''O psicótico não tem consciência crítica.''
Vítor CotovioPsiquiatra
コカインの時間を介しての旅です
''O psicótico não tem consciência crítica.''
Vítor CotovioTudo o que tem de ser dito soletra-se no silêncio
Diz-se que o nosso corpo tem a forma de um abraço. Talvez por isso a tarefa de abraçar seja tão simples, mesmo quando temos de percorrer um longo caminho. O abraço tem uma incrível força expressiva. Comunica a disponibilidade de entrar em relação com os outros, superando o dualismo, fazendo cair armaduras e motivos, cedendo, nem que seja por instantes, na defesa do espaço individual. Há uma tipologia vastíssima de abraços, e cada uma delas ensina alguma coisa sobre aquilo que um abraço pode ser: acolhimento e despedida, congratulação e luto, reconciliação e embalo, afeto ou paixão. Os abraços são a arquitetura íntima da vida, o seu desenho invisível, mas absolutamente presente; são plenitude consentida ao desejo e memória que revitaliza. Todos nos reconhecemos aí: em abraços quotidianos e extraordinários, abraços dramáticos ou transparentes, abraços alagados de lágrimas ou em puro júbilo, abraços de próximos ou de distantes, abraços fraternos ou enamorados, abraços repetidos ou, porventura, naquele único e idealizado abraço que nunca chegou a acontecer mas a que voltamos interiormente vezes sem conta.
No princípio era o abraço, se pensarmos no colo que nos nutriu na primeira infância. Essa foi, para a maioria de nós, a primeira e reconfortante forma de comunicação. Mas a necessidade de um abraço acompanha a nossa existência até ao fim. O abraço é uma longa conversa que acontece sem palavras. Tudo o que tem de ser dito soletra-se no silêncio, e ocorre isto que é tão precioso e afinal tão raro: sem defesas, um coração coloca-se à escuta de outro coração.
“Em teu abraço eu abraço o que existe,
a areia, o tempo, a árvore da chuva.
E tudo vive para que eu viva”, garantem os versos de Neruda.
Calcula-se que um ser humano precise de 1500 abraços por ano para sobreviver. Dá uns quatro abraços por dia. Mas os números podem subir, pois encontram-se instruídos nessa humaníssima ciência chamada abraçoterapia a defender 12. Está também calculado – para quem ache graça à semântica dos números – que a duração média de um abraço entre duas pessoas é de três segundos. Mas há abraços mais demorados. O dos chamados “amantes de Valdaro”, por exemplo, tem pelo menos 6000 anos. Trata-se de dois esqueletos que remontam ao Neolítico, descobertos, há não muito tempo, numa necrópole perto de Mântua. Crê-se que pertenceram a uma mulher e um homem, entre os 18 e os 20 anos. Representam algo de único no mundo, quer pela antiguidade, quer pela posição em que foram encontrados: os corpos vizinhos e cruzados, o braço dele em torno do pescoço dela, numa espécie de abandono que talvez tenha sido o de um amor. Não há sinais de violência e, por isso, exclui-se a hipótese de terem sido mortos. O mais provável é que tenham perecido a uma doença, de fome ou de frio. Há 6000 anos, porém, o seu abraço permanece inalterado.
Um dos momentos mais extraordinários da arte contemporânea portuguesa é a sequência fotográfica, de Helena Almeida, intitulada “O Abraço”. São sete imagens de grandes dimensões (180 x 100 cm) em que a fotógrafa e o marido se abraçam. Apenas isso. Estão ambos sentados num banco que só dá para uma pessoa e apertam-se, agarram-se, suplicam-se, buscando no outro amarra, como se navegassem numa jangada destinada a um naufrágio irremediável. Por vezes o abraço deles parece uma luta, por vezes um reencontro para sempre. Os corpos dão-se a ver numa fragilidade que dói, num equilíbrio mais do que precário, instáveis e tensos como não se julgaria. Mas são, em todo o tempo, o radical abrigo um do outro, a passagem mais do que a fronteira, o interminável espanto de reconhecer no corpo do outro o nosso, no nosso o do outro.
