Dizer que coisa ao homem, Propor que viagem? Reis, ministros E todos vós, políticos, Que palavra além de ouro e treva Fica em vossos ouvidos? Além de vossa RAPACIDADE O que sabeis Da alma dos homens? Ouro, conquista, lucro, logro E os nossos ossos E o sangue das gentes E a vida dos homens Entre os vossos dentes.
Hilda Hilst, excerto de «Poemas aos homens dos nossos tempos», in Júbilo, memória, noviciado da paixão, 1974
“O desejo selvagem, esse é fácil — nasce do instinto. Mas desejar alguém com ternura, com alma, com cuidado… isso exige tempo. É preciso atravessar todas as estações do amor, suportar os invernos da dúvida e os verões do encantamento, até que, no centro do afeto, acenda-se a chama rara do desejo que respeita, que acolhe, que permanece.”
Albert Camus
“Há ferrugem na minha boca, a mancha de um beijo antigo.”
como filhos escorraçados ou disso a que chamam demónio da analogia
quem fabrica um poema curto morrerá muito mais tarde,
só depois de estar maduro,
quem baixa a mão para quebrar um selo há-de baixá-la
para quebrar os outros, e há-de fechar os olhos,
e de tanto ter visto não poderá nunca mais abri-los:
e como pão e bebo água de olhos fechados como se fosse para sempre,
e assim, adeus a quem vê, que eu morro inteiro para dentro,
e vejo tudo só de entendê-lo.
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Herberto Helder, in Servidões
"Nunca desejaria usar inteligência artificial no meu trabalho. É um insulto à própria vida", assumia o realizador japonês Hayao Miyazaki, co-fundador do Studio Ghibli, em 2017.
Escritor Pedro Paixão, entrevista Jornal Observador, 2017
25 livros em 25 anos. Porque escreve tanto?
''Escrevo para mim, só para mim, para me tentar salvar. Quando escrevo, as coisas parecem ganhar um plano superior, mais verdadeiro. Contra a passagem do tempo, o desvanecimento, a escrita dá-nos a ilusão de que a nossa vida é mais durável. Dá-nos a ilusão de que continuaremos vivos naquilo que escrevemos. Ser-me-ia impossível viver sem escrever.''
Escritor Pedro Paixão, entrevista Jornal Observador, 2017
«O meu país é um país que não reconhece o verdadeiro valor, não gratifica a excelência, e mal suspeita de alguma coisa original, logo, estranha, esmaga-a. Camões morreu pobre e desolado. Provavelmente sem ter tido sequer a sorte de ter tido um único amigo, como eu tive. O Pessoa, que viveu de quarto em quarto, foi morrer com o fígado trespassado a um hospital com nome de santo francês que está no Bairro Alto e, ao que se diz, a última frase que lhe se ouviu foi em inglês que a disse I do not know what tomorrow will bring, para tirar as dúvidas a quem as tivesse. O Ruy Belo, um magnífico poeta, foi um herói desprezado primeiro pela academia fascista e, depois, pela academia democrática. O Ruy Cinatti, um poeta entre os maiores, enlouqueceu com a revolução dos medíocres e presumidos cravos, que entretanto desapareceram como espécie. Eu só não me deixei esmagar porque não tenho valor algum em particular, nunca tendo chegado a ser o que queria (…) »
Pedro Paixão. [“Espécie de Amor”, 2014]
"Já não conheço as novas gerações… não os leio… eles também não me leem a mim… portanto estamos bem. Mas eu também escrevo sempre a mesma coisa. Sou eu e eu. Só escrevo sobre mim. Porque não teria sobrevivido se não escrevesse. Só assim é que vou sabendo quem sou."
Escritor Pedro Paixão, entrevista Jornal Observador
LI PO (também LI BAI) com Um Copo de Vinho no Exílio (em colaboração com a livraria Livros Tintos, de Fundão). Versões de Manuel Silva-Terra.
''Houve o doce veneno da fama que nos conduz à maior solidão. A última coisa que queria era ser outra vez famoso como fui. Perdi bastante. Porque a fama dá-nos um poder irreal feito de fumos, espelhos, que é perigoso. Há uma aparência de que conhecemos muitas pessoas, que as pessoas gostam muito de nós. Tudo falso. Graças a Deus, descobri isso antes de ter feito muitas asneiras, sem ter ficado viciado em drogas, álcool, poder.''
