domingo, 25 de janeiro de 2026



Amei-vos na cidade onde por solitárias
Estradas assenta o passo enlanguescido
Onde uma terna paz que chove
De noite o coração insaciado e impenitente
Volve a uma ambígua Primavera em violetas
Distantes sobre o céu empalidecido.


De Dino Campana
Tradução de Tomás Sottomayor

Alexandre O'Neill



 

Vejam Bem | Canção de José Afonso

 Vejam bem

Que não há só gaivaotas em terraQuando um homem se põe a pensarQuando um homem se põe a pensar
Quem lá vemDorme à noite ao relento na areiaDorme à noite ao relento no marDorme à noite ao relento no mar
E se houverUma praça de gente maduraE uma estátuaE uma estátua de frebe a arder
Anda alguémPela noite de breu à procuraE não há quem lhe queira valerE não há quem lhe queira valer
Vejam bemDaquele homem a fraca figuraDesbravando os caminhos do pãoDesbravando os caminhos do pão
E se houverUma praça de gente maduraNinguém vem levantá-lo do chãoNinguém vem levantá-lo do chão
Vejam bemQue não há só gaivotas em terraQuando um homemQuando um homem se põe a pensar
Quem lá vemDorme à noite ao relento na areiaDorme à noite ao relento no marDorme à noite ao relento no mar

Erik Satie (Complete Gnossiennes 1 - 7)

 


                                                  Gabriela Spader, as Photographed by David Bellemere

ISABELLE FERREIRA | NOTRE FEU


22 OUT - 02 MAR 2026
Exposição

''Percurso 2

Mão omnipotente de sibila, na procura de um rosto que conhece, fabricando a incógnita. A cor é traço de vida na caminhada. Há vasculuns vazios. O drama é belo e trágico. Sublime manual. Tátil extático. A crepetência da madeira nas montanhas rochosas. Um lugar de situação. Manchas na madeira paralelas, como que segmentadas ao mesmo comprimento, fazendo o painel. Agradeço o cajado. Para nós o vento bule. Ao longe. Retângulos perfeitos, escarpas simuladas. Andar em círculos, em busca do ponto de fuga. As plantas sugeridas são impossíveis em tamanha aridez. É esse o desenraizamento instaurado, que se pretende superar. O fogo apagou-se. Recuperemos o trajeto, com os sapatos possíveis. O vidro sempre opaco, inacessível à transparência. Obras fronteiriças, com obstáculos à saída. Binóculos para a paisagem. Correm rios negros, sonâmbulos, coagulados. Já a brancura agrafa o lugar de cada objeto. O corredor fecha-se. Encosto, sobreposição, fixação. Pariu-se uma pedra, frágil e lascada. Levamo-na no bolso. Chamamos-lhe democracia.''

 

 

Isabelle Ferreira, Par la nuit (la vallée d'Ossau), 2025 (pormenor). Foto: Guillaume Vieira, cortesia Fundação EDP.

 

Então esse leite-creme!


Povo marinheiro,
povo camponês,
um povo inteiro
à espera de vez.


- Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!


Não sei para onde
fugiu a sardinha.
Teu peito que esconde,
ó Mariazinha?


- Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!



Minha preguiceira,
ó santo aconchego!
Dormir como um prego
dorme na madeira...


- Irene! Irene!

Sirva o leite-creme!


Recessos da alma,
ressesos estão...
Só quem fala, fala!
Quem se cala, não...


- Irene! Irene!

Sirva o leite-creme!


Um, dois, três! Meu velho
mostra como é,
obriga o joelho
a dobrar a fé.



- Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!


um deus -calçadeira,
portátil, de bolso,
ou a vida inteira
contra-reembolso?



- Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!



Para abrir, carregue
onde lhe pareça.
Tome uma colher
e morra depressa.


- Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!


Ó Zélia-só-corpo,
história de cordel,
a carne de porco
faz-te mal à pele


- Irene! Ó Irene!
Então esse leite-creme!

Alexandre O'Neill

"Zibaldone". In Poesias Completas, Lisboa, Assírio & Alvim, 2ª ed. 2001. p. 141-142.

 



Isabelle Ferreira, Ker, 2025.
 Exposição: Isabelle Ferreira – Notre Feu, MAAT, Lisboa. 
Foto: Guillaume Vieira, cortesia Fundação EDP.