[José Tolentino Mendonça | A Revista Expresso | Edição 2256 | 22/01/16]
«Não sei nada. Duvido de tudo. Desci ao fundo dos fundos, lá onde se confunde a lama com o sangue, as fezes, o pus, o vómito; fui até às entranhas da Besta e não me arrependo. Nada sei do futuro, e o passado quase esqueci. Li muito e foi pior. Conheci gente variada nesta Viagem. Pobre gente: estúpidos de medo, doidos espertalhões, toscos patarecos, foliões e parasitas da Vida, parasitas (os mais criminosos, estes) chulos do próprio talento desperdiçando tudo: as horas do relógio deles e dos outros, e os defeitos de todos, que tudo tem seu calor e seu exemplo; ou frustrados falhados tentando arrastar os mais para o poço onde se deixaram cair por impotência de criar, lazeira ou cobardia (mas o coveiro nada perdoa). Cadáveres adiados fedorentos viciosos de manhas e muito mal mascarados. Uma caca a respirar.»
Clarice Lispector
Homens que são como lugares mal situados
Daniel Faria
Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer — fosse abertura —
E a saudade é tudo ser igual.
"É inútil fazer com mais o que se pode fazer com menos"
''No folclore alemão, encontramos um figura muito interessante chamada Doppelgänger, da junção de doppel (que significa duplo, réplica ou duplicata) e gänger (andante,ambulante ou aquele que vaga). O Doppelgänger possui uma ação inusitada: ele tem a capacidade de reproduzir, de imitar, de agir de forma idêntica a uma pessoa, ou seja, o Doppelgänger é um duplo exato, perfeito.
Na Síndrome do Duplo Subjetivo aparece uma ideia semelhante, de que a pessoa possui um duplo idêntico, porém com a personalidade um pouco diferente ou até uma vida inteira diversa, muitas vezes o duplo pode ser totalmente desconhecido e viver em um país estranho e muitas vezes pode ser ligada a uma pessoa próxima.''
''O nome do delírio vem do neurologista Jules Cotard (1840–1989) que descreveu os sintomas desta doença mental extremamente rara, na qual a pessoa pensa que está morta, não existe ou não possui os órgãos internos de seu corpo. Cotard também nomeou como delírio de negação, le délire des négations.''
Referências
''A Síndrome de Otelo vem, evidentemente, do famoso personagem de Shakespeare. Na peça Otelo, o Mouro de Veneza, o personagem principal tem o pensamento obsessivo de que a sua mulher o está traindo.
Assim, na Síndrome de Otelo a pessoa pensa que o seu parceiro ou parceira está tendo um caso, a despeito de todas as provas e evidências em contrário.
Segundo os especialistas, não se trata de um simples caso de ciúme, embora o ciúme seja o principal sentimento da Síndrome. Como o ciúme se torna um pensamento obsessivo que não cessa, a pessoa portadora passa a realizar todo tipo de comportamento para encontrar a suposta prova da traição: verifica o telemóvel, invade emails, persegue na rua e, em casos extremos, chega à violência física.''
Para ler depois :
''A definição do delírio como o que aparta a pessoa da realidade é também utilizada com um critério especial: a pessoa em delírio não consegue diferenciar o real do delírio, ou seja, não se trata de uma fantasia, de uma criação artística, de uma fuga de ideias. A pessoa realmente acredita que o delírio é real.''
A violência alegadamente cometida numa esquadra, contra pessoas em situação de sem-abrigo, revela um traço profundo da nossa organização social: o silêncio das profissões do cuidado. Profissionais cuja vocação ética é proteger, reparar e escutar — assistentes sociais, psicólogos, sociólogos, advogados, entre outros — quase não se pronunciaram. Nem sequer os comentadores. E este silêncio não é neutro. Ele expõe a forma como determinados corpos são desumanizados e, por isso mesmo, excluídos da esfera de atenção moral.
Estes são os corpos periféricos de que falam Fernandes e Barbosa (2015): “aqueles dos quais emanam signos desvalorizados pelos padrões constituintes da centralidade corpórea”. Não são corpos abstratos; são corpos concretos, vulneráveis, socialmente marcados por estigma, pobreza e abandono.
