domingo, 11 de maio de 2025

 "[...]Pensar e fumar são duas operações idênticas que consistem em atirar pequenas nuvens ao vento [...]''

Eça de Queirós in 'A Correspondência de Fradique Mendes '

Rubén Stella y Licia Tizziani en El general y la fiebre


 

Drinking Age

 DA LÍNGUA DA MINHA PÁTRIA


Da língua da minha
pátria
vê-se o feminino

das palavras da escrita
tinta e pena
onde navegam os versos

e a saudade

as lágrimas salgadas
de um poema

Maria Teresa Horta

 ''Um país estagnado sem solução política.''

Clara Ferreira Alves

 ''Quando não há notícias fazem-se sondagens . Tudo isto é um estado de indigência política.''

Clara Ferreira Alves


Deborah Turbeville
 

paroquialismo

«Debruçada no topo do dique, fitando a corrente, dei-me conta de que, apesar de todos perigos, tudo o que está em movimento é sempre melhor do que aquilo que está em repouso, que a mudança é mais nobre do que a estabilidade, que tudo o que estagna acabará sofrer decomposição, degeneração e transformar-se-á em pó, enquanto aquilo que está em movimento consegue durar eternamente.»

Olga Tokarczuk. Viagens. Tradução Teresa Fernandes Swiatkiewicz. 1ª edição, 2019, Cavalo de Ferro., p. 9

grafomania

redemoinhos

 «Em alguns lugares perto das margens, embaraçava-se em obstáculos submersos e, à tona da água, surgiam então redemoinhos.» 

Olga Tokarczuk. Viagens. Tradução Teresa Fernandes Swiatkiewicz. 1ª edição, 2019, Cavalo de Ferro., p. 8

malmequer-dos-brejos

Eternity


 

«Nenhuma pessoa sensata se interessa por moscas.»

 Fredrik Sjöberg. A Arte de Coleccionar Moscas 

Mosca-das-Flores

 «Queria sair, mas não tenho por onde ir. Somente a minha presença adquire agora contornos bem definidos, contornos que estremecem, ondulam, e isso dói. E, subitamente, descubro a verdade: não há nada a fazer - existo.»

Olga Tokarczuk. Viagens. Tradução Teresa Fernandes Swiatkiewicz. 1ª edição, 2019, Cavalo de Ferro., p. 7

''óvnis literários''

 « (...) Pela janela vejo o pátio vazio. A escuridão desce suavemente do céu, cobrindo tudo como orvalho negro.
 O mais difícil de suportar é a ausência de movimento, densa e visível: o crepúsculo frio e a ténue luz das lâmpadas de vapor de sódio, que mergulha na escuridão a um metro da sua origem.
 Nada acontece. A marcha da escuridão detém-se junto à porta de casa e todo o burburinho do escurecimento se silencia, criando uma camada espessa como a nata do leite fervido a arrefecer. Tenho um céu como pano de fundo, os contornos dos edifícios estendem-se no infinito e perdem lentamente os rebordos, arestas e cantos angulosos. A luz evanescente leva consigo o ar que se torna irrespirável. A escuridão embrenha-se agora na minha pele.»

Olga Tokarczuk. Viagens. Tradução Teresa Fernandes Swiatkiewicz. 1ª edição, 2019, Cavalo de Ferro., p. 7

 « Não tenho medo de morrer, tenho
é medo de viver a minha inquietação.»

Helder Moura Pereira. Amor Carnalis. Edição Frenesi


 

Hanna Schygulla - Passion

''A força dos desgraçados''

 Humorista Ricardo Araújo Pereira

''Ultimamente têm passado muitos anos.''

 Rubem Braga

''cultura laxista''



Onde me pisas funda. Hoje te canto
E depois emudeço se te alcanço.
E juntos vamos tingir o espaço.
De luzes. De sangue. De escarlate.

Hilda Hilst

hiperbólico

dolente

sábado, 10 de maio de 2025


Tokyo Story (東京物語, 1953) dir. Ozu Yasujirō

 

 

Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda  envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza   e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.   Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
– dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de   alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra   homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Na minha cidade, nos domingos de tarde,
as pessoas se põem na sombra com faca e laranjas.
Tomam a fresca e   riem do rapaz de bicicleta,
A campainha desatada, o aro enfeitado de laranjas:
'Eh bobagem!'
Daqui a muito progresso tecno-ilógico,
quando for impossível detectar o domingo
pelo sumo das laranjas no ar e bicicletas,
em meu país de memória e sentimento,
basta fechar os   olhos:
é domingo, é domingo, é domingo.

