domingo, 11 de outubro de 2026

ROULOTTES DA NOITE DE LISBOA

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 dilui-se o rosto na sulfurosa primavera da noite. uma claridade desprende-se do interior da roulotte, ilumina. atrás de nós a noite é um imenso subterrâneo de treva envenenada. ecoam vozes, passam os últimos autocarros. danço sempre até que a manhã me roube os amantes imaginados, disseste. eis o retrato do noctívago puto: cabelos de sombra húmida pelos ombros, caídos para a testa, escondem o azulíneo do olhar. e a boca estreita como lâminas, a sensual boca donde nasceriam, mais tarde, os cruéis beijos da cidade. tem um risco de luz sobre a pálpebra, e no marfim dos dentes o segredo doutro rapaz. era tarde. envolto na camisa de algodão move-se no meu sonho. ouço um mar do outro lado do seu peito. amanhecia quando enganaste teu pai, fingias esperar o autocarro. vieste comigo e fomos pela sujidade dos néons à procura duma pensão.

Al Berto

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