quinta-feira, 17 de julho de 2025

Marcel Mariën. Le fil de la vierge, 1985


 



Não, não é cansaço…


Não, não é cansaço…
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo…

Não, cansaço não é…
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta –
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como…
Sim, ou por sofrer como…
Isso mesmo, como…

Como quê?…
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!…
Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto-
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo…
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente: eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Álvaro de Campos


CANTAR DE EMIGRAÇÃO
Este parte, aquele parte
e todos, todos se vão
Galiza ficas sem homens
que possam cortar teu pão
Tens em troca órfãos e órfãs
tens campos de solidão
tens mães que não têm filhos
filhos que não têm pai
Coração que tens e sofre
longas ausências mortais
viúvas de vivos mortos
que ninguém consolará

excerto do poema 𝘗𝘳𝘢 𝘢 𝘏𝘢𝘣𝘢𝘯𝘢 de Rosalía de Castro. Tradução de José Niza

Let It Bleed



Well, we all need someone we can lean onAnd if you want it, you can lean on meYeah, we all need someone we can lean onAnd if you want it, you can lean on me
She said, my breasts, they will always be openBaby, you can rest your weary head right on meAnd there will always be a space in my parking lotWhen you need a little coke and sympathy
Yeah we all need someone we can dream onAnd if you want it baby, you can dream on meYeah, we all need someone we can cream onYeah and if you want to, you can cream on me
I was dreaming of a steel guitar engagementWhen you drunk my health in scented jasmine teaBut you knifed me in my dirty filthy basementWith that jaded, faded, junky nurse oh what pleasant company, ha
Though, we all need someone we can feel onYeah and if you want it, you can feel on me, heyTake my arm, take my legOh baby don't you take my headHoo
Yeah, we all need someone we can bleed onYeah but if you want it, well you can bleed on meYeah, we all need someone we can bleed onYeah yeah and if you want it baby why don't yaYou can bleed on meAll over, hoo
Ah, get it on rider, hooGet it on riderGet it on riderYou can bleed all over me, yeahGet it on rider, hooGet it on rider, yeahYou can cream all over, you can come all over me, ahGet it on rider eyLet it out riderLet it out riderYou can come all over me
Get it on riderYou can come all over me, yeah
Get it on rider


 

Podemos morrer se apenas amámos.

 Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego, ed. Assírio&Alvim

''La poesía es mi soledad''

terça-feira, 15 de julho de 2025

“Descobri que Deus está em todas as coisas, até no nosso desespero”

Nick Cave

domingo, 13 de julho de 2025

Willy Otto Zielke. Reclining nude,1933


 

Elis Regina - Sinal Fechado e Transversal do Tempo - 1978

 « (...); se nada soubermos aprender, as nossas mentes permanecerão em nós como peixes nas águas de alguém que não sabe pescar.»

Ted Hughes. O Fazer da Poesia. Tradução Helder Moura Pereira. Assírio&Alvim, 2002., p. 77

O Marido

 Chega carrancudo a casa cheio de pó de carvão e deixa
de propósito a bacia suja e as toalhas para que ela
aprenda à custa de escova e tábua
o carácter difícil do dinheiro.

Que aprenda como foi esse o pó
que lhe fez desejar a sede e o direito a saciá-la
e como é o suor que trocou por dinheiro
e o sangue que fica em cada moeda. Humilha-a

com mais considerações sobre as suas obrigações.
As batatas fritas, ao fim de duas horas já rijas do calor do forno,
são apenas uma pequena parte da resposta.
Quando ouve o resto, atira-as bruscamente para dentro do lume

e vai de um lado ao outro da casa a cantar
«Voltem sempre a Sorrento» com uma voz
estrondosa que parece troar em chapa ondulada.
Perante o insulto, o corpo dela fica corcunda...

Porque elas hão-de vir a ter os seus direitos.
Os seus representantes sairão
de entre os bocados de fuligem. As suas reivindicações
irão direito ao céu e nunca mais se ouvirá falar disso.

Ted Hughes

O Comportamento dos Peixes num Jardim de Chá Egípcio

 Tal como a rocha branca atrai os peixes
também ela no mar chão da tarde
atrai o olhar dos homens e o seu cruel desejo
de amor. Os lábios vermelhos sorvem
da colher um bocado de gelado. As mãos,
brancas como uma concha, são ramos de folhas
aquáticas mergulhando com os dedos abertos, espraiam-se
com as suas pontas de carmim ao longo da mesa.

Um magnate do algodão, peixe importante
com papos enormes nos olhos e boca cheia de ouro
emerge através dos frágeis rochedos da mobília
e quase parado, suspenso, fica ali a olhar.

Um velho homem-crustáceo, preso por um gancho a uma cadeira,
vai sentar-se ao lado dela e observa friamente
os seus atractivos através de fissuras que já foram olhos;
ou fica de boca aberta, embasbacado.

Um comandante em gozo de licença, carapau escuro e delgado
do mar alto, olha para trás a perscrutar
por entre correntes de som. O pregado de olho chato
sorve por uma palha e olha vagamente lá do seu descanso.

Alguns galanteadores ausentam-se do cardume e sobem à tona,
ficam por ali em círculos pairando sobre o branco atractivo;
há por vezes uma pausa, depois nova correria:
os peixes precisam de pausas para mordiscar comida ou dar um sacão.

Mas agora o gelado acabou, este já está
pago. Os peixes afastam-se a nadar para os seus negócios
e ela fica sentada à mesa, rocha branca
só útil para coleccionadores e homens ricos.

