« O amor, ditam os frios de coração, é ruinoso
qualquer momento em chamas
denunciará a imprecisa inquietação que nos toma
Os inocentes que se amam dizem
teu corpo está a nevar
tua alma é uma flor
um prado tranquilo sua noite »
コカインの時間を介しての旅です
« O amor, ditam os frios de coração, é ruinoso
qualquer momento em chamas
denunciará a imprecisa inquietação que nos toma
Os inocentes que se amam dizem
teu corpo está a nevar
tua alma é uma flor
um prado tranquilo sua noite »
José Tolentino Mendonça. A Noite Abre Meus Olhos. 4ª Edição, Assírio&Alvim, Porto, 2021. p. 190
José Tolentino Mendonça. A Noite Abre Meus Olhos. 4ª Edição, Assírio&Alvim, Porto, 2021. p. 179
José Tolentino Mendonça. A Noite Abre Meus Olhos. 4ª Edição, Assírio&Alvim, Porto, 2021. p. 162
ONO NO KOMACHI (834? – ?)
O meu desejo de ti
é forte para contê-lo –
assim ninguém vai culpar-me
se à noite for ter contigo
pela estrada de meus sonhos.
Não há como vê-lo
nesta noite sem luar –
estou deitada e desperta,
os seios ardendo em desejo
e o coração em chamas.
Pensei ter colhido
a flor do esquecimento [*]
só para mim mesma;
mas encontrei-a a crescer
também no coração dele.
[*] wasuregusa, a palavra japonesa do poema que significa “flor do esquecimento” é o equivalente inglês de “forget-me-not” ou do português “amor-perfeito” – a subtileza decorrente da duplicidade do sentido do poema consoante seja lido na sua literalidade de metáfora ou na significação do real, é um exemplo esplendoroso da beleza inspirada desta poesia onde a concisão se desdobra numa multiplicidade de emoções e sentimentos.
Escolho agora de ISUMI SHIKIBU (974? – 1034?) apenas alguns poemas de solidão e desejo, com uma que outra amarga reflexão, deixando de fora poemas onde a presença do efémero na natureza transmite, de forma singular, a vulnerabilidade do viver:
Se o cavalo dele
tivesse sido domado
pela minha mão –
eu tê-lo-ia ensinado
a não seguir mais ninguém.
Mesmo quando um rio
de lágrimas atravessa
e molha este corpo,
não chega para apagar
todo o fogo do amor.
Porque não terei
pensado nisto já antes?
Este corpo meu
ao recordar tanto o teu
tem a marca que deixaste.
Penso: “nos meus sonhos
poderemos encontra-nos” …
Virando a almofada,
eu ando às voltas na cama
incapaz de adormecer.
Consumi o corpo
a desejar o regresso
do que não voltou.
É agora um vale profundo
o que foi meu coração
Deixada aqui
a envelhecer no mundo
sem ti ao meu lado,
as flores perdem a beleza
tingidas de negra cor.
Os poemas encontram-se no livro O Japão no Feminino – I – Tanka poesia dos séculos IX a XI, publicado por Assírio & Alvim em 2007 com organização e versão portuguesa de Luísa Freire.
José Almada Negreiros. Teatro Escolhido. Deseja-se Mulher. Edição de Fernando Cabral Martins e Luís Manuel Gaspar. Assírio&Alvim. 1ª Edição, 2017., p. 147
«Sei que vai morrer de tristeza. Hoje em dia chamam-lhe depressão, mas aqui sempre foi morrer de tristeza.»
Layla Martínez. Caruncho. Tradução Guilherme Pires. Antígona, 2024., p.109
Layla Martínez. Caruncho. Tradução Guilherme Pires. Antígona, 2024., p 70
« Nós, as mulheres desta família, enviuvamos depressa. Os nossos homens consomem-se como os círios das igrejas, pouco tempo depois de nos termos casado tudo o que resta deles é uma nódoa nos lençóis que não sai mesmo que desfaçamos as mãos a esfregá-la.»
Layla Martínez. Caruncho. Tradução Guilherme Pires. Antígona, 2024., p.69Layla Martínez. Caruncho. Tradução Guilherme Pires. Antígona, 2024., p 64
«Casámo-nos de noite e sem convidados. Não houve convites, naquela desonra não havia nada para celebrar. A minha mãe costurou-me o vestido, negro por causa do luto e largo por conta da vergonha.»
Layla Martínez. Caruncho. Tradução Guilherme Pires. Antígona, 2024., p 57
José Almada Negreiros. Teatro Escolhido. Deseja-se Mulher. Edição de Fernando Cabral Martins e Luís Manuel Gaspar. Assírio&Alvim. 1ª Edição, 2017., p. 144
« Quando acabámos de comer lavei os pratos, apaguei as velas às santas porque nunca se deve deixar nada perigoso ao alcance de um santo e subi para o quarto. A velha já dormia com aqueles seus roncos semelhantes aos de um cão cansado. A minha roupa estava espalhada pelo chão do quarto, apanhei-a toda excepto a que via sair debaixo da cama porque quando caímos uma vez numa armadilha não é culpa nossa mas se caímos quatro ou cinco vezes sim, precisei de algum tempo para aprender isto mas agora já cumpro esta máxima.»
