segunda-feira, 22 de setembro de 2025
segunda-feira, 15 de setembro de 2025
sexta-feira, 12 de setembro de 2025
Não sabemos nada
quinta-feira, 11 de setembro de 2025
Pernoitas em Mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer
pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas
é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves
já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes
( in 'Rumor dos Fogos' )
“A arte não se basta a si própria”
“Sou politicamente muito incorreta, mas é inerente ao papel do escritor o dever de ser livre, porque a arte não é um adorno, nem um mero passatempo. Também não deve ser propaganda de uma ideologia ou de um partido – a arte é livre”
Teolinda Gersão
Autor Luís Olival
Elegia a Dona Joana, a louca
Dezembro de 1918
(Granada)
A Melchor Fernández Almagro
Princesa enamorada sem ser correspondida.
Cravo vermelho num vale profundo e desolado.
A tumba que te guarda ressuma tua tristeza
através dos olhos que abriu sobre o mármore.
Eras uma pomba com alma gigantesca
cujo ninho foi sangue de solo castelhano,
derramaste teu fogo sobre um cálice de neve
e ao querer alentá-lo tuas asas se partiram.
Sonhavas que teu amor fosse como o infante
que te segue submisso recolhendo teu manto.
E em vez de flores, versos e colares de pérolas,
te deu a Morte rosas murchas em um ramo.
Tinhas no peito a formidável aurora
de Isabel de Segura. Melibéia. Teu canto,
como calhandra que olha quebrar-se o horizonte,
se torna de repente monótono e amargo.
E teu grito estremece os alicerces de Burgos.
E oprime a salmodia do coro cartusiano.
E choca com os ecos dos lentos sinos,
perdendo-se na sombra tremente e lacerado.
Tinhas a paixão que dá o céu da Espanha.
A paixão do punhal, da olheira e do pranto.
Oh! princesa divina de crepúsculo vermelho,
com a roca de ferro, e de aço o fiado!
Nunca tiveste o ninho, nem o madrigal dolente,
nem o alaúde jogralesco que soluça distante.
Teu jogral foi um mancebo com escamas de prata,
e um eco de trombeta sua voz enamorada.
E, sem embargo, estavas para o amor formada,
feita para o suspiro, o mimo e o desmaio,
para chorar tristeza sobre o peito querido,
desfolhando uma rosa de olor entre os lábios.
Para olhar a lua bordada sobre o rio
e sentir a nostalgia que em si leva o rebanho
e olhar os eternos jardins da sombra,
oh! princesa morena que dormes sob o mármore!
Tens os olhos negros abertos à luz?
Ou se enroscam serpentes em teus seios exaustos…
Para onde foram teus beijos lançados aos ventos?
Para onde foi a tristeza de teu amor desgraçado?
No cofre de chumbo, dentro de teu esqueleto,
terás o coração partido em mil pedaços.
E Granada te guarda como santa relíquia,
oh! princesa morena que dormes sob o mármore!
Heloisa e Julieta foram duas margaridas,
mas tu foste um vermelho cravo ensangüentado
que veio da terra dourada de Castela
para dormir entre neve e ciprestais castos.
Granada era teu leito de morte, Dona Joana,
os ciprestes, teus círios; a serra, teu retábulo.
Um retábulo de neve que mitigue tuas ânsias,
com a água que passa junto a ti! A do Douro!
Granada era teu leito de morte, Dona Joana,
a das torres velhas e do jardim calado,
a da hera morta sobre os muros vermelhos,
a da névoa azul e da murta romântica.
Princesa enamorada e mal correspondida.
Cravo vermelho num vale profundo e desolado.
A tumba que te guarda ressuma tua tristeza
através dos olhos que abriu sobre o mármore.
Gazel do amor desesperado
A noite não quer vir
para que tu não venhas,
nem eu possa ir.
Mas eu irei,
inda que um sol de lacraias me coma a fronte.
Mas tu virás
com a língua queimada pela chuva de sal.
O dia não quer vir
para que tu não venhas,
nem eu possa ir.
Mas eu irei
entregando aos sapos meu mordido cravo.
Mas tu virás
pelas turvas cloacas da escuridão.
Nem a noite nem o dia querem vir
para que por ti morra
e tu morras por mim.
Cantos novos
Agosto de 1920
(Vega de Zujaira)
Diz a tarde: “Tenho sede de sombra!”
Diz a lua: “Eu, sede de luzeiros.”
A fonte cristalina pede lábios
e suspira o vento.
Eu tenho sede de aromas e de sorrisos,
sede de cantares novos
sem luas e sem lírios,
e sem amores mortos.
Um cantar de manhã que estremeça
os remansos quietos
do porvir. E encha de esperança
suas ondas e seus lodaçais.
Um cantar luminoso e repousado
cheio de pensamento,
virginal de tristezas e de angústias
e virginal de sonhos.
