domingo, 31 de maio de 2026

 ''O psicótico não tem consciência crítica.''

Vítor Cotovio
Psiquiatra


 

Lydia Roberts (Britannique, née en 1994), Marina, Londres, 2026.

 


“Profissionais de saúde descrevem frequentemente a psicose como uma perda de contacto com a realidade partilhada. Uma imagem quase poética, difícil de concretizar. “É quando o mundo que é percepcionado por ti é extremamente diferente do que é percepcionado pelos outros.” A psiquiatra Inês Homem de Melo procura as imagens claras, as metáforas. Um dia, conversava com outros psiquiatras entre consultas: “Não será a psicose como sonhar acordado?” O matemático John Nash (1928–2015), Prémio Nobel, catedrático em Princeton e diagnosticado com esquizofrenia, falava nesses termos da sua experiência delirante: “É como viver um sonho. Quando eu sabia onde estava, estava lá em observação.” Ao lado de Inês, o psiquiatra Gustavo França arrisca uma definição mais intrincada: “A psicose é uma cisão entre a realidade interna e a realidade externa.” Uma cisão entre a realidade mental, privada, do pensamento, e a realidade do mundo mais objetivamente vivido e partilhado com os outros.”

Excerto do livro “Aquilo que vi no escuro, Histórias sobre psicose”, de Margarida David Cardoso.

“Aquilo que vi no escuro, Histórias sobre psicose”

 Margarida David Cardoso

Delírios

 crenças falsas e inabaláveis, apesar de provas em contrário

Alucinações

ouvir, ver ou sentir coisas que não existem

imputável ou inimputável


 

 

Dieter Appelt (Allemand, né en 1935), Ophélie avec une couronne de lumières de la série Erinnerungsspur « Memorial Trace », 1978.

"para triunfar, o mal apenas precisa da inação das pessoas de bem"

John Stuart Mill
Filósofo do séc XIX

O abraço é uma longa conversa que acontece sem palavras.

 Tudo o que tem de ser dito soletra-se no silêncio

Diz-se que o nosso corpo tem a forma de um abraço. Talvez por isso a tarefa de abraçar seja tão simples, mesmo quando temos de percorrer um longo caminho. O abraço tem uma incrível força expressiva. Comunica a disponibilidade de entrar em relação com os outros, superando o dualismo, fazendo cair armaduras e motivos, cedendo, nem que seja por instantes, na defesa do espaço individual. Há uma tipologia vastíssima de abraços, e cada uma delas ensina alguma coisa sobre aquilo que um abraço pode ser: acolhimento e despedida, congratulação e luto, reconciliação e embalo, afeto ou paixão. Os abraços são a arquitetura íntima da vida, o seu desenho invisível, mas absolutamente presente; são plenitude consentida ao desejo e memória que revitaliza. Todos nos reconhecemos aí: em abraços quotidianos e extraordinários, abraços dramáticos ou transparentes, abraços alagados de lágrimas ou em puro júbilo, abraços de próximos ou de distantes, abraços fraternos ou enamorados, abraços repetidos ou, porventura, naquele único e idealizado abraço que nunca chegou a acontecer mas a que voltamos interiormente vezes sem conta.

No princípio era o abraço, se pensarmos no colo que nos nutriu na primeira infância. Essa foi, para a maioria de nós, a primeira e reconfortante forma de comunicação. Mas a necessidade de um abraço acompanha a nossa existência até ao fim. O abraço é uma longa conversa que acontece sem palavras. Tudo o que tem de ser dito soletra-se no silêncio, e ocorre isto que é tão precioso e afinal tão raro: sem defesas, um coração coloca-se à escuta de outro coração.

“Em teu abraço eu abraço o que existe,

a areia, o tempo, a árvore da chuva.

E tudo vive para que eu viva”,  garantem os versos de Neruda.

Calcula-se que um ser humano precise de 1500 abraços por ano para sobreviver. Dá uns quatro abraços por dia. Mas os números podem subir, pois encontram-se instruídos nessa humaníssima ciência chamada abraçoterapia a defender 12. Está também calculado – para quem ache graça à semântica dos números – que a duração média de um abraço entre duas pessoas é de três segundos. Mas há abraços mais demorados. O dos chamados “amantes de Valdaro”, por exemplo, tem pelo menos 6000 anos. Trata-se de dois esqueletos que remontam ao Neolítico, descobertos, há não muito tempo, numa necrópole perto de Mântua. Crê-se que pertenceram a uma mulher e um homem, entre os 18 e os 20 anos. Representam algo de único no mundo, quer pela antiguidade, quer pela posição em que foram encontrados: os corpos vizinhos e cruzados, o braço dele em torno do pescoço dela, numa espécie de abandono que talvez tenha sido o de um amor. Não há sinais de violência e, por isso, exclui-se a hipótese de terem sido mortos. O mais provável é que tenham perecido a uma doença, de fome ou de frio. Há 6000 anos, porém, o seu abraço permanece inalterado.

Um dos momentos mais extraordinários da arte contemporânea portuguesa é a sequência fotográfica, de Helena Almeida, intitulada “O Abraço”. São sete imagens de grandes dimensões (180 x 100 cm) em que a fotógrafa e o marido se abraçam. Apenas isso. Estão ambos sentados num banco que só dá para uma pessoa e apertam-se, agarram-se, suplicam-se, buscando no outro amarra, como se navegassem numa jangada destinada a um naufrágio irremediável. Por vezes o abraço deles parece uma luta, por vezes um reencontro para sempre. Os corpos dão-se a ver numa fragilidade que dói, num equilíbrio mais do que precário, instáveis e tensos como não se julgaria. Mas são, em todo o tempo, o radical abrigo um do outro, a passagem mais do que a fronteira, o interminável espanto de reconhecer no corpo do outro o nosso, no nosso o do outro.

[José Tolentino Mendonça | A Revista Expresso | Edição 2256 | 22/01/16]

quarta-feira, 20 de maio de 2026

terça-feira, 12 de maio de 2026

 «Não sei nada. Duvido de tudo. Desci ao fundo dos fundos, lá onde se confunde a lama com o sangue, as fezes, o pus, o vómito; fui até às entranhas da Besta e não me arrependo. Nada sei do futuro, e o passado quase esqueci. Li muito e foi pior. Conheci gente variada nesta Viagem. Pobre gente: estúpidos de medo, doidos espertalhões, toscos patarecos, foliões e parasitas da Vida, parasitas (os mais criminosos, estes) chulos do próprio talento desperdiçando tudo: as horas do relógio deles e dos outros, e os defeitos de todos, que tudo tem seu calor e seu exemplo; ou frustrados falhados tentando arrastar os mais para o poço onde se deixaram cair por impotência de criar, lazeira ou cobardia (mas o coveiro nada perdoa). Cadáveres adiados fedorentos viciosos de manhas e muito mal mascarados. Uma caca a respirar.»


- “Comunidade”, 1970

Luiz Pacheco 

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