domingo, 12 de abril de 2026
“Vivian Maier tinha uma enorme cultura visual e foi completamente autodidata, nunca estudou fotografia numa escola. O que a tornou muito forte foi ter inventado as suas próprias regras, a sua própria linguagem. A rua, a imprensa, o cinema, essas foram as suas principais influências.”
Entrevista. Anne Morin: “Vivian Maier tinha tudo contra ela. Era mulher, pobre, mas tinha uma paixão, a fotografia, e foi até ao fim” in Comunidade Cultura e Arte
''estigma, pobreza e abandono''
A violência alegadamente cometida numa esquadra, contra pessoas em situação de sem-abrigo, revela um traço profundo da nossa organização social: o silêncio das profissões do cuidado. Profissionais cuja vocação ética é proteger, reparar e escutar — assistentes sociais, psicólogos, sociólogos, advogados, entre outros — quase não se pronunciaram. Nem sequer os comentadores. E este silêncio não é neutro. Ele expõe a forma como determinados corpos são desumanizados e, por isso mesmo, excluídos da esfera de atenção moral.
Estes são os corpos periféricos de que falam Fernandes e Barbosa (2015): “aqueles dos quais emanam signos desvalorizados pelos padrões constituintes da centralidade corpórea”. Não são corpos abstratos; são corpos concretos, vulneráveis, socialmente marcados por estigma, pobreza e abandono.
Ao lermos Eribon, compreendemos que este silêncio é também produto de um regime de mudez política imposto aos marginalizados. Para Eribon (2018), os grupos socialmente desvalorizados falam, mas não são escutados. A ausência de porta-voz transforma a violência sofrida numa experiência sem eco público. No caso das pessoas em situação de sem-abrigo, a violência não convoca indignação imediata porque a sua dor não é reconhecida como politicamente relevante. E quando os profissionais do cuidado não se posicionam, reforçam involuntariamente esta invisibilidade: não se cala apenas o acontecimento, cala-se também o sujeito.
Depois desta notícia, outras violências institucionais se seguiram — contra imigrantes e contra caloiros num quartel — todas marcadas pelos mesmos corpos desautorizados sob o jugo da violência. E nem todos merecem igual reflexão ou comentário: há uma hierarquia silenciosa de corpos periféricos.
A análise de Édouard Louis (2016) ajuda-nos a compreender o que se segue ao ato violento: o trauma institucional. Louis mostra como a violência continua nos procedimentos, nos silêncios, nas omissões e nas interpretações que diminuem o relato da vítima. A dor torna-se um objeto burocrático. Quando a vítima é uma pessoa em situação de sem-abrigo, esta segunda violência é quase inevitável: chega já marcada pelo descrédito, já chega como corpo periférico. A ausência de reação das profissões do cuidado contribui para manter este trauma, porque falha o reconhecimento mais elementar da dignidade ferida.
A perspetiva de Mbembe (2003) amplia esta reflexão. A vulnerabilidade não é distribuída de forma igual: há corpos cuja exposição ao sofrimento é tolerada e naturalizada. Este enquadramento explica, em parte, por que a violência contra pessoas sem-abrigo não provoca uma resposta proporcional das instituições responsáveis pelo cuidado. Estes corpos, já afastados da centralidade, tornam-se facilmente desumanizáveis. Quando a violência incide sobre eles, não se produz escândalo; produz-se silêncio.
É gritante a desproporcionalidade de poder: de um lado, pessoas em extrema vulnerabilidade, marcadas pela carência, exclusão e sobrevivência; do outro, uma autoridade investida de força física, legitimidade institucional e domínio simbólico. Esta assimetria gera condições para que a violência se torne possível: quando um corpo deixa de ser reconhecido como portador de dignidade, o maltrato instala-se como se fosse aceitável.
