domingo, 18 de janeiro de 2026
Um ritmo perdido...
Se uma pausa não é fime silêncio
nâo é ausência,
se um ramo partido não mata uma árvore,
um amor que é perdido,será acabado?
uma alma que espera...
-uma onda desfeita
É ou já não era?
Nuvem solitária,
silenciosa e breve,
nuvem transparente,
desenho etéreo de anjo distraído...
nuvem,
esquecida em céu de esperança,
forma irreal de sonho interrompido..
nuvem,
luz e sombra,
forma e movimento,
fantasia breve de ânsia de infinito...
nuvem que foste
e já não és:
desejo formulado e incompreendido.
Ruínas
Pandeiros rôtos e côxas táças de crystal aos pés da muralha.
Heras como Romeus, Julietas as ameias. E o vento toca, em bandolins distantes, surdinas finas de princezas mortas.
Poeiras adormecidas, netas fidalgas de minuetes de mãos esguias e de cabelleiras embranquecidas.
Aquellas ameias cingiram uma noite peccados sem fim; e ainda guardam os segredos dos mudos beijos de muitas noites. E a lua velhinha todas as noites réza a chorar: Era uma vez em tempo antigo um castello de nobres naquelle lugar... E a lua, a contar, pára um instante - tem mêdo do frio dos subterraneos.
Ouvem-se na sala que já nem existe, compassos de danças e rizinhos de sêdas.
Aquellas ruinas são o tumulo sagrado de um beijo adormecido - cartas lacradas com ligas azues de fechos de oiro e armas reais e lizes.
Pobres velhinhas da côr do luar, sem terço nem nada, e sempre a rezar...
Noites de insónia com as galés no mar e a alma nas galés.
Archeiros amordaçados na noite em que o côche era de volta ao palacio pela tapada d'El-rei. Grande caçada na floresta--galgos brancos e Amazonas negras. Cavalleiros vermêlhos e trombêtas de oiro no cimo dos outeiros em busca de dois que faltam.
Uma gondola, ao largo, e um pagem nas areias de lanterna erguida dizendo pela briza o aviso da noite.
O sapato d'Ella desatou-se nas areias, e fôram calça-lo nas furnas onde ninguem vê. Nas areias ficaram as pègadas de um par que se beija.
Noticias da guerra - choros lá dentro, e crépes no brazão. Ardem cirios, serpentinas. Ha mãos postas entre as flôres.
E a torre morêna canta, molenga, dôze vezes a mesma dôr.
Esta Noite Morrerás
Esta noite morrerás.
terás partido do meu leito
e aquele que procurar a marca dos teus passos
encontra urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e uma gota de sangue ressequido
é a marca dos teus passos.
No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio
e na casa do tempo a hora é adorno.
Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca
o fim de um eclipse horário de uma partida iminente e o tempo
apaga a marca dos teus passos sobre o meu nome.
Constante.
O mar é isso.
A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
O mar é tu morreste.
O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu par-
tiste e no meu leito crescem folhas sangue.
A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua
e a opacidade do mar.
No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um
prisma, um girassol em panóplia.
Agora a lua chega devagar e o mar é o leito de tu teres
partido, uma infrutescência de eu procurar a marca dos teus
passos por sobre o meu rosto.
A noite é eu procurar a marca dos teus passos.
Esta noite a lua terá um halo de concêntricas florações
de gotas do teu sangue e a irisada sombra do meu leito
é o teu rosto iminente.
A lua é uma seta.
Tu partiste é o silêncio em forma de lança.
Esta noite vou erguer-me do meu leito e quando a lua vier
tocar-me o rosto vou uivar como um lobo.
Vou clamar pelo teu sangue extinto.
Vou desejar a tua carne viva, os teus membros esparsos,
a tua língua solta.
O teu ventre, lua.
Vou gritar e enterrar as unhas nos teus olhos até que
o mar se abra e a lua possa vir tocar-me o rosto.
Esta noite vou arrancar um cabelo e com a tua ausência faço
um pêndulo para interrogar a lua por tu teres partido e a marca
dos teus passos ser a razão mágica de a lua poder surgir de
noite e urtigas crescerem no meu leito.
