Com os meus amigos aprendi que o que dói às aves
Não é o serem atingidas, mas que,
Uma vez atingidas,
O caçador não repare na sua queda
Daniel Faria
in “A casa dos Ceifeiros”
Mostrar mensagens com a etiqueta daniel faria. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta daniel faria. Mostrar todas as mensagens
domingo, 19 de abril de 2026
Conserto a palavra
Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
Ilumino-a
Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em exame
Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vómito
Volto devagar a colocá-la na fome
Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela
E ilumino-a.
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
Ilumino-a
Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em exame
Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vómito
Volto devagar a colocá-la na fome
Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela
E ilumino-a.
Daniel Faria, in “Homens que São como Lugares Mal Situados”
Há muitos metros entre um animal que voa
E a escada que desço para me sentar no chão
Mas basta-me um quadrado de sossego
Para a distância absoluta
E a escada que desço para me sentar no chão
Mas basta-me um quadrado de sossego
Para a distância absoluta
Está para além do que se vê a janela onde me
debruço definitivo
Não é uma aparição
Nem se pode alcançar sem se ir em frente
caindo
debruço definitivo
Não é uma aparição
Nem se pode alcançar sem se ir em frente
caindo
Só no fim da paisagem estou de pé como um
para-quedista que desce
Suspenso como os santos num arroubo místico
Erguido como um anjo em suas asas
E sinto-me ser alto como um astro. Nuvem
Como se fosse um homem
Que levita
para-quedista que desce
Suspenso como os santos num arroubo místico
Erguido como um anjo em suas asas
E sinto-me ser alto como um astro. Nuvem
Como se fosse um homem
Que levita
© 1998, Daniel Faria
From: Poesia
Publisher: Quasi, Vila Nova de Famalicão
Amo-te no intenso tráfego
Amo-te no intenso tráfego
Com toda a poluição no sangue.
Exponho-te a vontade
O lugar que só respira na tua boca
Ó verbo que amo como a pronúncia
Da mãe, do amigo, do poema
Em pensamento.
Com todas as ideias da minha cabeça ponho-me
no silêncio
Dos teus lábios.
Molda-me a partir do céu da tua boca
Porque pressinto que posso ouvir-te
No firmamento.
Com toda a poluição no sangue.
Exponho-te a vontade
O lugar que só respira na tua boca
Ó verbo que amo como a pronúncia
Da mãe, do amigo, do poema
Em pensamento.
Com todas as ideias da minha cabeça ponho-me
no silêncio
Dos teus lábios.
Molda-me a partir do céu da tua boca
Porque pressinto que posso ouvir-te
No firmamento.
© 1998, Daniel Faria
From: Poesia
Publisher: Quasi, Vila Nova de Famalicão
Sei que o homem lavava os cabelos como se
fossem longos
Porque tinha uma mulher no pensamento
fossem longos
Porque tinha uma mulher no pensamento
Sei que os lavava como se os contasse
Sei que os enxugava com a luz da mulher
Com os seus olhos muito claros voltados para o
centro
Do amor, na operação poderosa
Do amor
Sei que os enxugava com a luz da mulher
Com os seus olhos muito claros voltados para o
centro
Do amor, na operação poderosa
Do amor
Sei que cortava os cabelos para procurá-la
Sei que a mulher ia perdendo os vestidos
cortados
Sei que a mulher ia perdendo os vestidos
cortados
Era um homem imaginado no coração da
mulher que lavava
O cabelo no seu sangue
mulher que lavava
O cabelo no seu sangue
Na água corrente
Era um homem inclinado como o pescador nas
margens para ouvir
E a mulher cantava para o homem respirar
margens para ouvir
E a mulher cantava para o homem respirar
1998, Daniel Faria
From: Poesia
Publisher: Quasi, Vila Nova de Famalicão
From: Poesia
Publisher: Quasi, Vila Nova de Famalicão
Um pássaro em queda mesmo
Quando é proporcional à pedra
Que tomba do muro nunca
Alcança a mesma coloração do musgo
– Já nem sequer falo do tempo
Em que mudam a pena
Quando é proporcional à pedra
Que tomba do muro nunca
Alcança a mesma coloração do musgo
– Já nem sequer falo do tempo
Em que mudam a pena
Para fazeres ideia pensa
Como perde um homem a idade
De encontrar os ninhos
Retém na memória: o homem cai. Desloca-se
O pássaro para que as estações não mudem
É dessa rotação que o muro
Pode cercar-se sem ninguém o construir. O
cerco
Do voo é a pedra da idade
Pode cercar-se sem ninguém o construir. O
cerco
Do voo é a pedra da idade
Para fazeres uma ideia pensa
Em engoli-la
Em engoli-la
Daniel Faria
domingo, 30 de março de 2025
Há uma mulher a morrer sentada
Uma planta depois de muito tempo
Dorme sossegadamente
Como cisne que se prepara
Para cantar
Ela está sentada à janela. Sei que nunca
Mais se levantará para abri-la
Porque está sentada do lado de fora
E nenhum de nós pode trazê-la para dentro
Ela é tão bonita ao relento
Inesgotável
É tão leve como um cisne em pensamento
E está sobre as águas
É um nenúfar, é um fluir já anterior
Ao tempo
Sei que não posso chamá-la das margens
quarta-feira, 25 de dezembro de 2024
8.