Keith Douglas


sábado, 12 de julho de 2025

Opal (with Hope Sandoval) - Indian Summer - Munich 1988

Anna Karina & Jean-Luc Godard on the set of Alphaville, 1965


 

Esta mão que escreve a ardente melancolia da idade
Herberto Helder
*
(A carta da paixão)
Esta mão que escreve a ardente melancolia da
idade
é a mesma que se move entre as nascentes da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra a
sua queimadura desde os recessos negros
onde
se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se. O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, a lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça : essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponta a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços, a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tão feroz agarrando toda a carne. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce : eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro

Nas trevas - Herberto Hélder, in 'Le poème continu somme anthologique' - Institut Camões / Chandeigne
Paris, 2002

quinta-feira, 10 de julho de 2025

 Madrid, 16.9.64
Querida.
Quatro horas da tarde numa esplanada da capital de 
Espanha. Calor e muita gente. Apesar disso, penso em ti
- obscenamente.
Beijos
António José

António José Forte, SÓ ME CALAREI PARA TE AMAR MAIS ( Cartas a Amélia Bento), edição Antígona - Editores Refractários

''Torre de névoa''



 July 1st, 1956, Marilyn Monroe and Arthur Miller weds.


"I am so concerned about protecting Arthur. I love him – and he is the only person – human being I have ever known that I could love not only as a man to which I am attracted to practically out of my senses – but he is the only person – as another human being that I trust as much as myself," the star wrote in a letter that was published in her own book,

Fragments: Poems, Intimate Notes, Letters.

 XVIII

a noite como um prego a noite louca
a noite com árvores na boca


Mário Cesariny, Poesia, edição Assírio&Alvim
 « E, no meio de um inverno, finalmente aprendi
que havia dentro de mim um invencível verão.»

Albert Camus
 « Às vezes a gente quer se magoar
porque a tristeza virou um vício.»

Brunno Aedo, in Apoético, ed. Offset, 2022

terça-feira, 8 de julho de 2025

Oracle Sisters - High Moon

 


Self portrait with wife, Andrzej Wróblewski 1945

 « de marinheiros que apodrecem como fantasmas
comidos pelas marés mais vorazes
podiam lembrar-se de muitas. Que eles sejam vossos hóspedes

e vos levem até onde jazem os barcos esquecidos
com os peixes nadando entre os altos mastros -
tudo isto se vê dentro de um olho agredido pelo sol.»


Keith Douglas
 « reflectindo o calor inabitual do sol.
Com ele o pescador escreve na madeira quente
o nome da prostituta do último porto.»

Keith Douglas
 « e deixa-me como herança
a milagrosa toalha de prata»

Vasco Popa

 «Portanto, como vêem, em certo sentido a minha raposa é muito melhor do que qualquer vulgar raposa. Há-de viver eternamente, nunca terá fome nem será perseguida pelos cães. E posso levá-la comigo para onde quer que vá. Além disso, fui eu que a fiz. Tudo a partir do gesto de a imaginar com grande nitidez e de encontrar as palavras que lhe dessem vida.»

Ted Hughes. O Fazer da Poesia. Tradução Helder Moura Pereira. Assírio&Alvim, 2002., p. 22

 «Na má poesia, é precisamente isto o que acontece, as palavras matam-se umas às outras. Mas não precisam, felizmente, de se preocupar com isso, se fizerem uma coisa muito simples.»

Ted Hughes. O Fazer da Poesia. Tradução Helder Moura Pereira. Assírio&Alvim, 2002., p. 19

 «Porque é sempre de uma captura que se trata e o poema não é senão um novo ser, um novo espécime de uma vida que acontece fora da nossa própria vida.»

Ted Hughes. O Fazer da Poesia. Tradução Helder Moura Pereira. Assírio&Alvim, 2002., p. 17

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Dia Útil


Você diz que me quer de dia útil,
Inútil me sinto quando estou só.
Perdoa amor meu jeito fútil,
Tristeza é um dom pra quem sabe chorar.
Em seu frenesi, não há espaço pra dúvida,
Meu jeito criança lhe criou rugas.
Quis escrever a letra mais vanguardista,
Pra tentar esconder meu amor ordinário.
Os seus beijos me fazem pensar que você não vai,
Mas seu toque me mostra, que você já foi, até mais.

Alexander Hackenschmied. Maya Deren, 1943


 

 a destempo

fora de horas, despropositadamente

Medo


Quem dorme à noite comigo
É meu segredo,
Mas se insistirem, lhes digo,
O medo mora comigo,
Mas só o medo,
mas só o medo.
E cedo porque me embala
Num vai-vem de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.
Gritar quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim
Gostava até de matar-me,
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.


 Amália Rodrigues (1 julho 1920* - 6 outubro 1999)

*Amália nasceu a 23 de Julho de 1920, mas a fadista celebrava o seu aniversário a 1 de Julho. Foi a própria artista a escolher a data, por não se saber, com precisão, o dia do seu nascimento.

''A guerra não é o espanto.''

4


Boca.
Brûlure, blessure. Onde
desembocam, como se diz em nome, os canais muitos.
Pura consumpção em voz alta, ou num murmúrio,
entre sangue venoso, ou
traça de lume. Gangrena,
música,
uma bolha.
Arte medonha da paixão.
Um poro monstruoso que respira o mundo.
Nele se coroam
o escuro, o fôlego, o ar ardido.
O ouro, o ouro.
Tubo sonoro por onde se coa o corpo.
Se escoa todo.

