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quarta-feira, 15 de julho de 2026

“O poeta não ama propriamente a Poesia, mas sim o que a Poesia lhe proporciona: a vitória sobre o mêdo do silêncio de Deus”.



“O som saiu / do tempo e penetrou, sucinto, na eternidade”

 ''Depois de morto para o mundo, já se vive / livre, e em lugar nenhum: / apenas se reside só no som do Livro”



“o Arcanjo da Linguagem”

“O homem antes de falar cantou / sílabas reveladas sem semântica / e só depois falou”

“Multiplicam-se as línguas a partir / do mesmo som central: o som do sôpro / primordial: a voz da água, donde / o fogo escorre pura essência dentro / de tudo a que se dá, por fora, num nome”



  “Quanto às ministras: vão todas lavar escadas! / E as deputadas podem reciclar-se em putas!”

POÉTICA DA TRANSCRIAÇÃO



Transcriar: decalcar até ao osso
o corpo do poema bem-amado,
até ao mais profundo do seu espírito
oculto em cada eco que soletro

Transportar o poema com seu pêso,
suas plumas de jaspe bem esculpido,
dormir com ele ao lado em qualquer sítio
até tornar o sono em som desperto

Reescrever mil vezes o mesmo verso
De rima pobre, rico d’universo
em nobre melopeia ritual

Recuperar mil vezes o espontâneo
verso, dado por Deus e rasurado
até fazer buracos no papel

António Barahona

(Lisboa, n. 1939)
in “Pássaro-Lyra”, Editora Averno, Lisboa, 2015
Não me reconheço entre os homens
porque são eles os demolidores do meu pensamento

Não participo desta razão comum de existir
porque luto dia a dia com sons e signos ocultos
para a invenção doutra linguagem
que não descobrirei
— sei-o perfeitamente —
mas a necessidade de estar só
dentro de um universo opiado e infinito
obriga-me a estender os cabelos no exílio

António Barahona in “Pássaro-Lyra”, Averno, Lisboa, 2015

Na pastelaria do costume


Agora já não eram marido e mulher.
Encontravam-se, às vezes, na pastelaria
até que não houvesse nada para dizer. 
do costume, e falavam só de poesia

Depois, ficavam em silêncio alguns minutos,
a contemplar o movimento e o som da rua,
ele também a contemplava, toda nua,
por dentro dos seus olhos castos muito abertos.

Mas, ela já se ergue alta da cadeira,
na elegância do seu corpo, musa magra,
cuja beleza, encanto e alma são de cabra
de montanha, com maquilhagem muito sábia.

Ele também se ergue e oferece o seu braço
e sente um peso que é leveza e lhe dá asas,
e, enquanto caminha, plana sobre as casas,
com a alegria da morte ao rubro, passo a passo.

ORIENTAÇÃO


Escrevi milhares de versos
para esquecer. Amei algumas mulheres
para lembrar. Agora já posso dizer
o som em carne viva.

A cidade assemelha-se a um acampamento
abandonado no deserto. Os nómadas
partiram nos seus camelos, com provisão
de tâmaras e água.
Há restos de detritos, sinais de trânsito,
folhas arrancadas a revistas pornográficas,
ao sabor do vento, por entre pétalas sêcas.

Há resíduos de sítios onde estive contigo,
fragmentos de versos de vidro, tudo
muito nítido, anotado, vincado a oiro.

António Barahona, 'O Som do Sôpro', Lisboa, Poesia Incompleta, 2011.
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