Minha alma quer ver a Deus.
Eu não quero morrer.
Quero amar sem limites
E perdoar a ponto de esquecer-me
Radical, quer dizer pela raiz
O perdão radical gera alegria
Exorciza doenças, mata o medo
Dá poder sobre feras e demônios
Falo. E falo é também membro viril,
Todo léxico é pobre,
Idiomas são pecados;
Poemas, culpas antecipadamente perdoadas
Eis, esta acácia florida gera angústia
Para livrar-me, empenho-me
Em esgotar-lhe a beleza
Magnífica insuficiência,
Porque ainda convoca
O poema perfeito.

Adélia Prado

Lana Del Rey - Dealer


 

 

Albano Martins

Como um livro


Folheei o teu corpo como um livro
à procura da tua alma : encontrei-a no índice. 
 

Poema para habitar

A casa desabitada que nós somos
pede que a venham habitar,
que lhe abram as portas e as janelas
e deixem passear o vento pelos corredores.
Que lhe limpem os vidros da alma
e ponham a flutuar as cortinas do sangue
– até que uma aurora simples nos visite
com o seu corpo de sol desgrenhado e quente.
Até que uma flor de incêndio rompa
o solo das lágrimas carbonizadas e férteis.
Até que as palavras de pedra que arrancamos da língua
sejam aproveitadas para apedrejarmos a morte. 
 

Elegia em forma de epístola

A circunstância de sermos homem e mulher
presos por uma aliança tácita
e secreta
do sangue
é que nos prende à vida, meu amor, e nos salva.
Nascemos sem passaporte,
entre fronteiras guardadas
por sentinelas de sal e de silêncio.
O rio da história corre, estrangulado, entre as pedras,
e o cascalho, e os detritos humanos,
e a alegria suicida das coisas limpas e puras
abandonadas e soltas à vertigem da morte.
Construímos
para nossa defesa
um muro de ironia e de sarcasmo
– imponderável cortina
de humana ternura envergonhada
ou, como tu dizes, perseguida.
O silêncio é a corda
que nos prende aos mastros,
a antena vegetal por onde
a vida se insinua,
universal e atenta.
Marinheiros duma pátria
ancorada no tempo,
bebemos o sal dos minutos que passam
e adormecemos, hirtos, de costas para o mar.

de:Coração de Bússola(1967)  

Teus ombros de iodo :
germinação carnívora
de água e fogo. 
 

Espaço disponível

Deito-me no teu corpo
como se fosses
a minha última cama
no meu quarto de hóspede dos dias.
Deito-me e velo
a criança lúcida
que dorme reclinada
na orla marítima do silêncio.
Ali onde o tempo
se anula e renova
na substância palpável
dum gesto ou dum olhar
colhidos sobre a água
construo a minha casa,
habito o espaço inteiro
disponível para a vida,
necessário para a morte.

de:Em Tempo e Memória(1974)

 Alegoria Segunda
De poetas e filósofos tu sabes,
sabes também por ti. Por isso eu digo :
esta pedra é vermelha, esta pedra é sangue.
Toca-lhe : saberás
como em segredo florescem as acácias
ao redor dos muros, como fluem
suas concêntricas artérias. Acaricia-as : tocas
a parte mais sensível de ti mesmo.
Dizias ontem que o verão ardia
nesta pedra. Nela
queimavas tuas mãos. Onde
as aqueces hoje? Eu digo :
o verão não morreu, esta pedra é o verão.
E tudo permanece. E tudo é teu.
Tu és o sangue, o verão e a pedra.

de:Paralelo Ao Vento(1979)  

Microscópio
Oásis na penumbra
do rosto. A solidão
mais próxima
e distante.

de:Sob os Limos(1981-1982)  

Preciso de arrumar a casa, rever o sistema, brunir
os móveis e o tacto.
Preciso de opor o tempo ao tempo.
O espaço ao espaço. 
 