Alexandre O'Neill | O Poema Pouco Original do Medo

O Poema Pouco Original do Medo

 O medo vai ter tudo

pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
     (assim assim)
escriturários
     (muitos)
intelectuais
     (o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

*

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos


Alexandre O'Neill

''livro inclassificável''

rarefação

 


 Xorieri mintzo zen, mintzo zen errekari
(Falava com os pássaros, falava com o riacho)
Oihaneko zuhaitzeri, ta zeruko izarreri
(Com as árvores da floresta e as estrelas do céu)
Mintzo zen haizeari, xoro batentzat zaukaten
(Falava com o vento, diziam que era louca)
Etzakien irakurtzen gizonen liburutan
(Não sabia ler os livros dos homens)

Xorieri mintzo zen, de Michel Labéguerie

«É IMPOSSÍVEL PENSAR EM PICASSO sem visualizar as mulheres que ele amou, torturou e pintou, como Fernande Olivier, cujos traços distorcidos estão para sempre associados ao início do cubismo, ou Dora Maar, frequentemente retratada chorando, ou Marie-Thérèse Walter, cuja face e corpo foram violentamente retalhados pelo artista durante sua fase surrealista. “Para mim, existem apenas dois tipos de mulheres — deusas e capachos”, disse ele à parceira Françoise Gilot, segundo lembranças dela contidas na autobiografia publicada em 1964, Life with Picasso (Vida com Picasso, em tradução livre, sem edição em português).»


Fonte: https://www.wsj.com/articles/jacqueline-roque-a-polemica-musa-de-picasso-1412963816 

“e que o que é ocultado pode ser ainda mais poderoso do que o que por vezes é revelado”.

 

In Memoriam Amália da Piedade Rodrigues

Portugal (1967) - Fotografia de Augusto Cabrita

Lily (2011 Remastered Version)


"E agora vamos lutar contra os dragões. O primeiro é o ideal de um produto bruto nacional sempre crescente e um sempre mais elevado nível de vida material. Neguemos tal ideal. O que queremos é que o produto nacional seja distribuído com justiça, isto é, com amor, e que a qualidade do nível de vida seja elevada. Como indivíduos podemos escolher ser pobres (não miseráveis com certeza) e recusar-mo-nos a comprar, passando para os outros o que é demasiado para nós. Sejamos pobres e sejamos coisas - repito, ser coisas, não ter coisas.
O segundo dragão é a informação, desde a bisbilhotice e a escola até à imprensa e à televisão. O modo de lutar é dizer a verdade, e somente a verdade, cada vez e em cada coisa, e estarmos prontos a informar quem quer ser informado. Noutras palavras, devemos ser professores de todos que queiram aprender e nunca deixarmos que a nossa inquiridora, ansiosa em aprender e crítica mente adormeça, nunca apoiar erros e mentiras, nunca ficar passiva em confronto com agressões contra a nossa inteligência, o nosso poder de julgar e comparar e o nosso poder criativo. Podemos fazer isto como indivíduos, como pontos com alma.
E eis que chega o terceiro dragão, o pior deles todos - a nossa tendência de pertencer a grupos, de ter um partido político ou uma igreja que pense por nós, de consultar ou seguir professores e gurus, numa palavra, de engolir a vida como criança chupa o leite do biberão. Na realidade nós somos piores, porque no nosso caso o leite já está digerido. Está alerta em relação à dinâmica de grupos e de invenções skinnerianas similares. Tu podes com certeza conviver com os outros, mas nunca seres os outros. Eles podem ser muito bons, mas tu és sempre melhor porque és diferente e o único com as tuas características.
Podes, e deves, ter ideias políticas, mas, por favor, as TUAS ideias políticas, não as ideias do teu partido; o TEU comportamento, não o comportamento dos teus líderes; os interesses de TODA a Humanidade, não os interesses de uma PARTE dela. E lembra-te que "parte" é a etimologia de "partido".
O mesmo se aplica às igrejas, se tens uma religião que não é a principal religião para mais ninguém, como um objecto é principal para todas as palavras que ela possa significar em todas as nossas linguagens. Está de sobreaviso em relação a gurus e outros líderes carismáticos. A atracção pessoal é o seu esconderijo e nada pode ser pior do que ela para a liberdade de actuar e pensar. Se possuis ou estás possuído, então estás perdido. Neste caso só o amor te poderá salvar. E amor é raro, raro e frágil, frágil e rápido."