Ao lermos Eribon, compreendemos que este silêncio é também produto de um regime de mudez política imposto aos marginalizados. Para Eribon (2018), os grupos socialmente desvalorizados falam, mas não são escutados. A ausência de porta-voz transforma a violência sofrida numa experiência sem eco público. No caso das pessoas em situação de sem-abrigo, a violência não convoca indignação imediata porque a sua dor não é reconhecida como politicamente relevante. E quando os profissionais do cuidado não se posicionam, reforçam involuntariamente esta invisibilidade: não se cala apenas o acontecimento, cala-se também o sujeito.
Depois desta notícia, outras violências institucionais se seguiram — contra imigrantes e contra caloiros num quartel — todas marcadas pelos mesmos corpos desautorizados sob o jugo da violência. E nem todos merecem igual reflexão ou comentário: há uma hierarquia silenciosa de corpos periféricos.
A análise de Édouard Louis (2016) ajuda-nos a compreender o que se segue ao ato violento: o trauma institucional. Louis mostra como a violência continua nos procedimentos, nos silêncios, nas omissões e nas interpretações que diminuem o relato da vítima. A dor torna-se um objeto burocrático. Quando a vítima é uma pessoa em situação de sem-abrigo, esta segunda violência é quase inevitável: chega já marcada pelo descrédito, já chega como corpo periférico. A ausência de reação das profissões do cuidado contribui para manter este trauma, porque falha o reconhecimento mais elementar da dignidade ferida.
A perspetiva de Mbembe (2003) amplia esta reflexão. A vulnerabilidade não é distribuída de forma igual: há corpos cuja exposição ao sofrimento é tolerada e naturalizada. Este enquadramento explica, em parte, por que a violência contra pessoas sem-abrigo não provoca uma resposta proporcional das instituições responsáveis pelo cuidado. Estes corpos, já afastados da centralidade, tornam-se facilmente desumanizáveis. Quando a violência incide sobre eles, não se produz escândalo; produz-se silêncio.
É gritante a desproporcionalidade de poder: de um lado, pessoas em extrema vulnerabilidade, marcadas pela carência, exclusão e sobrevivência; do outro, uma autoridade investida de força física, legitimidade institucional e domínio simbólico. Esta assimetria gera condições para que a violência se torne possível: quando um corpo deixa de ser reconhecido como portador de dignidade, o maltrato instala-se como se fosse aceitável.
Daqui emerge um paradoxo difícil de aceitar. Exigimos aos jovens que não filmem agressões, que não reproduzam crimes sexuais, que não transformem a dor alheia em entretenimento. Ensinamos que isso é imoral, que desumaniza, que perpetua a violência. No entanto, o que vemos aqui é precisamente a mesma lógica — exposição, humilhação e controlo sobre o corpo do outro — exercida por quem detém poder e legitimidade institucional. O que é pedido como lição ética aos mais novos deveria ser exigido, com maior rigor, às instituições que têm a responsabilidade de proteger. Quando estas falham, a pedagogia moral da sociedade fragiliza-se: perde-se a coerência entre o que se prega e o que se pratica, e a confiança na justiça fica profundamente abalada.
Assim, o problema não é apenas a violência inicial — é aquilo que ela revela sobre quem merece cuidado. O silêncio das profissões do cuidado não é uma falha individual; é um sintoma estrutural. Significa que estes corpos, já na margem, não são plenamente reconhecidos como parte do “nós”. Enquanto o sofrimento destas pessoas não convocar uma resposta ética imediata, continuaremos a assistir à reprodução da desumanização: a violência cometida e a violência calada.
Marta Borges — Assistente Social
Joaquim Manuel Magalhães / Ana Marchand, 'Ave de Partida', orientação gráfica de Paulo da Costa Domingos, Lisboa, Frenesi, fora do mercado, 1981
Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 97
Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 75
Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 67
Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 63
Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 61
Konstantinos Kaváfis. 145 Poemas. Tradução Manuel Resende. FLOP, Outubro, 2017., p. 25