Não me tenho esquecido de ti. Tenho-me esquecido de muitas coisas. Acontece-me parar no meio de uma escada e depois não me lembrar se estou a subir ou a descer. Mas lembra-me de te perguntar se estarei a morrer.
Daniel Faria. Sétimo Dia. Edição de Francisco Saraiva Filho. Assírio & Alvim, 2021., p. 40
1.
A minha maneira de curar-me é perdoar as ofensas.
Sei que começo a despropósito, mas não sei como dizer-te o que me trouxe aqui. Tenho de dizê-lo agora, mais tarde seria uma doença. Ter-te diante de mim e adiar a confissão de que vim para te ver.
Sei que começo a despropósito, mas não sei como dizer-te o que me trouxe aqui. Tenho de dizê-lo agora, mais tarde seria uma doença. Ter-te diante de mim e adiar a confissão de que vim para te ver.
Daniel Faria. Sétimo Dia. Edição de Francisco Saraiva Filho. Assírio & Alvim, 2021., p. 33
domingo, 10 de novembro de 2024
terça-feira, 2 de janeiro de 2024
domingo, 24 de janeiro de 2021
domingo, 14 de janeiro de 2018
Todas as minhas fontes vêm de ti
As nascentes
E amo-te com a constância do moribundo que respira
Já sem saber de que lado o visita a morte
As nascentes
E amo-te com a constância do moribundo que respira
Já sem saber de que lado o visita a morte
Procuro a ligação entre ti a luz muito miudinha depois dos temporais
Entre a luz e os estilhaços nas ruas bombardeadas
Desconheço o colar onde unes tudo
Entre a luz e os estilhaços nas ruas bombardeadas
Desconheço o colar onde unes tudo
Procuro entender como é que moldas
Os meus pés ao equilíbrio que os desloca no chão
Sei que és tu que me levantas
Que remendas o meu corpo a cada dia
Os meus pés ao equilíbrio que os desloca no chão
Sei que és tu que me levantas
Que remendas o meu corpo a cada dia
Em ti encontro a pulsação
Que rebente - uma artéria como nunca
Tinha jorrado. Cratera onde durmo
Recluso, árvore à chuva
Em dificuldade extrema
De respiração
Que rebente - uma artéria como nunca
Tinha jorrado. Cratera onde durmo
Recluso, árvore à chuva
Em dificuldade extrema
De respiração
Ponho a cabeça entre os ramos, lanço os braços para fora
Como um pássaro entre um bando
De disparos
Como um pássaro entre um bando
De disparos
Tu moves as agulhas, tu unes de novo
As minhas asas à curva do céu
As minhas asas à curva do céu
– Daniel Faria
domingo, 7 de janeiro de 2018
quarta-feira, 8 de novembro de 2017
segunda-feira, 17 de agosto de 2015
Poderia ter escrito a tremer de respirares tão longe
Ter escrito com o sangue.
Também poderia ter escrito as visões
Se os olhos divididos em partes não sobrassem
No vazio de ceguez
E luz.
Poderia ter escrito o que sei
Do futuro e de ti
E de ter visto no deserto
O silêncio, o fogo e o dilúvio.
De dormir cheio de sede e poderia
Escrever
O interior do repouso
E ser faúlha onde a morte vive
E a vida rompe.
E poderia ter escrito o meu nome no teu nome
Porque me alimento da tua boca
E na palavra me sustento em ti.
Daniel Faria
Ter escrito com o sangue.
Também poderia ter escrito as visões
Se os olhos divididos em partes não sobrassem
No vazio de ceguez
E luz.
Poderia ter escrito o que sei
Do futuro e de ti
E de ter visto no deserto
O silêncio, o fogo e o dilúvio.
De dormir cheio de sede e poderia
Escrever
O interior do repouso
E ser faúlha onde a morte vive
E a vida rompe.
E poderia ter escrito o meu nome no teu nome
Porque me alimento da tua boca
E na palavra me sustento em ti.
Daniel Faria
terça-feira, 28 de julho de 2015
OFÍCIO DE VÉSPERAS
"Devo ser o último tempo
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha dcide o círculo.
Devo ser o último degrau na escada de Jacob
E o último sonho nele
Devo ser-lhe a última dor no quadril.
Devo ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
E, silêncio e devagar no escuro
Devo ser a véspera, Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir."
Daniel Faria. Explicação das Árvores e de Outros Animais.
Etiquetas:
autores portugueses,
daniel faria,
poesia
Subscrever:
Comentários (Atom)

