segunda-feira, 18 de agosto de 2025
Flatlands | Mark Lanegan
domingo, 17 de agosto de 2025
Soneto da separação
De repente do riso, fez-se o pranto
Silencioso e branco, como a bruma
E das bocas unidas, fez-se a espuma
E das mãos espalmadas, fez-se o espanto
De repente da calma, fez-se o vento
E dos olhos desfez a última chama
E da paixao, fez-se o pressentimento
E do momento imóvel, fez-se o drama
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste, o que se fez amante
E de sozinho, que se fez contente
Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se Davi duma aventura errante
De repente, não mais que de repente
« A Primavera é só um breve interlúdio, atrás da qual marcha um poderoso exército de morte que já cerca os muros da cidade. Vivemos sitiados. Se observássemos de perto cada um dos fragmentos de um instante, poderíamos sufocar de pavor. Nos nossos corpos, avança imparável a decomposição e, em breve, adoeceremos e morreremos. Partem os nossos entes queridos, a sua memória esvanece-se no burburinho e, por fim, nada fica. Somente no guarda-fatos resta alguma roupa e, numa fotografia, permanece alguém que já ninguém reconhece. As recordações mais valiosas esfumam-se. Tudo mergulha na Escuridão e desaparece.»
Olga Tokarczuk. Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 134'' a morte advirá por culpa própria''
Olga Tokarczuk. Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 130
beatas acesas
« Também ouvi dizer que às vezes se enganam e trazem para o ninho beatas acesas, e assim se tornam incendiárias do edifício onde construíram o ninho.»
Olga Tokarczuk. Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 109''Uma Pega - azar; duas Pegas - sorte.''
Olga Tokarczuk. Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 108
Questões de Princípio
Não me exijam
não queiram
não ordenem
não esperem
Maria Teresa Horta
Ser escritora dava muito mau aspeto, não era bem visto.
''Sobretudo, não queria que o seu pai, o médico Jorge Horta, decidisse por si.
Pois, na realidade o que eu não queria mesmo era ser exatamente como as mulheres da minha família… Casavam-se, eram criadas naquela educação de acordo com a qual as mulheres tinham o dever de obedecer. Ser mãe e ser mulher, ou melhor, ser esposa (como eles diziam), eram os papéis principais. E depois, muitas outras coisas por aí adiante, menos… ser escritora. Ser escritora dava muito mau aspeto, não era bem visto. (Maria Teresa Horta)''
Entrevista Revista Visão
https://visao.pt/atualidade/sociedade/2025-02-04-maria-teresa-horta-queria-sempre-qualquer-coisa-que-nao-devia-querer/
“Queria sempre qualquer coisa que não devia querer”
''Fui um problema para a minha família desde muito cedo: eu era sempre qualquer coisa que não devia ser, queria sempre qualquer coisa que não devia querer.''
Maria Teresa Horta
Entrevista, Revista Visão
https://visao.pt/atualidade/sociedade/2025-02-04-maria-teresa-horta-queria-sempre-qualquer-coisa-que-nao-devia-querer/
Ponto de honra
Desassossego a paixão
espaço aberto nos meus braços
Insubordino o amor
desobedeço e desfaço
Desacerto o meu limite
incendeio o tempo todo
Vou traçando o feminino
tomo rasgo e desatino
Contrario o meu destino
digo oposto do que ouço
Evito o que me ensinaram
invento troco disponho
Recuso ser meu avesso
matando aquilo que sonho
Salto ao eixo da quimera
saio voando no gosto
Sou bruxa
Sou feiticeira
Sou poetisa e desato
Escrevo
e cuspo na fogueira
in Inquietude, 2006
Sempre varreu a tristeza para debaixo do tapete, talvez não seja uma mulher asseada, talvez nem seja uma mulher feliz, mas vê tanta desgraça no mundo, que encontra consolo na desgraça alheia, não é bonito de dizer, não diz, mas é um facto, não tem de atravessar o Mediterrâneo num barco de borracha, nem ficou com a casa em escombros depois de um ataque de mísseis, não passa fome, não dorme ao relento, e assim os seus dias passam sem permitir-se um lamento, depois, para lavar o tapete teria de afastar todos os móveis, os móveis e o elefante na sala, só ela vê o elefante na sala, enormíssimos móveis, pesadíssimos móveis, móveis que não escolheu, e voltar pôr os móveis no mesmo lugar, no lugar exacto, no exacto lugar para não deixar à vista as marcas dos móveis no tapete.