Em quartos abalados trabalho na massa tremenda
dos poemas.
Que me olham de tão perto que eu ardo.
Um dia hei-de ficar todo límpido,
ou calcinado nervo a nervo. Ou por me ver
Deus
de um canto das palavras, com sistinos
dedos pintados em torno à voragem
diuturna, tocando na matéria.
Ininterrupto, eléctrico.
Alguém poderia dar um grito.
Quase morro de medo ao sentir o meu nome.
Penso que apenas numa hora o sangue encharcaria
a roupa de alto a baixo, enquanto
brilha o rosto.

Às vezes Deus torna-me rápido.
Às vezes há um candelabro.
Às vezes há os mortos de que se extrai o mármore.
Pelo poder do nome, traz-se a casa,
quarto a quarto,
até ao centro. Fazem-se profundas
casas de mármore. Mas nunca
serei branco nestas câmaras com um candelabro no meio.
Separam-nas membranas,
espelhos vivos, teias
de espelho. E de braços abertos, entre as suas imagens,
dormem as pessoas. Cerradas
com um galho de centelhas. E Deus não me perdoa a carnagem
sonora. Há um candelabro, uma cratera na sala,
ou é como se houvesse.

Nunca durmo.

Só tenho as mãos à frente, entre o rosto
e a fogueira.

Máxima visão, no abismo, de um planeta de quartzo.

maçaricos-reais

Errática

Marcel Marien. La Madone de Milo 1983


 

A Instrução da Mulher, de Gabriela Mistral

  "A Instrução da Mulher" foi publicado no jornal La Voz de Elqui em 1906. “Porque a mulher instruída -diz- deixa de ser aquela fanática ridícula que não atrai a ela senão a zombaria; porque deixa de ser aquela esposa monótona que para manter o amor conjugal não conta mais do que com sua beleza física e acaba por encher de aborrecimento essa vida em que a contemplação acaba. Porque a mulher instruída deixa de ser aquele ser desprotegido que, fraca para lutar contra a Miseria, acaba por se vender miseravelmente se suas forças físicas não lhe permitem esse trabalho”.

Para a poetisa, educar a mulher “é fazê-la digna e levantá-la”.

Na coluna, Gabriela Mistral também questiona a religião, o que para seus biógrafos intensificou ainda mais a rejeição do texto por parte da sociedade conservadora.

A poetisa se pergunta por que os pais afastam das mãos de seus filhos obras científicas “com o pretexto” de que sua leitura mudará os “sentimentos religiosos do coração”.

“Que religião mais digna do que a que tem o sábio?”, escreve.

“Eu colocaria ao alcance de toda a juventude toda a leitura desses grandes sóis da ciência, para que se abismasse no estudo dessa Natureza de cujo Criador deve formar uma ideia. Eu lhe mostraria o céu do astrônomo, não do teólogo”, indica.

Gabriela Mistral conclui o artigo solicitando mais futuro e mais ajuda para a mulher.

“Que se faça amar a ciência mais do que as joias e as sedas”, afirma.

“Qualquer liberdade ou autonomia da mulher, tanto em 1906 quanto em 2024, passa pela educação, pela ilustração. Então, muitas das coisas daquela coluna você poderia colocar agora também”, diz à BBC Mundo Claudia Reyes García.

“Porque se você tivesse que explicar a uma mulher hoje como conquistar seus direitos, você teria que dizer: instrua-se, eduque-se, assim como Mistral fez há mais de 100 anos”, acrescenta a biógrafa.


Fonte: https://ichef.bbci.co.uk/news/1024/branded_mundo/d88d/live/7521b910-da2a-11ee-96de-47124aad4d6e.jpg



''Amendoeiras Despidas''

D. H. Lawrence
Escritor inglês

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Dora Maar. Portrait d’Assia sur un tapis de fourrure, 1934


 

Fausto - Atrás dos tempos outros tempos vêm



Eu pego na minha viola
e canto assim esta vida a correr
eu sei que é pouco e não consola
nem cozido à portuguesa há sequer
quem canta sempre se levanta
calados é que podemos cair
com vinho molha-se a garganta
se a lua nova está para subir
que atrás dos tempos vêm tempos
e outros tempos hão-de vir

Eu sei de histórias verdadeiras
umas belas outras tristes de assombrar
do marinheiro morto em terra
em luta por melhor vida no mar
da velha criada despedida
que enlouqueceu e se pôs a cantar
e do trapeiro da avenida
mal dormido se pôs a ouvir

que atrás dos tempos vêm tempos
e outros tempos hão-de vir

Sei vitórias e derrotas
nesta luta que vamos vencer
se quem trabalha não se esgota
tem seu salário sempre a descer
olha o polícia olha o talher
olha o preço da vida a subir
mas quem mal faz por mal espere
o tirano fez janela p´ra fugir

que atrás dos tempos vêm tempos
e outros tempos hão-de vir

Mas esse tempo que há-de vir
não se espera como a noite espera o dia
nasce da força de braços e pernas em harmonia
já basta tanta desgraça
que a gente tem no peito a cair
não é do povo nem da raça
mas do modo como vês o porvir
''O inverno chegou. A bruma desfaz a luz oblíqua que a paleta do pintor capturava em suas telas. A alma está agora mais contrita. Densa? Talvez. Não sobra muita luz quando os dias escurecem mais cedo. Agora precisa vir a luz do interior. É preciso buscá-la com uma certa determinação. Mas é frágil a chuva que adorna os dias. A alma também possui suas instabilidades, bem sei. Contudo, é nos desvãos da terra que nos cerca e nos deslizamentos do pensamento é que sou o que sou. A palavra ganha força quando a água entorna sobre a minha pele me coisificando de nomes que ainda nem sei. A cada inverno é assim. Sofro uma espécie de transubstanciação em que primeiro desce a chuva, depois o corpo se desaloja na palavra por vir. Assim, só assim, no carinho da solidão que acompanha cada frase minha, é que vou me recompondo. Não-todo. Não eu. Nem sempre.''