E se encontrar a marca dos teus passos vou crivar-lhe
o coração de alfinetes para que tu partiste seja a razão
mágica de tu poderes morrer-te.
Quando a lua vier em forma de lança vai trespassar um pássaro
para lhe ler nas entranhas a direcção tu partiste e a marca dos
teus passos consiste nos olhos abertos de um pássaro esventrado.
Ah, mas o luar é uma pluma do meu leito e a lua é o colo de
tu morreste para poderes enfim tocar-me o rosto.
Ana Hatherly
Príncipe
Príncipe:
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.
São mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me
Ana Hatherly
Soneto Científico A Fingir
Dar o mote ao amor. Glosar o tema
Se for antigo, seja. Mas é belo
e como a arte: nem útil nem moral.
Que me interessa que seja por soneto
em vez de verso ou linha desvastada?
O soneto é antigo? Pois que seja:
também o mundo é e ainda existe.
Só não vejo vantagens pela rima.
Dir-me-ão que é limite: deixa ser.
Se me dobro demais por ser mulher
[esta rimou, mas foi só por acaso]
Se me dobro demais, dizia eu,
não consigo falar-me como devo,
ou seja, na mentira que é o verso,
ou seja, na mentira do que mostro.
E se é soneto coxo, não faz mal.
E se não tem tercetos, paciência:
dar o mote ao amor, glosar o tema,
e depois desviar. Isso é ciência!
sábado, 17 de janeiro de 2026
«O suicídio é, com efeito, uma das máscaras que o destino português tem utilizado na sua afirmação universal — e de que foi exemplo emblemático esse suicídio colectivo de rei e aristocracia em Alcácer‑Quibir, que parece feito quase só com o fim de produzir a lenda do rei Sebastião, o desejado no inconsciente popular de vários séculos e circunstâncias da nossa História»
Nuno Júdice, 1997
vida do poema — a Vida, sem mais nada — estará aqui?
fora das muralhas da cidade?
no interior do meu corpo? ou muito longe de mim — onde
sei que possuo uma outra razão… e me suicido na tentativa
de me transformar em poema e poder, enfim, circular livre‑
mente.
Al Berto, «Prefácio para Um Livro de Poemas»
Nina
caught up in the song's embrace
clphabets of lightning falling from your lips
Raining on your fingertips
cny kind of fool could see,
you were always meant to be
Miracles in moonlight, worshipped from afar
Burning like a falling star
cnd how were you to know this world
was so damned hard on beauty
Frightened by your lightning song
Nina, can't you see?
You were always beautiful to me
Crazy as a loon. In your own cartoon
What a world those eyes must see
When you hit the mark, you stopped my heart
Then you'd turn around and grind it
right into the ground. I'd find it
Cradled in the arms of song
Right where miracles belong
Melody and madness.
Sanctity and sadness.
c heart at war - nothing more
But how were you to know this world
was so damned hard on beauty
Frightened by your lightning song
Nina can't you see?
You were always beautiful to me
By T. S. Eliot
I. The Burial of the Dead
April is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.
Summer surprised us, coming over the Starnbergersee
With a shower of rain; we stopped in the colonnade,
And went on in sunlight, into the Hofgarten,
And drank coffee, and talked for an hour.
Bin gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.
And when we were children, staying at the archduke’s,
My cousin’s, he took me out on a sled,
And I was frightened. He said, Marie,
Marie, hold on tight. And down we went.
In the mountains, there you feel free.
I read, much of the night, and go south in the winter.
What are the roots that clutch, what branches grow
Out of this stony rubbish? Son of man,
You cannot say, or guess, for you know only
A heap of broken images, where the sun beats,
And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief,
And the dry stone no sound of water. Only
There is shadow under this red rock,
(Come in under the shadow of this red rock),
And I will show you something different from either
Your shadow at morning striding behind you
Or your shadow at evening rising to meet you;
I will show you fear in a handful of dust.
‘You gave me hyacinths first a year ago;
‘They called me the hyacinth girl.’
