'' De quando em vez, gosto de passar pela Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, ali onde Lisboa abranda junto às árvores altas do Jardim das Amoreiras e a tarde parece suspensa num silêncio acolhedor.
Penso em Arpad Szenes e Maria Helena Vieira da Silva no atelier do Boulevard Saint-Jacques, em Paris, fotografados por Willy Maywald em 1949. A Europa ainda trazia fuligem nas paredes e eles pintavam com uma obstinação quase secreta. Não havia heroísmo. Apenas método, exílio, ternura e aquele género de entendimento que dispensa explicações.
Comovem-me certos casais. Comove-me tanto a relação destes pintores. Duas inteligências encerradas no mesmo quarto, protegendo-se do ruído do século com pincéis, cigarros, chávenas esquecidas e a lenta liturgia do trabalho. Neles, a intimidade tinha qualquer coisa de música de câmara: contenção, escuta, precisão.
Talvez seja isso que também permanece naquela Fundação das Amoreiras, diante da fotografia tirada em Paris. Não a celebridade, nem sequer a pintura. Apenas duas pessoas que descobriram uma forma extremamente rara de não interromper a solidão uma da outra.''
Luís Galego

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