A violência alegadamente cometida numa esquadra, contra pessoas em situação de sem-abrigo, revela um traço profundo da nossa organização social: o silêncio das profissões do cuidado. Profissionais cuja vocação ética é proteger, reparar e escutar — assistentes sociais, psicólogos, sociólogos, advogados, entre outros — quase não se pronunciaram. Nem sequer os comentadores. E este silêncio não é neutro. Ele expõe a forma como determinados corpos são desumanizados e, por isso mesmo, excluídos da esfera de atenção moral.
Estes são os corpos periféricos de que falam Fernandes e Barbosa (2015): “aqueles dos quais emanam signos desvalorizados pelos padrões constituintes da centralidade corpórea”. Não são corpos abstratos; são corpos concretos, vulneráveis, socialmente marcados por estigma, pobreza e abandono.
Ao lermos Eribon, compreendemos que este silêncio é também produto de um regime de mudez política imposto aos marginalizados. Para Eribon (2018), os grupos socialmente desvalorizados falam, mas não são escutados. A ausência de porta-voz transforma a violência sofrida numa experiência sem eco público. No caso das pessoas em situação de sem-abrigo, a violência não convoca indignação imediata porque a sua dor não é reconhecida como politicamente relevante. E quando os profissionais do cuidado não se posicionam, reforçam involuntariamente esta invisibilidade: não se cala apenas o acontecimento, cala-se também o sujeito.
Depois desta notícia, outras violências institucionais se seguiram — contra imigrantes e contra caloiros num quartel — todas marcadas pelos mesmos corpos desautorizados sob o jugo da violência. E nem todos merecem igual reflexão ou comentário: há uma hierarquia silenciosa de corpos periféricos.
A análise de Édouard Louis (2016) ajuda-nos a compreender o que se segue ao ato violento: o trauma institucional. Louis mostra como a violência continua nos procedimentos, nos silêncios, nas omissões e nas interpretações que diminuem o relato da vítima. A dor torna-se um objeto burocrático. Quando a vítima é uma pessoa em situação de sem-abrigo, esta segunda violência é quase inevitável: chega já marcada pelo descrédito, já chega como corpo periférico. A ausência de reação das profissões do cuidado contribui para manter este trauma, porque falha o reconhecimento mais elementar da dignidade ferida.
A perspetiva de Mbembe (2003) amplia esta reflexão. A vulnerabilidade não é distribuída de forma igual: há corpos cuja exposição ao sofrimento é tolerada e naturalizada. Este enquadramento explica, em parte, por que a violência contra pessoas sem-abrigo não provoca uma resposta proporcional das instituições responsáveis pelo cuidado. Estes corpos, já afastados da centralidade, tornam-se facilmente desumanizáveis. Quando a violência incide sobre eles, não se produz escândalo; produz-se silêncio.
É gritante a desproporcionalidade de poder: de um lado, pessoas em extrema vulnerabilidade, marcadas pela carência, exclusão e sobrevivência; do outro, uma autoridade investida de força física, legitimidade institucional e domínio simbólico. Esta assimetria gera condições para que a violência se torne possível: quando um corpo deixa de ser reconhecido como portador de dignidade, o maltrato instala-se como se fosse aceitável.
Daqui emerge um paradoxo difícil de aceitar. Exigimos aos jovens que não filmem agressões, que não reproduzam crimes sexuais, que não transformem a dor alheia em entretenimento. Ensinamos que isso é imoral, que desumaniza, que perpetua a violência. No entanto, o que vemos aqui é precisamente a mesma lógica — exposição, humilhação e controlo sobre o corpo do outro — exercida por quem detém poder e legitimidade institucional. O que é pedido como lição ética aos mais novos deveria ser exigido, com maior rigor, às instituições que têm a responsabilidade de proteger. Quando estas falham, a pedagogia moral da sociedade fragiliza-se: perde-se a coerência entre o que se prega e o que se pratica, e a confiança na justiça fica profundamente abalada.
Assim, o problema não é apenas a violência inicial — é aquilo que ela revela sobre quem merece cuidado. O silêncio das profissões do cuidado não é uma falha individual; é um sintoma estrutural. Significa que estes corpos, já na margem, não são plenamente reconhecidos como parte do “nós”. Enquanto o sofrimento destas pessoas não convocar uma resposta ética imediata, continuaremos a assistir à reprodução da desumanização: a violência cometida e a violência calada.
Marta Borges — Assistente Social

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