quarta-feira, 15 de outubro de 2025

 A far l’amore comincia tu


Tu tens orgulho na tua ignorância,
eu tenho pudor nas minhas vitórias,
as pessoas são feitas de contradições
são feitas de vários corações,
os corações são amáveis
e na mesma medida inflamáveis,
por isso plantei uma tamareira
a árvore que mais tempo demora a dar frutos,
frutos para o futuro que vejo a arder, por isso,
e porque cortaram os choupos que me viram crescer
ou porque só sei escrever na fronteira da ferida
ou porque não fiz um filho
ou porque como com os olhos e canto com o corpo
ou porque te queria comer e cantar
ou ou ou... ou ou ou... e quase canto,
mas atravessa-se a vidinha
que reduz a vida a esta lamentável falta de tesão,
estamos tão cansados, tão consumidos,
tão consumidores, tão cegos
como toupeiras de nariz de estrela
ou pior, estranhos frutos, como animais de pecuária
olhos que nunca viram a luz do sol, estranhos astronautas,
patas que nunca tocaram o chão
e tento levantar-me do chão,
leio Camões, leio Drummond, leio O’Neill,
voltamos sempre ao primeiro amor,
sinto uma ferida que dói e não se sente,
sinto um contentamento descontente,
sinto uma dor que desatina sem dor,
mas não sinto amor
não se transforma o amador na cousa amada
tenho duas mãos e o todo o sentimento do mundo,
mas não sinto amor,
há homens que me acamam e que eu acamo,
mas não sinto amor.

Raquel Serejo Martins

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