Layla Martínez. Caruncho. Tradução Guilherme Pires. Antígona, 2024., p.19«Na cozinha a velha tinha preparado a mesa. Sobre a toalha de plástico havia três pratos, três copos e três nacos de pão. Pus um prato para a tua mãe porque a sinto inquieta, disse a velha. Não me lembro da minha mãe. A minha avó mostrou-me as fotografias centenas de vezes, tira-as da caixa de bolachas onde as guarda sempre que a pena ou o rancor, que nesta casa são uma e a mesma coisa, lhe formam um nó na garganta.»
Layla Martínez. Caruncho. Tradução Guilherme Pires. Antígona, 2024., p.18« O que eu buscava e tu mo inspiraste não foram contas hereditárias que não se saldam, animais conflitos milenários que impedem fêmea e macho de serem mulher e homem. Fiquei logo isento de lutas de sexo. Tu, mulher, não reconheces o sentimento que tu mesma me inspiraste. Assombra-te o sentimento que em mim inspiraste. Tu que tinhas para o mundo uma altura que não sabes ter para a vida! Eu deixo-te passar e eu estou-te reconhecido, mulher. Tu deste-te e não te tive, mas deixaste-me inteiro o que eu buscava.»
José Almada Negreiros. Teatro Escolhido. Deseja-se Mulher. Edição de Fernando Cabral Martins e Luís Manuel Gaspar. Assírio&Alvim. 1ª Edição, 2017., p. 89« Só estás presente quando não te chamam. Estavas ausente quando eu me dava a ti. Escrevias números na Lua. Sim. Ausente. Estavas ausente quando me despedia de ti. Como um desconhecido, como um estranho, deixaste-me ir embora. Deixaste que eu te fugisse. Consentiste que eu te deixasse. Estavas ausente nos dois momentos mais decisivos da vida: quando eu me dava e quando eu te fugia. Deixa-me passar!»
José Almada Negreiros. Teatro Escolhido. Deseja-se Mulher. Edição de Fernando Cabral Martins e Luís Manuel Gaspar. Assírio&Alvim. 1ª Edição, 2017., p. 87/8« Nunca te mandei fantasmas com recados que assustam. Deixei-te livre. Sem sentimentos póstumos.»
José Almada Negreiros. Teatro Escolhido. Deseja-se Mulher. Edição de Fernando Cabral Martins e Luís Manuel Gaspar. Assírio&Alvim. 1ª Edição, 2017., p. 87« ELE - Tu matas e não deixas morrer. Matar é ficar satisfeito. Tu queres que viva a tua ideia porque me matas. Tu queres morto o que não serviu a tua ideia. Ideia e o que não serviu ficaram emaranhados no teu caminho. Deixa morrer o que não serviu. Se fores capaz.»
ELA - (Mostrando-lhe as costas da mão esquerda.) Já não espero ninguém.»
José Almada Negreiros. Teatro Escolhido. Deseja-se Mulher. Edição de Fernando Cabral Martins e Luís Manuel Gaspar. Assírio&Alvim. 1ª Edição, 2017., p. 85José Almada Negreiros. Teatro Escolhido. Deseja-se Mulher. Edição de Fernando Cabral Martins e Luís Manuel Gaspar. Assírio&Alvim. 1ª Edição, 2017., p. 73
« ELE - Verás: serei vingado. A vingança será para sempre o teu novo amor. Quando vier não o destrinçarás do amor que mataste. Queres singular e encontrarás plural. Sempre meio vivo e meio morto, nada que satisfaça. Tu mesma capaste em tia a tua perfectibilidade. Castrada de amor, não de sexo. A ânsia de amor não morrerá em ti, e em ti o amor ficará sempre adiado.»
José Almada Negreiros. Teatro Escolhido. Deseja-se Mulher. Edição de Fernando Cabral Martins e Luís Manuel Gaspar. Assírio&Alvim. 1ª Edição, 2017., p. 72/3«Como eu me dava no primeiro dia nunca foi igual depois. Deixas-me igual em sítio nenhum. Os nossos destinos não eram com o outro.»
José Almada Negreiros. Teatro Escolhido. Deseja-se Mulher. Edição de Fernando Cabral Martins e Luís Manuel Gaspar. Assírio&Alvim. 1ª Edição, 2017., p. 72
« A MULHER VESTIDA DE NOIVA - (Às companheiras.) Por onde é que se sai deste inferno? (As companheiras rodeiam-na e vão levando-a pelo fundo.)
Ahoo Daryaei is a young Iranian woman who protested by walking in public in Iran wearing only her bra and panties.[1] She displayed her defiance of compulsory hijab in front of Tehran's Islamic Azad University.[2] The university has confirmed her detention. She is currently (as of November 2024) in jail in the Islamic Republic.
José Almada Negreiros. Teatro Escolhido. Deseja-se Mulher. Edição de Fernando Cabral Martins e Luís Manuel Gaspar. Assírio&Alvim. 1ª Edição, 2017., p. 65
José Tolentino Mendonça. A Noite Abre Meus Olhos. 4ª Edição, Assírio&Alvim, Porto, 2021. p. 53
José Tolentino Mendonça. A Noite Abre Meus Olhos. 4ª Edição, Assírio&Alvim, Porto, 2021. p. 48