sábado, 27 de junho de 2026

 


''Sobre mulheres expostas, julgadas e condenadas com emojis agressivos, likes insidiosos e algoritmos, uma história antiga em roupagem moderna.
Virginia Woolf escreveu que, para criar ficção, uma mulher precisa de dinheiro e de um quarto só seu. O problema, no século XXI, é que esse quarto tem janelas por todos os lados, câmaras ocultas e milhares de olhares prontos a julgar-lhe os lençóis, a roupa, os pensamentos, os seios, os silêncios. O que antes era retiro tornou-se montra, e os olhos que espreitam já não o fazem por detrás da cortina, mas em público, com likes, emojis e hashtags.
O assédio que hoje se passa nas redes sociais não é fenómeno recente, é a reincarnação digital de uma velha prática cultural, agora envernizada pela estética da modernidade. O que hoje se faz a uma mulher no Instagram ou no X fazia-se a outras no século XIX, nas vielas de Montmartre ou nas vitrinas iluminadas de Amesterdão. A diferença é que, em vez de campainhas e cortinas vermelhas, há filtros, comentários e um algoritmo que decide quem merece visibilidade e quem será punida por se mostrar.
A montra não desapareceu, apenas mudou de lugar. A mulher exposta ao desejo masculino continua a ser tratada como objeto. E quando ousa ter opinião, ousa pensar alto, ousa ser inteligente ou imperfeita, é sancionada. O hábito de desvalorizar intelectualmente as mulheres, ao mesmo tempo que se as exibe como troféus, persiste. Concede-se-lhes liberdade, sim, mas apenas aquela que serve os desejos masculinos. Uma liberdade de contornos estreitos, onde se pode ser sexy, mas não subversiva, sensual, mas não complexa, bonita, mas não autónoma.
Camille Paglia recordou que as sociedades sempre temeram a mulher que se governa a si mesma. Para isso, criaram estratégias de controlo, da religião à psiquiatria, da arte à pornografia, hoje através da tecnologia. As redes sociais são, muitas vezes, um bordel moral, onde se mede o valor da mulher pelo número de seguidores e se dita o seu destino segundo o grau de obediência aos caprichos do olhar alheio. Aquela que se recusa a sorrir, a exibir-se, a corresponder, é descartada ou atacada.
O internamento compulsivo foi, durante séculos, uma das formas mais brutais de silenciar mulheres que desviavam da norma. Le Bal des Folles, romance de Victoria Mas e posteriormente filme, denuncia essa tradição esquecida: mulheres internadas não por doença, mas por desobediência, tristeza, desejo ou simplesmente por serem inconvenientes aos olhos do pai, do marido ou da sociedade. No hospital psiquiátrico da Salpêtrière, em Paris, encenava-se anualmente um baile em que essas “loucas” eram exibidas como curiosidades, objetos de fascínio e escárnio para a elite parisiense. A loucura era, muitas vezes, uma sentença aplicada a mulheres que não queriam casar, que choravam demais, que liam em excesso, que falavam alto ou recusavam o lugar que lhes era atribuído. Mais do que diagnóstico, tratava-se de punição simbólica: a liberdade feminina tratada como sintoma. E ainda hoje, com outros nomes e métodos, o mundo continua a patologizar a mulher que recusa ser domada.
Há um fenómeno particularmente insidioso, a relativização do insulto sexista dirigido a mulheres consideradas bonitas. Como se a beleza funcionasse como licença tácita para a invasão, como se fosse uma autorização implícita para que desconhecidos opinem, comentem, julguem e objetifiquem. A lógica é perversa: se és bela, estás em dívida para com o olhar dos outros. Há quem se sinta, por isso, no direito de comentar uma página pessoal como se fosse pública por natureza, ignorando a intimidade por detrás da imagem, o ser por detrás do ecrã. O elogio transforma-se em armadilha, o comentário, numa forma de posse simbólica. No fundo, trata-se do velho pacto patriarcal, oferece-se admiração como quem exige servidão.
