sexta-feira, 19 de junho de 2026

nunca me interessei muito pela semiologia dos animais surrealistas
prefiro as planícies e as escarpas que dilatam
o seu sangue
a sua reverberação provocante
a sua urina fantasmagórica
e há igualmente as montanhas oceânicas
amantes desses animais sem morada
esquálidos desde o seu batismo sem fé
e há igualmente as cidades tectónicas
onde juntos adormecemos debaixo
de um firmamento de urina
águias
minotauros
Melusinas
bruxas de éter
homens imolados defronte de semáforos intermitentes
marsupiais ébrios
impossibilitados de viajar de comboio
impossibilitados de regressar a uma cidade adiada
o que interessa o significado-significante
a cartografia de um corpo dividido em horários
em créditos por telefone
e em rochedos paranoicos?
esta noite vi-te dançar no ventre de um coreto em pousio
estavas à sombra de uma águia disléxica
uma ave pronta para morrer 100 anos antes
num desenho elíptico de Salvador Dali
é estranho ver os séculos através deste espelho retrovisor
ouvir o frémito das Melusinas
a sonoplastia do teu itinerário alquímico entregue a uma floresta de minotauros
de tentáculos
e eu sentado do outro lado da Terra
possivelmente a menos de oito quilómetros de distância dos teus cabelos de mármore
a fingir-me esfinge
Augusto António Cabrita

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