terça-feira, 27 de maio de 2025
segunda-feira, 26 de maio de 2025
How Do You Sleep?
You better see right through that mother's eye
Those freaks was right when they said you was dead
The one mistake you made was in your head
Oh, how do you sleep at night
Jump when your momma tell you anything
The only thing you done was yesterday
And since you're gone you're just another day
Oh, how do you sleep at night
Oh, how do you sleep at night
But pretty soon they'll see what you can do
The sound you make is muzak to my ears
You must have learned something in all those years
Oh, how do you sleep at night
«Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres.»
Arte Poética III
A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse esplendor da presença das coisas. E também a reconheci, intensa, atenta e acesa na pintura de Amadeo de Souza-Cardoso. Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.
Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.
E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. E a busca da justiça é desde sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética. Vemos que no teatro grego o tema da justiça é a própria respiração das palavras. Diz o coro de Ésquilo: «Nenhuma muralha defenderá aquele que, embriagado com a sua riqueza, derruba o altar sagrado da justiça.» Pois a justiça se confunde com aquele equilíbrio das coisas, com aquela ordem do mundo onde o poeta quer integrar o seu canto. Confunde-se com aquele amor que, segundo Dante, move o Sol e os outros astros. Confunde-se com a nossa confiança na evolução do homem, confunde-se com a nossa fé no universo. Se em frente do esplendor do mundo nos alegramos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão. Esta lógica é íntima, interior, consequente consigo própria, necessária, fiel a si mesma. O facto de sermos feitos de louvor e protesto testemunha a unidade da nossa consciência.
A moral do poema não depende de nenhum código, de nenhuma lei, de nenhum programa que lhe seja exterior, mas, porque é uma realidade vivida, integra-se no tempo vivido. E o tempo em que vivemos é o tempo duma profunda tomada de consciência. Depois de tantos séculos de pecado burguês a nossa época rejeita a herança do pecado organizado. Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona a poesia do nosso tempo diz: «Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres.» Há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima estrutura do poema e que não pode aceitar uma ordem falsa.
O artista não é, e nunca foi, um homem isolado que vive no alto duma torre de marfim. O artista, mesmo aquele que mais se coloca à margem da convivência, influenciará necessariamente, através da sua obra, a vida e o destino dos outros. Mesmo que o artista escolha o isolamento como melhor condição de trabalho e criação, pelo simples facto de fazer uma obra de rigor, de verdade e de consciência ele irá contribuir para a formação duma consciência comum. Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: Que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.
Eis-nos aqui reunidos, nós escritores portugueses, reunidos por uma língua comum. Mas acima de tudo estamos reunidos por aquilo a que o padre Teilhard de Chardin chamou a nossa confiança no progresso das coisas.
E tendo começado por saudar os amigos presentes quero, ao terminar, saudar os meus amigos ausentes: porque não há nada que possa separar aqueles que estão unidos por uma fé e por uma esperança.
(Palavras ditas em 11 de Julho de 1964 no almoço promovido pela Sociedade Portuguesa de Escritores por ocasião da entrega do Grande Prémio de Poesia atribuido a Livro Sexto.)
domingo, 25 de maio de 2025
“O verdadeiro teste moral da humanidade (o teste mais radical, aquele que por se situar a um nível tão profundo nos escapa ao olhar) são as relações com quem se encontra à sua mercê: isto é, com os animais. E foi aí que se deu o maior fracasso do homem, o desaire fundamental que está origem de todos os outros.”
Milan Kundera, The Unbearable Lightness of Being
Transe
“Saudades! Sim... Talvez... e porque não?...
''mordendo-lhes os calcanhares''
Ted Hughes. O Fazer da Poesia. Tradução Helder Moura Pereira. Assírio&Alvim, 2002., p. 27
- A Raposa-Pensamento
Ted Hughes. O Fazer da Poesia. Tradução Helder Moura Pereira. Assírio&Alvim, 2002., p. 20
“Last Letter” by Ted Hughes
Double, treble exposure
Over everything. Late afternoon, Friday,
My last sight of you alive.
Burning your letter to me, in the ashtray,
With that strange smile. Had I bungled your plan?
