orgulho pátrio''

conhecia o luxo filosófico de ter tempo para pensar

 «(...), Mattina conhecia o luxo filosófico de ter tempo para pensar, para observar, para raciocinar e para sonhar, luxo bem mais frequente numa vida inteira sem preocupações de dinheiro do que após uma súbita libertação dessas preocupações: os ricos sem experiência de serem ricos podem injectar tormento no luxo.»

  Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 27

Desafinado - João Gilberto, Tom Jobim, Stan Getz

 


Anna Karina et des perruches. Le mannequin n’avait pas encore rencontré Jean-Luc Godard, qui en fera son égérie.

                                 Succession Sabine Weiss, Photo Elysée, Lausanne 2024.

 A QUE ESPERA

A tristeza sentou-se à minha porta
mas eu não a alimentei.
Cão de guarda por cão de guarda
prefiro a alegria.
A ela entrego os meus dias
e o abraço daquele que vem de longe
para me dizer que o amor que foi ontem
ainda é hoje.

Lídia Jorge em "O Livro das Tréguas", Poesia. D. Quixote (2019).

''Toda a revolução é uma grande alegria que anuncia uma grande tristeza.''

 Lídia Jorge

''É melhor uma pessoa espalhar-se ao comprido em plena via pública do que ficar em casa a chuchar no dedo.''

Miguel Esteves Cardoso



"Ainda não é o fim nem o princípio do mundo, calma, é apenas um pouco tarde"

Manuel António Pina


 

cismarento

Prevenção dos incêndios em Portugal: cada governo espera que o barril de pólvora não lhe calhe a si. Mero jogo de sorte.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

marmorista

"meter-se em camisa de onze varas"


 

Romualdas Rakauskas

 


''Em 1966 (com 58 anos) escreve: “Agora é a idade difícil, com esta idade avançada os quadros deviam ser estrelas e são teias de aranha com moscas” .

Helena Viera da Silva

Vieira da Silva em Gatos Comunicantes - Correspondência entre Vieira da Silva e Mário Cesariny, Documenta, 2018, p.130;

'''ondas-labaredas da Segunda Guerra Mundial''

Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992)

''Maria Helena, atraiçoada pelo seu rosto assertivo, com grandes olhos escuros e diretos, narinas abertas e sorriso malicioso, era uma mulher cheia de dúvidas, “vulnerável e melancólica” até ao osso.''

Arpad Szenes sobre Maria Helena, citado em Vieira da Silva - À Procura do Espaço Desconhecido, Taschen, 1998, p. 20
''Vieira da Silva não gostava de explicar a sua pintura, não o sabia como, achava-se “inútil e completamente estúpida” fora dela [2]. Este sentimento de inaptidão aliava-se, paradoxalmente, ao desejo (e não à resolução) de abarcar tudo o que lhe era exterior, de ir a toda a parte, de assimilar toda a realidade. Não queria excluir nada do seu espanto nem do seu terror, não queria deixar escapar “nem a ligeireza dos pássaros, nem o peso das pedras, nem o brilho dos metais” nos seus quadros [3]. Esta ambição desmesurada, rente a uma angústia que poderia tornar-se castradora da criação, fez de Maria Helena uma das grandes pintoras do século XX - “essa vidente do visível” [4] -, num percurso reconhecido desde cedo, atípico em comparação ao que esteve reservado a muitas, demasiadas, mulheres artistas do seu tempo.''

sobre Vieira da Silva
ver aqui


 

  Manuel de Freitas, no livro “Brynt Kobolt”. (Ed. Averno; 12.ª edição [2018]).




enobrecimento

''intolerabilidade do sofrimento''

DAVID HOCKNEY (1937-2026)

''David Hockney, o icónico pintor britânico que lançou um olhar revolucionário sobre a arte do século XX, faleceu aos 88 anos.
Ficou conhecido como artista pop durante os agitados anos 60 e era talvez mais famoso pelas suas pinturas de piscinas, que ajudaram a definir a estética de Los Angeles. Obras como «A Bigger Splash» e «Portrait of an Artist (Pool With Two Figures)» retratavam cenas hedonistas de amor, luxúria e perda, que se desenrolavam sob os céus ensolarados da cidade.''

apofenia


 