Clarice Lispector
Sonhos de Clarice Lispector
Nem sempre se tem a voltagem das coisas

Rui Dias Monteiro

''A Pedreira no Lavadouro''

sábado, 21 de junho de 2025

isolacionista


 Maya Deren in Meshes of the afternoon directed by Maya Deren and Alexander Hammid in 1943

“Um escritor sem gato é como um cego sem um cão de guarda”



"Quando depois do nascimento me vestiram,
a roupa então em mim resplandeceu.
Mas estava nua, sem cambraia
ou a memória simples dela nos sentidos.
Nua e solene, com a roupa alheia
em torno do meu corpo. E ignorava
valor, matéria e as pompas
que entregam roupas e versos ao comércio.
Acreditava só que o gesto amado
de me cobrirem de panos ao nascer
seria a minha glória"

Fiama Hasse Pais Brandão

quarta-feira, 18 de junho de 2025

segunda-feira, 16 de junho de 2025


                                                    Marcel Mariën.Calligramme autographe sur photographie
 

If I Was Yours

''É-se honrado sendo para os outros o que desejamos que eles sejam para nós.''


''Que a sua casa seja como um santuário impenetrável. Se o apetite invencível o impelir à comunhão de manjares, que a sociedade digere, à custa de um penoso trabalho do coração, vá, mas deixe-a a ela no segredo da sua vida, como anjo depositário do bálsamo das feridas com que vossa excelência se refugiará do tumulto das paixões degeneradas para o abrigo da amizade íntima, sem a qual o amor é impossível.''

Camilo Castelo Branco, Mistérios de Lisboa

 ''A sociedade, cadáver pútrido coberto de sedas e de arminhos, nauzêa o justo quando a não vê debaixo do prestigio maravilhoso que lhe dás. A um aceno do Creador, o mundo saiu do cahos, mas tu a ti própria te creaste, para flagellação permittida, por aquelle que mostra aos afflictos o céo, depois do lenho affrontoso e da montanha íngreme a que tem de subir (p. 78)

Ana Plácido, escritora portuguesa

 E é exatamente sobre esse conhecimento de que vai falar a narradora na quarta das “Meditações”, que vê o acesso ao conhecimento contrário ao padrão da mulher submissa dona de casa, como um caminho honroso para as mulheres que não querem ser subservientes e presas a um casamento malfadado, citando as mulheres portuguesas as quais se esqueceram desse alento que é a informação e o conhecimento: 

''É esta febre que as mulheres de Portugal apagam no regélo do coração, rebatendo assim o estimulo mais attrahente da ambição da gloria, a unica que eu invejo e apprecio. Fecha-se-lhe esse sanctuario explendido, e eil-as ahi sem prestigio, sem outro brilho nos fastos contemporaneos, senão o de boas governantes de casa, e boas mães de familia. A sua missão mais nobre é por certo esta, nem eu posso contestal-a. Folgo até que me extremem no meio d’ellas. Mas essa essencia preciosa absorve todas as faculdades grandiosas da mulher? Não. É preciso que esta inactividade tenha fim, é preciso que nos desliguemos de certas appreehensões, procurando no livro e nos estudos bons mestres um refrigerio para os tristonhos dias da velhice. (p.91) '' Ana Plácido


 

vilanice



Ana Plácido, escritora portuguesa

«Hoje, quando os meus verdugos me supõem dias terríveis de desesperança e amargura, eu digo à alma que suba, à inteligência que se ilumine, e de pronto uma chama misteriosa me aclara esta difícil ascensão.»

''cultura patriarcal''

“Martírios obscuros”

Ana Plácido, escritora portuguesa

''vida aldeã''

sábado, 14 de junho de 2025

Sorrow

Como reconhecer um estúpido (num mundo cheio deles)

 Robert Musil

''falta de coragem moral''

''sangue impuro''

 


                                                                                          Marcel Mariën

 

'' o pretexto para destruir a democracia''

''poço sem fundo de iniquidade''


Clara Ferreira Alves
Jornalista e escritora portuguesa


''Capitalismo de vigilância: o caso de Palantir Technologies''

autocracia

"Women Lost in Thought"



                                                  Harry Callahan, American photographer



Dont Do It

pessoas literais

 ''Eu, que simbolicamente morro várias
vezes só para experimentar a ressureição.''

Clarice Lispector

''exibições de ódio''

 Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra 
De árvores alheias.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 13 de junho de 2025


Augusto Brázio

 

Some Of Us Are Brave

''A fadiga que sentimos não é tanto do trabalho acumulado, mas de um quotidiano feito de rotina e de vazio. O que mais cansa não é trabalhar muito. O que mais cansa é viver pouco. O que realmente cansa é viver sem sonhos."

Mia Couto
, in 𝘖 𝘜𝘯𝘪𝘷𝘦𝘳𝘴𝘰 𝘕𝘶𝘮 𝘎𝘳ã𝘰 𝘥𝘦 𝘈𝘳𝘦𝘪𝘢

"A pintura é uma poesia muda e a poesia é uma pintura cega".

Leonardo da Vinci

''As pessoas podem tornar-se obsoletas.''

 The Feeling That the Time for Doing Something Has Passed
Joanna Arnow, 2023

quinta-feira, 12 de junho de 2025

 ''Gosto que não te importes se tenho prazer, porque é como se eu não existisse.''


The Feeling That the Time for Doing Something Has Passed
Joanna Arnow, 2023

terça-feira, 10 de junho de 2025

Outono para Graça - Vasco Wellenkamp (CPBC | Na Substância do Tempo)

 Não, a pátria está acima de tudo.