Had it surprised me sooner than you purposed?
Had I rushed it back to you too promptly?
One hour later—-you would have been gone
Where I could not have traced you.
I would have turned from your locked red door
That nobody would open
Still holding your letter,
A thunderbolt that could not earth itself.
That would have been electric shock treatment
For me.
Repeated over and over, all weekend,
As often as I read it, or thought of it.
That would have remade my brains, and my life.
The treatment that you planned needed some time.
I cannot imagine
How I would have got through that weekend.
I cannot imagine. Had you plotted it all?
Your note reached me too soon—-that same day,
Friday afternoon, posted in the morning.
The prevalent devils expedited it.
That was one more straw of ill-luck
Drawn against you by the Post-Office
And added to your load. I moved fast,
Through the snow-blue, February, London twilight.
Wept with relief when you opened the door.
A huddle of riddles in solution. Precocious tears
That failed to interpret to me, failed to divulge
Their real import. But what did you say
Over the smoking shards of that letter
So carefully annihilated, so calmly,
That let me release you, and leave you
To blow its ashes off your plan—-off the ashtray
Against which you would lean for me to read
The Doctor’s phone-number.
My escape
Had become such a hunted thing
Sleepless, hopeless, all its dreams exhausted,
Only wanting to be recaptured, only
Wanting to drop, out of its vacuum.
Two days of dangling nothing. Two days gratis.
Two days in no calendar, but stolen
From no world,
Beyond actuality, feeling, or name.
My love-life grabbed it. My numbed love-life
With its two mad needles,
Embroidering their rose, piercing and tugging
At their tapestry, their bloody tattoo
Somewhere behind my navel,
Treading that morass of emblazon,
Two mad needles, criss-crossing their stitches,
Selecting among my nerves
For their colours, refashioning me
Inside my own skin, each refashioning the other
With their self-caricatures,
Their obsessed in and out. Two women
Each with her needle.
That night
My dellarobbia Susan. I moved
With the circumspection
Of a flame in a fuse. My whole fury
Was an abandoned effort to blow up
The old globe where shadows bent over
My telltale track of ashes. I raced
From and from, face backwards, a film reversed,
Towards what? We went to Rugby St
Where you and I began.
Why did we go there? Of all places
Why did we go there? Perversity
In the artistry of our fate
Adjusted its refinements for you, for me
And for Susan. Solitaire
Played by the Minotaur of that maze
Even included Helen, in the ground-floor flat.
You had noted her—-a girl for a story.
You never met her. Few ever met her,
Except across the ears and raving mask
Of her Alsatian. You had not even glimpsed her.
You had only recoiled
When her demented animal crashed its weight
Against her door, as we slipped through the hallway;
And heard it choking on infinite German hatred.
That Sunday night she eased her door open
Its few permitted inches.
Susan greeted the black eyes, the unhappy
Overweight, lovely face, that peeped out
Across the little chain. The door closed.
We heard her consoling her jailor
Inside her cell, its kennel, where, days later,
She gassed her ferocious kupo, and herself.
Susan and I spent that night
In our wedding bed. I had not seen it
Since we lay there on our wedding day.
I did not take her back to my own bed.
It had occurred to me, your weekend over,
You might appear—-a surprise visitation.
Did you appear, to tap at my dark window?
So I stayed with Susan, hiding from you,
In our own wedding bed—-the same from which
Within three years she would be taken to die
In that same hospital where, within twelve hours,
I would find you dead.
Monday morning
I drove her to work, in the City,
Then parked my van North of Euston Road
And returned to where my telephone waited.
What happened that night, inside your hours,
Is as unknown as if it never happened.
What accumulation of your whole life,
Like effort unconscious, like birth
Pushing through the membrane of each slow second
Into the next, happened
Only as if it could not happen,
As if it was not happening. How often
Did the phone ring there in my empty room,
You hearing the ring in your receiver—-
At both ends the fading memory
Of a telephone ringing, in a brain
As if already dead. I count
How often you walked to the phone-booth
At the bottom of St George’s terrace.
You are there whenever I look, just turning
Out of Fitzroy Road, crossing over
Between the heaped up banks of dirty sugar.