 Comemos e calamos
Calamos e andamos
Andamos e choramos

Vivemos no país da falta de provas
Vivemos no país da impunidade
O braço da justiça é curto e não alcança
E o chico esperto sabe e nunca pára a dança

E mesmo quando não faltam pormenores
De datas e locais, tantos pormenores
Nas rádios e jornais, tantos pormenores
As provas nunca chegam, são sempre menores

Arquive-se o assunto por falta de provas
Arquive-se o país e fiquem só as trovas
Que falem de um país onde valia tudo
E muito esperto andava com pés de veludo

E não cai
Nem mesmo quando as provas são provas dessas provas
O esperto dança e não cai
Nem mesmo quando as provas são provas dessas provas
O esperto dança e não cai

Comemos e calamos
Calamos e andamos
Andamos e choramos
Comemos e calamos
Comemos e calamos 

Manuel António Pina

Calo-me



Calo-me quando escrevo
assim as palavras falam mais alto e mais baixo
Nada no poema é impossível e tudo é possível
mas não arranjo maneira de entrar no poema
e de sair de mim e por isso a minha voz é profunda e rouca
e por isso me calo ( e como me calarei?)
no entanto ninguém é tão falador como eu
nem há palavras que não cheguem para não dizer nada.

e vós também: não me faleis de nada ou falai-me
porque não sabeis o que dizeis


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida" | Ed. Assírio & Alvim, 2001
 Virá o vento apagar
 sonhos, nuvens, sombras, ar,
 mas os sonhos lançarão
 raízes aéreas no chão…

 Manuel António Pina

Clarence John Laughlin, Nostalgia Head, No. 2 | 1941

 


Motherland | Natalie Merchant


 

A um Homem do Passado



Estes são os tempos futuros que temia
o teu coração que mirrou sob pedras,
que podes recear agora tão fundo,
onde não chegam as aflições nem as palavras duras?

Desceste em andamento; afinal era
tudo tão inevitável como o resto.
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se
da tua vista os bons e os maus momentos.

Tu ainda tinhas essa porta à mão.
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)
Agora já não é possível morrer ou,
pelo menos, já não chega fechar os olhos.

"Aqui estão as palavras, metei o focinho nelas!"

 Manuel António Pina

''É. Eu me acostumo mas não amanso.''

quarta-feira, 1 de julho de 2026

''Não podemos resolver os nossos problemas com o mesmo pensamento que usámos quando os criámos.''

Albert Einstein

From the photobook "In and Out of Fashion" © Viviane Sassen

 


Simone Weill: “O bem é aquilo que dá maior realidade aos seres e às coisas; o mal é aquilo que disso os priva”.

“Na luta do bem contra o mal, é sempre o povo que morre”.

Eduardo Galeano

Ditado popular: “A um ruim, ruim e meio”.

''O mal do nosso tempo é a superioridade. Há mais santos do que nichos.''

Honoré de Balzac

terça-feira, 30 de junho de 2026

''Diz-me e eu esqueço-me, ensina-me e 
eu lembro-me, envolve-me e eu aprendo.''

Benjamin Franklin

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Buddy Guy and Big Mama Thornton • “Ball And Chain” • 1970


 

“Yo no arrojo bombas, hago películas”. — R.W. Fassbinder

 


 Fialho de Almeida morreu a 4 de Março de 1911


Na sua campa está registado o seguinte epitáfio:

Miando pouco, arranhando sempre, e não temendo nunca

 «Civilizado ou embrutecido, todo o homem é presa de fatalidades de raça ou de meio de que ele só por si raramente se pode alhear.»

Fialho de Almeida

"Quereria que o tempo fosse
Aquilo que agora não é
Agora anda-se de carro
No meu tempo andava a pé"


Raul Dias

Goldberg Variations Complete (J.S. Bach BWV 988)


 

''teomúsica''

''Se Deus existir, Ele está na música de Bach.''

«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»

Friedrich Nietzsche

"Se os portugueses dormissem bem, não andávamos todos a dormir."

 Miguel Esteves Cardoso

sábado, 27 de junho de 2026

Romualdas Rakauskas | Lithuanian photographer

 


''trabalhava como leitora de manuscritos diversos''

Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 26

'' a morte de ontem janta comigo à minha mesa''

  Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 21

 ''É próprio da pedra
estar insatisfeita.
É próprio da água
querer estar noutro lugar.''