Cantar sem carne lírica que encha
de risos o silêncio
(um bando de pombas cegas
lançadas ao mistério).
Cantar que vá à alma das coisas
e à alma dos ventos
e que descanse por fim na alegria
do coração eterno.
Federico García Lorca
“Só o mistério nos faz viver. Só o mistério”
“Solo el misterio nos hace vivir. Solo el misterio”
Verde que te quiero verde: Federico García Lorca
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda
verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas la están mirando
y ella no puede mirarlas.
Verde que te quiero verde.
Grandes estrellas de escarcha,
vienen con el pez de sombra
que abre el camino del alba.
La higuera frota su viento
con la lija de sus ramas,
y el monte, gato garduño,
eriza sus pitas agrias.
¿Pero quién vendrá? ¿Y por dónde…?
Ella sigue en su baranda,
verde carne, pelo verde,
soñando en la mar amarga.
Compadre, quiero cambiar
mi caballo por su casa,
mi montura por su espejo,
mi cuchillo por su manta.
Compadre, vengo sangrando
desde los puertos de Cabra.
Si yo pudiera, mocito,
este trato se cerraba.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa.
Compadre, quiero morir
decentemente en mi cama.
De acero, si puede ser,
con las sábanas de holanda.
¿No veis la herida que tengo
desde el pecho a la garganta?
Trescientas rosas morenas
lleva tu pechera blanca.
Tu sangre rezuma y huele
alrededor de tu faja.
Pero yo ya no soy yo.
Ni mi casa es ya mi casa.
Dejadme subir al menos
hasta las altas barandas,
¡Dejadme subir!, dejadme
hasta las altas barandas.
Barandales de la luna
por donde retumba el agua.
Ya suben los dos compadres
hacia las altas barandas.
Dejando un rastro de sangre.
Dejando un rastro de lágrimas.
Temblaban en los tejados
farolillos de hojalata.
Mil panderos de cristal,
herían la madrugada.
Verde que te quiero verde,
verde viento, verdes ramas.
Los dos compadres subieron.
El largo viento dejaba
en la boca un raro gusto
de hiel, de menta y de albahaca.
¡Compadre! ¿Dónde está, dime?
¿Dónde está tu niña amarga?
¡Cuántas veces te esperó!
¡Cuántas veces te esperara,
cara fresca, negro pelo,
en esta verde baranda!
Sobre el rostro del aljibe,
se mecía la gitana.
Verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Un carámbano de luna
la sostiene sobre el agua.
La noche se puso íntima
como una pequeña plaza.
Guardias civiles borrachos
en la puerta golpeaban.
Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar.
Y el caballo en la montaña.
quarta-feira, 10 de setembro de 2025
terça-feira, 2 de setembro de 2025
- É preciso sentar-se à mesa e obrigar-se a escrever. Há-de vir por si só. Não se pode censurar. É preciso escrever tudo o que vem à cabeça.»
''Não fora talhada para viver ao sol.''
Olga Tokarczuk. Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 151
segunda-feira, 1 de setembro de 2025
A Noite Passada
Descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
Vinhas numa barca que não vi passar
Corri pela margem até à beira do mar
Até que te vi num castelo de areia
Cantavas: "Sou gaivota e fui sereia"
Ri-me de ti: "Então porque não voas?"
E então tu olhaste
Depois sorriste
Abriste a janela e voaste
A viola irmã cuidou de me arrastar
Chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
Olhei para baixo dormias lá no fundo
Faltou-me o pé senti que me afundava
Por entre as algas teu cabelo boiava
A lua cheia escureceu nas águas
E então falámos
E então dissemos
Aqui vivemos muitos anos
Pela fresta aberta o meu peito fugiu
Estavas do outro lado a tricotar janelas
Vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
Cheguei-me a ti disse baixinho: "Olá!"
Toquei-te no ombro e a marca ficou lá
O sol inteiro caiu entre os montes
E então olhaste
Depois sorriste
Disseste: "Ainda bem que voltaste!"
domingo, 31 de agosto de 2025
sábado, 30 de agosto de 2025
terça-feira, 26 de agosto de 2025
New York Lower East Side - Maxwell Bodenheim
Sol
Me volví viento entre los árboles
y el caminar de un extraviado.
La voz del tiempo
fue un arroyo en la montaña
fueron las aves de tu atardecer
y todo lo vivido en este invierno.
Hoy caminé entre nubes
y fuiste un susurro
que recorrió mi cuerpo
como el último estremecimiento.
Todo a tu paso fue vida
y todo tu silencio
la fragilidad de un instante.
Tu generosidad fue reconocer
-en el viento, en sus cambios,
en tu forma de persistir-
el suave calor en mi piel
el latido que sigue las nubes de tu cielo.









