sábado, 18 de julho de 2026
Tenho braços tenho remos
tenho navios no mar
tenho um amor tão bonito
não me deixam namorar
Não me deixam namorar
não mo deixam sequer ver.
Vai-me a lembrança tão alto
qu’ inda me deita a perder
Inda me deita a perder
na cama grande do mar
Tenho um amor tão bonito
não mo deixaram ficar
Não mo deixaram ficar
por mor da satisfação
de quem nega moradio
à casa do coração
À casa do coração
aos seus quartinhos de altar
Tenho um amor tão bonito
não me deixam namorar
— Não chores filha não chores
que o teu pranto leva o mar
Água que sai dos teus olhos
ninguém na pode sarar
Prisão fosse a sua casa
o seu quarto, calabouço.
E cadeias os meus braços
à roda do seu pescoço
À roda do seu pescoço
como prenda tão subida
que não se me dava a mim
de prendá-la toda a vida
De prendá-la toda a vida
como a vela prenda a vante
Ela, de branco vestida,
eu, vestido de almirante
Eu vestido de almirante
sobre esta roupa que tenho
tão farta do meu tamanho
de escuna sem mar diante
— Não chores homem não chores
que te vão envergonhar
Água que sai dos teus olhos
ninguém na pode apagar
Mário Cesariny, in Poesia, ed. Assírio & Alvim
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