In your long black coat,
With your plait coiled up at the back of your hair
You walk unable to move, or wake, and are
Already nobody walking
Walking by the railings under Primrose Hill
Towards the phone booth that can never be reached.
Before midnight. After midnight. Again.
Again. Again. And, near dawn, again.
At what position of the hands on my watch-face
Did your last attempt,
Already deeply past
My being able to hear it, shake the pillow
Of that empty bed? A last time
Lightly touch at my books, and my papers?
By the time I got there my phone was asleep.
The pillow innocent. My room slept,
Already filled with the snowlit morning light.
I lit my fire. I had got out my papers.
And I had started to write when the telephone
Jerked awake, in a jabbering alarm,
Remembering everything. It recovered in my hand.
Then a voice like a selected weapon
Or a measured injection,
Coolly delivered its four words
Deep into my ear: ‘Your wife is dead.’
de Gastão Cruz
O poeta grego não aceita
o envelhecimento e gostaria
de morrer antes que o torne a decadência
alguém que não desejaria ser
Diz-me isto a uma luz de fim do dia
num jardim: muito perto,
de um azul
sempre recomeçado, o mar de sete,
antes por entre os túmulos
revisto quando no sol da tarde
procurava o de Paul Valéry:
ah meu amigo o mar conserva novo
o azul por um poeta olhado outrora,
e também o mar grego, que disseste
banhar os cemitérios
mais impressivamente do que este,
depois de nós continuará a ter
o mesmo azul da vida que nos há́-de perder
''Haverá Eleições, de Cláudia Varejão
quarta-feira, 21 de maio de 2025
segunda-feira, 19 de maio de 2025
"From a humanist perspective I have a lot of faith. I love mankind so I can’t just swallow the consequences of the path that this civilization is following. The way we’re going you get the impression we’re heading for a catastrophe. Our civilization is more and more globalized, countries are more and more interdependent. We’re sailing through the universe on a ship and we’re responsible for the existence of that ship but we’re eating away at it on all sides. We’re doing everything we can contrary to life. But we have the tools. We don’t have to return to caves or to stagnation but we have to take better advantage of our resources and make a habitable world that is less selfish. We have the know-how and the resources but we have no direction. We’re facing horrifying problems but the leading countries can’t orchestrate effective leadership and make any impact on them. Instead we dedicate ourselves to useless power struggles and fail to solve the problems humanity faces… Knowledge and possibility are infinite because the world’s energy is infinite. It’s infinite, it’s possible. Mankind can reach successively higher musical keys. But for that, humanity will have to embrace reason with an understanding of chaos. And globally, as a species, can we do that? We can, if we are able to govern ourselves."
Pepe Mujica
Catarina Eufémia
19 de maio de 1954: Catarina Eufémia é morta a tiro em Baleizão, numa manifestação de trabalhadores agrícolas por aumento do salário.
domingo, 18 de maio de 2025
segunda-feira, 12 de maio de 2025
domingo, 11 de maio de 2025
«Debruçada no topo do dique, fitando a corrente, dei-me conta de que, apesar de todos perigos, tudo o que está em movimento é sempre melhor do que aquilo que está em repouso, que a mudança é mais nobre do que a estabilidade, que tudo o que estagna acabará sofrer decomposição, degeneração e transformar-se-á em pó, enquanto aquilo que está em movimento consegue durar eternamente.»
Olga Tokarczuk. Viagens. Tradução Teresa Fernandes Swiatkiewicz. 1ª edição, 2019, Cavalo de Ferro., p. 9
redemoinhos
«Em alguns lugares perto das margens, embaraçava-se em obstáculos submersos e, à tona da água, surgiam então redemoinhos.»
Olga Tokarczuk. Viagens. Tradução Teresa Fernandes Swiatkiewicz. 1ª edição, 2019, Cavalo de Ferro., p. 8
«Queria sair, mas não tenho por onde ir. Somente a minha presença adquire agora contornos bem definidos, contornos que estremecem, ondulam, e isso dói. E, subitamente, descubro a verdade: não há nada a fazer - existo.»