José Saramago
“Uma Longa Viagem com José Saramago”, de João Céu e Silva (ed. Porto Editora, 2009)

sábado, 7 de junho de 2025

estranhamento

''medo da obsolescência''


“The law of progress holds that everything now must be better than what was there before. Don’t you see if you want something better, and better, and better, you lose the good. The good is no longer even being measured.”

Hannah Arendt


Augusto Brázio

 

"A cultura assusta muito.
É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos."

António Lobo Antunes

flor-cadáver

flor-da-castidade

irremissibilidade

Rosa Pastel - Billie Eilish

''amarras partidárias''

«quem conserva a qualidade de ver a beleza, não envelhece»

«A vida, para a vida, é sempre longa; mas para a Arte é sempre breve, só quando não se faz nada há sempre tempo.»

Agostinho da Silva, Sete Cartas a Um Jovem Filósofo.
''IN — E qual a importância do invisível nos seus trabalhos?

JM.R — O ato de fotografar é invisível e rápido. O pensamento prolonga-o. É um momento irreversível, completamente parado, interno. Estarei eu a perder-me a mim próprio cada vez que fotografo? Ou encontro-me reconstruindo a nossa existência através de outros momentos invisíveis para nós, com a qual vou mantendo um diálogo contínuo, que conheço?''

Fotógrafo José M. Rodrigues , ver aqui


Harry Callahan
 

incivilidades

''Os meus olhos tornaram-se os meus companheiros de vida. Estiveram sempre comigo.''

Fotógrafo José M. Rodrigues
''A palavra «fotografia» vem do grego [fós] («luz») e [grafis] («estilo», «pincel») e significa «desenhar com luz e contraste»''

Quintalinhos

Um homem sorri à morte - com meia cara

Livro por José Rodrigues Miguéis


''Governo sem cultura''


Marcel Mariën

 

"Apelo" - Mia Tomé (feat. João Pedro Coelho)

''pequenas rosetas de limos''

 Elizabeth Bishop

''mosca-macho de olhos castanhos''

 Miroslav Holub

varapau

''A velha raposa ouve o ruído e deixa cair o ganso.''

John Clare

sexta-feira, 6 de junho de 2025


Marcel Mariën

 

Cobra

E então vinha a baforada do estio como se abrissem uma porta
defronte do ar exaltado. Também se enredava o Outono
nos pulmões das casas. E guardavam-se lentas estrelas
nas arcas, a roupa onde
o brilho se dobra. O inverno fazia
um remoinho nas câmaras, seus buracos expulsavam a espuma
para as ininterruptas paisagens
cinematográficas.
Um dia era redonda a primavera.

E a lua unia a cúspide das artérias
às ventosas mais fundas, às rosas nos tentáculos
desde os abismos da terra. Que acordava, a lua,
as víboras nos alvéolos ou adormecia
os bichos-da-seda nas cápsulas ou punha
os dedos a luzir diante
da boca, abrindo e fechando o poema como um leque
de obsidiana.

Estive agora na memória com seus fulcros de oxigénio
e a energia das patas e as radiações
das flores paradas. Um mês
nodulunar
activo crivando todo o poema ensombrecido pelas veias do mel.

Estive em toda a parte onde pulsa o corpo com as órbitas
de amianto sob a força pensada,
virgem e severa. Desde as águas palpitando entre as bocas
e as guelras, desde o sangue
sorvido através das válvulas. Nas crateras, o fulgor
dos óvulos de faiança.
— E é o tempo, o tempo todo:
o salto dos sóis no corpo arrancado.

— Nesta criança aumenta um arbusto de cálcio.

As sementes graves revolvem-se
como um pranto. E o medo,
este favo cerebral que levo, fermenta debaixo
das radiações como um açúcar vivo
e gelado. A rotação atómica agarra,
entre os frios cabelos e a teia dos ossos e as coxas implacáveis
e o sistema planetário de pés e mãos
delgados, agarra agora
as esponjas rutilando como abelhas nas furnas ou um gás
nas câmaras da morte.

Estou deitado, e os lençóis fluem e refluem nessa ressaca
sob o ar
arqueado. As mãos no poema, o pénis
gravitando
a prumo como um corno de mármore.
A lua mexe nas estações e nas salas.
Passa á mesa sobre um litro de anis, sobre
pequenos jardins de cristal
engarrafados. E o ar gira e explode
no rosto rápido.

Eu iria até ao centro onde flutua a constelação
da dança com as labaredas
a mergulhar
em baixo. Ou á frente, os relâmpagos do corpo culminando.
Toco-lhe as campânulas quando os balcões
se debruçam na atmosfera,
e as colinas irradiam com os astros
cravados e desorientam
os olhos. A minha idade escapa-se de um lado
para o outro, sob os dedos, como um nervo
fulgurante.
Vou morrer.
O ouro está perto.

A força do medo verga a constelação do sexo.
Pelos canais nocturnos entra o mel, sai
o veneno branco.
O sono estrangula as chamas da cabeça nos veios atados.
As costas crepitam numa linha lunar
de clarabóias. Rutila
a flor do alimento, talhada: o ânus.
E brilha rebrilha, uma luva puxada pelo avesso,
o corpo
puxado pelo avesso
com as estrelas desfechadas.
As casas ateiam-se.

Com linha negra a tecedeira lavra a sua flor,
com os martelos
os canteiros trazem do fundo do granito
um meteoro de púrpura afogado.
— A paixão é pura maneira de inteligência.
Deus recompensa o crime com a voracidade e a energia, a cegueira
inspira o cérebro
violento — no plexo solar do espelho.