Escritor Pedro Paixão, entrevista Jornal Observador
I had a vision that Mary of Magdalene Saw the future that awaits us just before Good Friday eve Figured the wages of salvation were a little too steep Said no one's fucking with my baby Lord, and got armed to the teeth
Cleaning up Cleaning up Clean up She cleans up
What is the one about the female alien Scarlett drives the Scottish countryside inside of a white van Oh, I dreamt about it last night, and it did my whole day in Undid something man, I'm never gonna touch that shit again
Cleaning up Clеaning up She cleans up Cleaning up
I know just how this thing еnds Hallelujah, women, they got me confused with him, oh no I get just how this thing ends Hallelujah, baby, I know who butters my bread
"When was the accident?", well, I presume you mean The condition of the silk kimono that didn't come cheap Now, did you sit down in a crime scene? Just don't look between your knees Man, it's certainly a look, did she at least get the movie?
Cleaning up Cleaning up She cleans up Cleaning up
Use your discretion, so I don't have to use mine I spent a hundred bucks on gas, baby, let's just have a good time How do you atone for your son now the rabbit's got the gun? She ain't joining you for dinner, been on the menu too long
Cleaning up Cleaning up She cleans up Cleaning up
I know just how this thing ends Hallelujah, guess we gave the karmic wheel a spin, oh yeah I know just how this thing ends The aggrieved becomes aggressor and we do it all again
Take it from a demon who can say I've never said Take it from a demon that the devil don't protect his friends Take it from a demon, he'll never work in this town again Take it from a demon, he'll make sure an angel goes down next
I know just how this thing ends The misogynist's daughter made him rethink what he said I know just how this thing ends She has trouble reconciling pops with the things that she read
I know just how this thing ends Hundred billion babies born every millennium, oh no I know just how this thing ends Man, I hope nobody messes with the wrong rejected men, oh
I know just how this thing ends Sure your politics are perfect with the gun against your head I know just how this thing ends It's a good thing God gave us someone on whom we can depend to Clean up
“Não te peço um beijo, nem que me peças perdão quando erras. Não te peço que me abraces nos meus dias de dor, nem que me digas que sou linda, mesmo que seja mentira.
Não te peço palavras bonitas, nem que me ligues só para dizer que sentes a minha falta. Não te peço que reconheças tudo o que faço por ti, nem que te importes quando me afogo em silêncio. Não te peço que me apoies nas minhas decisões, nem que escutes as histórias que trago no peito.
Não te pedirei nada, nem mesmo que fiques ao meu lado.
Porque se preciso pedir… então eu não quero mais.”
Torn by primeval storms In ever changing directions of the tempests; Yet your south is loneliness, Where you stand is the navel of pain.
Your eyes are sunk deep into your skull Like cave-dwelling doves in the night Brought out blind by the huntsman, Your voice is silenced From asking too many whys,
To the worms and the fishes your voice has gone. Job, you have wept through all the watches of the night But some day the star sign of your blood will Outshine all the rising suns.
Com toda a poluição no sangue. Exponho-te a vontade O lugar que só respira na tua boca Ó verbo que amo como a pronúncia Da mãe, do amigo, do poema Em pensamento. Com todas as ideias da minha cabeça ponho-me no silêncio Dos teus lábios. Molda-me a partir do céu da tua boca Porque pressinto que posso ouvir-te No firmamento.
Daniel Faria
« o mau é cada um ao seu, quem não gosta do que há devia ser do toma lá, dá cá.»
“You don't necessarily have to write to be a poet. Some people work in gas stations and they're poets. I don't call myself a poet, because I don't like the word. I'm a trapeze artist.”
Bob Dylan
“Quero propor-lhe um abraço tão forte e duradouro que nos doa o corpo—porque é melhor que a carne sofra por amar do que a alma por sentir falta.”
Júlio Cortázar
"I have not taught painting because it cannot be taught. I have taught seeing. What I've taught was the philosophy of form, the philosophy of lines, the philosophy of colors."
Josef Albers
Agora escrevo...
[...] Parecido com a vida, resumindo
Brutalmente a vida!
A chave dos sonhos, o segredo
Da felicidade, as mil e uma
Noites de solidão e medo,
A batata cozida do dia-a-dia,
O muscular fim de semana,
As sardinhas dormindo,
Decapitadas, no azeite,
O amor feito e desfeito
Como uma cama
E ao fundo – o mar…
Mas defendi-me e agora escrevo
Furiosamente, agora escrevo
Para alguém: [...]
