“Profissionais de saúde descrevem frequentemente a psicose como uma perda de contacto com a realidade partilhada. Uma imagem quase poética, difícil de concretizar. “É quando o mundo que é percepcionado por ti é extremamente diferente do que é percepcionado pelos outros.” A psiquiatra Inês Homem de Melo procura as imagens claras, as metáforas. Um dia, conversava com outros psiquiatras entre consultas: “Não será a psicose como sonhar acordado?” O matemático John Nash (1928–2015), Prémio Nobel, catedrático em Princeton e diagnosticado com esquizofrenia, falava nesses termos da sua experiência delirante: “É como viver um sonho. Quando eu sabia onde estava, estava lá em observação.” Ao lado de Inês, o psiquiatra Gustavo França arrisca uma definição mais intrincada: “A psicose é uma cisão entre a realidade interna e a realidade externa.” Uma cisão entre a realidade mental, privada, do pensamento, e a realidade do mundo mais objetivamente vivido e partilhado com os outros.”
Excerto do livro “Aquilo que vi no escuro, Histórias sobre psicose”, de Margarida David Cardoso.

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