—Yet when we came back, late, from the Hyacinth garden,
Your arms full, and your hair wet, I could not
Speak, and my eyes failed, I was neither
Living nor dead, and I knew nothing,
Looking into the heart of light, the silence.
Oed’ und leer das Meer.
Madame Sosostris, famous clairvoyante,
Had a bad cold, nevertheless
Is known to be the wisest woman in Europe,
With a wicked pack of cards. Here, said she,
Is your card, the drowned Phoenician Sailor,
(Those are pearls that were his eyes. Look!)
Here is Belladonna, the Lady of the Rocks,
The lady of situations.
Here is the man with three staves, and here the Wheel,
And here is the one-eyed merchant, and this card,
Which is blank, is something he carries on his back,
Which I am forbidden to see. I do not find
The Hanged Man. Fear death by water.
I see crowds of people, walking round in a ring.
Thank you. If you see dear Mrs. Equitone,
Tell her I bring the horoscope myself:
One must be so careful these days.
Unreal City,
Under the brown fog of a winter dawn,
A crowd flowed over London Bridge, so many,
I had not thought death had undone so many.
Sighs, short and infrequent, were exhaled,
And each man fixed his eyes before his feet.
Flowed up the hill and down King William Street,
To where Saint Mary Woolnoth kept the hours
With a dead sound on the final stroke of nine.
There I saw one I knew, and stopped him, crying: 'Stetson!
‘You who were with me in the ships at Mylae!
‘That corpse you planted last year in your garden,
‘Has it begun to sprout? Will it bloom this year?
‘Or has the sudden frost disturbed its bed?
‘Oh keep the Dog far hence, that’s friend to men,
‘Or with his nails he’ll dig it up again!
‘You! hypocrite lecteur!—mon semblable,—mon frère!”
Insanity Comes Quietly To The Structured Mind
Janis Ian
She sits on a window still. Looking down, it's quite a thrill
Imagery, imagining what it is like to be dead
She walks out upon the ledge. Searching for the living end,
She wonders, wondering just what has changed in her head
Looking outward through my pain
Looking through my windowpane
See her face turn into rain
She prepares her face at last. Taking off the piece of glass
Wrapped 'round her eyes
She doesn't cry. She's very young
She's very bright to die
Then so quickly, she stands up. Takes her shoes off in a lump,
She lays them down; lately she has drowned
Checks to see her room is neat. Making sure her clothes are clean,
Dying - death and dirty clothing puts you down
Looking outward through my pain
Looking through my windowpane
See her face turn into rain
Then so quickly she stands up. Crouches low, prepares to jump
Quite properly, pretending she's in gym shooting a basketball
Floating downward through the air. Remembering the state of her hair,
She falls, and nobody hears it at all
Looking outward through my pain
Looking through my windowpane
See her face turn into rain
Yes, dawn coming through the rain, it has washed her mind away
I went ahead and made my bed. Nothing really need be said
But she's dead
You can have it cause I don't want it
If you want it you can have it
I can't take it, I'm falling, I'm calling
Please, please help me, please help me
Angela Aki/Janis Ian
Every woman is a story
Might not always have a happy ending
Every story has a history,
And the past is always worth remembering
To all the women who have gone before me
To all the women who are yet to come
We all have our separate stories
But from a distance, they are one
We are a rainbow of faces,
And a tapestry of songs
We all come from different places in this world
Though we are strangers when we meet,
We are sisters when we're done
We are beauty - we are mystery
We are one
We are every woman's song
Every woman is a journey
We are always right where we belong
Hearts can guide us, hearts can blind us
Still we carry on
So thank you to the mothers
And the daughters of my soul
To all the women I will never know
You have given me a voice that I can call my own
You are beauty - you are mystery
You are one
You are every woman's song
We are a rainbow of faces,
and a tapestry of songs
We all come from different places in this world
Though we are strangers when we meet,
We are sisters when we're done
We are beauty - we are mystery
We are one
We are every woman's song
Miriam Therese Winter/Janis Ian
I am the rays of the rising sun
Snow on the mountains of the moon
The far-flung canopy of stars
The shadows of late afternoon
I am the wisdom of the sage
I am the refuge of all who weep
I am the mother of all who live
I am the promises I keep
I am the one who sits with sorrow
I am the one who feels your pain
I am the hope of your tomorrow
When all is lost, I still remain
I am the one who will remain
I am the seed that longs to bloom
The river yearning for the sea
The heartfelt hope of every womb
I am the faith you place in me
I am the silence and the sound
The gentle rain that breaks the stone
I am the dream of love unbound
I am the way that calls you home
I am the one who sits with sorrow
I am the one who feels your pain
I am the hope of your tomorrow
When all is lost, I will remain
I am the one who will remain
I am the one who sits with sorrow
I am the one who feels your pain
I am the hope of your tomorrow
When all is lost, I will remain
I am the one. I still remain.