Uma criança abisma-se no génio analfabeto: o pavor
que a arranca de tudo. Qualquer doçura lhe alimenta os esplendores
da alucinação:
pelas altas águas descontínuas, as vozes,
as frutas tecidas, movimentos, labaredas
parietais, a profundidade dos quartos como pomares
atmosféricos.
- Oh crianças de negros rostos ressurrectos.
Elas adivinham. E tombadas as luas,
No cúmulo dos dias, nuvens de mármore sobem
dos vulcões dos parques. Há crianças paradas nas cavidades
como os olhos das casas.

Os lençóis brilham como se eu tivesse tomado veneno.
Passo por jardins zodiacais, entre
flores cerâmicas e rostos zoológicos
que fosforescem. Lavra-me uma doença fixa.
Ilumina polarmente os quartos.
Todos os dias faço uma idade
bubónica. Quem vem por fora vê
camisas apoiadas à luz, a doçura, partes
vidradas do corpo. Perto, deslumbra-se com o pénis como um chifre
de coral intacto. Às vezes não sei gritar com a boca
toda luzindo.
E queima-se em mim nervo a nervo
a flor do diamante.

Fulgura o oxigénio na sua caixa de vidro e a cerveja gelada
como uma estrela num copo. Não
falo com ninguém quando o sangue
é arrancado pelas
luas, à porta, o ar sibilante cheio de paisagens.
As víboras sonham no ninho,
turquesas, pedras, mas eu estou
com um braço de ouro sobre a cama.

E vou deixar a terra eléctrica na sua renda concavamente
leve. O mundo — este arrepio concêntrico:
olho fixo por onde toda a matéria contempla o espaço
descentrado. E um jorro desencadeia-se pela coluna
com uma rosa mental arrastada
para o alto. Nenhum lugar
é ouvido nos silêncios que tem
de dentro para fora. Posso
atar um laço em volta de cada coisa, com um sussurro
estreito. Os meus pés resplandecem sepultados nos sapatos.

— Fala-se de um tigre, talvez, um tigre profundo,
sem sonhos,
movendo-se nos aros do seu próprio corpo, um feixe
de chamas de cada lado.
Mudo a floresta, vejo os planetas passar, os cavalos.
E vou deixar o mundo, eu, cometa expulso
dos buracos da pedra. De dedo
para dedo
os anéis luzem, terríveis, de ouro forte, fechados como serpentes
fio a fio.

Pela força dessa ressaca, a limalha salta
entre a boca e o sexo. Abisma-se o mistério
animal até ao centro da caça. Atraio Deus.
Leão vermelho
a brilhar nas clareiras à frente das incessantes
mãos do caçador. Porque eu nunca falo,
de noite,
com ninguém. A minha arte de ser é venenosa, quieta
e aterrada. Mexem no leite, as salas
recuam pela casa, nos alvéolos do corpo desatam-se
os pequenos astros. E o silêncio torrencial da atmosfera
televisionada
irrompe pelos quartos amontoados.

A parede contempla a minha brancura no fundo:
paisagem
resvalada. E com o olhar redondo
de ouro ríspido, da parede me fita
o cometa, entre
as omoplatas,
onde começa o nervo da flor toda unida ao cimo
da labareda. E rola à noite a luz
sobre os lençóis, e os nós
do rosto absorvem
todos os átomos. Porque sobe um soluço dos centros
gravitacionais
de um bicho. Um soluço, um tétano.

A água escoa-se pelas esponjas dos órgãos e dos fatos.
São corpos celestes nos recantos
dos salões engolfados, ressumando
luz própria
— e dos intensos poros da madeira exalam-se
os bosques completos. Ou são estrelas
negras, os corpos, se a noite se chega para diante,
assim depressa, pedra que se desloca
varada pelos astros. E as flores nunca baixam as pálpebras
sobre os olhos.
O umbigo brilha, cego. O púbis brilha,
alto
como talha.

Todo o corpo é um espelho torrencial com as fibras
dentro das grutas. Cobra
que acorda no fundo
de si mesma, o halo
ovovivíparo
levantado anulo a anulo;
ou grande raiz fria sustentando o seu ovo soprado;
ou as guelras de uma rosa ferozmente
em arco.

Pela ciência e a paixão do medo, arranco à parede
esse nó cristalográfico com a luz
estrangulada.
Corpo celeste antípoda.
Os chifres de ouro afloram na treva.
Deus caça-me com uma lança
radiosa. Na selva dos meus quartos húmidos, orbitais, volumosos,
com uma flecha sonora.

As folhas ressumam da luz, os cometas escoam-se
pelos orifícios
vivos das casas. E fundem-se as ramas de ouro
nos músculos vorazes, os dedos
nas massas dos espelhos.
E vibra a bolha expelida da carne curva, um rosto
a que ceifaram o caule.
Não ames roupas, azáleas, água cortada, louça
— a leveza. Ama — digo —
o que é carregado: as frutas, ou a noite
e o calor, e os negros laços atados
dos animais.

E gravava-se o ouro nos centros
ávidos
e o ar no espaço e a seda
no tacto. O sexo brilhava sobre as mãos
no fundo expansivo dos quartos,
crepitando com a lepra.
Senti nas falangetas o leite manso e a madeira alumiada
pelos poros ferozes: o centrípeto feixe das coisas.
Senti o mundo tenso como o halo de um
dióspiro. Vi a serpente concentrada como um nó de cobalto.
— O sonho tão severo e a labareda
dentro e o trabalho dos dedos e dos olhos.

