sábado, 27 de junho de 2026

resistência da Noelia Castillo



Era domingo e estava calor. Éramos às centenas – não é exagero – a aproveitar essas duas realidades que não se juntavam há demasiado tempo: era domingo e estava calor.


''Estavam paradas. De relance, a fisionomia de uma delas fez-me lembrar a minha avó – acho que foi isso que, em primeiro, espoletou a atenção.

Mais ou menos a meio do amplo Calçadão, olhei em frente e deixei-me ficar a olhar para duas senhoras, octagenárias muito provavelmente. As rugas e as dificuldades de locomoção assim mo denunciaram.

Estavam paradas. De relance, a fisionomia de uma delas fez-me lembrar a minha avó – acho que foi isso que, em primeiro, espoletou a atenção.

Vi que estavam a conversar, mas, à distância, não lhes ouvi o diálogo. Enquanto me aproximava e a imagem ia ficando mais nítida, desacelerei o passo. A atenção estava totalmente ganha. Estavam as duas de cigarro na boca: uma delas, curvava-se, num gesto de delicadeza, para acender o cigarro da amiga.


Voltei a pensar naquelas duas senhoras hoje, quando li a história de resistência da Noelia Castillo Ramos, uma jovem espanhola que lutou por um direito: a eutanásia. Talvez porque, cada uma à sua maneira, as vejo – às três – como um símbolo de resistência.

Depois de ter sido vítima de uma agressão sexual coletiva e, de por isso, se ter lançado de um quinto andar de um prédio, Noelia ficou paraplégica. Passou a ter fortes dores neuropáticas.

Ontem, o sofrimento terminou: Noelia morreu, em paz, depois de lhe ter sido administrada a eutanásia.

Agora, que a imagem me voltou a assolar, gosto de pensar que são as três – a Noelia e as duas senhoras com quem me cruzei – símbolo de um certo mundo no qual ainda quero acreditar. Em que cada um pode ser aquilo que bem entender.

E em que a vida pessoal de cada um também é um bocadinho de todos.''


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