Entre mulheres, repete-se muitas vezes a lógica da competição imposta. A inveja feminina, longe de ser falha moral, é reflexo condicionado de um mundo que ensinou a ver na outra uma rival, e não uma aliada. Melanie Klein interpretaria esse ódio como gesto de destruição do objeto amado. Não se odeia uma mulher bonita apenas por o ser, mas porque ela encarna um ideal inalcançável, uma promessa de reconhecimento que a própria sente não ter.
As culturas moldam os códigos do assédio. Na América Latina, ele surge com palavras doces e mãos leves demais. No Médio Oriente, com leis e véus. Na Europa, com ironia polida e discurso pretensamente racional. Mas o subtexto é invariável, controlar o corpo e o pensamento da mulher. A liberdade oferecida é ilusão servida em bandeja dourada, como nas vitrinas de Amesterdão, onde o vidro é fronteira simbólica entre desejo e domínio.
Na indústria pornográfica, a mulher: la chienne, la salope, la chaudasse, la pute. Os homens? Le séducteur d’enfer!
O cinema, por sua vez, ajudou a construir e a perpetuar fantasmas masculinos disfarçados de génio, paixão ou crise existencial. Luis Buñuel, por exemplo, com o seu olhar onírico e surrealista, projetou mulheres como enigmas a decifrar ou ameaças a neutralizar, moldando arquétipos que ainda hoje habitam o imaginário coletivo. Noutros autores, de Bergman a Godard, de Polanski a Allen, a figura masculina atormentada e brilhante surge como desculpa estética para comportamentos manipuladores, misóginos ou autodestrutivos, apresentados como expressão de profundidade emocional ou liberdade artística. A câmara transforma o abuso em linguagem, a obsessão em arte, e o sofrimento feminino em pano de fundo para o drama masculino. Muitas dessas obras tentam ainda validar a violência simbólica ou literal, ao construírem personagens femininas permanentemente expostas, despidas, literal ou figurativamente, moldadas segundo fantasias masculinas de submissão, disponibilidade ou “desejo de ser puta”, como se a autonomia se expressasse apenas através da auto-objetificação. Esses mitos visuais, reproduzidos e celebrados, oferecem uma espécie de alibi cultural para a toxicidade afetiva, reforçando uma narrativa onde o homem sofre e a mulher é o espelho desse sofrimento, e não um sujeito pleno, com vontade e voz próprias.
Ainda assim, nas artes, há vozes que resistem. A música Vampire, de Olivia Rodrigo, os livros de Elena Ferrante, o cinema de Céline Sciamma, tudo revela um desejo profundo de recusar, de sair da vitrine, de incendiar a montra. Séries como Desperate Housewives e Why Women Kill ilustram, com humor ácido e brutalidade contida, como o papel da mulher, mesmo nos subúrbios aparentemente perfeitos, continua a ser moldado para servir, calar, agradar e reprimir, até que algo rebente por dentro. I May Destroy You, de Michaela Coel, mostra como a violência sexual e digital são faces da mesma moeda: o corpo da mulher como território disputado, colonizado, explorado.
Nem a psicanálise escapa a este debate. Lacan falava do olhar como estrutura de poder. Nas redes, o olhar masculino continua a organizar o desejo e a validação. “Ela é demais”, diz-se, mas o que se quer dizer é, “Ela é demais para mim, e isso é provocação”.
A questão não é apenas o assédio, é a estrutura simbólica que o naturaliza. Não se trata de vigiar os utilizadores das redes, mas de repensar a cultura que os forma. Até que ponto estamos todos, involuntariamente, a sustentar bordéis invisíveis com os nossos cliques?
Quando seremos efetivamente livres e respeitadas por essa liberdade?
Se o palco está iluminado, e todos esperam que ela sorria e se sujeite ao papel que lhe querem impor, que se recorde de Louise Michel, a incendiária da Comuna de Paris, que nos deixou este aviso corajoso: “Notre place dans l’humanité ne doit pas être mendiée, mais prise.”
A mulher não deve pedir lugar, deve tomá-lo. Mesmo que isso implique derrubar preconceitos e exigir respeito por aquilo que quer ser em detrimento do que a querem fazer.''