Pulsava o ar nas costas
da pedra
deitada ao dia com as crateras fortes:
— as narinas e a boca e o ânus. Dia vazado
de ponta a ponta branco. Entrava o oxigénio pelas artérias
agravadas, a insónia
pelas aurículas sombriamente do crânio.
A casa cheia tremia vergada pelas
luas frontais e veementes a os sóis astrológicos.

E estas aram as visões, os maus símbolos
Perigosos: a demência, a nudez, o dom,
O hipnotismo, o terror, o transe, a graça terrestre
e hermética.
Sob o choque do ouro estagnado no tórax
com a camélia radial explodindo,
a brancura ameaçava cada morte.

— Violência, claridade, sobressalto.

o espelho é uma chama cortada, um astro.
E há uma criança perpétua, por dentro, quando se vive em recintos
cheios de ar alumiado. De fora, arremessam-se
ás janelas
as ressacas vivas dos parques. Ela toca o nó
do espelho de onde salta
uma braçada de luz. Cada lenço que ata,
a própria seda do lenço
o desata. E o rosto que jorra do espelho
volta aos centros
arteriais.

Todos os anos fundos, essa extensa criança
sente brotar da terra como as árvores
do petróleo
a peste bubónica, fina na temperatura, alastrada nos bordados
das paredes ou nas crateras da cama. Os lençóis
nascem do linho que trepida
no abismo da terra, das sementes abraçadas pelas ramas
das nebulosas.

É perfeito o espelho quando apanha
um rosto nuclear.
Morre-se muito mais em cada doença, nesses
apartamentos que as noites sufocam
nos braços de mármore.
A energia das jóias.
O nó do sexo no espelho, as chamas agarradas
entre o umbigo e o ânus.
Esse trabalho da claridade quando as válvulas
se destapam.

Correntes atómicas passam de lado a lado.
E ficam os buracos furiosos por onde o mundo
sopra
um meteoro a jacto, uma cara.
Os jardins deslocam-se através de si próprios
com as centelhas, defronte
das planas constelações dos espelhos.

E então, na assimetria severa, ela amaria
transformar-se, súbita e solar — equinocialmente no espelho o relâmpago
côncavo de um girassol
espacial. Que sai assim do corpo: os filões arrancados
desse mesmo espelho.
E ela imagina na teia de fogo a argila que se transmuda
em porcelana: a curva labareda de uma chávena
expelida dos fornos.
E entre guardanapos, da mesa à boca,
arde em seu anel de estrela metalúrgica
a colher em órbita
— a assombrosa força terrestre da chávena.
E a infância desaparece nas funduras das casas,
nos jardins envoltos em nebulosas. O corpo
com os electrões fechados.

o rosto espera no seu abismo animal.

Vejo agora os estúdios enclavinhados na luz. Depois,
serão aspirados pelas ressacas
das trevas.
E a serpente dorme e fulgura entrançada nos braços.
O génio das coisas é baixo como o ouro
amarrado
em torno do sexo.

E nas cavernas de coral vivente pulsam
os animais dos horóscopos
— andróginos, lunáticos —
de cabeças trepanadas por radiações de urânio, movendo-se
com as lentas sedas dos corpos
pelos sóis à frente e as luas
deitadas. E as pupilas ferozes dos mortos contemplam
o brilho dos meus poros, o pénis
entre as centelhas da minha pele de vitelo
brando.

A voz ascende como um membro das suas tramas de sangue.
Desenvolvem-se nas noites descentradas
estes quartos engrandecidos
pelo jorro incendiário. Tocam o meio do mundo
com os raios.
São opacos, vulcânicos.
De anel para anel, a garganta por onde o corpo
Se arranca de dentro.
Rosas expiram pelo intenso orifício no meio. As massas de cristal dos
quartos
planetários

Ele queria coar na cabeça da mulher aprofundada
uma labareda,
a luz fundida nas clareiras.
Tocava-lhe abismadamente o rosto directo, o sexo
de ouro bivalve, a jóia do ânus aberto
— negra garganta de uma camélia baixando.

Queria que ela absorvesse a radiação dos astros centrais,
o oxigénio a entrelaçar-se no interior das constelações da carne.
E que o membro do corpo inteiro se embrenhasse
no sangue
que a ligava dentro de estrela a estrela
por grandes fibras
vibrantes.

Os sexos fechados pelas bocas claras, que tudo
luzisse anelarmente
— e o poder corresse neles, incessante, num insondável
quarto,
as imagens alinhando-se
num incêndio:
gárgulas, máquinas redondas, os rostos giratórios.
E que em noites soldadas pela respiração nó a nó,
sobre lençóis brilhando no seu arrepio de ouro,
num sítio de toda a idade com seus animais
enredados, estremecessem
as roseiras de onde as rosas sorvem o suspiro
subterrâneo, o intrínseco movimento
atónito.

E então a antiga criança estelar pulsava nele com o oxigénio
No extremo dos cordões maternos, soprada interiormente
pela claridade dos órgãos
afinados
na dor e na paixão —
suas casas astrológicas movidas pelo fogo baixo
e em cima
pelo ar muito alto.

A doçura, a febre e o medo sombriamente agravam
um forte jardim nos limites
da luz olhada. O mel dói, o sangue
assalta, o espelho recua até às costas. Também no interior
do mundo pesa e palpita um punhado
de pérolas. Que a infância é estranha, é uma doença imóvel.
Tem um íman no meio.

Não é doce usar a paixão do medo, esta
maneira de tocar no ouro escurece as mãos.
Há crianças que apanham completamente a maçã
caída no sono: morrem
no coração fotográfico.
Porque as labaredas se despenharam nos espelhos.
O fogo moveu essa fruta fechada, estrelas
congenitais
voltaram-se por dentro
das crisálidas.