Enquanto o amor,enquanto a morte
Enquanto aguardas e as urnas vazias
recolhem a poeira do verão.
Enquanto,
já submissos, os touros
do sol a soturnos
desígnios entregam
seu furor.
Enquanto,
sob a casa, agora
as térmitas repousam, momentanea
mente reverdecem
meus eucaliptos de água
e ouro.
Enquanto
o amor.
Enquanto
a morte.
Enquanto.

de:Os Remos Escaldantes(1983)  

Entras
em mim descalça, vulnerável
como um alvo próximo, ferida
nos joelhos e nas coxas. Pelo tacto
nos conhecemos, é essa luz
oblíqua que nos cega. E te pertenço
e me pertences como
a lâmina
à bainha, a chama
ao pavio. 
 Horizontal
o mar, a mor
te. Vertical
o desejo. 
 Dêem-me um arco e recriarei a infância,
os tordos sob a neve,
o rio sob as tábuas.
Dêem-me a chuva e a gávea
duma figueira,
a flor dos eucaliptos,
um agapanto de água.

de:Vertical o Desejo(1985)  

Aqui começam todas
as doenças. A do feno
e seus alvéolos furtivos, a da lepra
das palavras traídas, nunca
usadas. E as maleitas
da pele, a insanável
maresia da língua. 
 Concitas para os ritos
da noite a pinça
verde dos lacraus.
De há muito
sabes que não há
para o sono outro vício,
outra rasura para a morte.

de:Os Patamares da Memória(1989)  

Quatro Perguntas,seguidas de um epílogo ao escultor José Rodrigues
 

1. Tens na ponta do lápis uma chave
para abrir o poema.
Por onde é que ela o abre?
 2. Se um besouro de asas
translúcidas entrasse
agora no poema
– tu deixavas?

3. Sabes
como se esculpe um poema
fechado a sete chaves?

4. E se uma pomba
roçasse o ângulo
raso do poema
– prendê-la-ias?
Tu que esculpes
com mãos de água o corpo
e a sombra dos dias.

de:Entre a Cicuta e o Mosto(1992)  

Folheamos agora dicionários
cada vez mais breves.
De noite,
os teus cabelos emigram
como espigas de incenso. Há gerânios
pisados entre os dedos, dálias
virgens sufocadas
na epiderme.
As palavras
só conhecem o limbo, a rigorosa
película da sede.

de:Uma colina para os lábios(1993)  

Nem sempre a neve
cai do céu: às vezes,
explode numa flor. 
 O sonho
da lâmina: ser
ao mesmo tempo a bainha.

de:Com as flores do salgueiro(1995)

 As palavras em trânsito
Resvalas neste sopro.
Sabes
que tens o olhar ferido
desde sempre, que o incêndio
das palavras em trânsito celebra
prescritas sílabas, ancorados
ritos, desprevenidos
equinócios.
Dantes,
havia um mar crispado
na fissura dos lábios. Hoje, apenas
algumas gotas de sal.

de:O Mesmo Nome(1996)


Fonte: ver aqui


to be hate-watching himself

''O QUE É O CINEMA? Nada.

O QUE ELE QUER? Tudo.

O QUE ELE PODE FAZER? Qualquer coisa.''


 Godard: Apenas Cinema. Documentário de Cyril Leuthy

 «Eu já estava de luto por mim próprio.»

Godard: Apenas Cinema. Documentário de Cyril Leuthy


 

Ingrid Caven "Each man kills the things he loves"

'Love is Colder Than Death' , 1969


'' O amor faz-nos perder a cabeça.''

Hanna Schygulla

blessures de l'âme

 le rejet, l'abandon, l'humiliation, la trahison et l'injustice

 « O facto de eu fazer imagens em vez de filhos impede-me de ser um ser humano?»

Godard: Apenas Cinema. Documentário de Cyril Leuthy

Anne-Marie Miéville e Godard

 


morfogénse

''loucura militante''

''a profissionalização da política''

 « O Jean-Luc não quer chegar a lado nenhum. Ele quer descrever o seu desespero face a um mundo desesperante.»

Godard: Apenas Cinema. Documentário de Cyril Leuthy

Radiohead - Talk Show Host (Live in Belfort July 1997)

I want to
I want to be someone else or I'll explode
Floating upon this surface for the birds
The birds
The birds

You want me?
Fucking well, come and find me
I'll be waiting
With a gun and a pack of sandwiches

And nothing
Nothing
Nothing
Nothing

You want me?
Well, come on and break the door down
You want me?
Fucking come on and break the door down

I'm ready
I'm ready
I'm ready
I'm ready

I'm ready
I'm ready

 


''A democracia é morrer lentamente.''