Vale mais pão duro que figo maduro.

Albarda-se o burro à vontade do dono.

resistência da Noelia Castillo



Era domingo e estava calor. Éramos às centenas – não é exagero – a aproveitar essas duas realidades que não se juntavam há demasiado tempo: era domingo e estava calor.


''Estavam paradas. De relance, a fisionomia de uma delas fez-me lembrar a minha avó – acho que foi isso que, em primeiro, espoletou a atenção.

Mais ou menos a meio do amplo Calçadão, olhei em frente e deixei-me ficar a olhar para duas senhoras, octagenárias muito provavelmente. As rugas e as dificuldades de locomoção assim mo denunciaram.

Estavam paradas. De relance, a fisionomia de uma delas fez-me lembrar a minha avó – acho que foi isso que, em primeiro, espoletou a atenção.

Vi que estavam a conversar, mas, à distância, não lhes ouvi o diálogo. Enquanto me aproximava e a imagem ia ficando mais nítida, desacelerei o passo. A atenção estava totalmente ganha. Estavam as duas de cigarro na boca: uma delas, curvava-se, num gesto de delicadeza, para acender o cigarro da amiga.


Voltei a pensar naquelas duas senhoras hoje, quando li a história de resistência da Noelia Castillo Ramos, uma jovem espanhola que lutou por um direito: a eutanásia. Talvez porque, cada uma à sua maneira, as vejo – às três – como um símbolo de resistência.

Depois de ter sido vítima de uma agressão sexual coletiva e, de por isso, se ter lançado de um quinto andar de um prédio, Noelia ficou paraplégica. Passou a ter fortes dores neuropáticas.

Ontem, o sofrimento terminou: Noelia morreu, em paz, depois de lhe ter sido administrada a eutanásia.

Agora, que a imagem me voltou a assolar, gosto de pensar que são as três – a Noelia e as duas senhoras com quem me cruzei – símbolo de um certo mundo no qual ainda quero acreditar. Em que cada um pode ser aquilo que bem entender.

E em que a vida pessoal de cada um também é um bocadinho de todos.''



 

 


Basorexia

SEMPITERNO

inefável

''Sangrei, mas não me vendi.''

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Terpsichore

 "a que gosta de dança", através da junção de terpein (agradar ou deleitar) e khoros (dança).


 

 


Eduardo Galeano, no livro “O Caçador de Histórias”. (L&PM Editores; 1.ª edição [2016]).

 « Em Portugal, as pessoas são imbecis ou por vocação, ou por coacção, ou por devoção.»

Miguel Torga 

''dor moral''

terça-feira, 23 de junho de 2026

Louis Faurer

 


Francesca Woodman, Virgem Suicida

''Começou a fotografar aos 13 anos, matou-se aos 22: as imagens que produziu nesse intervalo são agora alvo da sua maior retrospectiva americana de sempre. Tantos auto-retratos depois, continuamos a não saber quem é Francesca Woodman, mas uma coisa parece mais clara: este é o tempo dela
Francesca Woodman começou a fotografar aos 13 anos e suicidou-se aos 22. Nas centenas de imagens que produziu, o centro é quase sempre ela própria, quase sempre sozinha, frequentemente nua.


As suas fotografias são habitualmente descritas como auto-retratos. Mas, a sério, o que é que sabemos sobre Francesca Woodman?

A maior retrospectiva americana desde a sua morte, em 1981, está actualmente no Museu Guggenheim em NovaIorque, onde pode ser vista até 13 de Junho. Corey Keller, curadora de fotografia do Museu de Arte Moderna de São Francisco (SFMOMA), onde a exposição inaugurou em Novembro, antes de viajar para Nova Iorque, trabalhou durante quase cinco anos na preparação da retrospectiva. "Quando olhamos para um auto-retrato, esperamos aprender qualquer coisa sobre a pessoa representada", diz. "Mas depois de olhar para centenas de fotografias de Francesca Woodman, eu não sei quem ela é. Isso foi a parte mais frustrante para mim. Não se consegue perceber quem ela é. Ela não deixa. Ela aparece e desaparece e não há como fixá-la a nada."
O paradoxo das fotografias de Woodman é que elas são intensamente reveladoras - o corpo nu, frontal, impudico - mas simultaneamente opacas. Não são retratos no sentido autobiográfico. Ela própria terá relativizado a sua auto-representação, reduzindo-a a "uma questão de conveniência" (embora algumas fotografias, como uma em que três raparigas seguram uma reprodução do rosto de Francesca Woodman à frente da cara, sugiram que também tentou explorar questões de identidade).