Agostinho da Silva, OS TRÊS DRAGÕES (Abril de 1972), TEXTOS E ENSAIOS FILOSÓFICOS II, Âncora Editora, 1999, pp. 293 e 294.
Aos meus dias de morte: a chegada da primavera.

Liliana Gonçalves
“I always feel that a man and a woman who do not like the same films will eventually divorce.”

Jean-Luc Godard

 


Don McCullin | Cyprus 1964

 "Que há uma diferença substancial entre empatia e compaixão. A empatia é a capacidade de sentir o que sentem os demais. A compaixão é um estado superior. É ter o compromisso e as ferramentas para aliviar o sofrimento."

Richard Davidson

“A República de Abril ofereceu as liberdades mas esqueceu-se de criar cidadãos”

General Ramalho Eanes

A MORTE

 A morte é uma flor que só abre uma vez.


Paul Celan, Livro ''A Morte é Uma Flor''. Editora Cotovia; 1ª ediação, 1998.

Roda-Viva

                                          

 “Lembro-me de tudo.

A mais longa e dolorosa foi a tortura do sono. Sofri um primeiro longo período de 16 dias e 16 noites, ininterruptamente sem dormir, 16 períodos continuados de 24 horas. Começou no final de um dia e terminou no princípio duma manhã, quando já não me conseguia manter de pé, nem sentada, perdi completamente o equilíbrio (…)Tinha o lavatório onde me afogavam. (..) Outro, anunciado, que veio apenas uma vez para me espancar e espancou sem dizer uma palavra, e sem que eu gritasse, chorasse ou me mexesse, sacudida pelas pancadas, único som que se ouvia naquela cela, apenas parou quando entraram dois outros pides, que o agarraram, arrastando-o para fora. (..) O médico estava a assistir do lado de fora e mandou parar, para que ele não me matasse. Era uma tortura medicamente assistida. Depois de recuperar os sentidos, a tortura continuou nos mesmos moldes e no mesmo sítio porque me recusei a confessar e a denunciar outras pessoas. houve outro período de oito dias seguidos e várias noites intercaladas em privação de sono até completar os três meses que tinham para conseguir as provas que não tinham. Agarrei-me às coisas pequenas, cujo valor só então entendi. Procedi como se não houvesse grades e fosse livre, ou como se eles não estivessem lá. Agarrei o amor a mim própria, àqueles cujo nome nunca diria e à minha dignidade. Cantei. Amassei com as mãos os pedaços de pão, até ficar muito fino e fazia pétalas, com as quais esculpia flores. Um dia disse: prenderam-me o corpo, não me prenderam mais nada. Sei que nunca responderam perante a justiça por aquilo que fizeram e o que me revolta ainda mais é o facto de sermos milhares e milhares de homens e mulheres. Quase todos, gente comum, como eu .’’

AURORA RODRIGUES




 «As árvores seculares
do meu jardim,
em murmúrios de segredo –
falam de mim,
riscando no horizonte
longas figuras de medo…
O silêncio fala
balançando os esguios esqueletos
das árvores desgrenhadas!
Apagaram-se as velas perfumadas
do lampadário da minha sala…
As aves em voos inquietos
passam caladas! (...)»
- “O Anão da Máscara Verde” (excerto)

Judith Teixeira, 1880.

"A morte da empatia humana é um dos primeiros sinais de uma cultura prestes a cair na barbárie."

'' Pourra-t-il continuer de pratiquer à sa guise l’équivalent de ce qu’est l’alpinisme pour le corps, c’est-à-dire s’élever au-dessus des bruits de notre monde, de ce que Simone Weil appelait son « tumulte glacé » ? ''

Fonte: https://www.radiofrance.fr/franceculture/podcasts/la-conversation-scientifique/devrions-nous-faire-plus-attention-a-notre-attention-7586770?at_campaign=Facebook&at_medium=Social_media

ingovernabilidade


Fonte: Jornal Tribuna Alentejo
 

inconfiável

Pessoas sonsas

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

YOU CAN HAVE HIM --NINA SIMONE --(with lyrics)

Tucídides, Havel e a denúncia dos ‘bullies’ da geopolítica: leia na íntegra o discurso viral do primeiro-ministro do Canadá




Mark Carney escreveu um discurso que tem boas possibilidades de resistir ao teste do tempo, na opinião de vários analistas de relações internacionais que esta terça-feira partilharam o texto inteiro nas redes sociais. Foi o próprio governante canadiano que escreveu a prosa, que pode ler abaixo

"É um prazer — e um dever — estar convosco neste momento crucial para o Canadá e para o mundo. Hoje, vou falar sobre a rutura na ordem mundial, o fim de uma bela história e o início de uma realidade brutal, na qual as relações entre grandes potências se fazem sem quaisquer limites à sua atuação.

