sábado, 15 de novembro de 2025
Muitas vezes verifiquei que os homens dão pouca importância às palavras. Vou explicar-me. Uma pessoa banal (com banal não quero eu dizer que seja tola, apenas alguém que não é relevante) tem uma ideia qualquer que é de censura a uma instituição ou a uma opinião generalizada; sabe que a grande maioria pensa o contrário e por tal razão cala-se, pensa que não lhe convém falar e argumenta que a discussão não altera nada. É um grande erro. Eu actuo de outra maneira. Censuro, por exemplo, a pena de morte. Quando a ocasião se proporciona declaro-o, não porque esteja convencido de que os Estados vão fazer a sua abolição no dia seguinte, mas por estar convencido de que vou contribuir para o triunfo da minha opinião. É indiferente que ninguém esteja de acordo. As minhas palavras não caem em saco roto. Talvez alguém chegue a repeti-las, e possam ir ter a ouvidos que as oiçam e apoiem. Pode ser que alguém, entre os que não concordam agora, no futuro vá recordá-las em circunstância favorável e, havendo o concurso de outras circunstâncias, se convença ou ponha em dúvida a sua convicção, que lhe é contrária. E o mesmo se passa com outros problemas sociais, e outras coisas em que é sobretudo necessário haver Acção. Reconheço que sou um cobarde e não posso actuar. Limito-me, por isso, a falar. Embora não acredite que as minhas palavras sejam supérfluas. Outro existirá que vai actuar. E as minhas palavras – palavras de um cobarde – vão facilitar-lhe a actuação. Prepara-lhe o terreno.
empregado num estabelecimento
que passem ainda dois ou três meses,
dois ou três meses ainda para que o trabalho abrande,
e assim possa ir para a cidade e todo
se entregar ao bulício e à diversão;
na aldeia aborrecida em que aguarda –
caiu esta noite na cama tomado pelo amor,
abrasada toda a sua juventude na paixão da carne,
numa bela intensidade toda a sua formosa juventude.
E com o sono chegou o prazer; no sono
vê e faz sua a imagem, a carne que desejava…
konstantino kaváfis, 145 poemas
tradução de manuel resende
flop livros
2017
Uma palavra
Ao ouvido de uma jovem
Não quis dizer-te nada.
duas arvorezinhas loucas.
De brisa, de riso e de ouro.
Meneavam-se.
Não quis dizer-te nada.
transversões
poemas reescritos em português
trad. de zetho cunha gonçalves
contracapa
2021
Gazel do amor desesperado
A noite não quer vir
para que tu não venhas,nem eu possa ir.
inda que um sol de lacraus me coma a fronte.
com a língua queimada pela chuva de sal.
para que tu não venhas,
nem eu possa ir.
entregando aos sapos meu mordido cravo.
pelas turvas cloacas da escuridade.
para que por ti morra
e tu morras por mim.
romanceiro gitano e outros poemas
trad. de oscar mendes
editora nova fronteira
1985
terça-feira, 4 de novembro de 2025
segunda-feira, 3 de novembro de 2025
O homem que fugiu
fugiu da leique estrada o vestiu
não sei
Acredito que era
o gémeo
de um pássaro alerta
com a cabeça
a prémio
O homem que fugiu
é meu
se alguém o pariu
devo ter sido
eu
sua amante-mãe
mulher
que inventa o que ele vê
e o fere
O homem que fugiu
ganhou ao jogo
a mão incrustada
com que rouba
o fogo
e vos rasga o sono
em tiras
para que não sonheis
mentiras”
Luiza Neto Jorge, in Poesia, 1960-1989
segunda-feira, 27 de outubro de 2025
quarta-feira, 22 de outubro de 2025
«Vence-me, noite, se és capaz...»
Lídia Jorge. Misericórdia. Publicações D. Quixote. 11ª edição, 2022, p. 13
''Não, a pátria não está acima de tudo.''
