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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e com elas
quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor
na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde, não sei
onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, à beira-mar
dizem, que ao possuir tudo isto
poderia ter sido um homem feliz, que tem por defeito in-
terrogar-se acerca da melancolia das mãos
esta memória-lâmina incansável
um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
que sei eu sobre tempestades do sangue? e da água?
no fundo, só amo o lado escondido das ilhas
amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão
Al Berto, Degredo no Sul, Assírio & Alvim
''às vezes... quando acordava / era porque tínhamos chegado // ficava a bordo encostado às amuradas / horas a fio / espiava a cidade as colinas inclinando-se / para a noite lodosa do rio / e o balouçar do barco enchia-me de melancolia // a noite trazia-me aragens com cheiro a corpos suados / cantares e danças em redor de fogos que eu não sabia / o ruído dos becos a luz fosca dum bar / se descesse a terra encontrar-te-ia... tinha a certeza / para o voo frenético do sexo / e num suspiro talvez alagássemos os umbrais da noite / mas ficava preso ao navio... hipnotizado / com o coração em desordem / os dedos explorando nervosos as ranhuras da madeira / os pregos ferrugentos as cordas // as luzes do cais revelavam-me corpos fugidios / penumbras donde se escapavam ditos obscenos / gemidos agudos sibilantes risos que despertavam em mim / a vontade sempre urgente de partir''
Al Berto
“(…)
são-me necessárias imagens radiografias de ossos/
rostos desfocados/
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos/
repara/
nada mais possuo/
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã/
repara/
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar”
Al Berto, “Escrevo-te a sentir tudo isto” in Vigílias. Assírio & Alvim, 2004
quinta-feira, 11 de setembro de 2025
Pernoitas em Mim
pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer
pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas
é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves
já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes
( in 'Rumor dos Fogos' )
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer
pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas
é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves
já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes
( in 'Rumor dos Fogos' )
11580
domingo, 24 de agosto de 2025
quinta-feira, 8 de dezembro de 2022
e se por acaso te toco a memória… amas
ou finges morrer
pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas
é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves
já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes
**********
escrevo-te
pelo corpo sinto um arrepio uma vertigem
que me enche o coração de ausência pavor e saudade
teu rosto é semelhante à noite
a espantosa noite do teu rosto!
corri para o telefone mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer-te por que parto
por que amo
ouvir-te perguntar quem fala?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr para a rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra
só para te dizer boa noite ou talvez tocar-te
e morrer
como quando me tocaste na testa e eu não pude reconhecer-te
apesar de tudo senti a mão sábia que era a tua mão
mas não podia reconhecer-te
sim
correr a cidade procurar-te mesmo que me afastasses
mesmo que nem me olhasses
mesmo que dissesses coisas que me
mesmo que
e ter a certeza de que serias tu depois a procurar-me.
**********
A escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada
esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos
espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar
outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo A escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada
esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos
espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar
outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo
quinta-feira, 1 de dezembro de 2022
Visita-me Enquanto não Envelheço
visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado
tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te
tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te
segunda-feira, 3 de maio de 2021
Este Não-Futuro que a Gente Vive
Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros.
Al Berto, in "Entrevista à revista Ler (1989)"
domingo, 26 de agosto de 2018
TRUQUE DO MEU AMIGO DA RUA
ao acaso encontrei-me encostado a uma esquina
olhar vazio varrendo a multidão, parei
sorri e tu vieste, fomos andando
os ombros tocavam-se, em direcção a casa
pediste-me para tomar um duche, eu deitei-me
ouvi o barulho da água resvalando pelo teu corpo sujo de
cidade e de engates
sujo pelos dias e noites e mais dias que não te tive
esperei-te deitado, outro cigarro
e ainda espero...
...gosto dos corpos que riem, frescos
rasgam-se à ternura nocturna dos dedos, e ao desejo
húmido da boca, que sempre percorre e descobre...
tacteio-te de alto a baixo
reconhecendo-te num gemido que também me pertence, no
escuro
contaste-me uma improvável aventura de tarzan, ouvia-te
e no silêncio do quarto fulguravam aves que só eu via...
...sorri ao enumerar os restos que a manhã encontraria
pelo chão
manchas de esperma, ténis esburacados, calças sujíssimas,
blusão cheio de auto-colantes, peúgas encortiçadas pelo suor
as cuecas rotas, sujas de merda...
e tuas mãos, recordo-me
sobretudo de tuas mãos imensas sobre as coxas
teu corpo nu, à beira da cama, em sossegado sono...