Mas também quero dizer-vos que os outros países, em particular as chamadas potências médias, como o Canadá, não são impotentes. Têm a capacidade de construir uma nova ordem que incorpore os nossos valores, como o respeito pelos direitos humanos, pelo desenvolvimento sustentável, a solidariedade, a soberania e a integridade territorial dos Estados. O poder dos menos poderosos começa com a honestidade.

Todos os dias alguma coisa nos lembra de que vivemos numa era de rivalidade entre grandes potências, que ordem mundial sustentada por regras está a desvanecer-se e que os fortes fazem o que querem, e os fracos sofrem o que têm de sofrer.

Este aforismo de Tucídides é apresentado como inevitável, apenas a lógica natural das relações internacionais a reassumir-se. E, perante esta lógica, há uma forte tendência para os países se acomodarem, de forma a evitarem problemas. Esperam que essa aceitação lhes traga segurança.

Mas não trará. Então, quais são as nossas opções?

Em 1978, o dissidente checo Václav Havel escreveu um ensaio chamado “O Poder dos Impotentes”. Nele, faz uma pergunta simples: como é que o sistema comunista se sustentava?

A resposta começa com um vendedor de hortaliças. Todas as manhãs, este merceeiro coloca um cartaz na sua montra: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!” Ele não acredita naquilo. Ninguém acredita. Mas coloca o cartaz na mesma, para evitar problemas, para sinalizar conformidade, para se acomodar. E, porque todos os lojistas em todas as ruas fazem o mesmo, o sistema persiste.

Não apenas através da violência, mas através da participação de pessoas comuns em rituais que sabem, no seu íntimo, serem falsos.

Havel chamou a isto “viver dentro da mentira”. O poder do sistema não vem da sua verdade, mas da disposição de todos a representá-lo como se fosse verdade. E a sua fragilidade vem da mesma fonte: quando uma pessoa, uma pessoa que seja, deixa de representar, quando o vendedor de hortaliças retira o seu cartaz, a ilusão começa a quebrar-se.

Está na altura de empresas, países, retirarem os seus cartazes.

Durante décadas, países como o Canadá prosperaram sob aquilo a que chamávamos ordem internacional baseada em regras. Aderimos às suas instituições, elogiámos os seus princípios e beneficiámos da sua previsibilidade. Pudemos implantar políticas externas sob a proteção destas regras.

Sabíamos que a história desta ordem internacional era parcialmente falsa. Que os mais fortes se eximiriam quando lhes fosse conveniente. Que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E que o direito internacional se aplicava com rigor variado, dependendo da identidade do acusado ou da vítima.

Esta ficção foi útil, e a hegemonia americana, em particular, ajudou-nos a ter acesso a rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva, e apoiou organismos que se ocupariam da resolução de conflitos. E foi por isso que colocámos o cartaz na montra. Participámos nos rituais. E evitámos, em boa parte, apontar as lacunas entre retórica e realidade.

Este acordo já não funciona. Deixem-me ser direto: estamos a meio de uma rutura, não de uma transição. Nas últimas duas décadas, uma série de crises nas finanças, saúde, energia e geopolítica revelou os riscos da integração global.

Mais recentemente, as grandes potências começaram a usar a integração económica como arma: tarifas como vantagem negocial, a infraestrutura financeira como coerção, as cadeias de abastecimento como vulnerabilidades a serem exploradas.

Não se pode “viver dentro da mentira” de benefício mútuo através da integração quando a integração se torna a fonte da vossa subordinação.

As instituições multilaterais de que os poderes médios dependiam — a OMC [Organização Mundial do Comércio], a ONU, a COP [Conferência das Partes] — e a arquitetura de resolução coletiva de problemas estão muito diminuídas.

Como resultado, muitos países estão a tirar as mesmas conclusões, que devem desenvolver maior autonomia estratégica: em energia, alimentação, minerais críticos, nas finanças e cadeias de abastecimento. Este impulso é compreensível. Um país que não pode alimentar-se, abastecer-se ou defender-se a si mesmo tem poucas opções. Quando as regras já não vos protegem, é preciso que se protejam a vocês mesmos.

