terça-feira, 22 de julho de 2025

 ''Há, nos usos contemporâneos da linguagem e da convivência, uma forma subtil e quase sempre inconsciente de violência simbólica que se manifesta sob o véu da ternura. Refiro-me à tendência, cada vez mais disseminada, de tratar os mais velhos como criaturas enternecedoras, inofensivas, quase infantis, como se a passagem do tempo operasse não o amadurecimento do sujeito, mas a sua redução a um ser amorfo, simpático e passivo, indigno de plena agência.

A minha sogra, que conta hoje com noventa e um anos, é um exemplo raro e luminoso de lucidez, vigor e autonomia. Cozinha diariamente, trata das suas roupas, organiza a sua casa com zelo, acompanha a atualidade, mantém a memória intacta e, mais importante, conserva com limpidez a noção de si. No entanto, numa clínica onde a dada altura realizava sessões de fisioterapia, uma funcionária persistia em tratá-la como “tiazinha”, usando uma tonalidade afetada que se julga afável, mas que tresanda a paternalismo. Interroguei a senhora, num tom cortês, mas inquisitivo, sobre o grau de parentesco que a ligaria à minha sogra. Respondeu, com um sorriso quase indulgente, que gostava muito de velhinhas. A frase, embora à superfície inofensiva, guarda em si a mesma lógica que preside àquelas declarações supostamente elogiosas de quem diz gostar muito de "pessoas de cor", ou de ter "amigos gay", porque são tão “alegres”, tão “engraçados”, tão “boas companhias”. O exotismo do outro, mesmo quando revestido de aparente apreço, nunca deixa de ser uma forma de objetificação.
Recentemente, numa consulta médica, presenciei uma situação ainda mais gritante. Após consultar os excelentes resultados das análises da minha sogra, o médico dirigiu-se exclusivamente a mim e à minha mulher, como se ela própria, sentada diante de nós, fosse já um corpo ausente, uma figura decorativa no cenário da sua própria saúde. Falava dela como quem comenta o estado de um objeto ou a performance de um aparelho doméstico, ignorando por completo que estava a tratar uma mulher lúcida, consciente, informada. Aquilo que deveria ser uma relação entre médico e paciente converteu-se, sem aviso, numa espécie de colóquio entre tutores.
Essa mesma lógica está presente no discurso mediático, onde se nota uma resistência quase patológica em nomear os mais velhos como homens ou mulheres. Um canal de televisão, especializado na estetização do infortúnio, referia-se recentemente a uma senhora de cinquenta e quatro anos como "uma idosa", como se o termo “mulher” já não se lhe aplicasse, como se a partir de certa idade o sujeito se desfizesse da sua individualidade e regressasse a uma vaga categoria antropológica, sem género, sem personalidade, sem história. É a negação da biografia em nome de uma suposta neutralidade higiénica.
Em conversas de ocasião, também se ouve com frequência aquele tom peculiar que muitos adotam ao falar com os mais velhos, um timbre agudo, infantilizado, como se o interlocutor fosse surdo, lento ou intelectualmente diminuído. Perguntam à filha ou ao genro o que a pessoa “gostaria de comer”, estando ela presente. Fazem festas na mão como quem acaricia um animal de estimação. Dizem "tão fofa", "tão querida", "ainda anda sozinha", com o mesmo assombro que dedicariam a um cão que sabe abrir portas. Esta forma de convivência, que à superfície parece meiga e bem-intencionada, é profundamente despersonalizante.
É urgente reconsiderar a forma como nos dirigimos àqueles que viveram mais do que nós. Tratar uma pessoa mais velha com condescendência não é respeitar a sua idade; é negar a sua dignidade. O tempo deve ser um lugar de acumulação, não de apagamento. E há, na forma como falamos dos velhos, um espelho cruel da nossa incapacidade de imaginar o envelhecimento como uma fase legítima da existência humana, rica em presença, em memória, em voz.
A minha sogra não é “uma velhinha”. É uma mulher. Tem nome, tem vontade, tem saber. Foi professora durante muitos anos. Teve milhares de alunos. Alguns ainda lhe telefonam no aniversário ou em épocas festivas. Ela faz o mesmo. E merece ser tratada com o mesmo respeito que qualquer adulto que ainda não chegou à idade dela exige para si. Tudo o resto é polidez de superfície, e a polidez, sem verdade, é apenas outra forma de desprezo.''

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