domingo, 25 de janeiro de 2026

Então esse leite-creme!


Povo marinheiro,
povo camponês,
um povo inteiro
à espera de vez.


- Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!


Não sei para onde
fugiu a sardinha.
Teu peito que esconde,
ó Mariazinha?


- Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!



Minha preguiceira,
ó santo aconchego!
Dormir como um prego
dorme na madeira...


- Irene! Irene!

Sirva o leite-creme!


Recessos da alma,
ressesos estão...
Só quem fala, fala!
Quem se cala, não...


- Irene! Irene!

Sirva o leite-creme!


Um, dois, três! Meu velho
mostra como é,
obriga o joelho
a dobrar a fé.



- Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!


um deus -calçadeira,
portátil, de bolso,
ou a vida inteira
contra-reembolso?



- Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!



Para abrir, carregue
onde lhe pareça.
Tome uma colher
e morra depressa.


- Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!


Ó Zélia-só-corpo,
história de cordel,
a carne de porco
faz-te mal à pele


- Irene! Ó Irene!
Então esse leite-creme!

Alexandre O'Neill

"Zibaldone". In Poesias Completas, Lisboa, Assírio & Alvim, 2ª ed. 2001. p. 141-142.

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