“Uma Longa Viagem com José Saramago”, de João Céu e Silva (ed. Porto Editora, 2009)
terça-feira, 21 de outubro de 2025
quinta-feira, 16 de outubro de 2025
Vaiapraia - Ulucrudador
O tímpano em estilhaço
O corpo sem espaço
O espaço do tempo
A cambalhota da palavra
A fúria da greve
Derrete essa paragem
Resta a fome felina
Feita à tua imagem
O inflacionar da inflamação
O lucro da dor em expansão
O x-acto lamina, a tesoura recorta
O tempo fulmina a memória torta
Ecos a rugir, boom, chinfrim
Eu não te consigo ouvir, nem tu a mim
O teu maior sucesso
Foi quem te foi algemar
O teu crânio amassado
Não te deixa imaginar
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Tupperware Furado
Vaiapraia
Kolmi
Vaiapraia
Fogo Fera
Vaiapraia
Sei pra onde quero ir
Sei lá pra onde é que vou
Não me obrigues a dizеr
Quem é que eu sou
Não mе obrigues a dizer quem é que eu sou!
Zeros à direita furam o asfalto
É o dinheiro, é o dinheiro
A falar mais alto
É o dinheiro, é o dinheiro
A falar mais alto
Não te consigo ouvir
(não me consegues ouvir)
Não te consigo ouvir
(não me consegues ouvir)
Não te consigo ouvir
(não me consegues ouvir)
Não te consigo ouvir
(não me consegues ouvir)
Quem é que eu sou
(não me obrigues a dizer)
Quem é que eu sou
(não me obrigues a dizer)
Quem é que eu sou
(não me obrigues a dizer)
Quem é que eu sou
Quem é que eu…
Quem é que eu…
Quero ser um porquinho mealheiro
Faz-me um furo nos cornos e põe lá o dinheiro
Quero ser um porquinho mealheiro
Faz-me um furo nos cornos e põe lá o dinheiro
Quero ser um porquinho mealheiro
Faz-me um furo nos cornos e põe lá o dinheiro
Quero ser um porquinho mealheiro
Faz-me um furo nos cornos e põe lá o dinheiro
Quero ser, quero ser
Quero ser, quero ser
Quero ser, quero ser
Quero ser, quero ser
Quero ser um porquinho mealheiro
Faz-me um furo nos cornos e põe lá o dinheiro
Quero ser um porquinho mealheiro
Faz-me um furo nos cornos e põe lá o dinheiro
Quero ser um porquinho mealheiro
Faz-me um furo nos cornos e põe lá o dinheiro
Quero ser um porquinho mealheiro
Furo nos cornos, lá o dinheiro
Producers
Rodrigo Vaiapraia, Katie O’Neill, Filipe Sambado, canalzero, chica (PRT), April Marmara & Ana Farinha
Writer: Rodrigo Vaiapraia
Released on
May 23, 2025
quarta-feira, 15 de outubro de 2025
A far l’amore comincia tu
Tu tens orgulho na tua ignorância,
eu tenho pudor nas minhas vitórias,
as pessoas são feitas de contradições
são feitas de vários corações,
os corações são amáveis
e na mesma medida inflamáveis,
por isso plantei uma tamareira
a árvore que mais tempo demora a dar frutos,
frutos para o futuro que vejo a arder, por isso,
e porque cortaram os choupos que me viram crescer
ou porque só sei escrever na fronteira da ferida
ou porque não fiz um filho
ou porque como com os olhos e canto com o corpo
ou porque te queria comer e cantar
ou ou ou... ou ou ou... e quase canto,
mas atravessa-se a vidinha
que reduz a vida a esta lamentável falta de tesão,
estamos tão cansados, tão consumidos,
tão consumidores, tão cegos
como toupeiras de nariz de estrela
ou pior, estranhos frutos, como animais de pecuária
olhos que nunca viram a luz do sol, estranhos astronautas,
patas que nunca tocaram o chão
e tento levantar-me do chão,
leio Camões, leio Drummond, leio O’Neill,
voltamos sempre ao primeiro amor,
sinto uma ferida que dói e não se sente,
sinto um contentamento descontente,
sinto uma dor que desatina sem dor,
mas não sinto amor
não se transforma o amador na cousa amada
tenho duas mãos e o todo o sentimento do mundo,
mas não sinto amor,
há homens que me acamam e que eu acamo,
mas não sinto amor.
terça-feira, 14 de outubro de 2025
«Dentro de poucos dias, vou almoçar com senhoras - apenas senhoras. Serei a única senhora do meu sexo presente no repasto, e vou vestir esta toga e ofuscá-las a todas.»
