domingo, 17 de agosto de 2025

Lides domésticas

Sempre varreu a tristeza para debaixo do tapete, talvez não seja uma mulher asseada, talvez nem seja uma mulher feliz, mas vê tanta desgraça no mundo, que encontra consolo na desgraça alheia, não é bonito de dizer, não diz, mas é um facto, não tem de atravessar o Mediterrâneo num barco de borracha, nem ficou com a casa em escombros depois de um ataque de mísseis, não passa fome, não dorme ao relento, e assim os seus dias passam sem permitir-se um lamento, depois, para lavar o tapete teria de afastar todos os móveis, os móveis e o elefante na sala, só ela vê o elefante na sala, enormíssimos móveis, pesadíssimos móveis, móveis que não escolheu, e voltar pôr os móveis no mesmo lugar, no lugar exacto, no exacto lugar para não deixar à vista as marcas dos móveis no tapete.

Raquel Serejo Martins

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