''O inverno chegou. A bruma desfaz a luz oblíqua que a paleta do pintor capturava em suas telas. A alma está agora mais contrita. Densa? Talvez. Não sobra muita luz quando os dias escurecem mais cedo. Agora precisa vir a luz do interior. É preciso buscá-la com uma certa determinação. Mas é frágil a chuva que adorna os dias. A alma também possui suas instabilidades, bem sei. Contudo, é nos desvãos da terra que nos cerca e nos deslizamentos do pensamento é que sou o que sou. A palavra ganha força quando a água entorna sobre a minha pele me coisificando de nomes que ainda nem sei. A cada inverno é assim. Sofro uma espécie de transubstanciação em que primeiro desce a chuva, depois o corpo se desaloja na palavra por vir. Assim, só assim, no carinho da solidão que acompanha cada frase minha, é que vou me recompondo. Não-todo. Não eu. Nem sempre.''
Clarice Lispector
Sonhos de Clarice Lispector

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