Discursos de Mark Twain. Coleção de Ricardo Araújo Pereira. Tradução e notas de Paulo Faria. Edições Tinta da China, Lisboa, 2019., p. 60''Nasci para ser selvagem.''
Discursos de Mark Twain. Coleção de Ricardo Araújo Pereira. Tradução e notas de Paulo Faria. Edições Tinta da China, Lisboa, 2019., p. 60
''imorredouro de casmurrice''
Discursos de Mark Twain. Coleção de Ricardo Araújo Pereira. Tradução e notas de Paulo Faria. Edições Tinta da China, Lisboa, 2019., p. 50
''bexiga de peixe''
Discursos de Mark Twain. Coleção de Ricardo Araújo Pereira. Tradução e notas de Paulo Faria. Edições Tinta da China, Lisboa, 2019., p. 50
''reparos cáusticos''
Discursos de Mark Twain. Coleção de Ricardo Araújo Pereira. Tradução e notas de Paulo Faria. Edições Tinta da China, Lisboa, 2019., p. 46
Nunca mais estarei tão morto como naquele momento.
«Quando me sentei, o meu coração havia muito cessara de bater. Nunca mais estarei tão morto como naquele momento. Nunca mais me sentirei tão desgraçado como naquele momento.»
Discursos de Mark Twain. Coleção de Ricardo Araújo Pereira. Tradução e notas de Paulo Faria. Edições Tinta da China, Lisboa, 2019., p. 45
domingo, 12 de outubro de 2025
''É sobre gente que acumula erros.''
László Krasznahorkai
“Uma manhã de finais de Outubro, pouco antes de as primeiras bátegas das intermináveis e impiedosas chuvas de Outono começarem cair no solo gretado e salino, a oeste da exploração (procedendo o mar de lama pútrida que tornaria intransitáveis os caminhos vicinais e deixaria inacessível também a cidade até às primeiras geadas), Futaki acordou ao toque dos sinos.”quando tiveres recebido o último aplauso
"Quando o primeiro dos nossos pais morre, termina a infância"
Not Wanted, 1949 (FILM)
Filme de drama americano de 1949
Elmer Clifton e Ida Lupino
''After a beautiful but unsophisticated girl is seduced by a worldly piano player and gives up her out-of-wedlock baby, her guilt compels her to kidnap another child.''
Moralidade
quinta-feira, 9 de outubro de 2025
"Não sei o dia em que nasci. Nem eu, nem ninguém na minha família. Ligaram tão pouca importância ao meu nascimento, era uma família tão grande, que não sabem. Uns diziam que nasci no dia 1 de Julho, outros no dia 12, outros a 4 ou a 14. A minha avô dizia que eu tinha nascido no tempo das cerejas, que vai de Maio a Julho. Então eu escolhi o dia 1 de Julho para fazer anos. Mais tarde, quando tive de tirar papéis para fazer exame, vinha 23 de Julho. Resolvi guardar as duas datas, porque assim sempre podia fazer duas festas de anos"
Amália, Uma Biografia - Vitor Pavão dos Santos, 1987."Se não fosse eu ter tanta força dentro de mim, cheirar com o meu nariz, olhar com os meus olhos, ouvir com os meus ouvidos, se não fosse ter o meu critério tão forte, tinha passado a vida a ceder às pessoas. Isto não, isto é que é, não cante isto, cante aquilo. Mas eu nunca lhes fiz a vontade. Fiz sempre a minha. E foi a única maneira de fazer a vontade a toda a gente. Sempre fui honesta comigo mesma e isso chegou até às outras pessoas."
Amália uma Biografia, de Vítor Pavão dos Santos, 1987




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