segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

''às vezes... quando acordava / era porque tínhamos chegado // ficava a bordo encostado às amuradas / horas a fio / espiava a cidade as colinas inclinando-se / para a noite lodosa do rio / e o balouçar do barco enchia-me de melancolia // a noite trazia-me aragens com cheiro a corpos suados / cantares e danças em redor de fogos que eu não sabia / o ruído dos becos a luz fosca dum bar / se descesse a terra encontrar-te-ia... tinha a certeza / para o voo frenético do sexo / e num suspiro talvez alagássemos os umbrais da noite / mas ficava preso ao navio... hipnotizado / com o coração em desordem / os dedos explorando nervosos as ranhuras da madeira / os pregos ferrugentos as cordas // as luzes do cais revelavam-me corpos fugidios / penumbras donde se escapavam ditos obscenos / gemidos agudos sibilantes risos que despertavam em mim / a vontade sempre urgente de partir''

Al Berto

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