Povo marinheiro,
povo camponês,
um povo inteiro
à espera de vez.
- Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!
Não sei para onde
fugiu a sardinha.
Teu peito que esconde,
ó Mariazinha?
- Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!
Minha preguiceira,
ó santo aconchego!
Dormir como um prego
dorme na madeira...
- Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!
Recessos da alma,
ressesos estão...
Só quem fala, fala!
Quem se cala, não...
- Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!
Um, dois, três! Meu velho
mostra como é,
obriga o joelho
a dobrar a fé.
- Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!
um deus -calçadeira,
portátil, de bolso,
ou a vida inteira
contra-reembolso?
- Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!
Para abrir, carregue
onde lhe pareça.
Tome uma colher
e morra depressa.
- Irene! Irene!
Sirva o leite-creme!
Ó Zélia-só-corpo,
história de cordel,
a carne de porco
faz-te mal à pele
- Irene! Ó Irene!
Então esse leite-creme!
Alexandre O'Neill
"Zibaldone". In Poesias Completas, Lisboa, Assírio & Alvim, 2ª ed. 2001. p. 141-142.
"Zibaldone". In Poesias Completas, Lisboa, Assírio & Alvim, 2ª ed. 2001. p. 141-142.

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