Godard: Apenas Cinema. Documentário de Cyril Leuthy

''Pai espiritual''

 ''politização ou despolitização''

Godard: Apenas Cinema. Documentário de Cyril Leuthy

Lírio-do-vale

misoginia

nome feminino

1.aversão ou desprezo pelos indivíduos do sexo feminino
2.preconceito contra as mulheres

 


Foto de Jack Garofalo/Paris Match. Jean-Luc Godard e Anna Karina. Paris, 07 de fevereiro de 1957.

 «Sonhei que caminhava sozinho à beira de um precipício num caminho onde só havia lugar para uma pessoa.»

Godard: Apenas Cinema. Documentário de Cyril Leuthy

''frases político-filosóficas''

Godard: Apenas Cinema. Documentário de Cyril Leuthy

« Sou um pintor que faz literatura, se preferir.»

 Godard: Apenas Cinema. Documentário de Cyril Leuthy

« - Qual é a tua maior ambição na vida?
- Tornar-me imortal, e depois morrer.»

Godard: Apenas Cinema. Documentário de Cyril Leuthy

 «A fotografia é a verdade. O cinema é a verdade 24 vezes por segundo.»

Godard: Apenas Cinema. Documentário de Cyril Leuthy

''estética godardiana''

''Não há criação sem destruição.''

Godard: Apenas Cinema. Documentário de Cyril Leuthy

terça-feira, 6 de maio de 2025

Father John Misty - I Guess Time Just Makes Fools of Us All


 

 «(...) Ela era o mar e eu o rio que nele desembocava. Era uma estrela e eu outra que marchava em sua direção. Encontrávamo-nos e nos sentíamos mutuamente atraídos, permanecíamos juntos e girávamos felizes por toda a eternidade em círculos muito próximos e vibrantes, um ao redor do outro.»


Herman Hesse

Mãe

Alguma vez observaste a tua velha mãe
ao fazer a cama para ti,
como ela puxa, estica, cobre e aconchega o lençol
para que não sintas uma única ruga?

O seu respirar, o movimento das mãos
são tão lindos
que no passado apagaram aquele fogo em Persepolis
e agora acalmam alguma futura tempestade
ao largo da costa da China ou em mares desconhecidos.

Vladimir Holan

Tradução; Carlos Mendonça Lopes – Da versão em inglês.

sábado, 3 de maio de 2025

 Entras
em mim descalça, vulnerável
como um alvo próximo, ferida
nos joelhos e nas coxas. Pelo tacto
nos conhecemos, é essa luz
oblíqua que nos cega. E te pertenço
e me pertences como
a lâmina
à bainha, a chama
ao pavio. Horizontal
o mar, a mor
te. Vertical
o desejo.
Dêem-me um arco e recriarei a infância,
os tordos sob a neve,
o rio sob as tábuas.
Dêem-me a chuva e a gávea
duma figueira,
a flor dos eucaliptos,
um agapanto de água.
*
Albano Martins, in Vertical o Desejo - 1985

domingo, 27 de abril de 2025


 

Bom Dia Tristeza


Bom dia, tristezaQue tarde, tristezaVocê veio hoje me verJá estava ficando até meio tristeDe estar tanto tempo longe de você
Se chegue, tristezaSe sente comigoAqui nesta mesa de barBeba do meu copoMe dê o seu ombroQue é para eu chorarChorar de tristezaTristeza de amar
Compositores: Vinicius De Moraes / Joao Rubinato

 ''Isto que eu sou é o resultado da tua educação e da minha obediência.''

Filme ''Brandos Costumes'' (1974) de Alberto Seixa Santos
 ''Falava de morte e não morria.
Vivia para perpetuar a sua ausência.''

Filme ''Brandos Costumes'' (1974) de Alberto Seixa Santos

 ''Estás sempre a falar de morte e não morres.''

