domingo, 17 de agosto de 2025

 Corações de azeite


Natal, Páscoa, Pentecostes, São João, Todos os Santos
e de novo Natal.
Eu cada vez mais velha.
Ramadão, Diwali, Holi, Vesak, Hanukkah, Yom Kippur, Purim
e de novo Natal.
Eu cada vez mais velha.
Estação da chuva, da seca, dos furacões, dos incêndios
e de novo Natal.
Eu cada vez mais velha.
Não importa o berço, importa o corpo,
carne da tua carne, no corpo somos iguais.
Os dias passam, os anos voam, tantas vezes sem cantar
não como os pássaros, mas como as mulheres no Afeganistão
há peixes que nunca nadaram no mar
e desligo a televisão
como se o mundo mudasse por eu clicar um botão
como se o mundo pudesse não ser esta balança imperfeita
como se para o bem de uns fosse indispensável o mal de outros
como se a guerra fosse um acontecimento banal
e com um sorriso triste e gasto de tanto uso penso no poema Reyerta
do meu amado Lorca que não chegou ao Natal.
Señores guardias civiles: aquí pasó lo de siempre.
Han muerto cuatro romanos y cinco cartagineses.
Penso nos seus anjos de longas tranças
y corazones de aceite
e nos novos anjos negros
senhores dos ecrãs e dos bastidores,
novo Natal, novilíngua, asas de pechisbeque,
seres alados falazes, artificiais,
que não passam de fraca imitação dos velhos,
que vão passando apesar dos gritos de não passarão,
e sei do que falo, porque estou cada vez mais velha.

Raquel Serejo Martins

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