APRENDER A PENSAR

   Devo dizer desde já sem rodeios que vou falar acerca de uma determinada forma de pensar. Uma das coisas mais estranhas e fascinantes desta atividade a que chamamos pensar é o facto de cada um poder inventar, para lá dos seus próprios pensamentos, uma maneira de pensar que seja só sua. Nem é necessária qualquer preocupação sobre se está a pensar mal ou bem - a não ser que se entre num domínio muito especializado, que exija uma forma de pensar muito específica. Na verdade, a única coisa a fazer é mesmo pensar e nada mais.

   Ora pensar é, como sabemos, tão natural como respirar - de um modo ou outro, o pensamento está sempre a trabalhar nas nossas cabeças. Por isso, que haverá de excepcional acerca dele? Bom, apesar de todos nós estarmos constantemente a pensar em qualquer coisa, acontece a coisa terrível de uns pensarem mais e outros menos. É que alguns empenham-se nisso de uma forma muito mais activa.

(...)

Ted Hughes. O Fazer da Poesia. Tradução Helder Moura Pereira. Assírio&Alvim, 2002., p. 75

sexta-feira, 19 de junho de 2026

 


A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes
São flores aos milhares entre ruinas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê não sei, porquê não sei
Porquê não sei - ainda
Há sempre qualquer coisa que está pr'acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê não sei, porquê não sei
Porquê não sei - ainda
Ensinas-me a fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas
Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco p'ra chegar
Eu não meti o barco ao mar
P'ra ficar pelo caminho
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê não sei, porquê não sei
Porquê não sei - ainda
Há sempre qualquer coisa que está pr'acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê não sei, porquê não sei
Porquê não sei - ainda
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê não sei, mas sei
É que não sei - ainda
Há sempre qualquer coisa que está pr'acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê não sei, mas sei
É que não sei - ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê não sei, mas sei
Que essa coisa... é que é linda !

 a grande muralha de Nietzsche

a queda de todos os edifícios
a queda de todos os multibancos
a devastação dos jardins
a devastação das cheias
a devastação do cânone-púrpura
a concavidade da lama
a concavidade dos pés das musas
o hálito
o hálito dos prisioneiros
o hálito dos aprisionados cavalos metafísicos
Nietzsche deixou-se traumatizar
e traumatizou-nos para sempre
munido de pólvora
de borboletas assassinas
de estantes siderais
Nietzsche
um irredutível velhinho gagá
como todos os outros esqueletos do asilo
e no entanto
tão distinto
Augusto António Cabrita

 quando me deito no sopé dos ninhos

tenho visões que me são trazidas pela precipitação
de antepassados:
por tapetes forjados por faraós
pela pele medieval das cobras.
em Silves
há um faquir que aponta o polegar a uma cama
forjada por um gigante
há pinturas moçárabes
estalactites de estio
e o último turbante de Al-Mutamid
é afinal de contas
uma porta giratória
uma porta de entrada para um lago de cisnes.
depois há o itinerário acidental que leva os olhos de Dali até Sevilha
sustentados por um dromedário de poucas palavras
depois há berberes-ardinas numa longa piscina
dando conta das últimas notícias da Taifa
através da trôpega gesticulação das nuvens.
quem sou eu?
uma pintura rupestre fora de horas,
uma máquina do tempo,
o resultado de um totémico acaso.
Augusto António Cabrita
nunca me interessei muito pela semiologia dos animais surrealistas
prefiro as planícies e as escarpas que dilatam
o seu sangue
a sua reverberação provocante
a sua urina fantasmagórica
e há igualmente as montanhas oceânicas
amantes desses animais sem morada
esquálidos desde o seu batismo sem fé
e há igualmente as cidades tectónicas
onde juntos adormecemos debaixo
de um firmamento de urina
águias
minotauros
Melusinas
bruxas de éter
homens imolados defronte de semáforos intermitentes
marsupiais ébrios
impossibilitados de viajar de comboio
impossibilitados de regressar a uma cidade adiada
o que interessa o significado-significante
a cartografia de um corpo dividido em horários
em créditos por telefone
e em rochedos paranoicos?
esta noite vi-te dançar no ventre de um coreto em pousio
estavas à sombra de uma águia disléxica
uma ave pronta para morrer 100 anos antes
num desenho elíptico de Salvador Dali
é estranho ver os séculos através deste espelho retrovisor
ouvir o frémito das Melusinas
a sonoplastia do teu itinerário alquímico entregue a uma floresta de minotauros
de tentáculos
e eu sentado do outro lado da Terra
possivelmente a menos de oito quilómetros de distância dos teus cabelos de mármore
a fingir-me esfinge
Augusto António Cabrita