Mas sejamos realistas sobre o lugar onde isto nos leva: a um mundo de fortalezas, mais pobre, mais frágil e menos sustentável.

E há outra verdade: se as grandes potências abandonarem até a aparência de regras e valores pela busca desimpedida do seu poder e dos seus interesses, os ganhos do “transacionalismo” tornam-se mais difíceis de replicar. As potências hegemónicas não podem retirar lucros eternos das suas relações, e os aliados vão diversificar para se protegerem contra a incerteza: contrair seguros, multiplicar opções. E tudo isto traz de volta a soberania, só que é uma soberania que antes estava ancorada em regras, mas que estará, a partir de agora, cada vez mais ancorada na capacidade de resistir à pressão.

Como disse, esta gestão de risco clássica tem um preço, mas esse custo de autonomia estratégica, de soberania, também pode ser partilhado. Investimentos coletivos em resiliência são mais baratos do que a conta de cada um construir a sua própria fortaleza individualmente. Padrões partilhados reduzem a fragmentação, as complementaridades são de soma positiva.

A questão para as potências médias, como o Canadá, não é se devemos adaptar-nos a esta nova realidade. Devemos. A questão é se nos adaptamos simplesmente construindo muros mais altos, ou se podemos fazer algo mais ambicioso. O Canadá esteve entre os primeiros a ouvir o alerta, o que nos levou a modificar fundamentalmente a nossa postura estratégica.

Os canadianos sabem que a antiga e confortável suposição de que a nossa geografia e o nosso sistema de alianças conferiam automaticamente prosperidade e segurança já não é válida.

A nossa nova abordagem assenta no que Alexander Stubb [Presidente da Finlândia] chamou “realismo baseado em valores”, ou, por outras palavras, termos princípios e, ao mesmo tempo, sermos pragmáticos.

Devemos manter o princípio do nosso compromisso com valores fundamentais: soberania e integridade territorial, a proibição do uso da força exceto quando consistente com a Carta da ONU, respeito pelos direitos humanos. E devemos ser pragmáticos ao reconhecermos que o progresso é frequentemente incremental, que os interesses divergem, que nem todos os parceiros partilham os nossos valores. Podemos envolver-nos amplamente, estrategicamente, mas com os olhos abertos. Devemos participar ativamente no mundo com ele é, e não esperar por um mundo como desejamos que seja.

O Canadá está a calibrar as suas relações para que a profundidade das mesmas reflita os seus valores. Estamos a dar mais importância a um envolvimento amplo para maximizar a nossa influência, dada a fluidez da ordem mundial, os riscos que isto representa e o que está em jogo para o que vem a seguir.

Já não estamos dependentes apenas da força dos nossos valores, mas também do valor da nossa força. Estamos a construir essa força em casa.

Desde que o meu Governo tomou posse, cortámos impostos sobre rendimentos, mais-valias e investimento empresarial, removemos todas as barreiras federais ao comércio interprovincial e estamos a acelerar mil milhões de dólares de investimento em energia, inteligência artificial, minerais críticos, novos corredores comerciais e muito mais. Até 2023, vamos duplicar as nossas despesas na Defesa e estamos a fazê-lo de forma a desenvolver as nossas indústrias nacionais.

Estamos também a diversificar no estrangeiro, e recentemente acordámos uma parceria estratégica abrangente com a União Europeia, incluindo a adesão ao SAFE [Ação de Segurança para a Europa], os acordos europeus de aquisição e adjudicação de material de Defesa.

Assinámos outros doze acordos comerciais e de segurança em quatro continentes nos últimos seis meses. Nos últimos dias, concluímos novas parcerias estratégicas com a China e o Catar. Estamos a negociar pactos de comércio livre com a Índia, a ASEAN, a Tailândia, as Filipinas e o Mercosul.

Para ajudar a resolver problemas globais, estamos a prosseguir geometria variável: diferentes coligações para diferentes questões, baseadas em valores e interesses.

Na Ucrânia, somos um membro central da Coligação de Vontades e um dos maiores contribuintes per capita para a defesa e segurança do país.

Sobre a soberania do Ártico, estamos firmemente ao lado da Gronelândia e da Dinamarca e demos pleno apoio ao seu direito de determinar o futuro da Gronelândia. O nosso compromisso com o Artigo 5º é inabalável.

