terça-feira, 22 de julho de 2025

 Os cuidadores também se abatem.


''Atravesso a ponte e vejo uma cidade que se abre em luz oblíqua e calor denso — assim em modo de cenário de “Le Mépris”, de Godard, onde a beleza não impede o colapso, apenas o emoldura.

Hoje, véspera de feriado numa semana já feriada, sou talvez dos poucos que trabalham. No rádio, entre os ecos de um golo e a publicidade de um carro híbrido, alguém murmura - como quem muda de canal num velho gira-discos:
"Os cuidadores informais, esses invisíveis."
A frase (creio que dita por Henrique Raposo, na Renascença) fica-me presa ao peito, como uma nota suspensa na guitarra de Carlos Paredes. Ou como aquele verso de Herberto Helder:
"É que amar é muito mais do que um verbo de ação. É um verbo de risco.".

Em Portugal, estima-se que existam mais de 800 mil cuidadores informais. Cerca de 234 mil vivem em regime intensivo - 24 horas por dia, sete dias por semana.
Sem folgas. Sem rede. Sem futuro certo. Sem luz de cena.
São os que transformam a sala de estar num quarto de hospital, que sabem de cor o nome de cada comprimido, o intervalo entre as crises, a diferença entre um gemido e um suspiro.
São os que adiam a própria vida para manter viva a de outro.

A maioria são mulheres. Como a D. Maria do Carmo, de Vila Real, que cuida do marido há onze anos, desde o AVC. Ele recebe 492 euros de reforma. A dela está suspensa - porque ela própria também está: suspensa entre turnos de afeto e exaustão.
Ou a Ana Luísa, de Alvalade, que interrompe o doutoramento para cuidar da mãe com Alzheimer. Lê Thomas Mann às escondidas do tempo, como quem tenta salvar a lucidez entre uma fralda e uma sopa.
São também histórias como a da D. Maria Emília, que mal consegue sair de casa para ir ao supermercado, porque o tempo que dedica a cuidar do marido com Parkinson não a deixa respirar.
Os homens também contam, embora em menor número.
Tenho um amigo, o Luís Filipe, formado em contabilidade e em gestão de empresas, filho único de filhos únicos, que abdica ainda jovem da sua profissão - e, tantas vezes, da sua vida privada - para cuidar dos pais, ambos com demência.
É ele quem muda pensos, quem gere as contas, quem acalma os delírios noturnos.
Ou o Paulo, que também abandonou o emprego para acompanhar a mãe com cancro, e agora sente a solidão de um dia que nunca acaba.

O Estatuto do Cuidador Informal, aprovado em 2019, foi um passo importante. Mas a realidade ainda tropeça nos degraus do costume:
apoios limitados, candidaturas labirínticas, verbas escassas, desinformação crónica.
Em 2023, apenas 0,9% dos cuidadores estavam formalmente reconhecidos pelo Estado.
A burocracia exige fôlego, paciência e tempo - precisamente o que um cuidador não tem.
Cuidar não é apenas trabalho físico. É uma forma de amor absoluto - e, por vezes, uma violência emocional surda.
Como escrevia Maria Gabriela Llansol:
"Sou o lugar onde pousa a dor dos outros."
E sim, os cuidadores também se abatem.
Dormem pouco. Perdem peso. Perdem amigos. Perdem voz.
Alguns entram em depressão. Outros tomam ansiolíticos para conseguir continuar a dar medicação a quem amam.
Outros ainda adoecem - e calam. Porque, nisto, até o sofrimento se faz em silêncio.
Mas continuam. Porque desistir não é uma opção que o amor permita.

E, no entanto, cuidar talvez seja o último gesto profundamente humano que nos resta.
A antropóloga Margaret Mead dizia que o primeiro sinal de civilização não era a roda — mas um fémur sarado.

Alguém, algures, parou. Cuidou. Ficou.
Talvez um dia este país, que se comove com troféus e lágrimas no pódio, perceba que o verdadeiro heroísmo acontece no anonimato.
Num corredor mal iluminado. Entre uma queda evitada, uma sopa morna, uma chávena de chá.
Talvez um dia os cuidadores tenham salário, descanso, formação, tempo.
Talvez um dia lhes perguntem simplesmente:
"E a senhora, como está?"
Até lá, continuam — invisíveis, sim, mas insubstituíveis - a escrever todos os dias, com gestos minúsculos, a história mais antiga da humanidade:
a de quem fica quando todos os outros já partiram.''

___ Luís Galego
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