sexta-feira, 5 de junho de 2026


 

Josef Koudelka, From the book Diaries book

 









Palavras, actos



A ironia ensina a sabotar uma frase
como se faz a um motor de automóvel:
Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres
no verbo ou numa letra do substantivo
a frase trágica torna-se divertida,
e a divertida, trágica.

Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me,
desde novo, daquilo que ainda hoje receio: transformar
a linguagem num Deus que salve, e cada frase num anjo
portador da verdade. Tirar seriedade ao acto da escrita
aprendi-o na infância, tirar seriedade aos actos da vida
comecei a aprender apenas depois de sair dela, e espero
envelhecer aperfeiçoando esta desilusão.


Gonçalo M. Tavares

nogueiral

''A liberdade que há no capitalismo é a do cão preso de dia e solto à noite.''


Marjane Satrapi (1969 – 2026)

 


 S. Martinho de Anta, 1 de Junho de 1948.

Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?
Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.
Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.
Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres .
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!
Diário IV
Miguel Torga

chaloupe

quarta-feira, 3 de junho de 2026


 

  Eugénio de Andrade, no livro “Poemas de Eugénio de Andrade”. Seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.




 Na morte de Marilyn

Ruy Belo

Morreu a mais bela mulher do mundo
tão bela que não só era assim bela
como mais que chamar-lhe marilyn
devíamos mas era reservar apenas para ela
o seco sóbrio simples nome de mulher
em vez de marilyn dizer mulher
Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu demasiados barbitúricos
uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que tinha errado a vida
ela de quem a vida a bem dizer não era digna
e que exibia vida mesmo quando a suprimia
Não havia no mundo uma mulher mais bela mas
essa mulher um dia dispôs do direito
ao uso e ao abuso de ser bela
e decidiu de vez não mais o ser
nem doravante ser sequer mulher
O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem regresso mais que rosto mar
e toda a confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo mar intensamente condensar
Tomou todos os tubos que tinha e não tinha
e disse à governanta não me acorde amanhã
estou cansada e necessito de dormir
estou cansada e é preciso eu descansar
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão
Era mulher era a mulher mais bela
mas não há coisa alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão é pedra em nosso peito
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
que viam por trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja bela o adjectivo a empregar
que em vez de ver um todo se decida dissecar
analisar partir multiplicar em partes
Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não amavam todo o tempo como que parou
quis ser atá ao fim coisa que mexe coisa viva
um segundo bastou foi só estender a mão
e então o tempo sim foi coisa que passou.
Hoje, passaram 100 anos

Arpad Szenes e Maria Helena Vieira da Silva



'' De quando em vez, gosto de passar pela Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, ali onde Lisboa abranda junto às árvores altas do Jardim das Amoreiras e a tarde parece suspensa num silêncio acolhedor.
Penso em Arpad Szenes e Maria Helena Vieira da Silva no atelier do Boulevard Saint-Jacques, em Paris, fotografados por Willy Maywald em 1949. A Europa ainda trazia fuligem nas paredes e eles pintavam com uma obstinação quase secreta. Não havia heroísmo. Apenas método, exílio, ternura e aquele género de entendimento que dispensa explicações.
Comovem-me certos casais. Comove-me tanto a relação destes pintores. Duas inteligências encerradas no mesmo quarto, protegendo-se do ruído do século com pincéis, cigarros, chávenas esquecidas e a lenta liturgia do trabalho. Neles, a intimidade tinha qualquer coisa de música de câmara: contenção, escuta, precisão.
Talvez seja isso que também permanece naquela Fundação das Amoreiras, diante da fotografia tirada em Paris. Não a celebridade, nem sequer a pintura. Apenas duas pessoas que descobriram uma forma extremamente rara de não interromper a solidão uma da outra.''