Corações de azeite
Natal, Páscoa, Pentecostes, São João, Todos os Santos
e de novo Natal.
Eu cada vez mais velha.
Ramadão, Diwali, Holi, Vesak, Hanukkah, Yom Kippur, Purim
e de novo Natal.
Eu cada vez mais velha.
Estação da chuva, da seca, dos furacões, dos incêndios
e de novo Natal.
Eu cada vez mais velha.
Não importa o berço, importa o corpo,
carne da tua carne, no corpo somos iguais.
Os dias passam, os anos voam, tantas vezes sem cantar
não como os pássaros, mas como as mulheres no Afeganistão
há peixes que nunca nadaram no mar
e desligo a televisão
como se o mundo mudasse por eu clicar um botão
como se o mundo pudesse não ser esta balança imperfeita
como se para o bem de uns fosse indispensável o mal de outros
como se a guerra fosse um acontecimento banal
e com um sorriso triste e gasto de tanto uso penso no poema Reyerta
do meu amado Lorca que não chegou ao Natal.
Señores guardias civiles: aquí pasó lo de siempre.
Han muerto cuatro romanos y cinco cartagineses.
Penso nos seus anjos de longas tranças
y corazones de aceite
e nos novos anjos negros
senhores dos ecrãs e dos bastidores,
novo Natal, novilíngua, asas de pechisbeque,
seres alados falazes, artificiais,
que não passam de fraca imitação dos velhos,
que vão passando apesar dos gritos de não passarão,
e sei do que falo, porque estou cada vez mais velha.
sábado, 2 de agosto de 2025
« Não tinha ainda conhecido um misógino.»
Sylvia Plath. A Campânula de Vidro. Relógio D'Água. Tradução e Posfácio de Mário Avelar, 2016., p. 101
''cinzeiro de barro em forma de folha de nenúfar''
Sylvia Plath. A Campânula de Vidro. Relógio D'Água. Tradução e Posfácio de Mário Avelar, 2016., p. 88
quarta-feira, 30 de julho de 2025
terça-feira, 29 de julho de 2025
domingo, 27 de julho de 2025
Pulp - Tina
terça-feira, 22 de julho de 2025
Eu Quero Morrer no Mar
"PORTUGUÊS" É O ÚNICO IDIOMA EM QUE SE PODE ESCREVER UM TEXTO SÓ COM A LETRA "P".
UMA AZEITONA BORDADA EM AZUL
2024
Fotografia
https://anarrativa.com/uma-azeitona-bordada-em-azul
Os cuidadores também se abatem.
''Atravesso a ponte e vejo uma cidade que se abre em luz oblíqua e calor denso — assim em modo de cenário de “Le Mépris”, de Godard, onde a beleza não impede o colapso, apenas o emoldura.
Hoje, véspera de feriado numa semana já feriada, sou talvez dos poucos que trabalham. No rádio, entre os ecos de um golo e a publicidade de um carro híbrido, alguém murmura - como quem muda de canal num velho gira-discos:
"Os cuidadores informais, esses invisíveis."
A frase (creio que dita por Henrique Raposo, na Renascença) fica-me presa ao peito, como uma nota suspensa na guitarra de Carlos Paredes. Ou como aquele verso de Herberto Helder:
"É que amar é muito mais do que um verbo de ação. É um verbo de risco.".