Olga Tokarczuk. Viagens. Tradução Teresa Fernandes Swiatkiewicz. 1ª edição, 2019, Cavalo de Ferro., p. 7
O mais difícil de suportar é a ausência de movimento, densa e visível: o crepúsculo frio e a ténue luz das lâmpadas de vapor de sódio, que mergulha na escuridão a um metro da sua origem.
Nada acontece. A marcha da escuridão detém-se junto à porta de casa e todo o burburinho do escurecimento se silencia, criando uma camada espessa como a nata do leite fervido a arrefecer. Tenho um céu como pano de fundo, os contornos dos edifícios estendem-se no infinito e perdem lentamente os rebordos, arestas e cantos angulosos. A luz evanescente leva consigo o ar que se torna irrespirável. A escuridão embrenha-se agora na minha pele.»
Olga Tokarczuk. Viagens. Tradução Teresa Fernandes Swiatkiewicz. 1ª edição, 2019, Cavalo de Ferro., p. 7
sábado, 10 de maio de 2025
Adélia Prado
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
– dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Na minha cidade, nos domingos de tarde,
as pessoas se põem na sombra com faca e laranjas.
Tomam a fresca e riem do rapaz de bicicleta,
A campainha desatada, o aro enfeitado de laranjas:
'Eh bobagem!'
Daqui a muito progresso tecno-ilógico,
quando for impossível detectar o domingo
pelo sumo das laranjas no ar e bicicletas,
em meu país de memória e sentimento,
basta fechar os olhos:
é domingo, é domingo, é domingo.
Minha alma quer ver a Deus.
Eu não quero morrer.
Quero amar sem limites
E perdoar a ponto de esquecer-me
Radical, quer dizer pela raiz
O perdão radical gera alegria
Exorciza doenças, mata o medo
Dá poder sobre feras e demônios
Falo. E falo é também membro viril,
Todo léxico é pobre,
Idiomas são pecados;
Poemas, culpas antecipadamente perdoadas
Eis, esta acácia florida gera angústia
Para livrar-me, empenho-me
Em esgotar-lhe a beleza
Magnífica insuficiência,
Porque ainda convoca
O poema perfeito.
Adélia Prado
Albano Martins
Como um livro
Folheei o teu corpo como um livro
à procura da tua alma : encontrei-a no índice.
Poema para habitar
A casa desabitada que nós somos
pede que a venham habitar,
que lhe abram as portas e as janelas
e deixem passear o vento pelos corredores.
Que lhe limpem os vidros da alma
e ponham a flutuar as cortinas do sangue
– até que uma aurora simples nos visite
com o seu corpo de sol desgrenhado e quente.
Até que uma flor de incêndio rompa
o solo das lágrimas carbonizadas e férteis.
Até que as palavras de pedra que arrancamos da língua
sejam aproveitadas para apedrejarmos a morte.
Elegia em forma de epístola
A circunstância de sermos homem e mulher
presos por uma aliança tácita
e secreta
do sangue
é que nos prende à vida, meu amor, e nos salva.
Nascemos sem passaporte,
entre fronteiras guardadas
por sentinelas de sal e de silêncio.
O rio da história corre, estrangulado, entre as pedras,
e o cascalho, e os detritos humanos,
e a alegria suicida das coisas limpas e puras
abandonadas e soltas à vertigem da morte.
Construímos
para nossa defesa
um muro de ironia e de sarcasmo
– imponderável cortina
de humana ternura envergonhada
ou, como tu dizes, perseguida.
O silêncio é a corda
que nos prende aos mastros,
a antena vegetal por onde
a vida se insinua,
universal e atenta.
Marinheiros duma pátria
ancorada no tempo,
bebemos o sal dos minutos que passam
e adormecemos, hirtos, de costas para o mar.
de:Coração de Bússola(1967)
Teus ombros de iodo :
germinação carnívora
de água e fogo.
Espaço disponível
Deito-me no teu corpo
como se fosses
a minha última cama
no meu quarto de hóspede dos dias.
Deito-me e velo
a criança lúcida
que dorme reclinada
na orla marítima do silêncio.