Estamos a trabalhar com os nossos aliados da NATO (incluindo os Nórdicos-Bálticos) para robustecer ainda mais os flancos norte e oeste da aliança, incluindo através dos investimentos sem precedentes em radares de longo alcance, submarinos, aeronaves e tropas no terreno. O Canadá opõe-se fortemente a impostos alfandegários sobre a Gronelândia e apela a conversações focadas em alcançar os nossos objetivos partilhados de segurança e prosperidade para o Ártico.

No comércio plurilateral, estamos a liderar esforços para construir uma ponte entre a Parceria Transpacífica e a União Europeia, criando um novo bloco comercial de 1500 milhões de pessoas.

Nos minerais essenciais, estamos a formar grupos de compradores, ancorados no G7, para que o mundo possa diversificar-se da oferta concentrada.

Na inteligência artificial, estamos a cooperar com democracias para garantir que não seremos forçados a escolher entre empresas hegemónicos e hiperescaladores [fornecedor gere grandes redes de centros de dados, projetados para suportar computação, redes e armazenamento].

Isto não é multilateralismo ingénuo, nem é depender de instituições diminuídas, é construir as coligações que funcionam, questão por questão, com parceiros que partilham terreno comum suficiente para agirem em conjunto. Nalguns casos, será a grande maioria das nações. E é criar um teia densa de ligações através do comércio, investimento, cultura, nas quais nos podemos apoiar para futuros desafios e oportunidades.

As potências médias devem agir em conjunto, porque se não estão à mesa, estão no menu.

As grandes potências podem dar-se ao luxo de agir sozinhas. Têm mercado, capacidade militar, alavancagem para ditar termos. As potências médias não. Mas quando apenas negociamos bilateralmente com uma potência hegemónica, negociamos a partir da fraqueza. Aceitamos o que nos é oferecido. Competimos uns com os outros para sermos os que mais acomodam as suas exigências.

Isto não é soberania. É a representação de soberania enquanto se aceita a subordinação.

Num mundo de rivalidade entre grandes potências, os países no meio têm uma escolha: competir uns com os outros para cair “nas graças” ou unirem-se para criar um terceiro caminho, com impacto.

Não devemos permitir que a ascensão do poder nos cegue para o facto de que o poder da legitimidade, integridade e regras permanecerá forte se escolhermos exercê-lo em conjunto.

O que me traz de volta a Havel.

O que significaria para as potências médias “viver na verdade”?

Significa dizer as coisas como são na realidade. Parem de invocar a “ordem internacional baseada em regras” como se ainda funcionasse conforme anunciado. Chamem ao sistema o que ele é: um período de intensificação de rivalidade entre grandes potências, onde os mais poderosos prosseguem os seus interesses usando a integração económica como arma de coerção.

Significa agir consistentemente. Aplicar os mesmos padrões a aliados e rivais. Quando os poderes médios criticam a intimidação económica quando vem de um lado mas ficam em silêncio quando vem de outro, estamos a manter o cartaz na montra.

Significa construir aquilo em que alegamos acreditar. Em vez de esperar que a velha ordem seja restaurada, criar instituições e acordos que funcionem conforme o que fica escrito.

E significa reduzir a alavancagem que abre espaço à coerção. Construir uma economia doméstica forte deve ser sempre a prioridade de cada governo. A diversificação internacional não é apenas prudência económica; é a fundação material para uma política externa honesta. Os países ganham o direito a posições de princípio ao reduzirem a sua vulnerabilidade a retaliações.

O Canadá tem o que o mundo quer. Somos uma superpotência energética, temos vastas reservas de minerais, temos a população mais instruída do mundo. Os nossos fundos de pensões estão entre os maiores e mais sofisticados investidores do mundo. Temos capital, talento e um Governo com imensa capacidade fiscal para agir decisivamente. E temos os valores aos quais muitos outros aspiram.

O Canadá é uma sociedade plural que funciona, a nossa praça pública é barulhenta, diversa e livre. Os canadianos mantêm-se comprometidos com a sustentabilidade.

Somos um parceiro estável e fiável, num mundo que é tudo menos isso, um parceiro que constrói e valoriza relações a longo prazo.

O Canadá tem algo mais: reconhecemos o que está a acontecer e estamos determinados a agir em conformidade.

