terça-feira, 16 de setembro de 2025

 



Manuel Álvarez Bravo
Fotógrafo mexicano


sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Não sabemos nada

Nunca saberemos se os enganados
são os sentidos ou os sentimentos,
se viaja o comboio ou o nosso anseio,
se as cidades mudam de lugar
ou se todas as casas são a mesma.
Nunca saberemos se quem nos espera
é quem devia esperar-nos, nem quem
nos cabia a nós esperar no meio
da gare fria. Não sabemos nada.
Seguimos tacteando e sem saber
se isto que parece ser alegria
não será apenas o sinal claro
de que outra vez voltámos a enganar-nos.

Amália Bautista. Tradução de Maria Soledade Santos

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

 

Autor: Augusto Cabrita
Flor da Rosa, aldeia do Alto Alentejo.
Década de 80

 

Pernoitas em Mim

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes


( in 'Rumor dos Fogos' )
 11580














ilapso

Arvo Pärt - even if I lose everything (2015)



Federico García Lorca, tradução de WIlliam Agel de Mello
(Obra Poética Completa, Martins Fontes).

culpabilidade

“A arte não se basta a si própria”


“Sou politicamente muito incorreta, mas é inerente ao papel do escritor o dever de ser livre, porque a arte não é um adorno, nem um mero passatempo. Também não deve ser propaganda de uma ideologia ou de um partido – a arte é livre”

Teolinda Gersão

 “Também o corpo, disseram mais tarde, era um mapa inexacto que só depois de partir em viagem se conhecia, só depois das muitas navegações de amor.

Cidades

 Teolinda Gersão, A Mulher que Prendeu a Chuva

Heard a Train

 

''Portugal é um país que ainda não se habituou a ter espelho. Sempre que nos olhamos, não vemos rosto: vemos reflexo do outro. Somos a pátria da sombra, da confirmação alheia, do “olha, mãe, passei na televisão!”.
Mick Jagger tirou uma fotografia junto a uns azulejos? O país inteiro ajoelhou. É como se os Descobrimentos começassem ali, naquele momento: um inglês encostado a cerâmica azul. Não importa que já tenhamos Camões, Pessoa, Sophia, Cesariny, Amália. Não importa que o país tenha séculos de cultura, música, pensamento. O que importa é o like estrangeiro, essa bênção laica que funciona como hóstia nacional.
Porque, sejamos honestos: somos um país de saloios. O saloio não é o camponês, não é o rústico. O saloio é o provinciano que precisa de prova exterior para acreditar em si mesmo. O saloio é quem compra fato novo para mostrar à visita, mesmo que viva de pão duro. O saloio é quem precisa que lhe digam “és bom” para acreditar que não é lixo. E nós, Portugal, somos esse saloio colectivo.
Não é só Jagger. É qualquer um. Madonna, Phil Collins, até se Putin se decidir comer sardinha em Lisboa. A máquina da comunicação social pára, respira fundo, e declara: “Portugal foi descoberto outra vez.” Quantas vezes mais precisamos ser descobertos até percebermos que já não há mapa para preencher?
O país continua com a mesma miséria: hospitais sem gaze, tribunais a cair de podre, salários de miséria, professores a fugir da profissão, mas basta um estrangeiro sorrir para nós e esquecemos tudo. Fazemos fila para dizer: “Ele esteve cá, viste? Ele esteve cá!”
É demolidor: somos uma nação de 10 milhões de relações públicas ansiosos.
Tudo isto tem raiz. Fomos império. Fomos mar, ouro, especiarias, “donos do mundo”. Mas depois acordámos pobres, semi-analfabetos e com os pés cheios de lama. O choque foi tão grande que nunca o digerimos. Passámos de colonizadores a mendigos simbólicos. Agora pedimos à cultura estrangeira o mesmo que pedíamos ao ouro do Brasil: que nos legitime.
Eduardo Lourenço já sugeriu que somos o país da saudade de si próprio. Ele foi simpático. A verdade é mais crua: somos o país do frete permanente, do “gostar de nós se faz favor”.
O português médio não quer cultura. Quer selfie. Não quer história. Quer episódio. Não quer memória. Quer gosto. O Jagger encostado ao azulejo é a metáfora perfeita: não interessa o azulejo, não interessa a tradição, não interessa a arte. Interessa que alguém famoso esteja ali.
É isto que nos condena à irrelevância: a incapacidade de nos bastarmos. Nunca dizemos “somos isto”. Dizemos sempre: “Olha, eles também acharam isto bonito.”
Enquanto país, somos uma criança que precisa de aplauso para acreditar que dançou bem. Aplauso do pai, da mãe, do vizinho, do estrangeiro. Não importa. Precisamos de palma alheia para existir.
E é por isso que o Mick Jagger em frente a um painel de azulejos se torna manchete nacional. Porque, no fundo, ainda não percebemos a frase mais simples: Portugal não precisa de ser descoberto outra vez. Precisa de se olhar ao espelho sem pedir licença.
Até lá, continuaremos a ser o que somos: um país saloio, de rabo abanado, feliz por aparecer no Instagram de um velho inglês.

