segunda-feira, 1 de junho de 2026

Les cauchemars naissent la nuit (Nightmares Come at Night, 1970) dir. Jesús Franco


''The film follows Anna, a nightclub performer plagued by vivid dreams in which she commits violent crimes. As the boundary between dream and reality becomes increasingly unstable, she finds herself drawn into a web of manipulation, desire, hypnosis, and psychological uncertainty.
Rather than functioning as a conventional thriller, the film unfolds like a fever dream. Narrative logic constantly slips away, replaced by fragmented memories, recurring images, strange encounters, and an atmosphere of permanent disorientation.
At the center, Soledad Miranda delivers one of the most memorable performances of her brief career. Her presence gives the film an emotional and visual magnetism that remains compelling even when the story drifts into abstraction.
The film's greatest strength is its dreamlike atmosphere. Mirrors, empty rooms, nocturnal spaces, and surreal transitions create the feeling of being trapped inside someone else's subconscious. Like many of Franco's most interesting works, it is less concerned with explanation than with mood and sensation.
Beneath the mystery lies a portrait of a woman losing her grip on reality, caught between fantasy, fear, and forces she barely understands. The result is one of the most hypnotic and unusual films in Franco's early 1970s period.''


«(...) A vida é uma espécie de arte. Não corre sobre trilhos certinhos nem é um produto acabado que se encontra em qualquer esquina.»

 Carl G. Jung, no livro “Cartas 1946-1955: carta ao Dr. Allen Gilbert [20.04.1946]”. (Ed. Vozes; 1.ª edição [2002])
“The false choices offered by spectacular abundance – choices based on the juxtaposition of competing yet mutually reinforcing spectacles and of distinct yet interconnected roles (signified and embodied primarily by objects) – develop into struggles between illusory qualities designed to generate fervent allegiance to quantitative trivialities.”
 
Guy Debord


 

Louis Faurer

 




"(...) As bruxas, naturalmente, soltavam o cabelo para lançar feitiços, desencadear tornados e seduzir homens: talvez algumas destas crenças tenham perdurado entre os comentadores culturais masculinos de meados do século XX, contribuindo para a minha reputação de bruxa. Ou a ligação pode vir da década de 1950 e inícios de 1960, altura em que uma mulher que escrevesse qualquer coisa fora das revistas femininas era considerada não só poderosamente anormal, mas também uma louca descontrolada. Ou talvez venha de inícios da década de 1970, quando a linguagem enérgica das mulheres era equiparada a queimar soutiens, arruinar homens e outras atividades pouco femininas. A romancista Margaret Laurence – de uma geração anterior – queixava-se de que, por ter filhos, não era considerada uma escritora séria, mas uma mãe inofensiva que fazia bolos: “Apenas uma dona de casa.” Eu, pelo contrário, via-me a fazer o protesto oposto: quando não voava pelo ar na forma de morcego, declarava que podia fazer um bom bolo de Natal e, ao mesmo tempo, tricotar umas quantas camisolas. Esta é uma dicotomia muito antiga: por um lado, uma mulher a fazer coisas de mulher; por outro, uma escritora séria com uma faca na manga.

“Ela escreve como um homem”, disse um colega poeta a meu respeito, em inícios da década de 1970, com a intenção de fazer um elogio.
“Esqueceste-te da pontuação”, disse-lhe eu. “O que querias dizer era: ‘Ela escreve. Como um homem.’” Respostas deste género davam jeito naquela altura.
Se me lançasse nesta aventura das memórias, refletia eu, poderia escrutinar essas várias imagens, bem como algumas outras que não costumam ser tidas em conta. Serei, no íntimo, a miúda de caracóis e passos de sapateado de 1945? A roqueira de 1955, de crinolina e sapatos de sela? A aplicada aspirante a poeta e contista de 1965? A perturbadora romancista publicada e gestora ocasional de uma quinta de 1975? Ou a versão talvez mais conhecida: a má dactilógrafa que começou A História de Uma Serva em Berlim, tendo-o concluído em Tuscaloosa, no Alabama, e publicado depois, com críticas mistas, em 1985? (...)"