Al Berto. Trabalhos do Olhar. Contexto Editora, p. 32
olhar vazio varrendo a multidão, parei
sorri e tu vieste, fomos andando
os ombros tocavam-se, em direcção a casa
pediste-me para tomar um duche, eu deitei-me
ouvi o barulho da água resvalando pelo teu corpo sujo de
cidade e de engates
sujo pelos dias e noites e mais dias que não te tive
esperei-te deitado, outro cigarro
e ainda espero...
...gosto dos corpos que riem, frescos
rasgam-se à ternura nocturna dos dedos, e ao desejo
húmido da boca, que sempre percorre e descobre...
tacteio-te de alto a baixo
reconhecendo-te num gemido que também me pertence, no
escuro
contaste-me uma improvável aventura de tarzan, ouvia-te
e no silêncio do quarto fulguravam aves que só eu via...
...sorri ao enumerar os restos que a manhã encontraria
pelo chão
manchas de esperma, ténis esburacados, calças sujíssimas,
blusão cheio de auto-colantes, peúgas encortiçadas pelo suor
as cuecas rotas, sujas de merda...
e tuas mãos, recordo-me
sobretudo de tuas mãos imensas sobre as coxas
teu corpo nu, à beira da cama, em sossegado sono...
Al Berto. Trabalhos do Olhar. Contexto Editora, p. 32
AUTO-RETRATO COM REVÓLVER
as palavras foram alinhavadas pelos preguiçosos dedos
o texto transparece na claridade das manchas de tinta
...teço a ausência dum corpo que me é absolutamente ne-
cessário, doem-me estes gestos
estas coisas cobertas de pó sobre a mesa: papéis amar-
rotados, fotografias, cartas interrompidas, objectos quebrados,
sinais ténues de gordura e de fundos de chávena
lápis, cigarros esboroados, o revólver
num dos cantos inacessíveis da casa, as aranhas vão cons-
truindo ninhos diáfanos
segregam sábios labirintos em perigosa baba...
...sinto-me vazio, hoje
a compreensão do mundo escapa-me, pouco me importo
com isso
está tudo mais calmo, em redor da casa, o jardim quieto
poderia passar o dia a ler, por desfastio, à maneira dos
príncipes persas
a tarde torna as madeiras rubras, aquece
os livros parecem de pedra em seu arrumo cauteloso
...ao alcance está o revólver
perto da mão que nunca aprendeu a escrever, aquece ao
simples contacto dos dedos
a outra mão, a direita, definhou um pouco quando aprendeu
o silencioso ofício...
eu explico: hoje deve ser domingo
e a mão esquerda masturba enquanto a direita escreve com
destreza, sem cessar
...mais tarde, escrevia eu
poderiam as mãos trocar de ofício
o revólver tingir-se-ia de tinta permanente, o papel apresen-
taria o terrível sulco de uma bala...
Al Berto. Trabalhos do Olhar. Contexto Editora, p. 25
o texto transparece na claridade das manchas de tinta
...teço a ausência dum corpo que me é absolutamente ne-
cessário, doem-me estes gestos
estas coisas cobertas de pó sobre a mesa: papéis amar-
rotados, fotografias, cartas interrompidas, objectos quebrados,
sinais ténues de gordura e de fundos de chávena
lápis, cigarros esboroados, o revólver
num dos cantos inacessíveis da casa, as aranhas vão cons-
truindo ninhos diáfanos
segregam sábios labirintos em perigosa baba...
...sinto-me vazio, hoje
a compreensão do mundo escapa-me, pouco me importo
com isso
está tudo mais calmo, em redor da casa, o jardim quieto
poderia passar o dia a ler, por desfastio, à maneira dos
príncipes persas
a tarde torna as madeiras rubras, aquece
os livros parecem de pedra em seu arrumo cauteloso
...ao alcance está o revólver
perto da mão que nunca aprendeu a escrever, aquece ao
simples contacto dos dedos
a outra mão, a direita, definhou um pouco quando aprendeu
o silencioso ofício...
eu explico: hoje deve ser domingo
e a mão esquerda masturba enquanto a direita escreve com
destreza, sem cessar
...mais tarde, escrevia eu
poderiam as mãos trocar de ofício
o revólver tingir-se-ia de tinta permanente, o papel apresen-
taria o terrível sulco de uma bala...
Al Berto. Trabalhos do Olhar. Contexto Editora, p. 25
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sábado, 25 de agosto de 2018
quinta-feira, 15 de junho de 2017
quinta-feira, 24 de dezembro de 2015
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