Mary Oliver

'' a Casa de Correcção para Crianças Desobedientes''

 Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 20

 «(...), onde a fertilidade do solo é alimentada pelos ossos esmagados de rios desaparecidos e o sangue das anteriores gerações, (...)»

Janet Frame. Os Cárpatos no Nosso Jardim. Tradução de António Costa Santos. Editorial Caminho. Lisboa, 2004., p. 18


 































Ernst Haas
Austrian-American, 1921–1986
Birds and shadows, 1945
Vienna, Austria

 


''Sobre mulheres expostas, julgadas e condenadas com emojis agressivos, likes insidiosos e algoritmos, uma história antiga em roupagem moderna.
Virginia Woolf escreveu que, para criar ficção, uma mulher precisa de dinheiro e de um quarto só seu. O problema, no século XXI, é que esse quarto tem janelas por todos os lados, câmaras ocultas e milhares de olhares prontos a julgar-lhe os lençóis, a roupa, os pensamentos, os seios, os silêncios. O que antes era retiro tornou-se montra, e os olhos que espreitam já não o fazem por detrás da cortina, mas em público, com likes, emojis e hashtags.
O assédio que hoje se passa nas redes sociais não é fenómeno recente, é a reincarnação digital de uma velha prática cultural, agora envernizada pela estética da modernidade. O que hoje se faz a uma mulher no Instagram ou no X fazia-se a outras no século XIX, nas vielas de Montmartre ou nas vitrinas iluminadas de Amesterdão. A diferença é que, em vez de campainhas e cortinas vermelhas, há filtros, comentários e um algoritmo que decide quem merece visibilidade e quem será punida por se mostrar.
A montra não desapareceu, apenas mudou de lugar. A mulher exposta ao desejo masculino continua a ser tratada como objeto. E quando ousa ter opinião, ousa pensar alto, ousa ser inteligente ou imperfeita, é sancionada. O hábito de desvalorizar intelectualmente as mulheres, ao mesmo tempo que se as exibe como troféus, persiste. Concede-se-lhes liberdade, sim, mas apenas aquela que serve os desejos masculinos. Uma liberdade de contornos estreitos, onde se pode ser sexy, mas não subversiva, sensual, mas não complexa, bonita, mas não autónoma.
Camille Paglia recordou que as sociedades sempre temeram a mulher que se governa a si mesma. Para isso, criaram estratégias de controlo, da religião à psiquiatria, da arte à pornografia, hoje através da tecnologia. As redes sociais são, muitas vezes, um bordel moral, onde se mede o valor da mulher pelo número de seguidores e se dita o seu destino segundo o grau de obediência aos caprichos do olhar alheio. Aquela que se recusa a sorrir, a exibir-se, a corresponder, é descartada ou atacada.
O internamento compulsivo foi, durante séculos, uma das formas mais brutais de silenciar mulheres que desviavam da norma. Le Bal des Folles, romance de Victoria Mas e posteriormente filme, denuncia essa tradição esquecida: mulheres internadas não por doença, mas por desobediência, tristeza, desejo ou simplesmente por serem inconvenientes aos olhos do pai, do marido ou da sociedade. No hospital psiquiátrico da Salpêtrière, em Paris, encenava-se anualmente um baile em que essas “loucas” eram exibidas como curiosidades, objetos de fascínio e escárnio para a elite parisiense. A loucura era, muitas vezes, uma sentença aplicada a mulheres que não queriam casar, que choravam demais, que liam em excesso, que falavam alto ou recusavam o lugar que lhes era atribuído. Mais do que diagnóstico, tratava-se de punição simbólica: a liberdade feminina tratada como sintoma. E ainda hoje, com outros nomes e métodos, o mundo continua a patologizar a mulher que recusa ser domada.
Há um fenómeno particularmente insidioso, a relativização do insulto sexista dirigido a mulheres consideradas bonitas. Como se a beleza funcionasse como licença tácita para a invasão, como se fosse uma autorização implícita para que desconhecidos opinem, comentem, julguem e objetifiquem. A lógica é perversa: se és bela, estás em dívida para com o olhar dos outros. Há quem se sinta, por isso, no direito de comentar uma página pessoal como se fosse pública por natureza, ignorando a intimidade por detrás da imagem, o ser por detrás do ecrã. O elogio transforma-se em armadilha, o comentário, numa forma de posse simbólica. No fundo, trata-se do velho pacto patriarcal, oferece-se admiração como quem exige servidão.