Em Portugal, estima-se que existam mais de 800 mil cuidadores informais. Cerca de 234 mil vivem em regime intensivo - 24 horas por dia, sete dias por semana.
Sem folgas. Sem rede. Sem futuro certo. Sem luz de cena.
São os que transformam a sala de estar num quarto de hospital, que sabem de cor o nome de cada comprimido, o intervalo entre as crises, a diferença entre um gemido e um suspiro.
São os que adiam a própria vida para manter viva a de outro.
A maioria são mulheres. Como a D. Maria do Carmo, de Vila Real, que cuida do marido há onze anos, desde o AVC. Ele recebe 492 euros de reforma. A dela está suspensa - porque ela própria também está: suspensa entre turnos de afeto e exaustão.
Ou a Ana Luísa, de Alvalade, que interrompe o doutoramento para cuidar da mãe com Alzheimer. Lê Thomas Mann às escondidas do tempo, como quem tenta salvar a lucidez entre uma fralda e uma sopa.
São também histórias como a da D. Maria Emília, que mal consegue sair de casa para ir ao supermercado, porque o tempo que dedica a cuidar do marido com Parkinson não a deixa respirar.
Os homens também contam, embora em menor número.
Tenho um amigo, o Luís Filipe, formado em contabilidade e em gestão de empresas, filho único de filhos únicos, que abdica ainda jovem da sua profissão - e, tantas vezes, da sua vida privada - para cuidar dos pais, ambos com demência.
É ele quem muda pensos, quem gere as contas, quem acalma os delírios noturnos.
Ou o Paulo, que também abandonou o emprego para acompanhar a mãe com cancro, e agora sente a solidão de um dia que nunca acaba.
O Estatuto do Cuidador Informal, aprovado em 2019, foi um passo importante. Mas a realidade ainda tropeça nos degraus do costume:
apoios limitados, candidaturas labirínticas, verbas escassas, desinformação crónica.
Em 2023, apenas 0,9% dos cuidadores estavam formalmente reconhecidos pelo Estado.
A burocracia exige fôlego, paciência e tempo - precisamente o que um cuidador não tem.
Cuidar não é apenas trabalho físico. É uma forma de amor absoluto - e, por vezes, uma violência emocional surda.
Como escrevia Maria Gabriela Llansol:
"Sou o lugar onde pousa a dor dos outros."
E sim, os cuidadores também se abatem.
Dormem pouco. Perdem peso. Perdem amigos. Perdem voz.
Alguns entram em depressão. Outros tomam ansiolíticos para conseguir continuar a dar medicação a quem amam.
Outros ainda adoecem - e calam. Porque, nisto, até o sofrimento se faz em silêncio.
Mas continuam. Porque desistir não é uma opção que o amor permita.
E, no entanto, cuidar talvez seja o último gesto profundamente humano que nos resta.
A antropóloga Margaret Mead dizia que o primeiro sinal de civilização não era a roda — mas um fémur sarado.
Alguém, algures, parou. Cuidou. Ficou.
Talvez um dia este país, que se comove com troféus e lágrimas no pódio, perceba que o verdadeiro heroísmo acontece no anonimato.
Num corredor mal iluminado. Entre uma queda evitada, uma sopa morna, uma chávena de chá.
Talvez um dia os cuidadores tenham salário, descanso, formação, tempo.
Talvez um dia lhes perguntem simplesmente:
"E a senhora, como está?"
Até lá, continuam — invisíveis, sim, mas insubstituíveis - a escrever todos os dias, com gestos minúsculos, a história mais antiga da humanidade:
a de quem fica quando todos os outros já partiram.''
___ Luís Galego
.
''Há, nos usos contemporâneos da linguagem e da convivência, uma forma subtil e quase sempre inconsciente de violência simbólica que se manifesta sob o véu da ternura. Refiro-me à tendência, cada vez mais disseminada, de tratar os mais velhos como criaturas enternecedoras, inofensivas, quase infantis, como se a passagem do tempo operasse não o amadurecimento do sujeito, mas a sua redução a um ser amorfo, simpático e passivo, indigno de plena agência.