Daqui emerge um paradoxo difícil de aceitar. Exigimos aos jovens que não filmem agressões, que não reproduzam crimes sexuais, que não transformem a dor alheia em entretenimento. Ensinamos que isso é imoral, que desumaniza, que perpetua a violência. No entanto, o que vemos aqui é precisamente a mesma lógica — exposição, humilhação e controlo sobre o corpo do outro — exercida por quem detém poder e legitimidade institucional. O que é pedido como lição ética aos mais novos deveria ser exigido, com maior rigor, às instituições que têm a responsabilidade de proteger. Quando estas falham, a pedagogia moral da sociedade fragiliza-se: perde-se a coerência entre o que se prega e o que se pratica, e a confiança na justiça fica profundamente abalada.
Assim, o problema não é apenas a violência inicial — é aquilo que ela revela sobre quem merece cuidado. O silêncio das profissões do cuidado não é uma falha individual; é um sintoma estrutural. Significa que estes corpos, já na margem, não são plenamente reconhecidos como parte do “nós”. Enquanto o sofrimento destas pessoas não convocar uma resposta ética imediata, continuaremos a assistir à reprodução da desumanização: a violência cometida e a violência calada.
Marta Borges — Assistente Social
Richard Hambleton era el "Hombre de las Sombras"
''Na década de 1980, Richard Hambleton era o "Homem das Sombras", um espetro na noite que pintava centenas de silhuetas surpreendentes nas paredes da baixa Manhattan e que, juntamente com Keith Haring e Jean-Michel Basquiat, desencadeou o movimento da arte de rua.
No apogeu do seu primeiro êxito comercial e crítico, Hambleton apareceu na revista 'Life' e foi aclamado na Bienal de Veneza. Os críticos veneravam-no como artista expressionista pop norte-americano definitivo. Mas, desconfortável com o seu próprio êxito, distanciou-se dos que o rodeavam, desde comerciantes de arte até amigos íntimos. E, tão repentinamente como tinha aparecido, desapareceu. Depois de a toxicodependência e o facto de não ter casa o terem afastado da cena artística durante 20 anos, o “Homem das Sombras” tem uma segunda oportunidade... Mas irá aproveitá-la?
Este filme faz com que o espetador mergulhe na caótica vida de um artista esquecido, desde a sua fama precoce como pintor e habitante do Lower East Side, passando pelas suas lutas com a heroína e o seu regresso surpreendente. Com imagens pouco comuns da cena musical e artística dos anos '80 e uma banda sonora com músicas de grupos que fizeram parte da Nova Iorque dos anos '70 (Talking Heads, The Ramones, Blondie e Suicide), também é um retrato indelével de uma época perdida e transformadora. Antes de Banksy, existiu Hambleton.''
Direção: Oren Jacoby
Estados Unidos, 2017
Jazmín Beirak
(Diretora Geral dos Direitos Culturais, Espanha)
Penteia-me com o pente da mãe. Penteia-me devagarinho. Penteia-me como ela penteava. A mãe penteava e nós nem sentíamos o pente. As mãos dela passeavam pelo nosso cabelo por muitos minutos e era bom.Era bom.
E o bolo subia no forno, com cores como as da mármore. E os queques inchavam, cheios de nozes. E as panquecas faziam-se sem ovos. E o pudim boca doce. E tudo por onde as mãos dela passavam ficava bem feito.
ÁLBUM DE FAMÍLIA
criação de Lúcia Pires
xô criança tonta
vim só dar um alô e volto já
a porta fecha-se num minuto
e lá fora fazem-se contas a um tempo
onde tu não tens lugar
queria levar-te novamente para o meio das papoilas
queria que houvesse ainda um verão interminável
um avental da tua altura
mas isso foi ontem
já foi ontem
e hoje vê
tenho os braços cheios de manteiga
e não é dos bolos da nossa mãe
Um trabalho sobre a memória e a tentativa de recuperação da infância através da fotografia, dialogando com as notas sobre a fotografia d’A Câmara Clara, de Roland Barthes.
