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domingo, 4 de outubro de 2026

NÓS OS DOIS AQUI À CHUVA



NÓS OS DOIS AQUI À CHUVA

Novembro é um mês difícil: foi o mês em que morreu a tua mãe e perdemos o cão. A tua mãe a gente esperava mais ou menos, com a idade dela e os diabetes. O médico aconselhou
-- Tomem cuidado com o frio
Aumentamos-lhe os cobertores da cama, arranjaste um xale grosso, compramos um aquecedor eléctrico que empurramos para o lado da poltrona
-- Agora veja lá
reforçamos as canjas, 83 anos são 83 anos, a tua mãe via mal, tropeçou no aquecedor, partiu o osso da perna, na emergência foram avisando logo
-- ISSO DO OSSO DA PERNA VAI SER UM PROBLEMA .
Ainda voltou para casa, cobertores, xailes, e resta-nos a consolação de ter falecido quentinha. Pode parecer estranho mas sem ela a sala aumentou.
Na semana seguinte, o cão.
Não estava velho nem diabético . Eu levava-o a fazer xixi às segundas, quartas e sextas-feiras, tu ocupavas-te da bexiga do animalzinho às terças, quintas e sábados, aos domingos íamos juntos, de braço dado, para uma olhadela às vitrines do bairro, tu com a coleira eu a assobiar-lhe
-- Benfica
Distraimo-nos num estabelecimento de lâmpadas a tentar ver o preço de um lustre
-- Não é o da direita, é o da esquerda, Henrique, numa etiqueta que baloiçava no meio dos pingentes, esquecemos o Benfica por um segundo, a farejar os pneus de um carro parado
Adorava farejar pneus
e a paixão pelos pneus foi a perdição dele: apesar das instruções que lhe dávamos sempre antes de descer as escadas
-- cuidadinho Benfica
quis farejar as rodas de um automóvel por acaso em movimento, ouvimos um estrondozito mole e acabou -se. A tua mãe e o cão, defuntos, possuiam como que um ar de família, chamei-te a atenção ao debroçarmo-nos para o bicho na rua
-- Não dá ares da tua mãe, Irene concordava comigo a assoares desgostos, o dono do automóvel para a gente
-- Eu não tive culpa, eu não tive culpa.
Tu a apontares-lhe o cão
-- Dá ares da minha mãe, sabia?
O do automóvel de boca aberta, e a camioneta do lixo levou-o nessa madrugada.
A sala aumentou ainda mais, e como não temos mais ninguém para passear no bairro, deixamos de olhar as vitrines.
Portanto estamos sozinhos. Há a fotografia da tua mãe na cômoda e a coleira do cão na gaveta, de vez em quando observamos a fotografia ou abrimos a gaveta para tocar na coleira e todavia estamos sozinhos. Ficamos sentados nos lugares do costume , fazes crochê na cadeira de baloiço, finjo que leio o jornal no sofá, um silêncio muito grande entre nós e, com um bocado de sorte, a chuva lá fora.
Ao ouvirmos cair a chuva sobes os olhos do crochê
--Dás pela chuva, Henrique?
subo os olhos do jornal a acenar hum-hum que sim, e ficamos a contemplar a janela onde as gotinhas escorregam, aclaradas de viés pelas lâmpadas do passeio. Pelo menos falamos. Pelo menos disseste
-- dás pela chuva, Henrique?
Pelos menos acenei hum-hum que sim do jornal, pelo menos, por um momento, estivemos acompanhados. Somos pessoas discretas, incapazes de exageros, de conversas, de emoções inúteis. Julgo que foi isso que nos uniu, a timidez e ausência de lágrimas. Ainda bem. Acho que ainda bem para nós. Casamos há 37 anos e nunca discutimos. Para quê? E depois existem momentos assim, a seguir ao jantar, em que principia a chover e nós aqui dentro, em paz, quase felizes. Escrevo quase felizes porque para escrever felizes seria preciso que a chuva fosse tão forte que arrancasse o prédio do lugar e o arrastasse consigo na direcção do Tejo o que , é evidente, não acontecerá nunca.
Talvez seja melhor: o verão, graças a Deus passa num ai, e daqui a nada Novembro de regresso. Perderemos de novo a tua mãe, de novo perderemos o cão. Não tem importância. Como tu me explicaste umas coisas valem por outras e temos o consolo da chuva. Perguntar-me-ás
-- dás pela chuva, Henrique?
Acenaria que sim, e durante um momento, palavra, podia escrever em nome de ambos, eliminando o quase, que nos sentíamos felizes. Sim. HUM- HUM.

