ESTADOS FASCISTAS DA MENTE E A SUA CONDIÇÃO ADESIVA
''Por vezes é necessário tirar umas horas ao dia para meditar, olhar, contemplar. E é no cruzamento das circunstâncias com a vontade que o faço, lendo as pequenas e grandes tempestades da História da Literatura na forma como o vento incide e mexe nas ideias, incomodando uns, despenteando outros, empurrando alguns para o conforto doméstico. Com os séculos tudo se torna indiferente, a história repete-se, e a consciência acaba por fornecer, por si própria, a sua medida e objecto.
De há uns anos para cá desisti do Diogo Vaz Pinto, de ler os seus textos, pelo racional prático de ser difícil captar a qualidade do seu pensamento crítico que foi desmaiando para uma desproporção emocionalizada dos conflitos de consciência que o perturbam e desfiguram; também por ser misterioso aquilo que o move. A sua prosa passou de curiosa e estimulante, a confusa e ociosa, num obsessivo fervor persecutório às liberdades fundamentais de um colectivo, com recorrentes ataques identitários à alteridade, pluralidade e liberdade de expressão e pensamento. O autor desapareceu sob o manto do seu próprio arsenal, escancarando a traição a si mesmo, naquilo que o guiava e que, agora de luzes apagadas, o mantém ocupado no esforço de nos persuadir com o seu choro de agonia. O autor que dá pontapés na sua própria ferida, desorientou-se na sua dor, saboreando os extremos de uma fantasia higienizadora da literatura, onde há muito decaído, e na sua existência ventríloqua do ódio, se recusa a brincar sozinho, demandando que brinquemos à força, para que ele sinta existir. Mas o autor existe sozinho e, na esperança de se ver nascer, a sua existência vai diminuindo. Não é, pois, de admirar que as preocupações ofegantes o reservem de prosseguir a paranoica indagação de encontrar o primeiro e último poeta, que com a sua verdade lhe mostre o caminho para o rosto de Deus, a coisa-em-si, a arché, o uno, a mónada, o fenómeno, o númeno, o sagrado vento de Paracleto. Também não é surpreendente ao espírito de quem, conhecendo-lhe os temas, se questione que experiências e vivências terão a capacidade de arrancar ao seu real a categoria insofismável do sentido da vida, para que um dia o autor didacta, apagado nas suas próprias teorias e apertado na sua batina inteiramente branca com filetes violáceos, se canse de cavalgar bêbedo e zonzo, encimado na sua férula, num tempo onde vemos a retirada da humanidade às mãos da própria humanidade.
É que se nem a vida está no seu próprio lugar, a perturbação da sua vitalidade vem enunciada nos estados fascistas da mente.''
Raquel Nobre Guerra
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