quinta-feira, 11 de setembro de 2025

 

''Portugal é um país que ainda não se habituou a ter espelho. Sempre que nos olhamos, não vemos rosto: vemos reflexo do outro. Somos a pátria da sombra, da confirmação alheia, do “olha, mãe, passei na televisão!”.
Mick Jagger tirou uma fotografia junto a uns azulejos? O país inteiro ajoelhou. É como se os Descobrimentos começassem ali, naquele momento: um inglês encostado a cerâmica azul. Não importa que já tenhamos Camões, Pessoa, Sophia, Cesariny, Amália. Não importa que o país tenha séculos de cultura, música, pensamento. O que importa é o like estrangeiro, essa bênção laica que funciona como hóstia nacional.
Porque, sejamos honestos: somos um país de saloios. O saloio não é o camponês, não é o rústico. O saloio é o provinciano que precisa de prova exterior para acreditar em si mesmo. O saloio é quem compra fato novo para mostrar à visita, mesmo que viva de pão duro. O saloio é quem precisa que lhe digam “és bom” para acreditar que não é lixo. E nós, Portugal, somos esse saloio colectivo.
Não é só Jagger. É qualquer um. Madonna, Phil Collins, até se Putin se decidir comer sardinha em Lisboa. A máquina da comunicação social pára, respira fundo, e declara: “Portugal foi descoberto outra vez.” Quantas vezes mais precisamos ser descobertos até percebermos que já não há mapa para preencher?
O país continua com a mesma miséria: hospitais sem gaze, tribunais a cair de podre, salários de miséria, professores a fugir da profissão, mas basta um estrangeiro sorrir para nós e esquecemos tudo. Fazemos fila para dizer: “Ele esteve cá, viste? Ele esteve cá!”
É demolidor: somos uma nação de 10 milhões de relações públicas ansiosos.
Tudo isto tem raiz. Fomos império. Fomos mar, ouro, especiarias, “donos do mundo”. Mas depois acordámos pobres, semi-analfabetos e com os pés cheios de lama. O choque foi tão grande que nunca o digerimos. Passámos de colonizadores a mendigos simbólicos. Agora pedimos à cultura estrangeira o mesmo que pedíamos ao ouro do Brasil: que nos legitime.
Eduardo Lourenço já sugeriu que somos o país da saudade de si próprio. Ele foi simpático. A verdade é mais crua: somos o país do frete permanente, do “gostar de nós se faz favor”.
O português médio não quer cultura. Quer selfie. Não quer história. Quer episódio. Não quer memória. Quer gosto. O Jagger encostado ao azulejo é a metáfora perfeita: não interessa o azulejo, não interessa a tradição, não interessa a arte. Interessa que alguém famoso esteja ali.
É isto que nos condena à irrelevância: a incapacidade de nos bastarmos. Nunca dizemos “somos isto”. Dizemos sempre: “Olha, eles também acharam isto bonito.”
Enquanto país, somos uma criança que precisa de aplauso para acreditar que dançou bem. Aplauso do pai, da mãe, do vizinho, do estrangeiro. Não importa. Precisamos de palma alheia para existir.
E é por isso que o Mick Jagger em frente a um painel de azulejos se torna manchete nacional. Porque, no fundo, ainda não percebemos a frase mais simples: Portugal não precisa de ser descoberto outra vez. Precisa de se olhar ao espelho sem pedir licença.
Até lá, continuaremos a ser o que somos: um país saloio, de rabo abanado, feliz por aparecer no Instagram de um velho inglês.

Objectologia, peça nº 27: O lençol com nódoas antigas
a nossa verdade suada, flácida e barata.
salvo-conduto social, afinal estive sempre na primeira liga. A fraude, sem eu saber, era luxo.''

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