ANTÓNIO LOBO ANTUNES
Segundo Livro de Crónicas

 


segunda-feira, 20 de julho de 2026

sexta-feira, 18 de julho de 2025

''Falo pouco. Falo pouco e cada vez falo menos. Em primeiro lugar porque me distraio e esqueço o assunto das conversas e em segundo lugar porque as pessoas não esperam que lhes responda mas que as oiça, o que é fácil se acenar que sim de vez em quando e disser
— Pois claro
quando me olham de sobrancelhas levantadas à espera de concordância e aplauso. Tornei-me um especialista do
— Pois claro''


ANTÓNIO LOBO ANTUNES in, 'Crónicas'

domingo, 29 de novembro de 2020

sábado, 14 de setembro de 2019

'' apenas me preocupa atingir o coração do coração e iluminar tudo.''

 ''Colóquio Internacional apenas me preocupa atingir o coração do coração e iluminar tudo. António Lobo Antunes: 40 Anos de Vida Literária que terá lugar no dia 28 de setembro, entre as 10h00 e as 19h30, no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian.''

sábado, 19 de janeiro de 2019

"Compreendi que a casa estava morta quando os mortos principiaram a morrer. O meu filho Carlos, em criança, julgava que o relógio de parede era o coração do mundo e tive vontade de sorrir por saber há muito que o coração do mundo não estava ali connosco, mas além do pátio e do bosque de sequóias, no cemitério onde no tempo do meu pai enterravam lado a lado os pretos e os brancos do mesmo modo que antes do meu pai, na época do primeiro dono do girassol e do algodão, sepultaram os brancos que passeavam a cavalo e davam ordens e os pretos que trabalharam as lavras neste século e no anterior e no anterior ainda, um rectângulo vedado por muros de cal, o portão aberto à nossa espera com um crucifixo em cima, lousas e lousas sem nenhuma ordem nem datas nem relevos nem nomes no meio do capim, salgueiros que não cresciam, ciprestes secos, um plinto para as despedidas em que os gatos do mato dormiam, enfurecendo-se para nós a proibir-nos a entrada. O autêntico coração das casas eram as ervas sobre as campas ao fim da tarde ou no princípio da noite, dizendo palavras que eu entendia mal por medo de entender, não o vento, não as folhas, vozes que contavam uma história sem sentido de gente e bichos e assassínios e guerra como se segredassem se parar a nossa culpa, nos acusarem, refutando mentiras, que a minha família e a família antes da minha tinham chegado como salteadores e destruído África, o meu pai aconselhava.
- Não ouças".

António Lobo Antunes
, "O Esplendor de Portugal", 1997.

domingo, 28 de outubro de 2018

«Ainda não falámos de O Arquipélago da Insónia (2008).
Não me lembro nada disso. Trata de quê?

Vou-lhe ler uma frase: “Começamos por uma casa, pelo sentimento, uma força em exercício, um poder que vem de há muito tempo, quando essa casa era igual mas era uma herdade, um latifúndio, quando nada faltava — a família, as empregadas na cozinha, o feitor, os campos, a vila ao fundo, e a voz do avô a comandar o mundo. Agora há fotografias no Alentejo em vez de pessoas.”

É bom!

Não se lembrava?
Não.

J.L. — É uma frase muito antuniana.»

Excerto da Entrevista, António Lobo Antunes no Ípsilon, Jornal Público
«E logo depois Explicação dos Pássaros (1981)...
Eu escrevia muito. Não ia a lado nenhum. Tinha uma vida sentimental tormentosa que de sentimentos não tinha nada, porque... porque eu era muito bonito, nem tinha de me mexer. E era estúpido, porque isso depois fazia-me sofrer.

Sofria?
Sofria — porque não estava a ser justo. Estava a usar as mulheres. Não estava a ser honesto.»

Excerto da Entrevista, António Lobo Antunes no Ípsilon, Jornal Público
«Rasgava cartas, destruía romances. Porquê?
Porque rasgo sempre tudo.

Há algum remorso?
Não. Andei dez anos a fazer um romance, antes de ir para África, durante África e depois de África. Foi para o lixo. Não prestava e os outros não prestavam.

Não destruiu Memória de Elefante.
Não. Queria publicar. Era, de certo modo, a celebração de um... Pertenço à classe dos eternos culpabilizados.

Porque diz isso?
Porque tive muitos privilégios e tinha consciência deles. E sempre me censurei atitudes de toda a ordem. Talvez tenha remorso por ter vivido mal e de uma maneira estúpida muitas vezes.

Porquê?
Não sei se era autopunição — porque tive muita sorte, nasci com muitos dons.»

Excerto da Entrevista, António Lobo Antunes no Ípsilon, Jornal Público

O Conhecimento do Inferno

António Lobo Antunes

O Conhecimento do Inferno

António Lobo Antunes

A Última Porta antes da Noite

António Lobo Antunes

sábado, 1 de setembro de 2018

«A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos.»

António Lobo Antunes in Diário de Notícias (2003)

sábado, 20 de janeiro de 2018

“É fácil falar de Literatura porque me estou borrifando para a opinião dos críticos encartados e dos escritores encartados”

domingo, 19 de fevereiro de 2017

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