"(...) As bruxas, naturalmente, soltavam o cabelo para lançar feitiços, desencadear tornados e seduzir homens: talvez algumas destas crenças tenham perdurado entre os comentadores culturais masculinos de meados do século XX, contribuindo para a minha reputação de bruxa. Ou a ligação pode vir da década de 1950 e inícios de 1960, altura em que uma mulher que escrevesse qualquer coisa fora das revistas femininas era considerada não só poderosamente anormal, mas também uma louca descontrolada. Ou talvez venha de inícios da década de 1970, quando a linguagem enérgica das mulheres era equiparada a queimar soutiens, arruinar homens e outras atividades pouco femininas. A romancista Margaret Laurence – de uma geração anterior – queixava-se de que, por ter filhos, não era considerada uma escritora séria, mas uma mãe inofensiva que fazia bolos: “Apenas uma dona de casa.” Eu, pelo contrário, via-me a fazer o protesto oposto: quando não voava pelo ar na forma de morcego, declarava que podia fazer um bom bolo de Natal e, ao mesmo tempo, tricotar umas quantas camisolas. Esta é uma dicotomia muito antiga: por um lado, uma mulher a fazer coisas de mulher; por outro, uma escritora séria com uma faca na manga.
“Ela escreve como um homem”, disse um colega poeta a meu respeito, em inícios da década de 1970, com a intenção de fazer um elogio.
“Esqueceste-te da pontuação”, disse-lhe eu. “O que querias dizer era: ‘Ela escreve. Como um homem.’” Respostas deste género davam jeito naquela altura.
Se me lançasse nesta aventura das memórias, refletia eu, poderia escrutinar essas várias imagens, bem como algumas outras que não costumam ser tidas em conta. Serei, no íntimo, a miúda de caracóis e passos de sapateado de 1945? A roqueira de 1955, de crinolina e sapatos de sela? A aplicada aspirante a poeta e contista de 1965? A perturbadora romancista publicada e gestora ocasional de uma quinta de 1975? Ou a versão talvez mais conhecida: a má dactilógrafa que começou A História de Uma Serva em Berlim, tendo-o concluído em Tuscaloosa, no Alabama, e publicado depois, com críticas mistas, em 1985? (...)"
Margaret Atwood em "O livro das minhas vidas"

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