Luís Galego



Os Filhos dos Dias

 


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Les cauchemars naissent la nuit (Nightmares Come at Night, 1970) dir. Jesús Franco


''The film follows Anna, a nightclub performer plagued by vivid dreams in which she commits violent crimes. As the boundary between dream and reality becomes increasingly unstable, she finds herself drawn into a web of manipulation, desire, hypnosis, and psychological uncertainty.
Rather than functioning as a conventional thriller, the film unfolds like a fever dream. Narrative logic constantly slips away, replaced by fragmented memories, recurring images, strange encounters, and an atmosphere of permanent disorientation.
At the center, Soledad Miranda delivers one of the most memorable performances of her brief career. Her presence gives the film an emotional and visual magnetism that remains compelling even when the story drifts into abstraction.
The film's greatest strength is its dreamlike atmosphere. Mirrors, empty rooms, nocturnal spaces, and surreal transitions create the feeling of being trapped inside someone else's subconscious. Like many of Franco's most interesting works, it is less concerned with explanation than with mood and sensation.
Beneath the mystery lies a portrait of a woman losing her grip on reality, caught between fantasy, fear, and forces she barely understands. The result is one of the most hypnotic and unusual films in Franco's early 1970s period.''


«(...) A vida é uma espécie de arte. Não corre sobre trilhos certinhos nem é um produto acabado que se encontra em qualquer esquina.»

 Carl G. Jung, no livro “Cartas 1946-1955: carta ao Dr. Allen Gilbert [20.04.1946]”. (Ed. Vozes; 1.ª edição [2002])
“The false choices offered by spectacular abundance – choices based on the juxtaposition of competing yet mutually reinforcing spectacles and of distinct yet interconnected roles (signified and embodied primarily by objects) – develop into struggles between illusory qualities designed to generate fervent allegiance to quantitative trivialities.”
 
Guy Debord


 

Louis Faurer

 




"(...) As bruxas, naturalmente, soltavam o cabelo para lançar feitiços, desencadear tornados e seduzir homens: talvez algumas destas crenças tenham perdurado entre os comentadores culturais masculinos de meados do século XX, contribuindo para a minha reputação de bruxa. Ou a ligação pode vir da década de 1950 e inícios de 1960, altura em que uma mulher que escrevesse qualquer coisa fora das revistas femininas era considerada não só poderosamente anormal, mas também uma louca descontrolada. Ou talvez venha de inícios da década de 1970, quando a linguagem enérgica das mulheres era equiparada a queimar soutiens, arruinar homens e outras atividades pouco femininas. A romancista Margaret Laurence – de uma geração anterior – queixava-se de que, por ter filhos, não era considerada uma escritora séria, mas uma mãe inofensiva que fazia bolos: “Apenas uma dona de casa.” Eu, pelo contrário, via-me a fazer o protesto oposto: quando não voava pelo ar na forma de morcego, declarava que podia fazer um bom bolo de Natal e, ao mesmo tempo, tricotar umas quantas camisolas. Esta é uma dicotomia muito antiga: por um lado, uma mulher a fazer coisas de mulher; por outro, uma escritora séria com uma faca na manga.