Entra uma nuvem se as crianças se afastam,
ou reflui a ofuscante madeira
dos armários, ou são os lençóis que se arrepiam
arrastados
pela voltagem dos astros. De baixo para o alto,
um incêndio artesiano,
um enxame de rosas ferozes.

A infância é central como os ramais da água
circulando na pedra.
Ou a ilha atravessada pela volta
Dos ecos. Ou a primavera escoada. Ou a espuma que rebenta
Na fotografia retendo o mundo
direito.
Através da infância vêem-se os dias botânicos
aumentados
e os planetas de mármore ascendendo nos quartos e os fotões
das abelhas.

É um modo límpido de voltar a cabeça
para as grutas de ouro, ou expor
o ânus branco,
ou aproximar ainda o coração dos ávidos
sorvedouros da noite.

Os mortos reluzem nas cavernas, os nossos mortos
de corpo fechado pela perfeição das lágrimas.
Seus órgãos sustidos têm o peso
das jóias.
Porque a infância é uma visão terrífica, hipnótica.
Um transe, os olhos que se tornam secretos, o extremo lunar da casa
— pedra queimada no centro
da terra.

Tomo o poder nas mãos dos animais — quer dizer:
a força quando se soltam as labaredas
dos abismos dos quartos.
Tudo se agarra no instante em que
a casa
dorme no centro ateado. Chegar
muito lentamente e arrancar a maçã,
a mais limpa chama coada pela árvore.

A energia das lunações reflui nos nervos
do espelho,
e a queimadura brilha
a pique — flor pulmonar moldada, e em baixo
as estrelas pontiagudas
das mãos.

Assim se reserva nos apartamentos agachados,
entre roupas deitadas, o tesouro de um rosto
soberano.
E a claridade evapora-se do cérebro, ao alto
do candelabro:
o olho activo de uma flor sonhada.

Ascendem dos abismos da elegância os mamíferos
arrebatados pela violência
astrológica. Ficam de bruços, entre pressões,
rotativos, poderosos:
fotografias cheias de ar e fogo. E usa-se a morte,
uma lembrança genial ou um absoluto
inquilinato.

- O movimento das casas com os castiçais contínuos como artérias,
Como terríveis ceptros.

Amo este verão negro com as furnas de onde se arrancam
as constelações, um jardim espasmódico
quando
se atravessam as membranas dos quartos.
Resplandeço como um cristal talhado estelarmente
na voragem entre a boca e o ânus, como os arcos de um espelho.
Toco
o nó dos favos — e ferve o mel ao cimo da haste
vertebral. Eu amo o tremor das veias que enxameiam
as tábuas, amo as colinas de aço nas paisagens.

A água sopra nas esponjas que luzem no frio caudal
secreto.
Vibra a roupa aberta ao longo das cavernas
das casas. Com seus passos de pantera
a noite avança e bate as pálpebras.

— Toda a dança atrai a força, toda a caça atrai
os bichos. Deus é atraído pelas canções venosas
com os diamantes inteiros.

Amo as cabeças, esses laços de pedra.

Respira no verão largo a flor com um feixe
de artérias.

Que eu atinja a minha loucura na sua estrela expelida
pela força dos ventrículos
por uma crua boca
animal. Nas salas reflectindo os jardins
a reluzir
com as cadeiras e as mesas sobre as patas de madeira,
nos precipícios das casas.
— E atrás, a queimadura do rosto
repentinamente
selado.

Eu brilho nos corredores,
entre os renques das folhagens e a fogueira de bestas
terrestres. Encandeia-me a fundura dos armários
que se ateiam
pela tensão das roupas encurvadas. Eu amo
o ouro baixo nas chamas do dançarino aberto
entre a boca e o ânus.

As pedras fizeram agora os seus laços.

E as luvas vermelhas do escafandrista explodem nas câmaras.
— Um bicho em lágrimas, a casa atravessada pelas correntes
da paisagem de água, a criança
aurífera
direita nos recantos dos quartos com um olho radial,
um espinho de mármore implantado
na testa sumptuosa.

E sobe a estrela terrestre
com a placenta assente
nos feixes desde o umbigo até aos cornos.
Eu trouxe serpentes de onde a luz mais ferve,
arranquei-as ao mel, eu, criança
de boca truculenta, alumiada, bivalve. Nunca vi água
que não varasse as casas
de lado a lado. Pulsam em mim os fulcros
do sal, os cactos.

Quando a paisagem sopra pelas janelas, durmo
olhando
os centros memoriais. Deu-me a inteligência
aquilo que toquei: o pénis que vem desde os astros das costas,
os ovos no fundo dos alvéolos, as pálpebras
negras. Somente o mundo
é uma coisa sonora. E eu estou soldado por cada laço da carne
aos laços
das constelações. E das cavernas, onde
suas garras se prendem como pólipos,
e através da minha roupa,
fitam
o espelho: sangue e ouro
e cálcio e mel
brilhando. Porque o corpo é uma gruta de onde saltam
os sóis, uma insónia que liga
o dia ao dia,
pelos jardins trespassando os estúdios
ainda imóveis, dentro das portas fechadas pelos próprios
astros brancos.

Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
Detidos: hei-de de partir quando as flores chegarem
a sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.

Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.

Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a dor que me leva
aos precipícios de agosto, a mansidão
traz-me ás janelas. São únicas as colinas de ar
palpitando fechado no espelho. É a estação dos planetas.
Cada noite é um abismo atómico.

E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Batem em mim as pancadas do pedreiro
que talha no cálcio a rosa congenital.
A carne, sufocam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.

Herberto Helder
Cobra, 1977
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