Alexandre O'Neill, in Agora escrevo / No Reino da Dinamarca
'When you know something, you know it, and when you don’t, you’d better learn. And in the meantime, you should keep quiet, or at least speak only when what you say will advance the learning process.''
Rodasse ou não a roda encabrestada Do que chamamos desvario atento Ao apenas lado lacrimal Da nossa história clínica passada Um par de hormonas celestiais cruzadas No interior do calafrio esse A palavra cortisona calculada Como te ouvira suspenso por um fio Último pássaro canto ou desafio?
José Afonso (2022). Obra poética. Lisboa: Relógio D’Água, p. 278
“A estátua de mármore custa muito a fazer, pela dureza e resistência da matéria; mas, depois de feita uma vez, não é necessário que lhe ponham mais a mão: sempre conserva e sustenta a mesma figura; a estátua de murta é mais fácil de formar, pela facilidade com que se dobram os ramos, mas é necessário andar sempre reformando e trabalhando nela, para que se conserve.”
Padre António Vieira, Sermão do Espírito Santo.
"Sou composta por urgências, minhas alegrias são intensas, minhas tristezas...'absolutas', me entupo de ausências, me esvazio de excessos, não caibo no estreito, só vivo nos extremos..."
Clarice Lispector
No dia em que vendeu a burra, regressou a pé para o monte e acreditou que nunca mais voltaria à vila. Tinha oitenta anos e é essa a idade das decisões para toda a vida.
Duas pombas pousadas num só galho, Dois lírios gémeos a despontar, Duas borboletas sobre uma flor: Felizes os que podem contemplar.
Os que contemplam de mãos enlaçadas,
Afogueados p'lo rubor do Verão,
Os que os contemplam de mãos enlaçadas
E nunca a noite lhes traz aflição.
Christina Rossetti.O Mercado dos Duendes e Outros Poemas. Tradução Margarida Vale de Gato. Edições Relógio D'Água.
Centro Comercial I
"Agora a morte é diferente, facilitaram-nos o desespero, a angústia tem já ar condicionado. Em vez dos bancos de jardim, por certo demasiado rudes, temos enfim lugares amplos onde apodrecer a miséria simples do corpo. Que incalculável felicidade a de percorrer galerias de nada tresandando a limpeza e segurança. Aí se abandonam jovens rebanhos sentados sorrindo ao vazio palpável, ou ferozmente no meio dele. Revezam-se - mas quase diríamos que são os mesmos ainda, exaustos de contentamento. Dêmos pois as boas-vindas a esses heróis do betão consagrado. Só eles nos fazem acreditar no advento do romantismo cibernético. É doce a merda que nos sepulta e o cancro que um dia destes nos matará há-de ser muito limpo, quase ecológico".
“A hora dos zorzais*” é uma expressão que homenageia o movimento destas aves em direção ao reencontro, uns dos outros, quando o dia chega ao fim.
* O zorzal (Turdus pilaris) é uma ave da família dos Turdídeos
"Dá à tua tristeza todo o espaço e abrigo que é devido, pois se todos suportarem a sua tristeza com honestidade e coragem, a tristeza que agora enche o mundo diminuirá.”
Etty Hillesum
quinta-feira, 13 de março de 2025
"Beneath the jasmine a stone marks a buried treasure. On the path, my father stands. A beautiful, beautiful day.
The gray poplar blooms, centifola blooms, and milky grass, and behind it, roses climb.
I have never been more happy than then. I have never been more happy than then.
To return is impossible and to talk about it, forbidden— how it was filled with bliss, that heavenly garden."
"Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Eles foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram faltar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro urna cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrebaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas."
«Escrever não é contar as lembranças, as viagens, os amores, os lutos, sonhos e fantasmas. Ninguém escreve com as suas neuroses. (…) A literatura só se afirma se descobre sob as aparentes pessoas a potência de um impessoal.»
Teixeira de Pascoaes, Verbo Escuro. Edição Assírio & Alvim
''Eu precisava urgentemente, todo dia, da beleza das frases, mas escrevia para encontrar um apoio para a miséria da vida e não porque queria fazer literatura.''