Margaret Atwood em "O livro das minhas vidas"
«Se a escola se satisfaz com a leitura, por parte dos alunos, de um livro de ficção por ano, não podemos depois queixar-nos dos portugueses - com vinte, trinta, quarenta, sessenta anos - lerem pouco. E por isso a discussão deve ser: como conseguimos pôr mais 9-10 autores a serem lidos por ano nas escolas? Como conseguimos pôr os portugueses - quando já na universidade, no mercado de trabalho ou na reforma - a lerem, no mínimo, 11 livros por ano? O que temos de mudar para conseguir isto?»

Gonçalo M. Tavares, na revista SÁBADO



 Vinohradska Avenue. Warsaw Pact troops invasion. Prague, Czechoslovakia. August 1968. 
 Josef Koudelka / Magnum Photos

«O século dos imbecis»

"A hipótese de um homem morrer de burro não seria tão controversa se não fosse evidente o fascínio que multidões revelam pela ignorância, bem mais do que pela maravilha da sabedoria e sensatez."

Valter Hugo Mãe, in «O século dos imbecis»

«(...) Eu achara a minha religião: nada me pareceu mais importante do que um livro. Na biblioteca, eu via um templo.»


 Jean Paul-Sartre, em “As Palavras”. (Cap. I [Ler] / Editora Difusão Européia; 3.ª edição [1967]).

 (...) A terrível solidão dessa natureza desmedida explica muitas coisas neste país.

— Albert Camus, no livro “Diário de Viagem: América do Sul. 5, 6 e 7 de agosto de 1949”. (Trad. Valerie Rumjanek Chaves / Ed. Record; 1.ª edição [2013]).

'Toda a escrita é política. Todos os atos são políticos. »

 Susan Sontag

"possibilidade do impossível. "


''Filósofo da complexidade, ele foi um dos primeiros a nomear a fragilidade do nosso tempo. Mas ele nunca cedeu ao pessimismo. Até o fim, ele acreditava na "possibilidade do impossível. "

Fascinante com rigor e humanidade, Edgar Morin deixa para sempre a marca de um homem que teria amado o mundo o suficiente para querer entendê-lo.
Homenagem a este humanista, o documentário "Edgar Morin, diário de uma vida" está na arte.tv.''


 

 

La Pianiste (The Piano Teacher, 2001) dir. Michael Haneke
''Erika Kohut is a respected piano professor at the Vienna Conservatory, living a life defined by discipline, routine, and emotional restraint. Beneath that controlled surface, however, lies a world of loneliness, frustration, and desires she can neither fully express nor escape. When one of her students, Walter Klemmer, becomes attracted to her, the relationship pushes both characters into increasingly uncomfortable territory.
Based on the novel by Elfriede Jelinek, the film is less interested in scandal than in examining the emotional damage caused by repression, control, and the inability to connect with others.
Isabelle Huppert gives one of the greatest performances of her career. Every gesture, glance, and silence reveals a character constantly at war with herself. Alongside her, Benoît Magimel brings confidence and vulnerability to a role that gradually becomes far more complex than it first appears.
Haneke's direction is precise and unsentimental. There are no easy explanations or comforting conclusions, only a relentless attention to human behaviour and the ways people hurt themselves and others in pursuit of intimacy.
What makes the film so powerful is its refusal to simplify Erika. She is neither victim nor villain, but a deeply contradictory person whose longing for affection collides with years of emotional isolation.
Winner of the Grand Prix at the Cannes Film Festival, where both Huppert and Magimel received acting prizes, The Piano Teacher remains one of the most challenging and unforgettable films of modern European cinema.''


Edgar Morin

 "O que me assusta e horroriza é a arrogância de alguém que certamente terá um ponto de vista universal e objetivo. " Aquele que afirma que a ciência, a humanidade, o proletariado fala da sua boca.