You're Too Late
Janis Ian/Kye Fleming
You're too late for my love
You're too late, I can't wait up another night
You can kiss my love goodbye
You're too late, you're too late, you're too late
The clock on the wall keeps ticking
but you don't even try to call
If you think I sit at home
waiting by the phone
Honey, this one time you're wrong
You expect me to be patient
You expect me to be calm
There's a limit to my love
You've already used it up
and I'm already half-past gone
You're too late for my love
You're too late, I can't wait up another night
You can kiss my love goodbye
You're too late, you're too late, you're too late
There's no light shining in my window
There's no key up above my door
I know it's hard to believe
but there's been a change in me
and I don't miss you any more
You're too late for my love
You're too late, I can't wait up another night
You can kiss my love goodbye
You're too late, you're too late, you're too late
Hope you're out there somewhere
with somebody new who'll help you settle down
'cause baby if you're coming back to me
you'll only find I'm not around
You're too late for my love
You're too late, I can't wait up another night
You can kiss my love goodbye
You're too late, you're too late, you're too late
«Todo o santo dia bateram à porta. não abri, não me apetece ver pessoas, ninguém. Escrevi muito, de tarde e pela noite dentro. Curiosamente, hoje, ouve-se o mar como se estivesse dentro de casa. o vento deve estar de feição. a ressonância das vagas contra os rochedos sobressalta-me. Desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela. Sou um homem privilegiado, ouço o mar ao entardecer. que mais posso desejar? E no entanto, não estou alegre nem apaixonado. Nem me parece que esteja feliz. Escrevo com um único fim: salvar o dia.»
Al Berto«Palmilhei capitais europeias. Sonhei nas terras úberes de África os mais puros, os mais ardentes sonhos telúricos. Nasci numa cidade sossegada com pedras do tempo dos romanos e Nossas Senhoras de todos os nomes. E não posso esquecer Paris – a sedução, o charme de Paris, na grandeza dos Campos Elíseos ou nas ruelas cosmopolitas e boémias de Saint-Michel. Tenho de lembrar o perfil dos monumentos de Londres por entre os véus do nevoeiro ou o chuvisco gelad. Tenho também de confrontar Angola com Macau para saber que há sangue e saber que há sono. Mas, acima de tudo, quero encontrar-me comigo.» – Estátua de Sal
Maria Ondina Braga
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
1 - CONTOS DA SÉTIMA ESFERA.
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
''Estes privilegiados das elites que transitam entre conselhos de administração de empresas que vivem de mão estendida para o Estado construíram a economia extrativista e extorcionista que temos. Viveram da dependência estatal. Promoveram a endogamia. Exploraram os que vivem do seu esforço. Pagaram salários de miséria.''
Miguel Prata Roque
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
Josef Koudelka nasceu em 10 de janeiro de 1938 em Boskovice, na região da Moldávia, na Checoslováquia.
E as pessoas estão ausentes dessa felicidade? Fotografa-as cada vez menos…
Em entrevista a Vanessa Rato do jornal Público, em 30 de junho de 2005, aquando da exposição Espelho Meu . Portugal visto por fotógrafos da Magnum / Mirror Mirror . Portugal as seen by Magnum Photographers, apresentada no Centro de Exposições do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, de 1 de julho a 28 de agosto de 2005, comissariada por Alexandra Fonseca Pinho e Andréa Holzherr; Koudelka fala sobre o seu método de trabalho e sobre ‘o que o faz correr’
Josef Koudelka
Josef Koudelka, Henri Cartier-Bresson and his wife Martine Franck_ 1971.