“Ela escreve como um homem”, disse um colega poeta a meu respeito, em inícios da década de 1970, com a intenção de fazer um elogio.
“Esqueceste-te da pontuação”, disse-lhe eu. “O que querias dizer era: ‘Ela escreve. Como um homem.’” Respostas deste género davam jeito naquela altura.
Se me lançasse nesta aventura das memórias, refletia eu, poderia escrutinar essas várias imagens, bem como algumas outras que não costumam ser tidas em conta. Serei, no íntimo, a miúda de caracóis e passos de sapateado de 1945? A roqueira de 1955, de crinolina e sapatos de sela? A aplicada aspirante a poeta e contista de 1965? A perturbadora romancista publicada e gestora ocasional de uma quinta de 1975? Ou a versão talvez mais conhecida: a má dactilógrafa que começou A História de Uma Serva em Berlim, tendo-o concluído em Tuscaloosa, no Alabama, e publicado depois, com críticas mistas, em 1985? (...)"

Margaret Atwood em "O livro das minhas vidas"
«Se a escola se satisfaz com a leitura, por parte dos alunos, de um livro de ficção por ano, não podemos depois queixar-nos dos portugueses - com vinte, trinta, quarenta, sessenta anos - lerem pouco. E por isso a discussão deve ser: como conseguimos pôr mais 9-10 autores a serem lidos por ano nas escolas? Como conseguimos pôr os portugueses - quando já na universidade, no mercado de trabalho ou na reforma - a lerem, no mínimo, 11 livros por ano? O que temos de mudar para conseguir isto?»

Gonçalo M. Tavares, na revista SÁBADO



 Vinohradska Avenue. Warsaw Pact troops invasion. Prague, Czechoslovakia. August 1968. 
 Josef Koudelka / Magnum Photos

«O século dos imbecis»

"A hipótese de um homem morrer de burro não seria tão controversa se não fosse evidente o fascínio que multidões revelam pela ignorância, bem mais do que pela maravilha da sabedoria e sensatez."

Valter Hugo Mãe, in «O século dos imbecis»

«(...) Eu achara a minha religião: nada me pareceu mais importante do que um livro. Na biblioteca, eu via um templo.»


 Jean Paul-Sartre, em “As Palavras”. (Cap. I [Ler] / Editora Difusão Européia; 3.ª edição [1967]).

 (...) A terrível solidão dessa natureza desmedida explica muitas coisas neste país.

— Albert Camus, no livro “Diário de Viagem: América do Sul. 5, 6 e 7 de agosto de 1949”. (Trad. Valerie Rumjanek Chaves / Ed. Record; 1.ª edição [2013]).

'Toda a escrita é política. Todos os atos são políticos. »

 Susan Sontag

"possibilidade do impossível. "






''Filósofo da complexidade, ele foi um dos primeiros a nomear a fragilidade do nosso tempo. Mas ele nunca cedeu ao pessimismo. Até o fim, ele acreditava na "possibilidade do impossível. "

Fascinante com rigor e humanidade, Edgar Morin deixa para sempre a marca de um homem que teria amado o mundo o suficiente para querer entendê-lo.''

Documentário "Edgar Morin, diário de uma vida" 


 

 

La Pianiste (The Piano Teacher, 2001) dir. Michael Haneke
''Erika Kohut is a respected piano professor at the Vienna Conservatory, living a life defined by discipline, routine, and emotional restraint. Beneath that controlled surface, however, lies a world of loneliness, frustration, and desires she can neither fully express nor escape. When one of her students, Walter Klemmer, becomes attracted to her, the relationship pushes both characters into increasingly uncomfortable territory.
Based on the novel by Elfriede Jelinek, the film is less interested in scandal than in examining the emotional damage caused by repression, control, and the inability to connect with others.
Isabelle Huppert gives one of the greatest performances of her career. Every gesture, glance, and silence reveals a character constantly at war with herself. Alongside her, Benoît Magimel brings confidence and vulnerability to a role that gradually becomes far more complex than it first appears.
Haneke's direction is precise and unsentimental. There are no easy explanations or comforting conclusions, only a relentless attention to human behaviour and the ways people hurt themselves and others in pursuit of intimacy.
What makes the film so powerful is its refusal to simplify Erika. She is neither victim nor villain, but a deeply contradictory person whose longing for affection collides with years of emotional isolation.
Winner of the Grand Prix at the Cannes Film Festival, where both Huppert and Magimel received acting prizes, The Piano Teacher remains one of the most challenging and unforgettable films of modern European cinema.''


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