“Lembro-me de tudo.
A mais longa e dolorosa foi a tortura do sono. Sofri um primeiro longo período de 16 dias e 16 noites, ininterruptamente sem dormir, 16 períodos continuados de 24 horas. Começou no final de um dia e terminou no princípio duma manhã, quando já não me conseguia manter de pé, nem sentada, perdi completamente o equilíbrio (…)Tinha o lavatório onde me afogavam. (..) Outro, anunciado, que veio apenas uma vez para me espancar e espancou sem dizer uma palavra, e sem que eu gritasse, chorasse ou me mexesse, sacudida pelas pancadas, único som que se ouvia naquela cela, apenas parou quando entraram dois outros pides, que o agarraram, arrastando-o para fora. (..) O médico estava a assistir do lado de fora e mandou parar, para que ele não me matasse. Era uma tortura medicamente assistida. Depois de recuperar os sentidos, a tortura continuou nos mesmos moldes e no mesmo sítio porque me recusei a confessar e a denunciar outras pessoas. houve outro período de oito dias seguidos e várias noites intercaladas em privação de sono até completar os três meses que tinham para conseguir as provas que não tinham. Agarrei-me às coisas pequenas, cujo valor só então entendi. Procedi como se não houvesse grades e fosse livre, ou como se eles não estivessem lá. Agarrei o amor a mim própria, àqueles cujo nome nunca diria e à minha dignidade. Cantei. Amassei com as mãos os pedaços de pão, até ficar muito fino e fazia pétalas, com as quais esculpia flores. Um dia disse: prenderam-me o corpo, não me prenderam mais nada. Sei que nunca responderam perante a justiça por aquilo que fizeram e o que me revolta ainda mais é o facto de sermos milhares e milhares de homens e mulheres. Quase todos, gente comum, como eu .’’
AURORA RODRIGUES


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