Objectologia, peça nº 27: O lençol com nódoas antigas
a nossa verdade suada, flácida e barata.
salvo-conduto social, afinal estive sempre na primeira liga. A fraude, sem eu saber, era luxo.''


Destroyed Perspectives Mallorca, 2024 by Elia Nedkov

 

Mark Lanegan - Deepest Shade

 Elegia a Dona Joana, a louca

     Dezembro de 1918
      (Granada)
     A Melchor Fernández Almagro

Princesa enamorada sem ser correspondida.
Cravo vermelho num vale profundo e desolado.
A tumba que te guarda ressuma tua tristeza
através dos olhos que abriu sobre o mármore.

Eras uma pomba com alma gigantesca
cujo ninho foi sangue de solo castelhano,
derramaste teu fogo sobre um cálice de neve
e ao querer alentá-lo tuas asas se partiram.

Sonhavas que teu amor fosse como o infante
que te segue submisso recolhendo teu manto.
E em vez de flores, versos e colares de pérolas,
te deu a Morte rosas murchas em um ramo.

Tinhas no peito a formidável aurora
de Isabel de Segura. Melibéia. Teu canto,
como calhandra que olha quebrar-se o horizonte,
se torna de repente monótono e amargo.

E teu grito estremece os alicerces de Burgos.
E oprime a salmodia do coro cartusiano.
E choca com os ecos dos lentos sinos,
perdendo-se na sombra tremente e lacerado.

Tinhas a paixão que dá o céu da Espanha.
A paixão do punhal, da olheira e do pranto.
Oh! princesa divina de crepúsculo vermelho,
com a roca de ferro, e de aço o fiado!

Nunca tiveste o ninho, nem o madrigal dolente,
nem o alaúde jogralesco que soluça distante.
Teu jogral foi um mancebo com escamas de prata,
e um eco de trombeta sua voz enamorada.

E, sem embargo, estavas para o amor formada,
feita para o suspiro, o mimo e o desmaio,
para chorar tristeza sobre o peito querido,
desfolhando uma rosa de olor entre os lábios.

Para olhar a lua bordada sobre o rio
e sentir a nostalgia que em si leva o rebanho
e olhar os eternos jardins da sombra,
oh! princesa morena que dormes sob o mármore!

Tens os olhos negros abertos à luz?
Ou se enroscam serpentes em teus seios exaustos…
Para onde foram teus beijos lançados aos ventos?
Para onde foi a tristeza de teu amor desgraçado?

No cofre de chumbo, dentro de teu esqueleto,
terás o coração partido em mil pedaços.
E Granada te guarda como santa relíquia,
oh! princesa morena que dormes sob o mármore!

Heloisa e Julieta foram duas margaridas,
mas tu foste um vermelho cravo ensangüentado
que veio da terra dourada de Castela
para dormir entre neve e ciprestais castos.

Granada era teu leito de morte, Dona Joana,
os ciprestes, teus círios; a serra, teu retábulo.
Um retábulo de neve que mitigue tuas ânsias,
com a água que passa junto a ti! A do Douro!

Granada era teu leito de morte, Dona Joana,
a das torres velhas e do jardim calado,
a da hera morta sobre os muros vermelhos,
a da névoa azul e da murta romântica.

Princesa enamorada e mal correspondida.
Cravo vermelho num vale profundo e desolado.
A tumba que te guarda ressuma tua tristeza
através dos olhos que abriu sobre o mármore.

 Gazel do amor desesperado

A noite não quer vir
para que tu não venhas,
nem eu possa ir.

Mas eu irei,
inda que um sol de lacraias me coma a fronte.

