domingo, 4 de outubro de 2026

aviltante

“como tudo é outra coisa”

Minha Cabeça estremece, de Herberto Helder



Minha Cabeça estremece, de Herberto Helder

Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

– Era uma casa – como direi? – absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
– Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.

– Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta – como
direi? – um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

– Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
– Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.

 

 Este Não-Futuro que a Gente Vive


Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros.

Al Berto, in "Entrevista à revista Ler (1989)"

"sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te"

 Al Berto

NÓS OS DOIS AQUI À CHUVA



NÓS OS DOIS AQUI À CHUVA

Novembro é um mês difícil: foi o mês em que morreu a tua mãe e perdemos o cão. A tua mãe a gente esperava mais ou menos, com a idade dela e os diabetes. O médico aconselhou
-- Tomem cuidado com o frio
Aumentamos-lhe os cobertores da cama, arranjaste um xale grosso, compramos um aquecedor eléctrico que empurramos para o lado da poltrona
-- Agora veja lá
reforçamos as canjas, 83 anos são 83 anos, a tua mãe via mal, tropeçou no aquecedor, partiu o osso da perna, na emergência foram avisando logo
-- ISSO DO OSSO DA PERNA VAI SER UM PROBLEMA .
Ainda voltou para casa, cobertores, xailes, e resta-nos a consolação de ter falecido quentinha. Pode parecer estranho mas sem ela a sala aumentou.
Na semana seguinte, o cão.
Não estava velho nem diabético . Eu levava-o a fazer xixi às segundas, quartas e sextas-feiras, tu ocupavas-te da bexiga do animalzinho às terças, quintas e sábados, aos domingos íamos juntos, de braço dado, para uma olhadela às vitrines do bairro, tu com a coleira eu a assobiar-lhe
-- Benfica
Distraimo-nos num estabelecimento de lâmpadas a tentar ver o preço de um lustre
-- Não é o da direita, é o da esquerda, Henrique, numa etiqueta que baloiçava no meio dos pingentes, esquecemos o Benfica por um segundo, a farejar os pneus de um carro parado
Adorava farejar pneus
e a paixão pelos pneus foi a perdição dele: apesar das instruções que lhe dávamos sempre antes de descer as escadas
-- cuidadinho Benfica
quis farejar as rodas de um automóvel por acaso em movimento, ouvimos um estrondozito mole e acabou -se. A tua mãe e o cão, defuntos, possuiam como que um ar de família, chamei-te a atenção ao debroçarmo-nos para o bicho na rua
-- Não dá ares da tua mãe, Irene concordava comigo a assoares desgostos, o dono do automóvel para a gente
-- Eu não tive culpa, eu não tive culpa.
Tu a apontares-lhe o cão
-- Dá ares da minha mãe, sabia?
O do automóvel de boca aberta, e a camioneta do lixo levou-o nessa madrugada.
A sala aumentou ainda mais, e como não temos mais ninguém para passear no bairro, deixamos de olhar as vitrines.
Portanto estamos sozinhos. Há a fotografia da tua mãe na cômoda e a coleira do cão na gaveta, de vez em quando observamos a fotografia ou abrimos a gaveta para tocar na coleira e todavia estamos sozinhos. Ficamos sentados nos lugares do costume , fazes crochê na cadeira de baloiço, finjo que leio o jornal no sofá, um silêncio muito grande entre nós e, com um bocado de sorte, a chuva lá fora.
Ao ouvirmos cair a chuva sobes os olhos do crochê
--Dás pela chuva, Henrique?
subo os olhos do jornal a acenar hum-hum que sim, e ficamos a contemplar a janela onde as gotinhas escorregam, aclaradas de viés pelas lâmpadas do passeio. Pelo menos falamos. Pelo menos disseste
-- dás pela chuva, Henrique?
Pelos menos acenei hum-hum que sim do jornal, pelo menos, por um momento, estivemos acompanhados. Somos pessoas discretas, incapazes de exageros, de conversas, de emoções inúteis. Julgo que foi isso que nos uniu, a timidez e ausência de lágrimas. Ainda bem. Acho que ainda bem para nós. Casamos há 37 anos e nunca discutimos. Para quê? E depois existem momentos assim, a seguir ao jantar, em que principia a chover e nós aqui dentro, em paz, quase felizes. Escrevo quase felizes porque para escrever felizes seria preciso que a chuva fosse tão forte que arrancasse o prédio do lugar e o arrastasse consigo na direcção do Tejo o que , é evidente, não acontecerá nunca.
Talvez seja melhor: o verão, graças a Deus passa num ai, e daqui a nada Novembro de regresso. Perderemos de novo a tua mãe, de novo perderemos o cão. Não tem importância. Como tu me explicaste umas coisas valem por outras e temos o consolo da chuva. Perguntar-me-ás
-- dás pela chuva, Henrique?
Acenaria que sim, e durante um momento, palavra, podia escrever em nome de ambos, eliminando o quase, que nos sentíamos felizes. Sim. HUM- HUM.

ANTÓNIO LOBO ANTUNES
Segundo Livro de Crónicas

Antúrio

Rui Cardoso Martins levou-nos à barra do tribunal e à serra de São Mamede e contou histórias de um convívio criativo com António Lobo Antunes, que os levou muitas vezes a escrever lado a lado, partilhando a mesma mesa. Certa vez, estando ambos postos à prosa, o autor de "Ontem não te vi em Babilónia" interpelou-o: "Diz-me o nome de uma flor." Assim, sem mais. Sem propósito explícito, sem contexto. Uma flor. E Rui pensou numa planta que gosta de meias sombras, um esplendoroso nome que não é de meias tintas: "Antúrio." E no texto de Lobo Antunes floriu um antúrio pedido emprestado na mesa.

Ver aqui.

Seu Jorge & Beck: River Man (Nick Drake)


 

 


Exílio - Lugar do Fumo



Criação de Miguel Moreira, em colaboração com Romeu Runa e Sandra Rosado.


Fundada em 1997, a Útero – Associação Cultural é dirigida artisticamente pelo seu fundador, o encenador, coreógrafo e ator Miguel Moreira. Ao longo de quase três décadas, a Útero consolidou-se como um espaço de investigação, criação e experimentação nas artes performativas contemporâneas, afirmando uma linguagem própria e um pensamento artístico que cruza teatro, dança, performance, artes visuais e música.
Útero (PT)
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