In 1971, renowned Czech photographer Josef Koudelka captured an iconic portrait of two of the most influential photographers of the 20th century, Henri Cartier-Bresson and Martine Franck. The image, a striking moment frozen in time, captures both figures at the height of their creative powers. Cartier-Bresson, often referred to as the father of modern photojournalism, was a master of the "decisive moment," a concept he famously coined, which emphasized capturing fleeting moments that reveal deeper truths about life and human nature.
caserneiro
nome masculino
domingo, 11 de janeiro de 2026
«A partir de "Danação", a obra de Béla Tarr mudou (...) referir-me-ei apenas àquilo que parece ser evidente: a vontade revelada pelos “últimos” filmes do cineasta de traduzir em termos de duração (isto é, em planos sequência) aquilo que os seus “primeiros” filmes haviam procurado articular em termos de espaço (isto é, em planos cerrados). A saber: a asfixia daqueles que vão tentando libertar-se da lei da repetição, encetando movimentos de fuga que, num mundo destituído de horizonte (diz-se que Deus morreu e vê-se que Lenin está morto), os reconduzem inevitavelmente aos seus respectivos pontos de partida.»
domingo, 4 de janeiro de 2026
''Quando Boaventura Sousa Santos foi queimado na praça pública tomei posição pública contra a fogueira, sem conhecer qualquer versão de BSS. E discordando da sua obra, o que fiz sempre publicamente.
Já lá vou ao Manifesto. Não o defendi por ser de "esquerda". Em resumo simplista, BSS é o autor da teoria de que a revolução dos cravos não é uma revolução. Ou seja, é reforma, pressão das massas para ganhar espaço e direitos no aparelho de Estado, e que o seu ápice é a Constituição de 1976 que salda esse pacto capital-trabalho. O centro dos meus estudos foi demonstrar que a revolução é uma revolução (massas auto-organizadas nos seus organismos como comissões/conselhos contra o Estado). E que foi isso que garantiu direitos - assim que os trabalhadores se desorganizaram e se sentaram na concertarão social os direitos minguaram.
BSS acha que o Estado é disputado pelas classes sociais, pela burguesia e pelos trabalhadores, o Estado é árbitro. Eu acho que essa tese não explica a realidade. O Estado é de uma classe, a burguesa, e que as conquistas - Estado Social - que os trabalhadores impõem ao Estado, são apenas resultado de revoluções. O que me interesse no socialismo, como historiadora e como socialista, é como os trabalhadores tomam o poder sem abusarem do poder, essa é a minha pergunta de investigação. Por isso estudo democracia de base nas revoluções. A minha tese remonta à teoria marxista do Estado, a dele está próxima das teses da social democracia depois da I Grande Guerra e do PCP depois de 1930 com as teorias das frentes populares pós Dimitrov.
BSS usou-se da teoria sociológica para defender esta tese. Eu fiz vinte anos de estudos empíricos dos conselhos na revolução dos cravos. Calma, não é auto-elogio - nenhum de nós caiu do céu, são centenas de livros e autores aos ombros dos quais subimos. Mas, reitero, porque faço questão, os meus livros demonstram, os de BSS sobre este tema não demonstram, desenvolvem, com sofisticação, um argumento teórico - o da democracia dentro do Estado. São as teses de BSS que dominam a historiografia da revolução próxima do PCP (Loff) e do PS (Pimentel, Rezola). As suas teses foram centrais para formar o BE e para a Geringonça. Do BE saí em 2005, a Geringonça fui contra, apoiando sindicatos novos que BSS, e vários membros do CES, nas páginas do Público apelidou de movimentos inorgânicos de extrema direita.
Podia seguir o caminho explicando que o "sul global" é mais um conceito decalque do nacionalismo de 1914. Não existe sul global - existem classes sociais no norte e no sul, e existe imperalismo. O mundo não são dois campos.