Mas tu virás
com a língua queimada pela chuva de sal.

O dia não quer vir
para que tu não venhas,
nem eu possa ir.

Mas eu irei
entregando aos sapos meu mordido cravo.

Mas tu virás
pelas turvas cloacas da escuridão.

Nem a noite nem o dia querem vir
para que por ti morra
e tu morras por mim.



Cantos novos
Agosto de 1920
(Vega de Zujaira)


Diz a tarde: “Tenho sede de sombra!”

Diz a lua: “Eu, sede de luzeiros.”
A fonte cristalina pede lábios
e suspira o vento.

Eu tenho sede de aromas e de sorrisos,
sede de cantares novos
sem luas e sem lírios,
e sem amores mortos.

Um cantar de manhã que estremeça
os remansos quietos
do porvir. E encha de esperança
suas ondas e seus lodaçais.

Um cantar luminoso e repousado
cheio de pensamento,
virginal de tristezas e de angústias
e virginal de sonhos.

Cantar sem carne lírica que encha
de risos o silêncio
(um bando de pombas cegas
lançadas ao mistério).

Cantar que vá à alma das coisas
e à alma dos ventos
e que descanse por fim na alegria
do coração eterno.

Federico García Lorca


“Só o mistério nos faz viver. Só o mistério”


“Solo el misterio nos hace vivir. Solo el misterio”

García Lorca, no “Romancero Gitano”, em ‘Obra poética completa.



Opium Mallorca, 2023 by Elia Nedkov


 

Verde que te quiero verde: Federico Garcí­a Lorca

 Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda
verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas la están mirando
y ella no puede mirarlas.
 
Verde que te quiero verde.
Grandes estrellas de escarcha,
vienen con el pez de sombra
que abre el camino del alba.
La higuera frota su viento
con la lija de sus ramas,
y el monte, gato garduño,
eriza sus pitas agrias.
¿Pero quién vendrá? ¿Y por dónde…?
Ella sigue en su baranda,
verde carne, pelo verde,
soñando en la mar amarga.
Compadre, quiero cambiar
mi caballo por su casa,
mi montura por su espejo,
mi cuchillo por su manta.
Compadre, vengo sangrando
desde los puertos de Cabra.
 
Si yo pudiera, mocito,
este trato se cerraba.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa.
Compadre, quiero morir
decentemente en mi cama.
De acero, si puede ser,
con las sábanas de holanda.
¿No veis la herida que tengo
desde el pecho a la garganta?
Trescientas rosas morenas
lleva tu pechera blanca.
Tu sangre rezuma y huele
alrededor de tu faja.
Pero yo ya no soy yo.
Ni mi casa es ya mi casa.
Dejadme subir al menos
hasta las altas barandas,
¡Dejadme subir!, dejadme
hasta las altas barandas.
Barandales de la luna
por donde retumba el agua.
 
Ya suben los dos compadres
hacia las altas barandas.
Dejando un rastro de sangre.
Dejando un rastro de lágrimas.
Temblaban en los tejados
farolillos de hojalata.
Mil panderos de cristal,
herían la madrugada.
 
Verde que te quiero verde,
verde viento, verdes ramas.
Los dos compadres subieron.
El largo viento dejaba
en la boca un raro gusto
de hiel, de menta y de albahaca.
¡Compadre! ¿Dónde está, dime?
¿Dónde está tu niña amarga?
¡Cuántas veces te esperó!
¡Cuántas veces te esperara,
cara fresca, negro pelo,
en esta verde baranda!
 
Sobre el rostro del aljibe,
se mecía la gitana.
Verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Un carámbano de luna
la sostiene sobre el agua.
La noche se puso íntima
como una pequeña plaza.
Guardias civiles borrachos
en la puerta golpeaban.
Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar.
Y el caballo en la montaña.
 

 

 

 

Solar da Sempre Noiva

colapsos

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

terça-feira, 2 de setembro de 2025

 « - Se eu quiser escrever as minhas memórias, como haveria de o fazer? - perguntei, um tanto constrangida.
- É preciso sentar-se à mesa e obrigar-se a escrever. Há-de vir por si só. Não se pode censurar. É preciso escrever tudo o que vem à cabeça.»