Entre mulheres, repete-se muitas vezes a lógica da competição imposta. A inveja feminina, longe de ser falha moral, é reflexo condicionado de um mundo que ensinou a ver na outra uma rival, e não uma aliada. Melanie Klein interpretaria esse ódio como gesto de destruição do objeto amado. Não se odeia uma mulher bonita apenas por o ser, mas porque ela encarna um ideal inalcançável, uma promessa de reconhecimento que a própria sente não ter.
As culturas moldam os códigos do assédio. Na América Latina, ele surge com palavras doces e mãos leves demais. No Médio Oriente, com leis e véus. Na Europa, com ironia polida e discurso pretensamente racional. Mas o subtexto é invariável, controlar o corpo e o pensamento da mulher. A liberdade oferecida é ilusão servida em bandeja dourada, como nas vitrinas de Amesterdão, onde o vidro é fronteira simbólica entre desejo e domínio.
Na indústria pornográfica, a mulher: la chienne, la salope, la chaudasse, la pute. Os homens? Le séducteur d’enfer!
O cinema, por sua vez, ajudou a construir e a perpetuar fantasmas masculinos disfarçados de génio, paixão ou crise existencial. Luis Buñuel, por exemplo, com o seu olhar onírico e surrealista, projetou mulheres como enigmas a decifrar ou ameaças a neutralizar, moldando arquétipos que ainda hoje habitam o imaginário coletivo. Noutros autores, de Bergman a Godard, de Polanski a Allen, a figura masculina atormentada e brilhante surge como desculpa estética para comportamentos manipuladores, misóginos ou autodestrutivos, apresentados como expressão de profundidade emocional ou liberdade artística. A câmara transforma o abuso em linguagem, a obsessão em arte, e o sofrimento feminino em pano de fundo para o drama masculino. Muitas dessas obras tentam ainda validar a violência simbólica ou literal, ao construírem personagens femininas permanentemente expostas, despidas, literal ou figurativamente, moldadas segundo fantasias masculinas de submissão, disponibilidade ou “desejo de ser puta”, como se a autonomia se expressasse apenas através da auto-objetificação. Esses mitos visuais, reproduzidos e celebrados, oferecem uma espécie de alibi cultural para a toxicidade afetiva, reforçando uma narrativa onde o homem sofre e a mulher é o espelho desse sofrimento, e não um sujeito pleno, com vontade e voz próprias.
Ainda assim, nas artes, há vozes que resistem. A música Vampire, de Olivia Rodrigo, os livros de Elena Ferrante, o cinema de Céline Sciamma, tudo revela um desejo profundo de recusar, de sair da vitrine, de incendiar a montra. Séries como Desperate Housewives e Why Women Kill ilustram, com humor ácido e brutalidade contida, como o papel da mulher, mesmo nos subúrbios aparentemente perfeitos, continua a ser moldado para servir, calar, agradar e reprimir, até que algo rebente por dentro. I May Destroy You, de Michaela Coel, mostra como a violência sexual e digital são faces da mesma moeda: o corpo da mulher como território disputado, colonizado, explorado.
Nem a psicanálise escapa a este debate. Lacan falava do olhar como estrutura de poder. Nas redes, o olhar masculino continua a organizar o desejo e a validação. “Ela é demais”, diz-se, mas o que se quer dizer é, “Ela é demais para mim, e isso é provocação”.
A questão não é apenas o assédio, é a estrutura simbólica que o naturaliza. Não se trata de vigiar os utilizadores das redes, mas de repensar a cultura que os forma. Até que ponto estamos todos, involuntariamente, a sustentar bordéis invisíveis com os nossos cliques?
Quando seremos efetivamente livres e respeitadas por essa liberdade?
Se o palco está iluminado, e todos esperam que ela sorria e se sujeite ao papel que lhe querem impor, que se recorde de Louise Michel, a incendiária da Comuna de Paris, que nos deixou este aviso corajoso: “Notre place dans l’humanité ne doit pas être mendiée, mais prise.”
A mulher não deve pedir lugar, deve tomá-lo. Mesmo que isso implique derrubar preconceitos e exigir respeito por aquilo que quer ser em detrimento do que a querem fazer.''
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