Filme ''Brandos Costumes'' (1974) de Alberto Seixa Santos

Giesta-branca

rudeza

violência erótica



Man Ray. Suicide, Kiki de Montparnasse 1928
 

Cameron Winter - Take It With You

| 𝘀𝗲𝗺𝗽𝗿𝗲! |



"(25 de Abril de 1974)

Manhãzinha cedo, senti acordar-me o sopro da voz ciciada de minha mulher:
- O Fafe telefonou de Cascais, ... Lisboa está cercada por tropas...
Refilo, rabugento:
- Hã?
E enrolo-me mais nos lençóis:
- É algum golpe militar reaccionário dos «ultras»... Deixa-me dormir.
Mas qualquer coisa começou a magoar-me a pele com dentes frios, para me dissuadir de adormecer.
E daí a instantes a minha mulher insistiu, baixinho, muito baixinho, com medo de não haver realidade:
-Só funciona o Rádio Clube que pede às pessoas que se conservem em casa.
Golpe militar? Reaccionário, evidentemente. Como se poderia conceber outra coisa?
Levanto-me preparado para o pesadelo de ouvir tombar pedras sobre cadáveres. Espreito através da janela. Pouca gente na rua. Apressada. Tento sintonizar a estação da Emissora Nacional. Nem, um som. Em compensação o telefone vinga-se desesperadamente. Um polvo de pânico desdobra-se pelos fios. A campainha toca cada vez mais forte.
Agora é o Carlos de Oliveira.
-Está lá? Está lá? É você, Carlos? Que se passa?
Responde-me com uma pergunta qualquer do avesso.
Às oito da manhã o Rádio Clube emite um comunicado ainda pouco claro:
- Aqui, Posto de Comando das forças Armadas. Não queremos derramar a mínima gota de sangue.
De novo o silêncio. Opressivo. De bocejo. Inútil. A olhar para o aparelho.
Custa-me a compreender que se trate de revolução. Falta-lhe o ruído, (onde acontecerá o espectáculo?), o drama, o grito. Que chatice!
A Rosália chama-me, nervosa:
- Outro comunicado na Rádio. Vem, depressa.
Corro e ouço:
-Aqui o Movimento das Forças Armadas que resolveu libertar a Nação das forças que há muito a dominavam. Viva Portugal!
Também pede à policia que não resista. Mas Senhor dos Abismos!, trata-se de um golpe contra o fascismo (isto é: salazarismo-caetanismo).
São dez e meia e não acredito que os «ultras» não se mexam, não contra-ataquem!
Ou tudo ruirá de podre, sem o brandir de uma bandeira qualquer de, heroísmo, um berro, um suicídio, um brado? Nas ruas (avisto da janela da sala de jantar) as mulheres, correm com sacos de alimentos. A poetisa Maria Amélia Neto telefona-me: «Não resisti e vim para o escritório».
Os revoltosos estão a conferenciar com o ministro do Exército. Na Rádio a canção do Zeca Afonso: Grândola, vila morena ... Terra da fraternidade... O povo é quem mais ordena...
Sinto os olhos a desfazerem-se em lágrimas. Ainda assisti, ainda assisti à morte deste maldito meio século de opressão imbecil. Ao mesmo tempo nunca vivi horas mais aborrecidas de espera, de frigorífico, ao som de baladas, medíocres, sem lances dramáticos. E não serão assim sempre as verdadeiras revoluções?... interrogo-me. Em silêncio. Sem teatro por fora. Em segredo. Com pantufas.
De súbito, aliás, a Rádio abre-se em notícias. O Marcelo está preso no Quartel do Carmo. A polícia e a Guarda Republicana renderam-se. O Tomás está cercado noutro quartel qualquer. E, pela primeira vez, aparece o nome do General Spínola. Novo comunicado das Forças Armadas. O Marcelo ter-se-á rendido ao ex-governador da Guiné. (Lembro-me do Salazar: «o poder não pode cair na rua»).
Abro a janela e apetece-me berrar: acabou-se! acabou-se finalmente este tenebroso e ridículo regime de sinistros Conselheiros Acácios de fumo que nos sufocou durante anos e anos de mordaças. Acabou-se. Vai recomeçar tudo.
A Maria Keil telefonou. O Chico, está doente e sozinho em casa. Chora. (Nesta revolução as lágrimas são as nossas balas. Mas eu vi, eu vi, eu vi! ... )
Antes de morrer, a televisão mostrou-me um dos mais belos momentos humanos da História deste povo, onde os militares fazem revoluções para lhes restituir a liberdade: a saída dos prisioneiros políticos de Caxias.
Espectáculo de viril doçura cívica em que os presos... alguns torturados durante dias e noites sem fim.... não pronunciaram uma palavra de ódio ou de paixões de vingança.
E o telefone toca, toca, toca... Juntámos as vozes na mesma alegria. (Só é pena que os mortos não nos possam também telefonar da Morte: o Bento de Jesus Caraça, o Manuel Mendes, o Casais Monteiro, o Redol, o Edmundo de Bettencourt, o Zé Bacelar, a Ofélia e o Bernardo Marques, o Pavia, o Soeiro Pereira Gomes e outros, muitos, tantos... Tenho de me contentar com os vivos. Porque felizmente dos vivos poucos traíram ou desanimaram. Resistimos quase todos de unhas, cravadas, nas palmas das mãos...
De repente, estremeço, aterrado.
Mas isto de transformar o mundo só com vivos não será difícil?
Saio de casa. E uma rapariga que não conheço, que nunca vi na vida, agarra-se a mim aos beijos.
Revolução."