Olga Tokarczuk. Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 158


  Lola Álvarez Bravo, 'Portrait of Ruth Rivera Martín,' 1950

Despassarada

 Não mates a Mariposa, nem a Borboleta,
porque o Juízo Final se aproxima



Olga Tokarczuk. 
Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 157

''Não fora talhada para viver ao sol.''

Olga Tokarczuk. Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos. Tradução do polaco Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Edição Cavalo de Ferro. 1ª Edição, 2019., p. 151

“I’m waiting for you, I’m waiting for the evening calm, I’m waiting for our time, the oblique light, this pause between day and night. Peace will come, surely. But I can imagine no other peace than that of our two bodies bound together, of our gaze given over to each other - I have no other homeland but you.”

Albert Camus
Letter to Maria Casarès
17th July 1949

 «Não há desejo mais calmo do que a calma
de um rio.»

T.S.ELIOT

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

A Noite Passada



A noite passada acordei com o teu beijo
Descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
Vinhas numa barca que não vi passar
Corri pela margem até à beira do mar
Até que te vi num castelo de areia
Cantavas: "Sou gaivota e fui sereia"
Ri-me de ti: "Então porque não voas?"
E então tu olhaste
Depois sorriste
Abriste a janela e voaste
A noite passada fui passear no mar
A viola irmã cuidou de me arrastar
Chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
Olhei para baixo dormias lá no fundo
Faltou-me o pé senti que me afundava
Por entre as algas teu cabelo boiava
A lua cheia escureceu nas águas
E então falámos
E então dissemos
Aqui vivemos muitos anos
A noite passada um paredão ruiu
Pela fresta aberta o meu peito fugiu
Estavas do outro lado a tricotar janelas
Vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
Cheguei-me a ti disse baixinho: "Olá!"
Toquei-te no ombro e a marca ficou lá
O sol inteiro caiu entre os montes
E então olhaste
Depois sorriste
Disseste: "Ainda bem que voltaste!"

Compositores: Sérgio De Barros Godinho

terça-feira, 26 de agosto de 2025

 New York Lower East Side - Maxwell Bodenheim

Synagogue de Eldridge Street
*
Um velho judeu mastiga uma maçã,
com imersão conquistadora
todos os anseios frustrados de sua vida
incitando seus dentes determinados.
Seu rosto é duro e em forma de pêra;
seus olhos são capitulações turvas;
mas a boca é incongruente.
Suavemente, ligeiramente distendida,
como a de uma menina assobiando,
é ingenuamente assombrosa
e faz do resto dele um fundo sujo e cinza.
Esperanças que jazem no seu túmulo
de severidade submissa,
derramaram seus fantasmas perturbados sobre aquela boca,
e uma crença torturada
diminuiu a ternura sobre ela...
Arrasta-se atrás de seu carrinho de mão
e o gueto vai-se embora com ele.
*
Maxwell Bodenheim, in New York / adaptado de Maxwell Bodenheim
A mosca
Vou ter que matar-te de novo.
Já te matei tantas vezes, em Casablanca, em Lima,
em Cristiânia,
em Montparnasse, numa fazenda na província de Lobos,
no bordel, na cozinha, em cima de um pente,
no escritório, neste travesseiro
vou ter que matar-te de novo,
eu, com a minha única vida.
Meu sofrimento dobrado...
E também não estar triste,
não crescer com as fontes, não se dobrar nos salgueiros.
Larga é a luz para dois olhos, e a dor dança
nos peitos que aceitam sem fraqueza seus frios escarpins.
E não chamar-te de distante nem perdida
para não dar razão ao mar que te retém.
E elogiar-te na mais perfeita solidão
na hora em que teu nome é o primeiro lume em minha janela.
Benditos sejam os meus olhos
por terem olhado tão alto.

Linda Martini - Semi Tédio dos Prazeres

Sol

                Hoy caminé entre nubes                 y fuiste un susurro.

Me volví viento entre los árboles

y el caminar de un extraviado.

La voz del tiempo

fue un arroyo en la montaña

fueron las aves de tu atardecer

y todo lo vivido en este invierno.

Hoy caminé entre nubes

y fuiste un susurro

que recorrió mi cuerpo

como el último estremecimiento.

Todo a tu paso fue vida

y todo tu silencio

la fragilidad de un instante.

Tu generosidad fue reconocer

-en el viento, en sus cambios,

en tu forma de persistir-

el suave calor en mi piel

el latido que sigue las nubes de tu cielo.

Poema de Tomás Godoy
Powered By Blogger