Compreendemos que esta rutura exige mais do que adaptação, exige honestidade sobre o mundo como ele é.

Estamos a retirar o cartaz da montra.

A velha ordem não vai voltar. Não devemos lamentá-la. Nostalgia não é uma estratégia. Mas a partir da fratura, podemos construir algo melhor, mais forte e mais justo.Esta é a tarefa dos poderes médios, que têm mais a perder com um mundo de fortalezas e mais a ganhar com um mundo de cooperação genuína.

Os poderosos têm o seu poder. Mas nós também temos algo, a capacidade de parar de fingir, de dizer as coisas como são, de construir a nossa força em nossa casa e de agir em conjunto.

Esse é o caminho do Canadá. Escolhemo-lo aberta e confiantemente.

E é um caminho amplamente aberto a qualquer país disposto a trilhá-lo connosco.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Nobody Loves You (When You're Down And Out)

Um ritmo perdido...



Se uma pausa não é fime silêncio 
nâo é ausência,
se um ramo partido não mata uma árvore,
um amor que é perdido,será acabado?

um ouvido que escuta
uma alma que espera...
-uma onda desfeita
É ou já não era?

Nuvem solitária,
silenciosa e breve,
nuvem transparente,
desenho etéreo de anjo distraído...

nuvem,
esquecida em céu de esperança,
forma irreal de sonho interrompido..

nuvem,
luz e sombra,
forma e movimento,
fantasia breve de ânsia de infinito...


nuvem que foste
e já não és:
desejo formulado e incompreendido.

Ana Hatherly

Ruínas



Pandeiros rôtos e côxas táças de crystal aos pés da muralha.
Heras como Romeus, Julietas as ameias. E o vento toca, em bandolins distantes, surdinas finas de princezas mortas.



Poeiras adormecidas, netas fidalgas de minuetes de mãos esguias e de cabelleiras embranquecidas.


Aquellas ameias cingiram uma noite peccados sem fim; e ainda guardam os segredos dos mudos beijos de muitas noites. E a lua velhinha todas as noites réza a chorar: Era uma vez em tempo antigo um castello de nobres naquelle lugar... E a lua, a contar, pára um instante - tem mêdo do frio dos subterraneos.


Ouvem-se na sala que já nem existe, compassos de danças e rizinhos de sêdas.


Aquellas ruinas são o tumulo sagrado de um beijo adormecido - cartas lacradas com ligas azues de fechos de oiro e armas reais e lizes.


Pobres velhinhas da côr do luar, sem terço nem nada, e sempre a rezar...


Noites de insónia com as galés no mar e a alma nas galés.


Archeiros amordaçados na noite em que o côche era de volta ao palacio pela tapada d'El-rei. Grande caçada na floresta--galgos brancos e Amazonas negras. Cavalleiros vermêlhos e trombêtas de oiro no cimo dos outeiros em busca de dois que faltam.


Uma gondola, ao largo, e um pagem nas areias de lanterna erguida dizendo pela briza o aviso da noite.


O sapato d'Ella desatou-se nas areias, e fôram calça-lo nas furnas onde ninguem vê. Nas areias ficaram as pègadas de um par que se beija.


Noticias da guerra - choros lá dentro, e crépes no brazão. Ardem cirios, serpentinas. Ha mãos postas entre as flôres.


E a torre morêna canta, molenga, dôze vezes a mesma dôr.