Ali onde o tempo
se anula e renova
na substância palpável
dum gesto ou dum olhar
colhidos sobre a água
construo a minha casa,
habito o espaço inteiro
disponível para a vida,
necessário para a morte.
de:Em Tempo e Memória(1974)
Alegoria Segunda
De poetas e filósofos tu sabes,
sabes também por ti. Por isso eu digo :
esta pedra é vermelha, esta pedra é sangue.
Toca-lhe : saberás
como em segredo florescem as acácias
ao redor dos muros, como fluem
suas concêntricas artérias. Acaricia-as : tocas
a parte mais sensível de ti mesmo.
Dizias ontem que o verão ardia
nesta pedra. Nela
queimavas tuas mãos. Onde
as aqueces hoje? Eu digo :
o verão não morreu, esta pedra é o verão.
E tudo permanece. E tudo é teu.
Tu és o sangue, o verão e a pedra.
de:Paralelo Ao Vento(1979)
Microscópio
Oásis na penumbra
do rosto. A solidão
mais próxima
e distante.
de:Sob os Limos(1981-1982)
Preciso de arrumar a casa, rever o sistema, brunir
os móveis e o tacto.
Preciso de opor o tempo ao tempo.
O espaço ao espaço.
Enquanto o amor,enquanto a morte
Enquanto aguardas e as urnas vazias
recolhem a poeira do verão.
Enquanto,
já submissos, os touros
do sol a soturnos
desígnios entregam
seu furor.
Enquanto,
sob a casa, agora
as térmitas repousam, momentanea
mente reverdecem
meus eucaliptos de água
e ouro.
Enquanto
o amor.
Enquanto
a morte.
Enquanto.
de:Os Remos Escaldantes(1983)
Entras
em mim descalça, vulnerável
como um alvo próximo, ferida
nos joelhos e nas coxas. Pelo tacto
nos conhecemos, é essa luz
oblíqua que nos cega. E te pertenço
e me pertences como
a lâmina
à bainha, a chama
ao pavio. Horizontal
o mar, a mor
te. Vertical
o desejo. Dêem-me um arco e recriarei a infância,
os tordos sob a neve,
o rio sob as tábuas.
Dêem-me a chuva e a gávea
duma figueira,
a flor dos eucaliptos,
um agapanto de água.
de:Vertical o Desejo(1985)
Aqui começam todas
as doenças. A do feno
e seus alvéolos furtivos, a da lepra
das palavras traídas, nunca
usadas. E as maleitas
da pele, a insanável
maresia da língua. Concitas para os ritos
da noite a pinça
verde dos lacraus.
De há muito
sabes que não há
para o sono outro vício,
outra rasura para a morte.
de:Os Patamares da Memória(1989)
Quatro Perguntas,seguidas de um epílogo ao escultor José Rodrigues
1. Tens na ponta do lápis uma chave
para abrir o poema.
Por onde é que ela o abre? 2. Se um besouro de asas
translúcidas entrasse
agora no poema
– tu deixavas?
3. Sabes
como se esculpe um poema
fechado a sete chaves?
4. E se uma pomba
roçasse o ângulo
raso do poema
– prendê-la-ias?
Tu que esculpes
com mãos de água o corpo
e a sombra dos dias.
de:Entre a Cicuta e o Mosto(1992)
Folheamos agora dicionários
cada vez mais breves.
De noite,
os teus cabelos emigram
como espigas de incenso. Há gerânios
pisados entre os dedos, dálias
virgens sufocadas
na epiderme.
As palavras
só conhecem o limbo, a rigorosa
película da sede.
de:Uma colina para os lábios(1993)
Nem sempre a neve
cai do céu: às vezes,
explode numa flor. O sonho
da lâmina: ser
ao mesmo tempo a bainha.
de:Com as flores do salgueiro(1995)
As palavras em trânsito
Resvalas neste sopro.
Sabes
que tens o olhar ferido
desde sempre, que o incêndio
das palavras em trânsito celebra
prescritas sílabas, ancorados
ritos, desprevenidos
equinócios.
Dantes,
havia um mar crispado
na fissura dos lábios. Hoje, apenas
algumas gotas de sal.
de:O Mesmo Nome(1996)
Fonte: ver aqui


















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