Espero com isto ter explicado que a obra de BSS para mim não é interessante. É uma obra grande, coletiva, importante, dedicada, sofisticada. Equivocada, do meu ponto de vista.
BSS tem direito inalienável à presunção de inocência, a ser acusado, com julgamento, onde pode ser defendido. A presunção de inocência - que todas as ditaduras eliminam - não diz que beltrano "pode ser inocente ou culpado". Diz que é inocente.
Não assinei de início o Manifesto em sua defesa porque a carta que me chegou - e não foi por ele enviada - , falava da sua obra ilustre, de teses de BSS sobre sociologia etc, epistemologias do sul, e outras teses das quais discordo. A questão é que isso para mim é irrelevante. Podia ser um investigador precário, sem um artigo publicado, e teria de ter os mesmos direitos à defesa. Este Manifesto, que hoje assino publicamente, e que veio a público, é um Manifesto democrático contra a justiça pré capitalista, medieval.
E o que fazer das mulheres vítimas? Dizer que são vítimas é acabar com o princípio da presunção de inocência. É dizer que ele é culpado. É um ataque ao Estado de Direito - que é a única coisa que sobrou das revoluções - direitos políticos e civis elementares. Não, não foram os liberais que os conquistaram, em Portugal não certamente, foram as greves e as revoluções (no nosso livro Breve História de Portugal está lá, cada um deles, demonstrado, com datas).
Não houve julgamento algum para BSS. E que isso se está a tornar o padrão, na academia, com os ventos que sopram dos EUA, a Nova Gestão Pública e a sua progressão gestionária (os lambe botas, tantos de esquerda como de direita), e o desejo das ILs e Chegas deste mundo começarem a despedir funcionários públicos e acabar com a liberdade de cátedra.
Que cientistas tenham tido qualquer complacência com este processo medieval diz muito do estado da Academia. Por isso este Manifesto assinado por tantos é tão importante como esfera pública.
Digo mais - se ele um dia tivesse julgamento e fosse considerado culpado, eu seria contra o seu cancelamento. Cancelar livros, ideias, tudo isto é um caldo semi fascista, a que parte da esquerda aderiu.
Irene Pimentel passou parte da sua vida defendendo o regime Israelita e o sionismo e a sua obra sobre o Estado Novo é importante. Vamos queimar os seus livros? Pacheco Pereira foi defensor da invasão do Iraque, um crime que custou milhões de vidas e para a qual milhares de opinadores públicos como PP contribuíram. Vamos deixar de usar esse arquivo sublime - Ephemera - que ele construiu? Eu aderi ao boicote a Israel, recusei-me a dar aulas nesse país - onde seria muito bem paga e era precária - perdi a conta aos meus colegas de esquerda, e claro de centro e direita, que aceitam os generosos convites de Israel, com gosto. Vamos tirar os seus livros das Universidades? Não janto com eles, há limites, mas não posso pedir que os seus livros sejam tirados das prateleiras.
O mais importante de tudo isto é a concepção autoritária que está em quem diz defender as mulheres. A ideia de que se salvam mulheres do assédio com denúncias anónimas, penas pesadas, perseguições, leis duras. Assistimos a manter-se a violação como crime sujeito a penas leves e ao mesmo tempo ao assédio ser o crime mais penalizado do mundo. Já se perguntaram porquê? Porque as mulheres violadas são da classe trabalhadora ou são-no dentro da família, e aí a direita (e a Igreja) não entram. Já a acusação de assédio é a porta dos directores e colegas para dominarem pelo medo as Universidades. Não há uma política da UE, uma, sobre violações de mulheres (onde aí sim defendo penas muito mais pesadas) depois de turnos nocturnos a caminho da sua casa na periferia, mas há a imposição da denúncia anónima por assédio nos serviços públicos. Ninguém quer proteger as mulheres, querem que todos tenhamos medo dos bufos.
Metade dos homens que matam mulheres matam-se. É a pena máxima. Aumentar penas não protege as vitimas de violência doméstica. Eles matam-se a seguir.