José Gomes Ferreira
Poeta Militante III - Viagem do Século Vinte em mim
Círculo de Poesia
Moraes Editores
Lisboa, 1983

Nobuyoshi Araki Cat


 

rescender

''Não se não é artista, quando se é.''

 Pedro Cabrita Reis

''Quem é artista nunca poderá deixará de o ser.''

 Pedro Cabrita Reis

«I feel safe when the birds sing» (2025)

exposição pop-up desenvolvida por Karen Francesca

terça-feira, 22 de abril de 2025

Slowdive - Spanish Air

'' O complexo de Frankenstein''

´´vida artificial''

pólvora


 

''Fui terra, fui ventre, fui vela rasgada''

«Poemas aos homens do nosso tempo»

 Amada vida, minha morte demora.

Dizer que coisa ao homem,
Propor que viagem? Reis, ministros
E todos vós, políticos,
Que palavra
além de ouro e treva
Fica em vossos ouvidos?
Além de vossa RAPACIDADE
O que sabeis
Da alma dos homens?
Ouro, conquista, lucro, logro
E os nossos ossos
E o sangue das gentes
E a vida dos homens
Entre os vossos dentes.


 Hilda Hilst, excerto de «Poemas aos homens dos nossos tempos», in Júbilo, memória, noviciado da paixão, 1974

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Heroin - Lana Del Rey

 


 ''(...) Na solidão, onde todos se veem limitados aos seus próprios recursos, o indivíduo enxerga o que tem em si mesmo.

Arthur Schopenhauer, no livro “Aforismos Para Sabedoria de Vida. (Editora Martins Fontes; 3.ª edição [2009]).

Língua-de-sogra


azedo como rabo-de-gato
muito azedo

autorretrato

Today, I met who I’m gonna be from now on / And he’s a piece of shit.

“Heavy Metal”, álbum a solo de Cameron Winter


Sad Lovers And Giants - Lost In A Moment (1982) Post Punk, Dream Pop

“O desejo selvagem, esse é fácil — nasce do instinto. Mas desejar alguém com ternura, com alma, com cuidado… isso exige tempo. É preciso atravessar todas as estações do amor, suportar os invernos da dúvida e os verões do encantamento, até que, no centro do afeto, acenda-se a chama rara do desejo que respeita, que acolhe, que permanece.”

Albert Camus

 “Há ferrugem na minha boca, a mancha de um beijo antigo.”

Anne Sexton

Quem Fabrica Um Peixe Fabrica Duas Ondas


De Herberto Helder

Quem fabrica um peixe fabrica duas ondas,
uma que rebenta floralmente branca à direita
outra à esquerda só com ar lá dentro,
e o ouro Íngreme puxando o começo da noite
e o fim do enorme dia onde todos morreremos
como filhos escorraçados ou disso a que chamam demónio da analogia
quem fabrica um poema curto morrerá muito mais tarde,
só depois de estar maduro,
quem baixa a mão para quebrar um selo há-de baixá-la
para quebrar os outros, e há-de fechar os olhos,
e de tanto ter visto não poderá nunca mais abri-los:
e como pão e bebo água de olhos fechados como se fosse para sempre,
e assim, adeus a quem vê, que eu morro inteiro para dentro,
e vejo tudo só de entendê-lo.
**
Herberto Helder, in Servidões

 "Nunca desejaria usar inteligência artificial no meu trabalho. É um insulto à própria vida", assumia o realizador japonês Hayao Miyazaki, co-fundador do Studio Ghibli, em 2017.


Fonte: Comunidade Cultura e Arte

Que se foda alcançar

"(...) Que se foda a alegria
Que se foda o sucesso
Que se foda o progresso
Que se foda a morte
Que se foda chegar
Que se foda alcançar"

OIOAI

Crime Scene Queen

Sexting

sarilhos grandes

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Barbara, c. 1954

 


''Ainda bem que não falo com pessoas e hoje em dia só falo com o meu cão.''

