quarta-feira, 15 de julho de 2026
POÉTICA DA TRANSCRIAÇÃO
Transcriar: decalcar até ao osso
o corpo do poema bem-amado,
até ao mais profundo do seu espírito
oculto em cada eco que soletro
Transportar o poema com seu pêso,
suas plumas de jaspe bem esculpido,
dormir com ele ao lado em qualquer sítio
até tornar o sono em som desperto
Reescrever mil vezes o mesmo verso
De rima pobre, rico d’universo
em nobre melopeia ritual
Recuperar mil vezes o espontâneo
verso, dado por Deus e rasurado
até fazer buracos no papel
António Barahona
(Lisboa, n. 1939)
in “Pássaro-Lyra”, Editora Averno, Lisboa, 2015
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