Quem acha que é no caldo moralista e punitivo que se resolvem os problemas sociais, contribuindo para que as pessoas cada vez menos tenham relações de amizade ou amor ou sexo, se abracem sequer; tenham medo umas das outras no trabalho, desconfiem umas das outras. Muita moral, muita punição e o mundo será um lugar perfeito...É a proposta política da Igreja, da direita e desta parte da esquerda académica, que adora a palavra denúncia. É o Maio de 68 ao contrário.
Empregos seguros, carreiras para todos, com acesso igual, concursos realmente públicos (de portas abertas), casa para todos, cada família ter o seu espaço e não amontoados, filhos a viver com pais em adultos é um absurdo; horários de trabalho decentes, muita cultura, muita literatura, um teatro, casa de convívio em cada bairro para os jovens crescerem em comunidade. Tudo isso ia diminuir drasticamente o assédio, a violência e - o pior de tudo -, a violação. Mas para estes novos inquisidores o Estado, com uma lei, um tribunal e um polícia atrás de cada mulher, vai resolver tudo.
Não sei se sabem que toda a luta pela igualdade foi para nos livrar do pai, do padre, do patrão, do Estado e do polícia.
Que Boaventura seja lido, debatido, convidado, que discordem dele abertamente (coisa que durante anos não fizeram, ajoelhando-se às suas teorias) e que - se cometeu um crime -seja julgado. Isto - este purgatório em que o colocaram - não é justiça, não é nada. Não protege as mulheres, porque enquanto não existirem carreiras, empregos seguros, casas, as mulheres vão estar desprotegidas. E as penas só servem para as desproteger mais, dar mais poder ao Estado, mais leis e mais vigilância, mais polícia vai-se voltar contra as mulheres, mais do que contra os homens.''
Raquel Varela
«Estava noite de luar. Um luar brando de Outono que vestia as coisas de penumbra triste. Piscavam luzes na outra margem, dispersas aqui e além, mais ali reunidas, como num concílio de estrelas. Eram constelações de vidas, todas iguais vistas de longe. A luz que iluminava o senhor não brilhava mais do que a outra que alumiava o servo. Ali não havia casebres, nem palácios. Todas eram irmãs, como as estrelas da Estrada de Santiago que polvilhavam de oiro o azul-negro.»
António Alves Redol
Albert Camus
para Nuno Dempster, in memoriam
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
Uma miúda de Ezra Pound
A árvore entrou-me nas mãos,
A seiva subiu-me pelos braços,
A árvore cresceu no meu peito –
Para baixo,
Os ramos brotam de mim, como braços.
És árvore,
És musgo,
Violetas com o vento sobre elas.
Uma criança – tão alto – estás,
E tudo isto é loucura para o mundo.
Tradução de Tomás Sottomayor
O PRINCÍPIO DO INVERNO
O frio. Uma palavra diz toda
A extensão dos campos pela manhã,
As suas sombras. Uma palavra cobre
Os telhados das casas antigas, escapando
Ao brilho. Fecham-se com vagar
As portas que dão para a rua, fecham-se
As mãos. Pouco a pouco, os braços
E os outros membros paralisam,
Definham de dentro para fora,
Ficam parados, atrofiam. Ao ouvido
Chega a réstia das vozes, chega
O vago murmúrio de longe. A pele fica
Limpa apenas ao contacto com o ar,
Na ausência de calor reduzem-se as criaturas
À sua pureza, assemelhando-se a pedras,
Simples presença mineral, gelada,
Fixa. E chove. As trevas chegam com a água.
O incómodo obriga à clausura, mas
O mundo é vasto. Tudo converge para a morte,
Para a putrefacção, enquanto momento
De um ciclo. E cada vida se recolhe em si mesma
Sem que pareça resistir. Não resiste mesmo,
Extinguem-se em seus sinais, uma a uma,
As manifestações de sensualidade, os movimentos,
A oscilação dos fluidos dentro dos corpos.
E fora os elementos soltam-se, libertam-se
Na sua violência e anulam a capacidade
De resistência. O que é sombra conflui
No texto, reveste a paisagem, entranha-se
Nos sons pronunciados no poema.
(in Cidade NUA, N.º 2, Dezembro de 2016)

