“O banal e o prosaico no fotojornalismo contra-hegemónico”
sábado, 11 de abril de 2026
domingo, 5 de abril de 2026
Joaquim Manuel Magalhães / Ana Marchand, 'Ave de Partida', orientação gráfica de Paulo da Costa Domingos, Lisboa, Frenesi, fora do mercado, 1981
Nada me prendeu. Abandonei-me todo e fui.
Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 97
O dia pesa em mim.
não cessa de ensombrecer.»
arruinado pela idade e os excessos,
a passo lento segue pelo beco.
Mas ao entrar em casa pra esconder
a miséria e a velhice, põe-se a meditar
no quinhão que inda tem por entre a gente nova.»
''não temerei, como um cobarde, as minhas paixões''
Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 75
Muita pedra passou pelas minhas mãos.»
Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 67
'' na flor da robustez da carne''
Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 63
E não me venhas com as tuas lérias
Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 61
Roteiro e Diálogos de Marguerite Duras.
MONOTONIA
(1908)
A um dia monótono outro dia
monótono também se segue. Dá-se
o mesmo, sempre, e uma e outra vez -
os instantes, os mesmos, vêm e vão.
Um mês passa e traz outro mês.
O que vem, qualquer um facilmente adivinha:
é esse aborrecido ontem,
e o amanhã já nem parece um amanhã.
o teu império, cuidado com o que alcanças »
é coisa capital que a ti te diz respeito»,
não deixes de parar; não deixes de adiar
conversas e negócios. Não deixes de te afastar
de quantos se prosternam para te saudar
(mais tarde os hás-de ver); que guarde até
o próprio Senado; e trata logo de ler
o grave escrito que te traz Artemidoro.»
Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 25
Busca tua alma outras coisas, por outras chora
Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 21
E que horrível é o dia em que cedes
Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 21
A CIDADE
(1910)
Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 19
terça-feira, 31 de março de 2026
“Numa altura tão difícil e injusta, que os portugueses têm aguentado com uma paciência que eu considero inexcedível, em que vivemos num neofascismo capitalista, que afasta ainda mais as pessoas da cultura e dos livros, estar aqui hoje é, também, um ato de protesto [ao estado da cultura em Portugal].”
António Lobo Antunes
Na livraria Pátio das Letras, em Faro, Outubro de 2011
sábado, 28 de março de 2026
"Quero morrer bonita"
"Quero morrer bonita",
“I am not what you think I am.”
Porcile (1969) dir. Pier Paolo Pasolini
“Writing is an integral part of the process of understanding... because certain things are laid down. Let's suppose I had a very good memory and remembered everything I think: knowing my own laziness, I very much doubt I would have ever noted anything down. What counts for me is the process of thinking itself. When I have that, then I am quite content personally. If then I succeed in adequately expressing it in writing, I am content again.”
[7 anos sem Patrícia Baltazar]
Amor feinho
Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.
Adélia Prado, em "Bagagem". Rio de Janeiro: Imago, 1976.
Ó meu amor! ó meu damasco, ó minha seda
Álvaro de Campos
– Pois claro
quando me olham de sobrancelhas levantadas à espera de concordância e aplauso. Tornei-me um especialista do
– Pois claro
(...)
Consultório de Freud
''Faço psicanálise há muitos anos e tomo anti-depressivo há seis anos.
http://anabelamotaribeiro.pt
de Sophia de Mello Breyner Andresen
Sobre a história de resistência da Noelia Castillo Ramos
Crónica do jornalista Pedro Lemos, no jornal Sul Informação
terça-feira, 24 de março de 2026
I Had a Flashback of Something that Never Existed,
Como ser artista, segundo Louise Bourgeois
“Arte não é sobre arte. É sobre a vida, e isso resume tudo “
Sua arte era um exorcismo diário de suas experiências, traumas e agitações internas.
Artur Pastor