sexta-feira, 18 de julho de 2025

'' Já nos Lusíadas, Camões se queixava que os portugueses não são muito dados às coisas da cultura. Ontem, o primeiro-ministro demonstrou como a classe política, em especial a direita, vê a cultura: um adereço. Hoje, é o fim de muitas publicações que foram compradas num negócio muito mal explicado e que agora coloca no desemprego dezenas de jornalistas. Hoje, um boato no facebook tem mais poder que um trabalho jornalístico sério. Uma influencer que passa os dias a vestir biquínis tem mais seguidores que um escritor, um filósofo, um cientista ou um historiador. A televisão sobrevive da maledicência política e da coscuvilhice dos reality shows, onde se espreita a intimidade dos outros e os conflitos de merda. Às vezes, tenho a sensação que Portugal ainda não saiu da idade média. Não houve renascimento, nem iluminismo, nem revolução industrial, nem modernismo, nada. Ainda não aconteceu nada. Ainda não saímos da pobreza espiritual, do misticismo e da superstição. A ignorância. A inveja. A cobardia. O desinteresse real pelo mundo e pelo conhecimento. A única coisa com que o português se preocupa é com o almoço e o jantar. O que comeu e o que vai comer. Aliás, basta andar nos transportes públicos. Em dez chamadas que toda a gente ouve no autocarro, muitas em alta-voz, a primeira ou segunda pergunta que se faz é sempre: o que comeste ou o que vais comer. Toda uma filosofia bovina e ruminante. É isso que resume o país. É isso. Futebol. Bebida. Comida.''

Vicente Alves do Ó 
cineasta português



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