Escritor Pedro Paixão, entrevista Jornal Observador, 2017


25 livros em 25 anos. Porque escreve tanto?

''Escrevo para mim, só para mim, para me tentar salvar. Quando escrevo, as coisas parecem ganhar um plano superior, mais verdadeiro. Contra a passagem do tempo, o desvanecimento, a escrita dá-nos a ilusão de que a nossa vida é mais durável. Dá-nos a ilusão de que continuaremos vivos naquilo que escrevemos. Ser-me-ia impossível viver sem escrever.''


Escritor Pedro Paixão, entrevista Jornal Observador, 2017

Nick Drake - River Man

Eu só não me deixei esmagar porque não tenho valor algum em particular, nunca tendo chegado a ser o que queria (…)

«O meu país é um país que não reconhece o verdadeiro valor, não gratifica a excelência, e mal suspeita de alguma coisa original, logo, estranha, esmaga-a. Camões morreu pobre e desolado. Provavelmente sem ter tido sequer a sorte de ter tido um único amigo, como eu tive. O Pessoa, que viveu de quarto em quarto, foi morrer com o fígado trespassado a um hospital com nome de santo francês que está no Bairro Alto e, ao que se diz, a última frase que lhe se ouviu foi em inglês que a disse I do not know what tomorrow will bring, para tirar as dúvidas a quem as tivesse. O Ruy Belo, um magnífico poeta, foi um herói desprezado primeiro pela academia fascista e, depois, pela academia democrática. O Ruy Cinatti, um poeta entre os maiores, enlouqueceu com a revolução dos medíocres e presumidos cravos, que entretanto desapareceram como espécie. Eu só não me deixei esmagar porque não tenho valor algum em particular, nunca tendo chegado a ser o que queria (…) »

Pedro Paixão. [“Espécie de Amor”, 2014]
"Já não conheço as novas gerações… não os leio… eles também não me leem a mim… portanto estamos bem. Mas eu também escrevo sempre a mesma coisa. Sou eu e eu. Só escrevo sobre mim. Porque não teria sobrevivido se não escrevesse. Só assim é que vou sabendo quem sou."

Escritor Pedro Paixão, entrevista Jornal Observador

Deborah at Tante Esther's, 1947


 

Father John Misty - The Ideal Husband




Julian, he's gonna take my files
Every woman that I've slept with
Every friendship I've neglected
Didn't call when grandma died
I spend my money getting drunk and high
I've done things unprotected
Proceeded to drive home wasted
Bought things to win over siblings
I've said awful things, such awful things
And now, now it's out
And now, now it's out
Julian, he's gonna take my files
Telling people jokes to shut them up
Resenting people that I love
Sleep in 'til two then doin' shit
Just stay in bed and later lie 'bout it
Obsessing over graying hair
Knowing just what people wanna hear
Binging on unearned attention
I've said awful things, such awful things
And now, now it's out
And now, now it's out
I came by at seven in the morning
Seven in the morning, seven in the morning
I came by at seven in the morning
I said, "Baby, I'm finally succumbing!"
Said something dumb like, "I'm tired of running
Tired of running, tired of running!"
Let's put a baby in the oven
Wouldn't I make the ideal husband?

''Só escreve de verdade quem tem mãos verdadeiras.''

''Escrever é uma forma de poder.''

''Uma pessoa pode salvar-te. Uma multidão esmaga-te, deixa-te morrer. E eu percebi isso.''

Escritor Pedro Paixão, entrevista Jornal Observador

«atrás da cortina de nenúfares, eu não saberia resistir-te»


LI PO (também LI BAI) com Um Copo de Vinho no Exílio
(em colaboração com a livraria Livros Tintos, de Fundão). Versões de Manuel Silva-Terra.

''Houve o doce veneno da fama que nos conduz à maior solidão. A última coisa que queria era ser outra vez famoso como fui. Perdi bastante. Porque a fama dá-nos um poder irreal feito de fumos, espelhos, que é perigoso. Há uma aparência de que conhecemos muitas pessoas, que as pessoas gostam muito de nós. Tudo falso. Graças a Deus, descobri isso antes de ter feito muitas asneiras, sem ter ficado viciado em drogas, álcool, poder.''

Escritor Pedro Paixão, entrevista Jornal Observador

“escritor coqueluche”

descasar

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