''Cada obra, através do seu movimento, da sua proximidade e distância, convida-nos a redescobrir línguas que permanecem vivas num continuum partilhado e elusivo, sejam elas línguas vivas ou mortas. Nas telas de Vieira, o espaço entra no pensamento. Invade-o e envolve-o. Trata-se de uma tentativa de dar forma ao espaço da matéria e, através dele, ao próprio movimento do pensamento.
As suas obras são moldadas pelo seu envolvimento de longa data com a tradição da banda desenhada e da sátira gráfica. A este respeito, o trabalho de Vieira opera simultaneamente em três níveis interligados: o instintivo, o social e o mitológico.
A nível instintivo, a obra de Vieira preserva o impulso poético, mesmo numa época cada vez mais moldada pela técnica. A nível social, devolve a exuberância e o excesso à experiência humana, lembrando-nos que a felicidade não é um privilégio, mas sim uma condição legítima da vida. Uma linguagem humana comum emerge através de uma rede infinita de referências entrelaçadas.
A nível mitológico, as obras sugerem que o nosso mundo contemporâneo de relações humanas é, em si mesmo, uma grande tragédia, um caos prometeico em que a destruição e a criação permanecem inseparáveis. Manter-se à margem desse drama, retirando-se para um recanto distante do mundo sem protesto nem resistência, é, em última análise, definhar.
Isso faz-me lembrar uma anedota sobre o pintor ateniense Parrásio. Enquanto um homem idoso posava para Parrásio, gritou:
“Parrasio, morior!” (“Parrásio, estou a morrer!”).Parrásio respondeu: “Sic tene!” (“Fica exatamente como estás!”).
A pintura pertence inteiramente a esse instante. É esse instante.
A exposição A Ilha Púrpura: Notas e Paisagens, de Manuel João Vieira, permanece patente no MAAT Gallery até 7 de setembro.''

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