Cultura de massa, morte, ecologia, cinema, fama: o sociólogo-filósofo, que desapareceu ontem aos 104 anos, estava interessado em todas as matérias.
Encontro em 1977 com este eterno otimista: um trecho do espetáculo "O Homem em Questão"


 

[Dia da Criança] Ruy Belo

 



                                      Ruy Belo, TODOS OS POEMAS I, edição Assírio & Alvim

 ''Precisaríamos talvez dizer a nós próprios e uns aos outros que esperar não é necessariamente uma perda de tempo. Muitas vezes é o contrário.

Lembro-me, de uma história de Federico Fellini que ouvi contar a Tonino Guerra: um dos hábitos do cineasta era chegar a qualquer encontro um bom bocado antes da hora aprazada, fosse a um reunião de trabalho ou a um jantar de amigos. Chegava a esse sítio e punha-se a fazer tempo, caminhando prazenteiro e sem dar sinais de coisa alguma ao longo da rua, para lá e para cá. Quando os amigos o surpreendiam nisto e lhe perguntavam porque não tinha tocado à porta imediatamente, a resposta era semelhante à do fotógrafo: "O prazer de esperar."
Esperar porquê? Do pronto a vestir ao pronto a comer, da comunicação em tempo real ao experimentalismo instantâneo dos afetos: a espera tornou-se um peso morto com o qual não sabemos lidar e que é preciso descarregar borda fora. Talvez este desejo de instantaneidade seja em nós um dissimulado reflexo defensivo, o medo crescente de que num mundo acelerado não exista afinal ninguém nem coisa nenhuma que nos espere. Quando todos vivem altamente pressionados, tudo se torna arriscadamente precário — é o que vamos constatando. Mas por dentro, e a medo, e sem falar disso.
Esperar não é necessariamente uma perda de tempo. Muitas vezes é o contrário. É reconhecer o seu tempo, o tempo necessário para ser; é retomar o tempo para si, como lugar de maturação, como oportunidade reencontrada; é perceber o tempo não apenas como enquadramento do sentido mas como formulação em si mesma significativa. Quem não aceitar, por exemplo, a impossibilidade de satisfação imediata de um desejo, dificilmente saberá o que é um desejo (ou, pelo menos, o que é um grande desejo). Quem não esperar pacientemente pelas sementes que lançar, jamais provará a alegria de vê-las florir.''

— Card. José Tolentino de Mendonça©, Revista Expresso nº 2157

“acrescentar vida aos dias e não, apenas, dias à vida"

 Cuidados Paliativos

 Gosto das
mulheres que envelhecem,
com a pressa das suas rugas, os cabelos
caídos pelos ombros negros do vestido,
o olhar que se perde na tristeza
dos reposteiros. Essas mulheres sentam-se
nos cantos das salas, olham para fora,
para o átrio que não vejo, de onde estou,
embora adivinhe aí a presença de
outras mulheres, sentadas em bancos
de madeira, folheando revistas
baratas. As mulheres que envelhecem
sentem que as olho, que admiro os seus gestos
lentos, que amo o trabalho subterrâneo
do tempo nos seus seios. Por isso esperam
que o dia corra nesta sala sem luz,
evitam sair para a rua, e dizem baixo,
por vezes, essa elegia que só os seus lábios
podem cantar.

Nuno Júdice


 

Louise Glück. In: Meadowlands. New York: Ecco Press/HarperCollins, 1996.

 


A Rua da Vida Feliz


Ao sol do meio-dia
ela fica suspensa,
a fala de minha mãe
sossega as borboletas:
‘- flor bonita é no pé’.
Vi o quintal vibrando,
reagi brutamente
porque era inarticulável.
Quiseram me bater
por causa da minha cara
de quem tinha brincado com menino.
Só achei pra dizer:
- Deus mora, mãe,
nunca morreu ninguém.

Adélia Prado, in Oráculos de Maio [1999]

''Não há longa noite que não encontre o dia.''

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