Esta Noite Morrerás



Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e aquele que procurar a marca dos teus passos
encontra urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e uma gota de sangue ressequido
é a marca dos teus passos.
No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio
e na casa do tempo a hora é adorno.
Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca
o fim de um eclipse horário de uma partida iminente e o tempo
apaga a marca dos teus passos sobre o meu nome.
Constante.
O mar é isso.
A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
O mar é tu morreste.
O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu par-
tiste e no meu leito crescem folhas sangue.
A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua
e a opacidade do mar.
No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um
prisma, um girassol em panóplia.
Agora a lua chega devagar e o mar é o leito de tu teres
partido, uma infrutescência de eu procurar a marca dos teus
passos por sobre o meu rosto.
A noite é eu procurar a marca dos teus passos.
Esta noite a lua terá um halo de concêntricas florações
de gotas do teu sangue e a irisada sombra do meu leito
é o teu rosto iminente.
A lua é uma seta.
Tu partiste é o silêncio em forma de lança.
Esta noite vou erguer-me do meu leito e quando a lua vier
tocar-me o rosto vou uivar como um lobo.
Vou clamar pelo teu sangue extinto.
Vou desejar a tua carne viva, os teus membros esparsos,
a tua língua solta.
O teu ventre, lua.
Vou gritar e enterrar as unhas nos teus olhos até que
o mar se abra e a lua possa vir tocar-me o rosto.
Esta noite vou arrancar um cabelo e com a tua ausência faço
um pêndulo para interrogar a lua por tu teres partido e a marca
dos teus passos ser a razão mágica de a lua poder surgir de
noite e urtigas crescerem no meu leito.
E se encontrar a marca dos teus passos vou crivar-lhe
o coração de alfinetes para que tu partiste seja a razão
mágica de tu poderes morrer-te.
Quando a lua vier em forma de lança vai trespassar um pássaro
para lhe ler nas entranhas a direcção tu partiste e a marca dos
teus passos consiste nos olhos abertos de um pássaro esventrado.
Ah, mas o luar é uma pluma do meu leito e a lua é o colo de
tu morreste para poderes enfim tocar-me o rosto.



Ana Hatherly

In the Mood for Love, 2000



 

Príncipe



Príncipe:
Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.


São mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me



Ana Hatherly

JP Simões - Inquietação | Um Disco para José Mário Branco (2019)



 Portugal, 1976

Soneto Científico A Fingir


Dar o mote ao amor. Glosar o tema
tantas vezes que assuste o pensamento.
Se for antigo, seja. Mas é belo
e como a arte: nem útil nem moral.


Que me interessa que seja por soneto
em vez de verso ou linha desvastada?
O soneto é antigo? Pois que seja:
também o mundo é e ainda existe.


Só não vejo vantagens pela rima.
Dir-me-ão que é limite: deixa ser.
Se me dobro demais por ser mulher
[esta rimou, mas foi só por acaso]


Se me dobro demais, dizia eu,
não consigo falar-me como devo,
ou seja, na mentira que é o verso,
ou seja, na mentira do que mostro.


E se é soneto coxo, não faz mal.
E se não tem tercetos, paciência:
dar o mote ao amor, glosar o tema,
e depois desviar. Isso é ciência!

Ana Luísa Amaral

“A cultura não existe para enfeitar a vida, a cultura existe para a transformar”

“Há mas são verdes"

 


Kim Gordon - "NOT TODAY"

tremelicoso

sábado, 17 de janeiro de 2026

''A senhora Pusilânime.''

Jogo de enganos

 aqueles que têm nome e nos telefonam 
um dia emagrecem — partem 
deixam­‑nos dobrados ao abandono 
no interior duma dor inútil muda 
voraz


 

«E se a morte te esquecesse?»

 «O suicídio é, com efeito, uma das máscaras que o destino português tem utilizado na sua afirmação universal — e de que foi exemplo emblemático esse suicídio colectivo de rei e aristocracia em Alcácer­‑Quibir, que parece feito quase só com o fim de produzir a lenda do rei Sebastião, o desejado no inconsciente popular de vários séculos e circunstâncias da nossa História»

Nuno Júdice, 1997

heteronímia

 onde está a vida do homem que escreve, a vida da laranja, a 
vida do poema — a Vida, sem mais nada — estará aqui? 
fora das muralhas da cidade? 
no interior do meu corpo? ou muito longe de mim — onde 
sei que possuo uma outra razão… e me suicido na tentativa 
de me transformar em poema e poder, enfim, circular livre‑ 
mente. 


Al Berto, «Prefácio para Um Livro de Poemas»

Nina


Nina, I can see your face,caught up in the song's embraceclphabets of lightning falling from your lipsRaining on your fingertipscny kind of fool could see,you were always meant to beMiracles in moonlight, worshipped from afarBurning like a falling starcnd how were you to know this worldwas so damned hard on beautyFrightened by your lightning songNina, can't you see?You were always beautiful to meCrazy as a loon. In your own cartoonWhat a world those eyes must seeWhen you hit the mark, you stopped my heartThen you'd turn around and grind itright into the ground. I'd find itCradled in the arms of songRight where miracles belongMelody and madness.Sanctity and sadness.c heart at war - nothing moreBut how were you to know this worldwas so damned hard on beautyFrightened by your lightning songNina can't you see?You were always beautiful to me
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