« Sempre que estou profundamente triste e penso que vou morrer, ou tão nervosa que não consigo adormecer, ou apaixonada por alguém que não irei ver durante uma semana, colapso e digo a mim própria: «Vou tomar um banho quente.»
Sylvia Plath. A Campânula de Vidro. Relógio D'Água. Tradução e Posfácio de Mário Avelar, 2016., p. 26
Sylvia Plath with typewriter in Yorkshire, September 1956Photograph: Elinor Friedman Klein/Mortimer Rare Book Room, Smith College, Northampton, Massachusetts
Não tenho pressa. Pressa de quê? Não têm pressa o sol e a lua: certos. Ter pressa é crer que a gente adiante das pernas, Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra. Não: não tenho pressa. Se estendo o braço, chego exactamente onde o meu braço chega - Nem um centímetro mais longe. Toco só onde toco, não onde penso. Só me posso sentar onde estou. E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras. Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra cousa, E somos vadios do nosso corpo.
Alberto Caeiro/Fernando Pessoa
ESTADOS FASCISTAS DA MENTE E A SUA CONDIÇÃO ADESIVA
''Por vezes é necessário tirar umas horas ao dia para meditar, olhar, contemplar. E é no cruzamento das circunstâncias com a vontade que o faço, lendo as pequenas e grandes tempestades da História da Literatura na forma como o vento incide e mexe nas ideias, incomodando uns, despenteando outros, empurrando alguns para o conforto doméstico. Com os séculos tudo se torna indiferente, a história repete-se, e a consciência acaba por fornecer, por si própria, a sua medida e objecto.
De há uns anos para cá desisti do Diogo Vaz Pinto, de ler os seus textos, pelo racional prático de ser difícil captar a qualidade do seu pensamento crítico que foi desmaiando para uma desproporção emocionalizada dos conflitos de consciência que o perturbam e desfiguram; também por ser misterioso aquilo que o move. A sua prosa passou de curiosa e estimulante, a confusa e ociosa, num obsessivo fervor persecutório às liberdades fundamentais de um colectivo, com recorrentes ataques identitários à alteridade, pluralidade e liberdade de expressão e pensamento. O autor desapareceu sob o manto do seu próprio arsenal, escancarando a traição a si mesmo, naquilo que o guiava e que, agora de luzes apagadas, o mantém ocupado no esforço de nos persuadir com o seu choro de agonia. O autor que dá pontapés na sua própria ferida, desorientou-se na sua dor, saboreando os extremos de uma fantasia higienizadora da literatura, onde há muito decaído, e na sua existência ventríloqua do ódio, se recusa a brincar sozinho, demandando que brinquemos à força, para que ele sinta existir. Mas o autor existe sozinho e, na esperança de se ver nascer, a sua existência vai diminuindo. Não é, pois, de admirar que as preocupações ofegantes o reservem de prosseguir a paranoica indagação de encontrar o primeiro e último poeta, que com a sua verdade lhe mostre o caminho para o rosto de Deus, a coisa-em-si, a arché, o uno, a mónada, o fenómeno, o númeno, o sagrado vento de Paracleto. Também não é surpreendente ao espírito de quem, conhecendo-lhe os temas, se questione que experiências e vivências terão a capacidade de arrancar ao seu real a categoria insofismável do sentido da vida, para que um dia o autor didacta, apagado nas suas próprias teorias e apertado na sua batina inteiramente branca com filetes violáceos, se canse de cavalgar bêbedo e zonzo, encimado na sua férula, num tempo onde vemos a retirada da humanidade às mãos da própria humanidade.
É que se nem a vida está no seu próprio lugar, a perturbação da sua vitalidade vem enunciada nos estados fascistas da mente.''
Raquel Nobre Guerra
Os amantes fazem-se reféns um do outro
andam às voltas como animais cativos arrastando consigo a sua armadilha
Anise Koltz. Uma Morte Passageira. Tradução Regina Guimarães. Edição Exclamação.
«Poderia falar-te do amor, essa coisa cinzenta e tenebrosa que faz sorrir as criancinhas - mas não, prefiro falar-te dum campo com erva verde, muita erva muito verde e com árvores azuis onde à noite vai morrer
o vento. (...)»
Adolfo Luxúria Canibal. No rasto dos duendes eléctricos (Poesia 1978-2018). Porto Editora, 2019., p. 53