quando me deito no sopé dos ninhos
tenho visões que me são trazidas pela precipitação
de antepassados:
por tapetes forjados por faraós
pela pele medieval das cobras.
em Silves
há um faquir que aponta o polegar a uma cama
forjada por um gigante
há pinturas moçárabes
estalactites de estio
e o último turbante de Al-Mutamid
é afinal de contas
uma porta giratória
uma porta de entrada para um lago de cisnes.
depois há o itinerário acidental que leva os olhos de Dali até Sevilha
sustentados por um dromedário de poucas palavras
depois há berberes-ardinas numa longa piscina
dando conta das últimas notícias da Taifa
através da trôpega gesticulação das nuvens.
quem sou eu?
uma pintura rupestre fora de horas,
uma máquina do tempo,
o resultado de um totémico acaso.
Augusto António Cabrita

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