sexta-feira, 17 de julho de 2026



'' Ontem fiquei a saber que uma professora de geografia fez sucesso ao dizer que adora classificar intens, resolvi ir ver o exame de geografia. Não ouvi a professora, confesso, estava a caminho de Ponte Sor, numa automotora que acompanha o Tejo, atravessa montados, e onde toda a gente se trata por tu, do maquinista à senhora que trabalha numa fábrica no Carregado, do revisor, que com ternura dá águas quando o ar condicionado pifa, ao agrónomo que ia me falando dos cavalos, dos javalis e , claro, dos jovens maquinistas em formação, em visita de estudo, que me dedicaram o seu sorrido, conversa e um deles até me mostrou a foto das bochechas de porco preto que comeu com a avó. Devolvi contando das grandes greves dos heróis ferroviários no século XIX. Não há calor que me tire de um comboio, o transporte mais belo do mundo. Se é uma automotora a 100 à hora, o dia foi perfeito. Walter Benjamin, filósofo, disse um dia que a revolução não é o comboio da história, é o travão de emergência. Eu, ali, na automotora a caminho de uma formação de professores, levava no colo Vigotsky, o mais importante psicólogo que explica no fundo como aprendemos e desenvolvemos o cérebro.
 
Através de um processo lento, muito lento, de passagem dos conceitos espontâneos aos científicos científico-teóricos, o que só pode ser feito na escola com professores que dominam o currículo e com leitura e escrita dos alunos (e claro muita didáctica). Não é possível dar um resultado, fazer um kahoot ou quiz, ou pedir uma escolha múltipla, e pensar que o aluno aprendeu e o seu cérebro de desenvolveu, tal coisa não existe. Felizmente.
 
Hoje acordei e lá procurei o exame de geografia. Preciso de vos fazer outro intróito. O meu pai conta aos netos todos os natais, mais de 20, que ganhou o prémio nacional de geografia na escola. Cá em casa a geografia é um mundo, sem sair do lugar o meu pai sabe todas as cidades, montanhas, agricultura, desenho de aldeias, rios do mundo; e sua relação com o Homem, que tipo de trabalho surge numa encosta, que arquitectura surge num vale virado a sul, porque as chaminés do Algarve são assim e de onde vêm, sei porque a lã que adoro é uma guerra, de caxemira, porque nas montanhas dos Pirenéus a resistência se escondia no Vale de Aran - gelado e isolado 4 meses por ano - porque a Jugoslávia, das montanhas, derrotou Hitler sem ajuda de tropas aliadas -; porque as camadas das terras negras da Ucrânia são desejadas; porque o latifúndio do Alentejo criou um tipo de sociologia, impossível no Gerês; porque os ventos do Mistral e do Tranmontana no Sul de França, onde vou em breve andar de bicicleta, podem originar fogos e em que direcção.
Quando os meus filhos entraram para a escola, há muito, fiquei estupefacta com o que era de facto fim do currículo de geografia. Tinham de saber índices de desenvolvimento dos países por ordem - IDH, uma classificação neo colonial dos anos 1990 do liberalismo social que desvia o tema da colonização económica dos países atrasados para o assistencialismo, da luta pelo fim da pobreza para o empreendedorismo assistencial -; eram os maiores especialistas em aquecimento global e reciclagem, sabiam onde colocar cada garrafa e não faziam ideia porque as cidades nasciam à beira de um rio, e como a nossa relação com a natureza é humana, uma construção de interdependência; não sabiam ler uma isóbara mas tinham muito "amor às árvores que gastam muito papel".
 
No exame actual, todo de escolha múltipla, devem opinar sobre a instalação de painéis solares; rede de transporte da União Europeia, enfim, por momentos parecia que a escola era um lugar não de conhecimento clássico mas de aptidão para aplicar o PRR. O que acompanha quase todos os currículos - de ciência e conhecimento da geografia humana para métricas, índices de economia matematizada (já não é economia social) e enfim, uma religião e moral de "cuidem muito da natureza". No caso da história o currículo vai sendo substituído pela moral da cidadania, em vez de se ensinar a colonização e lutas anti coloniais, ensinar a pensar historicamente, ensina-se a "tolerância".

A professora tem razão, carregar em botões rapidamente é muito mais fácil do que ler o desenvolvimento e demonstração de um argumento. Para aquele nível de "perguntas", a professora não será para o ano necessária, se as Deloittes e Microsofts da vida, estas ou outras, bem pagas pelos nossos impostos, fizerem bem o seu trabalho. A IA - depois dos dados que foram digitalizados neste julho e classificados, dando milhões de instruções gratuitas à IA - vai classificar muito melhor. E os professores podem em julho ir fazer seleção de recursos humanos, que é o que as escolas estão a fazer para o Ministro dizer que despachou 50% do Ministério.
 
É mais ou menos o que mesmo que se passou com o jornalismo, que só um ano depois do fim do Ministério (tirando o nosso querido Maio), descobriu que não havia Ministério. Se uma peça de informação é uma investigação de fundo crítica não pode ser feita com IA, se é um resumo de agência de comunicação, a IA faz melhor.
A professora que "adora classificar itens" não se preocupe, depois dos dados que os professores entregaram na "inovação" da digitalização, estas questões que não exigem conhecimento abstracto e crítico, vão ser classificadas pela IA. A professora defender um comboio de inovação a 400km hora a espetar-se numa bolha financeira, guerra e retrocesso cerebral, porque isto mexe nos circuitos neurais dos alunos. Eu como Benjamin, e alguns países, digo que numa sala de aula o aparelho tecnológico mais desenvolvido é a linguagem, a voz, a escrita e a leitura. Somos o travão do comboio desgovernado, como uma automotora (vá lá, com ar condicionado).

Salvam-nos os professores, tantos, que resistiram, os que o PM despreza, porque se recusaram a receber trabalho ao fim de semana e noite que não visava salvar a educação dos alunos mas o enterro da própria ideia de educação; os que meteram baixa, preferiram ficar sem salário uns dias do que embarcar nisto, numa insanidade digital que destrói o cérebro dos alunos; os que disseram em público sem medo que um exame não se classifica, muito menos por itens; que avaliar conhecimentos não é dar escolha múltipla. Que bolinhas e cruzinhas é abandonar os jovens das classes médias e trabalhadoras à ignorância que permite a manipulação de políticos que fazem e dizem sem vergonha as maiores ignomínias. Salvam-nos os professores que quando o PM pediu resiliência responderam com resistência.
 
Hoje encontramo-nos professores, pais, alunos, nas vigílias, há em Lisboa, Porto, Coimbra, Covilhã, não deixaremos que façam da escola uma aplicação da uber eats. Quem quiser vir na automotora connosco e apoiar a luta contra a digitalização da educação pode escrever para este email
manifestoeducacao@proton.me

Vigilias Hoje "Educar não é Digitalizar", 20 horas
Lisboa- Assembleia da República
Porto - Câmara Municipal
Coimbra- Praça 8 de maio
Covilhã - Praça do Município
Leiria - Fonte Luminosa''

Raquel Varela

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