A ESCADA E A FORMIGA
À meia-noite
a formiga desce a escadaria do hotel.
Tenta seguir o alongamento de uma linha reta.
Às vezes pára: que labirintos resolverá?
Em cada patamar ela estaciona
de um jeito surpreendente.
Anda pelo degrau como se procurasse
a encosta necessária para suas costas,
e então se precipita como se cantasse.
Está livre de todo compromisso,
mas acha, sem aviso, um pedaço de asa
e corre pra chegar à casa que desconhecemos.
Faz folia em todas as escalas
e depois desce, gabola, até a outra
correndo como se estivesse numa praia.
Está feliz
por dominar a escada.
Sabe que terá sucesso em sua aventura.
O sapato que pode machucá-la
passa raspando, mas lhe deixa
um pedaço de folha de tabaco,
uma pétala machucada,
o sal que faz arder seus olhos dominantes.
É a senhora da escada
e passeou degrau por degrau
com a elegância de uma dama inglesa
que leva o lixo até a esquina,
até o latão verde
com a coroa inglesa
riscada pelos dois leopardos.
José Lezama Lima, «A Escada e a Formiga», tradução de Josely Vianna Baptista e Carlito Azevedo, 'Inimigo Rumor', n.º 1, janeiro-abril de 1997.
distopia
sociedade fictícia caracterizada por condições de vida extremamente negativas (alienantes, totalitárias, etc.), geralmente situada num tempo futuro e concebida com o objetivo de advertir contra os perigos de determinada utopia ou para criticar a ordem social e/ou política existente no momento da sua criação
sábado, 19 de julho de 2025
O amor quando se revela
O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
1928
Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990).
- 92.
Esmola
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi-a de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo-a murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre
Hélia Correia. Acidentes. Editora: Relógio D'Água, 2020
sexta-feira, 18 de julho de 2025
'' Já nos Lusíadas, Camões se queixava que os portugueses não são muito dados às coisas da cultura. Ontem, o primeiro-ministro demonstrou como a classe política, em especial a direita, vê a cultura: um adereço. Hoje, é o fim de muitas publicações que foram compradas num negócio muito mal explicado e que agora coloca no desemprego dezenas de jornalistas. Hoje, um boato no facebook tem mais poder que um trabalho jornalístico sério. Uma influencer que passa os dias a vestir biquínis tem mais seguidores que um escritor, um filósofo, um cientista ou um historiador. A televisão sobrevive da maledicência política e da coscuvilhice dos reality shows, onde se espreita a intimidade dos outros e os conflitos de merda. Às vezes, tenho a sensação que Portugal ainda não saiu da idade média. Não houve renascimento, nem iluminismo, nem revolução industrial, nem modernismo, nada. Ainda não aconteceu nada. Ainda não saímos da pobreza espiritual, do misticismo e da superstição. A ignorância. A inveja. A cobardia. O desinteresse real pelo mundo e pelo conhecimento. A única coisa com que o português se preocupa é com o almoço e o jantar. O que comeu e o que vai comer. Aliás, basta andar nos transportes públicos. Em dez chamadas que toda a gente ouve no autocarro, muitas em alta-voz, a primeira ou segunda pergunta que se faz é sempre: o que comeste ou o que vais comer. Toda uma filosofia bovina e ruminante. É isso que resume o país. É isso. Futebol. Bebida. Comida.''
Vicente Alves do ÓO Corpo
''Manifestar força contra os mais fracos é um sinal de fraqueza”
— Pois claro
quando me olham de sobrancelhas levantadas à espera de concordância e aplauso. Tornei-me um especialista do
— Pois claro''
ANTÓNIO LOBO ANTUNES in, 'Crónicas'
















